Celso Pinheiro e a vertigem da dor

Bárbara Silva Nunes

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 13, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Aluna do sétimo período do curso de História da UFPI e bolsista de Iniciação Cientifica – PIBIC/CNPq, orientada pelo professor Dr. Pedro Vilarinho Castelo Branco.

Seleção de Poemas

Celso Pinheiro

Acesse em pdf

Estamos sempre travando lutas contínuas contra as adversidades que insistem em atrapalhar o nosso curso, a dor é uma delas. Celso Pinheiro, seguindo caminho inverso da maioria, fez da dor sua melhor companheira, sua amiga confidente e sua musa inspiradora. Poesias não faltaram, para estimá-la, para comover, para seduzir, para criticá-la, para entendê-la. Seria a dor o próprio Celso Pinheiro? Seria o Celso Pinheiro a própria dor? Ou seriam ambos a mesma coisa?

Filho de João José Pinheiro e Raimunda Lina Pinheiro, nasce na cidade de Barras (PI), em 24 de novembro de 1887, Celso Pinheiro, proveniente de uma família de 10 irmãos, entre os quais se destaca Breno Pinheiro e João Pinheiro, ambos escritores que assim como Celso, buscaram reconhecimento através das Letras.

Celso Pinheiro não chegou a concluir o estudo secundário, diferente do que aconteceu com seu irmão, João Pinheiro que formou-se no curso de odontologia em 1898 na Bahia. Órfão de pai aos 13 anos idade, perdendo também a sua mãe três anos depois, Celso logo previa os indícios daquilo que marcaria profundamente sua escrita.

Em 1914, aos 27 anos de idade, Celso Pinheiro apaixona-se e casa-se com Liduína Mendes Frazão, sua fonte inesgotável de inspirações. Com ela teve quatro filhos: Edméa, Celso Filho, Maria e Diva. Assumindo agora novas responsabilidades de pai e marido, Celso começa a trabalhar nas mais diversas áreas. Foi revisor chefe do Jornal “O Piauhy”, escrivão de polícia, professor de Literatura na escola Normal de Teresina, secretário do Liceu Piauiense e chefe do Instituto de Criminalista.

Após 18 anos de casados, morre em 1932 sua esposa, Liduína Mendes. Celso Pinheiro nunca mais se casara e imortalizou em seus versos, os bons momentos que outrora vivera com sua mulher. Nessa fase, encontramos um Celso terno, sublime, em estados de graça, cativante, em lampejos espontâneos de felicidade. Mas o poeta ainda sofre…

A arte é a expressão da realidade, já afirmavam teóricos como Nietzsche, Foucault e Natalie Zemon Davis. “Como fenômeno estético a existência ainda nos é suportável, e por meio da arte, nos são dados olhos e mãos, e, sobretudo, boa consciência para fazer de nós tal fenômeno” [ii]. Celso Pinheiro é a prova concreta dessa assertiva. Na medida em que nos propomos a decodificar suas escritas, fazendo uso dos seus poemas e poesias, somos capazes de encontrar nelas, pedaços de sua vida íntima, estados genuínos de alma, conflitos existenciais e imagens de uma sociedade que galgava os seus primeiros passos rumo a civilidade. Suas obras são verdadeiros legados de sua existência.

Em 1917, Celso Pinheiro, junto com seu irmão João Pinheiro e outros literatos da época, como Clodoaldo e Lucídio Freitas, Higino Cunha e Antônio Chaves, fundam a Academia Piauiense de Letras com o objetivo de desenvolver e promover a literatura piauiense. Celso Pinheiro assumiu a cadeira nº 10, tendo Licurgo Paiva como patrono.

Celso Pinheiro é intenso, atingia o real frenético e obscuro, fazia o lirismo parecer fácil tal a capacidade de expressar com tanta eloqüência os pesares da vida em sua escrita, ao mesmo tempo em que imagético e sensorial capaz de transportar aqueles que o lêem ao seu mundo poético. Sua poesia nos conduz para aquilo que, nós seres humanos, procuramos afastá-la: o sofrimento. Expressão simbolista, revelador do metafísico e do idealismo transcendente, o poeta expõe as suas ânsias espirituais, os vincos desoladores da sociedade moderna. “Fascinavam-no, sim os mistérios do ser, os fenômenos espelhados no existencial, sob as formas de fantasias, ou realidade, eivados da sensação que o apaixonava – a dor.” (HARDI, 1987. p. 15). Pela astúcia e sofrimento que irradiam em sua escrita, o autor pode ser considerado um poeta simbolista por excelência

No dia 29 de junho de 1950 tivemos a chegada de Dona Branca – como Celso chamava a morte -, que veio para exorcizar o seu sofrimento tão infernal. Morreu de tuberculose, doença essa que assolava milhões de pessoas no mundo todo e era tida como incurável; enfermidade que parecia abater todos aqueles que sofriam de um mal maior: a doença da vida amargurada. Prova disso foram os intelectuais que partiram da mesma maneira: Charles Baudelaire e Cruz e Souza.

Grande parte das obras de Celso Pinheiro ainda encontram-se totalmente desconhecidas do público, restrito à sombra de intelectuais e pequenos círculos literários. A pouca difusão dos seus trabalhos está vinculada diretamente ao período em que elas foram escritas. O primeiro motivo remete-se à localização geográfica da capital. Teresina, por estar afastado dos grandes centros urbanos, intelectuais e publicitários do país, como é o caso Rio de Janeiro, dificultava a propagação das obras do autor e, por conseguinte o seu não reconhecimento. O segundo motivo e não menos importante, está ligado à vida boemia e desregrada levada pelo poeta e o teor da sua escrita ofensiva. As críticas mordazes direcionadas a burguesia lhe conferia pouco espaço para ascender profissionalmente e ser reconhecido, uma vez que a imprensa piauiense era fantoche nas mãos da política local. Ora, ninguém em sua sã consciência iria promover àqueles que transgridem as suas normas, muito menos aqueles que lhes emitissem palavras ofensivas.

A causa desse fenômeno tem reflexo direto no seguinte dado: Celso Pinheiro deixou 26 obras escritas, entre poesias, crônicas, artigos e conferências, porém, nenhuma delas chegou a ser publicadas até os dias de hoje e parece passar ainda mais tempo, pelo pouco esforço que vemos, na tentativa de divulgação dos seus escritos. É lamentável a situação do poeta e a dor lhe acompanha tanto nos seus anos de vida como em sua post mortem.

Segue abaixo a relação completa de Celso Pinheiro:

Cuore; Flor Incógnita; Dindinha; Dona Tristeza; Hino à dor; Sombras; Steppes; Poemas de Maior; Poentes; No Jardim de Academus; Tear de sol (3 volumes); Jardim de Mulheres (2 volumes); Poemas da Morte; Hino à França; Coroa de Espinhos; Prosa (2 volumes); O Incendiário de Teresina; Demócrito de Sousa Filho; Fernando de Noronha; U.D.N. – PI; Da Constituição; Euripidinas. [iii]

Somente em forma de poesias são contabilizados mais de 4.000! Uma pequena parte desse patrimônio de valor cultural e intelectual inenarrável encontra-se na obra Poesias, publicada em 1939. Esta obra nasceu da boa disposição de amigos, literatos, estudantes, admiradores, que desde o ano de 1925 vinham coletando e organizando algumas de suas poesias, a fim de tornar público e reconhecido as suas palavras. Foram publicados cerca de 500 exemplares sob a responsabilidade editorial da Academia Piauiense de Letras. Isso é o máximo que se conhece de um conjunto de obras tão vasta de Celso Pinheiro.

Lina Celso Pinheiro Ribeiro, filha de Celso Pinheiro Filho e neta de Celso Pinheiro, é uma das poucas pessoas que se dedicam à preservar as obras do seu avó. Em conversa com Lina Pinheiro, ela fala sobre a infeliz perca de algumas obras inéditas e me apresenta em torno de sete livros que ainda restaram sob seu domínio. São todas obras volumosas, datilografadas e totalmente dedicadas ao exercício dos sonetos. Entre elas, está os dois volumes de “Jardim de Mulheres”, que segundo Lina foi bastante polêmica para a época, por ser uma obra destinada exclusivamente às mulheres com a qual Celso Pinheiro havia se envolvido, muitas mulheres casadas, diga-se de passagem. A maioria dos livros encontra-se com sua filha Dulce Pinheiro (Celso dedica-lhe várias de suas poesias) [iv], que pelas dificuldades de acesso, (Dulce mora hoje em São Paulo), impede de termos contato com as obras.

Celso Pinheiro exibe um ardil tristeza cravada no âmago do seu espírito, foca-se no lado mais obscuro da existência humana, desmascara com hábil destreza as insuficiências e mazelas que açoitavam sua vida e a sociedade em sua volta. Celso Pinheiro é um murro na alma daqueles que tem o prazer de se deleitar com sua escrita, pois ele não cria retóricas, é impactante e nós deixa com lágrimas no olhos. Expele sua vida autêntica em todas as suas vertentes e suas virtudes, exibindo suas cicatrizes que nunca se fecharam, resultado dos seus vazios emocionais e espirituais; desafia os homens, “os burgueses pançudos” inativos de pensamento, revelando com isso a desumanidade através da concentração na dor individual. Negar sua obra seria uma leviandade atroz.

Preocupado com o futuro das suas escritas, Celso discorre:

Creio que só morrerei inteiramente quando
esquecer-se de mim o último vulto
e o meu nome cair de leve, sem tumulto
no Grande Vale Azul do esquecimento infando.

Se tomarmos ao pé da letra o que Celso disse acima, concluímos então que ele não morreu, pois estamos aqui para erguer e fazer reluzir o seu nome e afastá-lo cada vez mais do “Grande Vale Azul”.

Fig. 1 – Celso Pinheiro

Fig. 2 – Celso Pinheiro, junto com outros integrantes da Academia Piauiense de Letras. De pé, segundo da esquerda para a direita

Fig. 3 – Autógrafo do autor


Referências

FILHO, Hardi. Poesia e dor no simbolismo de Celso Pinheiro. Teresina: Editora Júnior, 1988.

GONÇALVES, Wilson Carvalho. Antologia da Academia Piauiense de Letras. Teresina: Halley, 2007.

MORAES, Herculano. Visão Histórica da Literatura Piauiense. 4ªed. Teresina, 1997.

PINHEIRO, Celso. Poesias. Teresina, 1939.

QUEIROZ, Teresinha. Os literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as tiranias do tempo. 2ªed.Teresina: Editora da UFPI; João Pessoa: Editora da UFPB: 1998.

 

[i] NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras. 2001, p. 107.

[ii] FILHO, Hardi. Poesia e dor no simbolismo de Celso Pinheiro. Teresina, 1988, p. 29 a 30.

[iii] Ver. PINHEIRO, Celso. Poesias. Teresina, 1939, p. 271 a 277.