4 poemas

Fernando Fiorese

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 13, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Fernando Fábio Fiorese Furtado é poeta, contista e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Dentre outros livros, tem publicados Corpo portátil:1986-2000 (reunião poética, 2002), Dicionário mínimo: poemas em prosa (2003), Murilo na cidade: os horizontes portáteis do mito (ensaio, 2003) e Um dia, o trem (poesia, 2008).

Álbum de fotografias

e morrer faz sentido

póstumas
as flores realçam
consentem o baile ao vestido

nesta página
atravessa a infância
com suas forquilhas

como o que se perdeu
pela palavra

como a morte
a apurar seus lugares

 


 

OUTRA CASA

demora acomodar os meninos
os móveis a memória

os vasos ressentem do sol mudado
também as roupas os poucos retratos
e os bibelôs de si desencontrados

mesmo o corpo denuncia
o descompasso das sombras
o de-viés do colchão os ruídos
que a custo encaixam nossos fantasmas

 


 

Amor fatti

a mão indestra para a linha
a ruga abrupta o erro crasso
um lance de dados quando soma zero
o ouvido que só sabe a martelo
um amor impróprio falto ou incerto
o espelho como duplo cego
um ódio secreto aos adjetivos que lhe emprestem
o substantivo seus verbos seu eros
a vida que poderia ter sido e é
alegria e peste

 


 

Buster Keaton em 16 quadros

1.
Custa adaptar o corpo à roupa
acrescentar o ricto ao rosto
a máquina ao músculo.

2.
Para acionar o gesto
ou advogar o chapéu
é preciso apurar
as engrenagens do olho.

3.
Entre a bicicleta e o abismo
o clown afronta nossos medos:
apenas o acidente
conserta o brinquedo.

4.
Uma mulher acena.
Por que Ítaca
quando Tróia me espera?

5.
Do caracol ao navio
o clown indaga:
onde estar
se desmantela a casa?

6.
Periscópio + rodas + catapulta:
o corpo futuro nos insulta.

7.
De acordo com Keaton
uma torquês basta
para operar o ciclone.

8.
Policiais e paralelogramos proliferam.
Também as noivas e os números
os bois e os bandidos.

Nascer exige mais apuro.

9.
Adiar o desastre. Adiar o riso.
O verbo antes. Depois o substantivo.

10.
Aplicada ao corpo
a lógica da roda
ri.

11.
Ao resguardo da câmera
Keaton desenreda
o étimo de Odradek.

12.
Porque o filósofo nunca ri?

Uma máquina
não foge do perigo.

13.
Duas bobinas
e o clown culmina
em zeros:
a elegância no apocalipse.

14.
A História se repete.
Até a comédia. 

15.
Estar diante do mar
tendo as mãos como dique.

16.
Tudo caminha para a dissolução.
Apenas esse rosto permanecerá
imobilizado pelo abismo.