Entrevista com Fernanda Takai

Maria Isabel Brisolara, Diana Wiggers, Andreia Figueira

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 13, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Foto por Nino Andrés

Não que eu tenha mania de colecionar calendários

No final dos anos 80 nascia para o mundo da música a jovem Fernanda Takai.

Foi através do convite do vendedor de acessórios musicais que a estudante universitária aceitou ser a voz da banda, que parecia se preocupar somente com eles mesmos ao ligar seus instrumentos. E isso deu certo! Com músicas experimentalmente irreverentes, a banda Pato Fu conquistou palcos do Brasil e gradativamente seu espaço no exterior, não só se apresentando, como firmando laços e gravando com outras bandas.

Por aqui é fácil enumerar a contribuição da voz da moça para novelas, seriados e propagandas, sem questionar as seqüências em rádio, conquistando grande público com a música “Perdendo dentes”, em 1999. Era óbvio que não iam parar para colar o pneu tão cedo, trabalharam versões de grandes músicos brasileiros como Mutantes, Tom Zé e Legião Urbana. A banda ainda promete lançar mais um álbum este ano. Já com um trabalho solo, a moça regravou músicas da intérprete Nara Leão e lançou recentemente a gravação ao vivo de suas apresentações também em DVD.

Sem parar para ver o tempo passar, em 2007, a pequena se lança no trabalho literário publicando contos e crônicas que escrevia para os jornais Estado de Minas e Correio Braziliense. A escolha do material foi feita a dedos de porcelana e, ao contrário do que se poderia esperar, não deixou de lado o tom e a parceria musical: o livro é aberto com frases e recomendações de Zélia Duncan. Para que não ocorresse mal entendido, o livro recebe o título de um dos contos em que a boneca de pano se pronuncia fã de Clarice Lispector, chamando Nunca subestime uma mulherzinha (Ed. Panda Books).

Foi uma ótima saída para os viciados em “pílulas da vida”, pois suas crônicas puderam ser assim consumidas de uma vez só. Descrevendo a vida de muitos e, claro, também dela. Para citar alguns títulos que merecem ser relidos estão “Os cri-cri-críticos dos mu-mu-músicos”, “Analfabeta com 3º grau completo” e “Tudo que não sonhei”, retratando o cotidiano de viagens, experiências no exterior e a vida em casa, com seus problemas e batalhas contra a poeira acumulada e a divisão de tarefas. Difícil é classificar o que é conto e o que é crônica, pois a autora pinta com muita sutileza o seu dia a dia, escrevendo de forma fantástica e apaixonada.

É nesta nota imperativa que Takai continua sua produção literária. Além do diário virtual que mantém, recentemente fez parte do projeto Clarice na Cabeceira (Ed. Rocco) contando um pouco dessa sua experiência de leitora de Lispector. Para a revista Mafuá, ela escreveu sobre essas experiências e processos de escrita. Confira!

Priscila Rosa

 


 

Mafuá: Você diz adorar Clarice Lispector e que possui até um livro de cabeceira da autora A Descoberta do Mundo. Em que ela te inspira?

FT: Eu acho incrível a capacidade que ela tem de colocar o nosso cotidiano de uma maneira extraordinária. Cenas que passam despercebidas por nós, ganham outras cores com o olhar de Clarice. Gosto também dessa mistura de mal-humor com um humor refinado que ela tem, um sabor agridoce. Outra característica grande da autora é ter trilhado gêneros diversos, sempre com muita personalidade. Acho que foi o Affonso Romano que disse que ela não escrevia romances, novelas, contos, escrevia “Clarices”.

Mafuá: Para Clarice “o processo de escrever é feito de erros”, como é o seu processo de criação na literatura e na música?

FT: Muita insistência e disciplina. Fazer e refazer até que fique mais natural. Claro que me sinto mais segura na música, embora hoje produza semanalmente mais textos do que canções. Tenho praticado bastante e o retorno positivo do público é importante para que eu não desista… Escrever em jornais e revistas tem disso, uma visibilidade e uma possibilidade das pessoas fazerem contato por email sobre qualquer coisa que eu escreva. De certa forma isso me obriga a cultivar meus leitores, como tenho feito com meus ouvintes há 17 anos. Não quero nunca entregar coisas mal-feitas ou preguiçosas, por isso sigo tentando.

Mafuá: A forma peculiar com que Clarice Lispector vê o mundo infantil influencia ou a faz refletir sobre a relação com sua filha? Quais são suas inspirações em Clarice sobre o mundo infantil?

FT: Encontrei um dos filhos de Clarice no Rio de Janeiro e disse a ele que mesmo depois de adulta continuava encucada com as estórias. Não encontrava todas as respostas. Aí ele me disse que nem mesmo ele as sabia. Vai ver que é por isso que a gente tem vontade de reler tudo que ela escreve. A criança tem que ficar remoendo um tanto de mistério pra querer ler mais, construir seus próprios finais, perguntar!

Foto por Nino Andrés

Mafuá: Sobre seu cd Onde Brilhem os Olhos Seus, no que se pautou a escolha de regravar uma intérprete (Nara Leão) e não um compositor (a)?

FT: Há muitos discos dedicados aos autores, mas o trabalho de uma boa intérprete é um dos canais mais preciosos de comunicação com o coração do ouvinte. Nara entre várias cantoras desempenhou esse papel como ninguém: apresentou novas canções e novos autores. A cada disco surpreendia pela escolha de repertório, parceiros. Tinha muita intuição sobre os caminhos musicais diferentes que escolhia. E se não fosse ela, talvez não houvesse espaço para uma cantora como eu…

Mafuá: De onde surgiu a ideia de reunir contos e crônicas no livro “Nunca subestime uma mulherzinha”? Como você acha que foi o impacto para os ouvintes que passaram também a te ler?

FT: Foi do Marcelo Duarte da Panda Books. Ele ouviu dizer que eu escrevia contos e crônicas e me pediu alguns pra ler. Muitos dos meus ouvintes reclamavam que não moravam em Minas ou no DF e não podiam acompanhar a coluna. Achei que só quem fosse meu fã se interessaria pelo livro, mas encontro por aí muita gente que nem dá bola pra minha música… Ainda acho estranho isso: alguém vir falar mais comigo por causa dos textos e não porque tem algum disco… Quem me lê acaba descobrindo mais de mim do que nas canções.

Mafuá: Quando lembram o teu nome, quanto leitora, lembram-se sempre de Clarice Lispector. Existe alguma outra fonte literária da qual bebas?

FT: Ah… eu não sou especialista em Clarice, nem mesmo li tudo que ela escreveu, sou só uma fã comum… Enquanto na música eu quase sempre tenha preferência por vozes suaves e calminhas, em relação ao que gosto de ler é bem diversificado. Uma mistura de Saramago com Monteiro Lobato, Stephen King, Nick Hornby, biografias, contos, livros sobre comida, Fernando Sabino, Nelson Motta…

Mafuá: Qual foi a sensação de ser “prefaciada” por Zélia Duncan?

FT: Eu adoro a Zélia e sempre soube que ela gosta muito de ler. Arrisquei mandar uns textos e ela gostou. Temos uma grande afinidade artística, embora a gente cante de maneira muito diferente. Somos verdadeiras comadres! Sinto-me honrada por ela ter aceitado e ainda por cima ter escrito palavras tão boas sobre mim.