4 textos

Luiza de Aguiar Borges

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 18, 2012. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Luiza de Aguiar Borges, graduanda da 6ª fase de Letras - Língua Portuguesa na UFSC. Faz webdesign e ilustrações como hobby, escreve como ofício e tira fotos (http://www.flickr.com/photos/luizaaborges/). Portfólio: http://luizaborges.com/. Para entrar em contato: luizaaborges[at]gmail.com.

I

Foi aqui que ela perguntou: queres que eu vá? e o dia acabou, assim, de viés. Ah, se sim. Tanto que aflijo, amor, que construo semblante comum, ou, ao menos, uma boca que se desloca no além da necessidade. Quem me inutiliza a vida ao instante que se furta há de mover desarmonia ou inventar engano. Certeza embaraçada, em mínimo. Digo é que venhas, amor, porque ontem era fumaça, e só: vi, sim. Quis voltar, já que entender é tanto trabalho a esmo. Ensaio, apenas. Fiz que sinto traição alheia, e aprecio. Deu que nada supera calor a quem troca rua por adequação. Triste que tento, no fundo dos entantos, fazer-me aspiração; no mais simples, talvez saudade, tal qual expressão.

Reiterar é teimosia da noite, ou contágio.

Pois, assim, recupero o infelizmente, o vai-e-volta, o too good to be true: é de sentir, quem sabe? Quem sabe é boa intenção, dessas que mal vale a vinda, dessas que tolera mesura, mas, em si, cumprindo-se. Afora, o que me faço? Elas, tão dissonantes, expiram impulso – eu, contente, dissocio – e além, inerte, regrido ao teu abrigo ausente.

Entrevê ilusão de mim, sim? que te vejo – gesto denso -, mas vejo.

II

Às vezes, é bom levar um susto.

Relação de amor e ódio com a brisa da noite em madrugada estrelada: a dor de esperar versus o estímulo do inesperado. Ensaiando independência. Ela, tão comum, chegou atrasada e me deslocou daqui pra lá, de lá pra cá, embaraçando tensão em ânsia de novidade. Acredita: tudo que faço, seja agora ou além, veio em mim a fim do teu bem, e ao transpor, assim, – incapaz na teoria – meus medos aos teus, que se anulam.

Tudo fábula? Se sim.

Que te criei em perfeição intransponível perdura, ou te fiz de outras. Espero tanto. Nessas noites em que fujo de mim mesma, procuro um pouquinho de ti em mim e me faço de desentendida quando amanhece e a vida finge que nada aconteceu. Ah, queria eu achar. Como, se comecei em fraqueza? Vá, sim, pensei – martírio constante – por outro lado: o lado do meu mundo virando de cabeça para baixo e, assim, corpo, consciência, passado e futuro. Estavas tão bem segurando aquele casaco vermelho.

Por ti, era só o que eu via, ou nem isso.

Eu desenganei espera de mim pela tua realidade de cidade brilhando em noite fria. Inacessível, tu. Intangível, intátil, intrincada: metáfora. Na minha vida que começou quando te conheci, esperança demorou exatamente dois meses para dar lugar ao desespero do prejuízo iminente. Duplica, triplica, infinito a cada dia que passa; e tu, perigo bom, esperas qualquer hora ou minuto que te faça mais do que um suspiro. Interpreto, amor: suspiro em ti, grito sufocado em mim.

III

Acho bem é que são teus dedos, daqueles que sempre vi mas esqueço nos melhores momentos: as pontas firmes, gastas de tanto acumular vontade que a tua pretensão reprimiu; e depois são só movimentos, como no segundo em que deslizas a mão pelo próprio rosto. Vai que oscila perspectiva, incerta, mas de outro foco: é que teu queixo roça no ombro e sinto com a vista da minha pele os poros e os pelos e – incalculável! – já te sinto no queixo com meu queixo e na boca com milhões de línguas pingando saliva pelos cento e cinquenta e dois dias nos quais só o que sentia era falta. É que perdi o passo dos teus olhos, amor, desde aquela manhã: não olhavas nada em restrição, e no entanto me tornei um todo horizonte. O andar submergia em água desconhecida e eu, exímia aflita, agarrava-me numa linha imaginária que o teu olhar projetava do outro lado da sala. E não era, amor, que me salvavas a vida?

IV

Passava as tardes no quarto ao lado, onde a cama era grande e o sol entrava pela janela incidindo em exatamente dois feixes de luz: um, em minhas pernas; outro, no teu rosto. Era amor? qualquer palavra que não soasse dramática. Só que passava procurando: era a escassez de não tanger, ou de não saber suscitar mais de três horas de atenção. Que culpa tinhas, perguntava sempre. Que culpa? não era culpa era só sorriso que eu preciso ter era só um nariz roçando no meu queixo um toque não premeditado ou qualquer eu juro qualquer segundo no qual teu joelho atritasse desleixado contra o meu.

Então iria embora.

E a tarde virava noite.

Era de se perguntar: que faço comigo? “Em caso de emergência, dê uma volta, pinte um quadro, escreva um conto – esqueça de mim”. Irreflexão, concluí que eram tantas tão boas por aí, ou por cá, ou que já foram e ansiavam em ser novamente. Nunca foram na prática, sendo exímias na teoria. Sabes? Irreflexões que permeavam uma tarde sem ti, enquanto tua vida não tributava nem um suspiro pelos meus pensamentos imprudentes.
Não que eu seja capaz de ultrapassar.