Biografia ou romance histórico, real ou fictício? Breve reflexão acerca de elementos literários e historiográficos em Bruce Chatwin

Mariana Castro de Alencar

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 18, 2012. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Mariana Castro de Alencar
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ
Rio de Janeiro, RJ.
marianacastrodealencar@hotmail.com
http://lattes.cnpq.br/7262328811799119

RESUMO: Este artigo tem por objetivo investigar algumas questões da ficção contemporânea, através da análise do romance O Vice-Rei de Uidá, de Bruce Chatwin, e da obra histórico-biográfica Francisco Félix de Souza: mercador de escravos, de Alberto da Costa e Silva. Serão estudados o conceito de biografia, a questão da dicotomia entre real e fictício, o problema do relato histórico, da memória, além da relação crítica entre História e Literatura.

PALAVRAS-CHAVE: Bruce Chatwin, Biografia, Literatura Contemporânea.

ABSTRACT: This article aims at analyzing some issues concerning contemporary fiction, based on the analysis of The viceroy of Ouidah, by Bruce Chatwin, and the historical-biographical essay Francisco Félix de Souza: mercador de escravos, by Alberto da Costa e Silva. The concepts of biography, the question of the dichotomy between reality and fiction, as well as the problem of the historical account and of the memory, along with the critical tensions between literature and history will be the core center of this reflection.

KEYWORDS: Bruce Chatwin, Biography, Contemporary Literature.

 

A biografia é um gênero literário que desperta o interesse de historiadores, ficcionistas, leitores e do público em geral. Tradicionalmente escrita na terceira pessoa do singular, narra cronologicamente, ou por temas, a trajetória da vida de sujeitos ilustres, personagens históricos ou figuras de relevo. Do ponto de vista literário, o sujeito pode estar inscrito em uma ordem canônica, ou ser reconhecido por seu potencial transgressor, marginal. O biografado é o foco da pesquisa biográfica, personagem principal de sua narrativa, sendo o biógrafo, quase sempre, o criador de um tipo de narrador heterodiegético, que controla a narrativa da história.

Através da análise dos prefácios de dois livros que, a priori, seriam biografias, apresentaremos algumas questões, dentre elas, a que nos interessa neste artigo, a quebra de paradigma em relação à estrutura da narrativa biográfica em face da ficcionalidade do discurso histórico.

No prefácio de seu livro histórico-biográfico, Francisco Félix de Souza: mercador de escravos, Alberto da Costa e Silva nos conta que foi em sua adolescência a primeira vez que ouviu falar desse personagem histórico. Na ocasião, iniciou uma pesquisa, arquivando tudo o que fosse relacionado ao aventureiro brasileiro, com o propósito de, no futuro, escrever um livro. Costa e Silva coletou documentos, imagens, testemunhos de contemporâneos e relatos de memórias familiares. Porém, quando decidiu escrever o livro, achou que o material era insuficiente para suas pretensões. No entanto, ao refletir um pouco mais sobre o assunto, Costa e Silva percebeu que a tarefa do historiador era a de agregar os fatos à mão, mesmo que considerados insuficientes, na tentativa de recriar ou imitar o passado (SILVA, 2004, p. 01). Percebeu, também, que cada um procede a uma leitura distinta de determinado fato, pois todo testemunho, todo documento, é plurissignificativo e as possíveis interpretações do material dependem das inferências de cada indivíduo, bem como da visão de mundo particular dos leitores/pesquisadores. Assim, o retrato de Francisco Félix de Souza, construído por Costa e Silva, seria o resultado de uma dessas possíveis interpretações dos fatos e, por isso, se apresentaria como resultado único, produto de uma leitura subjetiva, ainda que com pretensões à objetividade, como é o caso do discurso da história.

A análise do prefácio de Costa e Silva nos leva a uma reflexão, dentre outras, sobre o problema da veracidade do discurso, mesmo a do discurso histórico. Por exemplo, quando Alberto da Costa e Silva define a tarefa do historiador como aquele capaz de juntar os fatos na tentativa de “recriar ou imitar o passado” (SILVA, 2004, p. 01) percebe que, diante desta tentativa, lacunas surgem. Sua tarefa também será, deste modo, a de preencher vazios, em uma tentativa de unir, concatenar os fatos, sempre compreendendo a porção de ficção que pode haver nestes preenchimentos. Nessa perspectiva, a imitação, conforme a definição do conceito, jamais será o real recriado, mas também, ou ainda, uma representação que, ao final, é uma reapresentação. Decorre dessa ideia, que a recriação não se isenta de ficcionalidade, já que é influenciada pela subjetividade das interpretações, um problema que, conforme aponta Hayden White (1975, p. 03), está longe de ser resolvido conceitualmente:

In my view, the whole discussion of the nature of “realism” in literature flounders in the failure to assess critically what a genuinely “historical” conception of “reality” consists of. The usual tactic is to set the “historical” over against the “mythical”, as if the former were genuinely empirical and the latter were nothing but conceptual, and then to locate the realm of the “fictive” between the two poles. Literature is viewed as being more or less realistic, depending upon the ratio of empirical to conceptual elements contained within it[1].

Conforme o exemplo de White, vemos que a tarefa de estabelecer relações entre história, ficção e literatura – e, em nosso caso, estendendo a reflexão para a biografia como gênero ou espécie literária – demanda uma reflexão sobre os estatutos do ficcional, da história e das relações entre representação e realidade.

Alberto da Costa e Silva se propôs a escrever uma biografia sobre Francisco Félix de Souza, mas seu texto possui traços distintivos bastante similares aos de um romance. No início do primeiro capítulo, por exemplo, há um diálogo revelador entre o autor e o leitor: “Não repare nos descascados e nas manchas das paredes” (SILVA, 2004, p. 04). Isso mostra o caráter descritivo e de invenção ficcional da biografia de Costa e Silva, quando o autor narra a reconstrução do quarto de Francisco Félix de Souza ou a disposição dos cemitérios da África, com a presença de dados documentais mesclados à invenção memorialística. Além disso, Costa e Silva escreve, ora na primeira pessoa do singular, ora na primeira pessoa do plural, combinando a atitude do observador isento à subjetividade do cronista, seja ele um historiador ou um ficcionista.

Costa e Silva também opta por narrar os eventos históricos na simbiose entre pesquisa histórica e narrativa ficcional, pela qual ilumina a história de Francisco Félix de Souza. Não cria um simples narrador dos fatos, mas sim uma espécie de narrador homodiegético, muito próximo da ficção: relata as informações que obteve em conversas com testemunhas da vida e do percurso do biografado, como os familiares de Francisco Félix de Souza; descreve e recria lugares que visita através de uma visão bastante subjetiva, pessoal. Muitas vezes, durante a narrativa, o foco se desloca do biografado para o biógrafo. Todos esses dados comprovam a dificuldade de simplesmente classificar esse texto conforme o que tradicionalmente se espera de um texto biográfico.

Ao observarmos o relato de Costa e Silva sobre a dificuldade de ordenar e dar sentido a seu fragmentário material de pesquisa coletado, ficam claros, no texto, os problemas decorrentes da tentativa de se ordenar, interpretar, classificar ou definir, minimamente, certos dados e informações e transformá-los em um discurso crítico coerente. Por exemplo, com relação à data de nascimento da personagem histórica biografada, sua origem e suas funções exercidas no porto de Uidá, os dados conflitantes, muitas vezes, requerem do historiador uma interpretação que complete as fissuras do real para dar coerência e significação ao que, na história, se apresenta de forma fragmentada.

A descendência dos De Souza assegura que ele nasceu em 1754; já Thomas Hutton, comerciante inglês que tratou com ele pessoalmente, legou informações que levam à conclusão de que de Souza teria nascido em 1768. Em se tratando de sua origem, a partir de uma carta de alforria datada em 1844, escrita por Francisco Félix de Souza, se tem certeza de que ele nasceu em Salvador, pois é De Souza mesmo quem escreve (SILVA, 2004, p. 07): “Digo eu Francisco Felis de Souza natural da cidade da Bahia e rezidente neste porto de Ajudá (…)”. Quanto à sua tez, alguns o achavam branco, outros o definiam como mestiço ou mulato. O negreiro Theophilus Conneau o julgou analfabeto, mas, pelos estudos de Pierre Verger, se comprovou que Francisco Félix de Souza era estudado e tinha boas noções dos direitos das pessoas e possuía grande conhecimento das leis. Esses fatores mostram a grande dificuldade na utilização do material coletado.

A narrativa de Alberto da Costa e Silva descreve com riqueza de detalhes a cultura africana. Os cemitérios africanos são comparados aos brasileiros, pelas semelhanças de disposição e distribuição dos túmulos e por sua organização espacial. O fato de os africanos não terem o costume de cultivar ou cortar as flores implicou e, consequentemente, justificou, explicou, a pobreza de vocabulário africano em relação às cores. Somos informados, ainda, que somente após algum tempo, através dos comerciantes brasileiros, as flores começaram a fazer parte do cotidiano dos africanos.

O escritor inglês Bruce Chatwin, assim como Alberto da Costa e Silva, se debruçou sobre o personagem histórico Francisco Félix de Souza, com o intuito de escrever uma biografia sobre o brasileiro. No prefácio da edição brasileira de seu romance, baseado na vida de Francisco Félix de Souza, Chatwin nos conta que, após toda a sua pesquisa, considerou que o material levantado por ele era fragmentado demais para se escrever uma biografia. Foi assim que decidiu modificar os nomes dos personagens principais da história e, ao invés de uma biografia, escreveu “um trabalho de pura ficção”.

A partir da sua pesquisa e da criação de nomes fictícios, inclusive o nome do próprio personagem histórico, que passa a se chamar, no romance, Francisco Manoel da Silva, Bruce Chatwin escreveu O Vice-Rei de Uidá, narrativa in ultima res e controlada por um narrador heterodiegético. Com uma narrativa de influência realista e envolvente, Chatwin ficcionaliza a cultura africana e narra a vida do personagem Francisco Manuel da Silva a partir das histórias de vida dos filhos do protagonista, utilizando o contexto histórico do presente, no qual os encontramos, 117 anos após a morte de patriarca ilustre.

Comparando o processo de construção narrativa das obras de Costa e Silva e de Chatwin, percebe-se que diversos traços em comum os aproximam. Os dois encontraram dificuldade na interpretação dos dados documentais e por um momento pensaram em interromper a escrita de seus livros. Seguiram caminhos distintos quanto ao que se propuseram escrever, após perceberem a fragilidade do material coletado. Alberto da Costa e Silva escreveu uma biografia e Bruce Chatwin, um romance. Entretanto, a narrativa biográfica de Costa e Silva possui muitas semelhanças com a narrativa do romance de Chatwin, principalmente no detalhamento dos dados históricos.

A pesquisa de caráter histórico, visando, seja um projeto biográfico ou um romance histórico, é um trabalho que requer insistência e paciência, devido ao problema de se lidar com o material coletado, selecionado e combinado, de modo a encadear os fatos em uma determinada narrativa. Além dos documentos escritos, as memórias são materiais fundamentais para esse tipo de pesquisa, principalmente no âmbito das histórias de vida.

Michael Pollak, em seu ensaio “Memória e identidade social”, aborda o problema das relações entre memória e identidade social, principalmente em se tratando das histórias de vida, como na chamada história oral. Aparentemente, a memória se apresenta como um fenômeno de caráter individualizado e de cunho íntimo. Mas ela também deve ser percebida como coletiva, construída por um grupo ou grupos determinados.

A memória é seletiva e o que fica registrado são os marcos relativamente solidificados, já que mesmo esses podem sofrer certas flutuações durante o processo histórico. Esses pontos invariáveis geralmente são percebidos nas entrevistas utilizadas no decorrer da pesquisa de Pollak, nos momentos em que os entrevistados retornam várias vezes ao mesmo acontecimento, como em um processo de solidificação da memória.

Sendo uma espécie de herança, o trabalho de interpretação e organização da memória, para o historiador, é ainda mais complexo, pois, por um processo de identificação com o passado, ou por sentimento de pertencimento, o indivíduo “vive por tabela” (POLLAK, 1992, p. 02) os acontecimentos vivenciados pela coletividade.

Por conseguinte, se observa que a memória é um elemento responsável pelo sentimento de identidade, pois durante a vida o indivíduo constrói a imagem que tem de si, a imagem que acredita ou gostaria de ter e que apresenta aos outros para legitimar a sua própria imagem e também para ser notado como deseja.

De acordo com o momento em que se faz necessária e conforme é articulada, a expressão da memória será moldada, construída consciente ou inconscientemente, pelo indivíduo. Como observa Pollak (1992, p. 04), “as preocupações do momento constituem um elemento de estruturação da memória.” As emoções positivas ou negativas relacionadas à experiência vivenciada influenciam cada nova reorganização da memória, que nunca é a mesma, pois são agregadas a ela novas informações, significados e percepções. As lembranças não são totalmente puras, elas ganham forma a partir de fatores sociais, emocionais e de acordo com o contexto em que são expressas oralmente.

Nesta linha de análise das fontes de pesquisa, Pollak (1992, p. 08) também critica o documento escrito, que para ele não difere da memória, já que também se apoia em uma primeira reconstrução. Por ingenuidade, ou por um conceito estabelecido pelo senso comum, muitas vezes se acredita que o documento escrito é fiel à realidade, quando na verdade é uma representação, uma recriação, também carregada de subjetividade.

A escrita cientificista, que se pretende portadora de realidades factuais, ao contrário da escrita literária, não é sensível à pluralidade das realidades. Por isso, o romance que se permite a utilização dessa realidade plural pode possuir um conteúdo muito mais verossímil do que o discurso histórico. O desafio do historiador é tentar controlar as distorções, as reorganizações das fontes de pesquisa.

Em “Metaficção historiográfica: o passatempo do tempo”, Linda Hutcheon (1991, p. 141) defende a ideia de que a própria história e a ficção são termos criados historicamente e que variam ao longo do tempo. Hutcheon (1991, p. 142) alude ao pensamento de Aristóteles, para quem o historiador só poderia tratar do que realmente aconteceu e dos detalhes do acontecido. Já o poeta trataria do que poderia acontecer, lidando assim, com elementos mais universais. Logo, a poesia seria considerada superior à história, que é uma forma de escrever limitada à representação do incerto e do particular.

Hutcheon (1991, p. 149) vale-se de Doctorow (1983 apud HUTCHEON, 1997, p. 149), para afirmar que a história e a ficção são formas narrativas que fazem uma mediação do mundo com o intuito de introduzir sentido e são como sistemas de significação de uma cultura: são construídas por sistemas de signos e ideologias. Doctorow (1983 apud HUTCHEON, 1997, p. 149) ainda ressalta que:

A história é uma espécie de ficção em que vivemos e esperamos sobreviver e a ficção é uma espécie de história especulativa (…) pela qual se considera que, suas fontes os dados disponíveis para a composição são maiores e mais variados do que supõe o historiador.

Paul Veyne, em Como se escribe la historia (VEYNE, 1972, p. 05), diz que a história não é uma ciência, mas uma atividade intelectual, um conhecimento em que os historiadores narram acontecimentos verdadeiros que têm o homem como ator. Por isso, Veyne considera a história um “romance verdadeiro”.

O discurso histórico produzido pelo historiador não é o que os personagens reais viveram, é uma espécie de narração que, assim como o romance, organiza e simplifica, fazendo, por exemplo, com que um século de história caiba em uma página.

Segundo Veyne (VEYNE, 1972, p. 21), assim como o romance, a história desperta interesse através do que relata. É o relato de fatos verdadeiros e não de fatos verossímeis, como no romance.

A história não tem um método porque se satisfaz em relatar verdades; ela não faz exigências. A característica mais original do gênero histórico é não impor normas, regras. Ela é conhecida como a reconstrução integral do passado. No entanto, reconstruir totalmente o passado é algo impossível, por isso, sempre vão existir muitas perguntas sem repostas. Assim, Veyne (1972, p. 24) define o conhecimento histórico como um conhecimento mutilado.

De acordo com o pensamento de Paul Veyne (1972, p. 27), a história biográfica é a menos explicativa, mas é a mais rica do ponto de vista da informação, pois considera os indivíduos em sua particularidade.

Uma das grandes questões discutidas pela Teoria Literária é a oposição entre o texto ficcional e o texto não ficcional. Mas, segundo Wolfgang Iser, em seu artigo “Os Atos de Fingir ou o que é fictício no texto ficcional”, os textos ficcionais não são isentos de realidade e os ditos não ficcionais não são isentos de ficcionalidade. Sendo assim, a dicotomia entre real e fictício deveria ser substituída pela tricotomia real, fictício e imaginário. Iser observa:

Como o texto ficcional contém elementos do real, sem que se esgote na descrição deste real, então o seu componente fictício não tem o caráter de uma finalidade em si mesma, mas é, enquanto fingida, a preparação de um imaginário (ISER, 2002, p. 385).

Essa oposição entre o real e o fictício descarta o fato de existirem no texto não ficcional realidades sociais, que também podem ser de ordem sentimental e emocional. E a repetição presente nestes textos é consequência dos atos de fingir, definidos como a preparação de um imaginário. Por isso, essa relação triádica entre real, fictício e imaginário é uma propriedade fundamental do texto ficcional.

O imaginário presente nos atos de fingir ganha um predicado de realidade. Ele não se transforma em real, mas na aparência deste, já que pelo ato de fingir pode penetrar no mundo e tomar forma. O ato de fingir é o instrumento pelo qual essa relação ternária se faz, pois é o que determina a transgressão de limites da realidade que organiza e da configuração que provoca, no caso, o imaginário.

Sabemos que todo texto é marcado por uma relação intertextual. Dentro do processo de construção textual são feitas analogias, sínteses, alusões a outros produtos textuais. O texto como produto do autor não surge a partir de uma fórmula dada pelo mundo, apesar de tratar de sua tematização. O autor vai utilizar estruturas já preexistentes e através de uma seleção irá decompô-las. A seleção é uma transgressão de limites, pois ao decompor as estruturas selecionadas, elas vão se desvincular dos sistemas a que pertenciam. A nova contextualização e os novos elementos que o texto passa a integrar não são em si fictícios, somente a seleção é um ato de fingir. Baseado na seleção de estruturas feita pelo autor, pode-se observar melhor a intencionalidade do texto. A intenção do texto não é manifestada conscientemente pelo autor, mas através da decomposição, seleção e combinação das estruturas escolhidas por ele.

Segundo Iser (2002, p. 393), a força de um texto, mesmo sendo este muito mimético, é observada quando a compreensão do leitor é excedida, pois os códigos expressos no texto transbordam a sua capacidade de categorização. O sentido amplo da literatura é conhecido como algo que se difere da realidade. Porém, os signos ficcionais não se opõem ao real, apenas não são conhecidos pelo mundo vigente como algo referente à realidade. Essas marcas de ficção presentes no texto designam o contrato entre o leitor e o autor e não uma significação em si mesma.

A ficção não deve ser entendida como um texto ficcional apenas, mas como instrumento importante no desenvolvimento do conhecimento, na construção e no estabelecimento de grupos sociais e na formação de opinião. A realidade sentida no texto pode ser, muitas vezes, identificada como similar à realidade vivenciada, mas isso não se refere à ficcionalidade presente no texto, mas à maneira de pensar do receptor e às suas noções acerca dos processos textuais.

Também de acordo com Iser (ISER, 2002, p. 400), o texto ficcional possui muitos fragmentos que podem ser identificados com a realidade, pois são elementos retirados de contextos socioculturais e por isso reconhecíveis. Mas a ficção se apresenta como um imaginário e possui a finalidade de representar o mundo como se o fosse, mesmo que não o seja, propriamente.

Hayden White, em “El texto histórico como artefacto literário” (WHITE, 2003, p. 108), observa que a função da meta-história é a de pensar questões como a estrutura de uma consciência propriamente histórica; de interrogar o status da origem do conhecimento das explicações históricas, em analogia com outras justificativas capazes de dar conta do material utilizado pelos historiadores; e também, indagar as possíveis formas de representação da história em relação à validade dos relatos históricos.

White (2003, p. 109) afirma que a coerência é essencial ao bom historiador e lembra os leitores do caráter provisório da caracterização do relato histórico, que está sempre a mostrar sua incompletude. Trabalhando indutivamente, o historiador vai registrando os fatos, levando em consideração o que vê e o que percebe deles. O historiador deve ser julgado como um escritor de prosa discursiva, pela verdade da qual trata e pela adequação de sua reprodução no discurso crítico-histórico que produz.

White (2003, p. 112) se vale do pensamento de R. G. Collingwood, que entende o historiador como uma espécie de narrador, cuja sensibilidade histórica é manifestada em sua capacidade de elaboração de um relato válido a partir de um conjunto de fatos aos quais ele procura dar sentido. O historiador também se utiliza de uma “imaginação construtiva” ao tentar dar algum sentido ao registro histórico, já que este é fragmentado e incompleto. White (2003, p. 112) observa que Collingwood sugeriu que os historiadores chegam às suas evidências ao refletir sobre as possíveis formas que as situações humanas podem assumir, e denominou esse sentido como um “faro” para o relato.

Um conjunto de conhecimentos históricos registrados de forma casual são apenas elementos do relato e não pode constituí-lo. De acordo com Collingwood (apud WHITE, 2003, p. 113), os acontecimentos são incorporados ao relato por uma série de estratégias, como a ênfase dada a um determinado fato, ou como ele é caracterizado, ou ainda o ponto de vista adotado, as estratégias de descrição, características que, normalmente, são encontradas na organização de um romance.

Além disso, essas características podem ser incorporadas sob várias perspectivas ao relato histórico, que pode ser concebido como um texto trágico, cômico ou irônico. O historiador fará a escolha com base no que considera apropriado para ordenar os acontecimentos, de forma compreensível e de acordo com o público para o qual está escrevendo.

A grande questão é que, devido às diversas formas de representação dos fatos, surgem também diferentes interpretações, conferindo aos eventos muitos significados. Quando o leitor percebe a perspectiva adotada no texto, consegue compreender melhor os fatos narrados no discurso histórico, já que está familiarizado com o tipo de configuração utilizada no texto.

White (2003, p. 120) observa que as narrativas históricas são enunciados metafóricos que surgem da relação entre os acontecimentos e os possíveis modos de relatá-los e que a narrativa histórica não é uma simples reprodução dos fatos registrados na história, mas também um conjunto de símbolos que nos aponta as direções para as possíveis interpretações dos acontecimentos históricos. Há oposição entre história e literatura, segundo White (2003, p. 121), pois a História se interessa mais pelo “real” do que pelo “possível”, que é o objeto de representação da literatura. Com base nesta dicotomia, os estudos tradicionais da crítica, buscando determinar o que é “real” e o que é “imaginado” no romance, mostraram que a história é um modelo de representação “realista”.

Em um processo de pesquisa histórica são agregados um conjunto de textos e documentos para traçar o panorama mais fiel possível de um determinado fato histórico. No entanto, quanto mais se sabe sobre o passado mais dificilmente se estabelecem generalizações. Portanto, a criação de um relato histórico completo, com vistas a explicar e representar os fatos passados por meio das narrativas históricas dependerá sempre de representações figurativas. E a escolha do historiador por determinada representação figurativa – por exemplo, a metáfora e a ironia – será fundamental para a construção de diferentes tipos de composição do relato histórico.

De acordo com Hayden White (2003, p. 134), o significado primário da narração seria a desestruturação dos acontecimentos reais ou imaginários, codificados, originalmente, de forma tropológica e a progressiva reconstrução desses acontecimentos em meio a outras formas de representação figurativa. Logo, a narração seria um processo de decodificação e recodificação, em que as percepções e as explicações são esclarecidas e fortalecidas pela mudança da forma tropológica utilizada.

Os produtos dos escritores de ficção, para White (2003, p. 138), não invalidam de forma alguma o status de conhecimento da historiografia. Este conhecimento só seria invalidado ao se acreditar que a literatura não trata de nada relativo à realidade, que é o produto da imaginação de outro contexto de mundo.

Acerca da oposição entre história e ficção, entre representação do “real” e representação do “imaginário”, respectivamente, White (2003, p. 137) observa que só se pode conhecer o “real” em analogia ao “Imaginário”.

As questões aqui abordadas, a partir dos prefácios das obras de Alberto da Costa e Silva e Bruce Chatwin mostraram que a produção de textos biográficos ou de romances históricos demanda uma série de questões, que a Teoria Literária e as teorias da história, conforme vimos com a meta-história, de Hayden White, procuram pensar, com vistas também a problematizar o papel do historiador como produtor de um determinado discurso, que por vezes se assemelha ao discurso ficcional, ou com ele se relaciona.

Questões referentes ao papel da memória, à oposição entre ficção e realidade, à diferenças e aproximações entre história e literatura são intensamente discutidas no âmbito da Teoria Literária e são itens fundamentais na construção dos vários gêneros da narrativa, como a biografia e o romance histórico.

É nessa mescla de elementos literários e historiográficos que Bruce Chatwin escreveu o seu romance O Vice-Rei de Uidá. O quanto de real e de fictício há em sua obra é uma questão impossível de definir. No entanto, a sua narrativa rica comprova o compromisso inscrito na relação entre História e Literatura.

Referências

CHATWIN, B. O vice-rei de Uidá. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

HUTCHEON, L. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

ISER, W. “Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional”. In: LIMA. Luiz Costa (Org.). Teoria da literatura em suas fontes: v. 2. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

MICHAEL, P. Memória e Identidade Social. Rio de Janeiro: Estudos históricos, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212.

SILVA, A. Francisco Félix de Souza, mercador de escravos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; EdUERJ, 2004.

VEYNE, P. Como se escribe la historia: ensayo de epistemologia. Madri: Fragua, 1972.

WHITE, H. Metahistory: the historical imagination in nineteenth-century Europe. Baltimore; London: The John Hopkins University Press, 1975, p. ix-xii; p. 1-42.

______. “El texto histórico como artefacto literário”. In: El texto histórico como artefacto literário y otros escritos. Barcelona: Ediciones Paidos, 2003.

 

[1] Do meu ponto de vista, toda a discussão da natureza do “realismo” na literatura esbarra no malogro de se avaliar criticamente em que consiste uma concepção genuinamente “histórica” da “realidade”. A tática usual é a de opor o histórico ao “mítico”, como se o primeiro fosse genuinamente empírico e o segundo fosse apenas conceitual, e daí localizar o reino do “fictício” entre dois pólos. A literatura é vista como sendo mais ou menos realista, dependendo da escala de elementos conceituais contidos no conceito (Tradução nossa).