Murmúrios e Clamores – Poesia Completa, de Lúcio de Mendonça

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 18, 2012. ISSNe: 1806-2555.

Murmúrios e Clamores - Poesia Completa

Lúcio de Mendonça

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Lúcio Eugênio de Menezes e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça nasceu em Barra do Piraí, Estado do Rio de Janeiro, em 10 de março de 1854, e faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 23 de novembro de 1909. Nos poucos manuais de história literária que fazem menção a sua obra, esta é apresentada como um dos raros exemplos de poesia realista no Brasil. Em geral, pouco mais se diz, além disso. E se é difícil encontrar referências a ele, ainda mais desafiador é botar os olhos em livro de sua autoria. E não é por falta de trabalho: seus escritos publicados chegam a algumas dezenas, reunindo, além dos poemas, obras jurídicas, romance, traduções, contos, crítica literária, sem contar a fundação de uns três jornais políticos.

Estes últimos dão um retrato parcial, mas importante de Lúcio de Mendonça: foi ele, de fato, um propagandista desabrido da República, antes de sua proclamação. No dizer de Eloy Pontes, registrado em seu A vida exuberante de Olavo Bilac, era “homem de ideias avançadíssimas”. No advento da República, foi um participante de primeira hora do novo regime, exercendo diversos cargos públicos. Em 1889, por exemplo, era secretário de Campos Sales, então Ministro da Justiça. Tendo realizado estudos de direito, chegou ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria Geral da República, funções de que foi obrigado a se afastar quando se manifestaram os primeiros sintomas da doença que iria levá-lo à cegueira.

No meio literário foi um companheiro assíduo de vários dos grandes nomes daquele período, como Machado de Assis (que era íntimo amigo de Salvador de Mendonça, irmão de Lúcio), Raimundo Correia, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Emílio de Menezes, Rodrigo Otávio, Augusto de Lima, Valentim de Magalhães, Joaquim Nabuco, Coelho Neto etc. Com vários desses amigos e conhecidos, fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897. Aliás, vários deles não hesitaram em afirmar ter sido Lúcio de Mendonça um dos principais, se não o principal articulador da fundação da Academia.

O próprio Machado, primeiro presidente da ABL e, naquele momento, figura central da literatura brasileira, prefaciou o primeiro volume de poemas de Lúcio de Mendonça, dizendo, entre outras coisas:

Chamou-lhe acertadamente Névoas Matutinas. Mas por que névoas? Não as tem a sua idade, que é antes de céu limpo e azul, de entusiasmo e arrebatamento e de fé. É isso geralmente o que se espera ver num livro de rapaz. Imagina o leitor e com razão, que de envolta com algumas perpétuas, virão muitas rosas de boa cor, e acha que estas são raras. Há aqui mais saudades que esperanças, e ainda mais desesperanças que saudades[1].

De fato, Névoas matutinas, livro de estréia do poeta, tem esse sentido melancólico e elegíaco, ainda romântico. Mas há também algo do romantismo condoreiro, como se poderá ver, não casualmente, no poema “A morte de Castro Alves”. Mas não é apenas esse o tom geral de seus poemas, que mereceram elogios de Olavo Bilac: “… geração em que Lúcio de Mendonça ocupa tão notável lugar, em que tantos e tão brilhantes serviços tem prestado à arte brasileira[2].” Em outra oportunidade, novamente Bilac faz referência elogiosa à poesia de Lúcio de Mendonça, citando verso de sua autoria (que odeia os reis e os padres excomunga), mas verso de crítica social, de anticlericalismo explícito, que contrasta flagrantemente com a apregoada impassibilidade dos parnasianos. Ora, os elogios à obra de Lúcio, em sua porção mais romântica, dizem mais de Bilac do que de nosso autor. Na geração em que este surgia, a veemência condoreira ia de par com a militância política (pelo viés do republicanismo) e social (através do abolicionismo). O que nos parece interessante é justamente essa passagem da poesia social romântica para a poesia social realista, que muitos estavam em condições de empreender, mas poucos realizaram. Um dos raros foi Tobias Barreto, mas o nível de realização literária do filósofo e propagandista sergipano fica bem abaixo do que logrou Lúcio de Mendonça. De fato, em nosso País, a inspiração combativa da prosa realista quase não se aventurou pelos versos, ao contrário de Portugal, onde apareceram gigantes como Antero de Quental, Guerra Junqueiro e, em certo sentido, Cesário Verde.

O livro que aqui apresentamos, Murmúrios e clamores, pretende ser a obra poética completa de seu autor. Publicado em 1902, pela Garnier, sete anos antes de sua morte, traz poemas que se espalham de 1870 a 1901, testemunhando trinta anos, ou pouco mais, de criação poética. Nesse volume estão reunidas Névoas matutinas, de 1872; Alvoradas, de 1875; Vergastas, de 1889; Canções do outono, de 1898; Visões do abismo, provavelmente de 1888; Musa peregrina(traduções de poetas estrangeiras, ao que parece, publicadas pela primeira vez nessa obra completa). É interessante ler o que diz desse livro o critico José Veríssimo, em comentário publicado na primeira página do Correio da Manhã de 2 de junho de 1902 e que pode ser consultado emhttp://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_01&pagfis=2024&pesq=&esrc=s. Aí, louva Veríssimo a obra de Lúcio de Mendonça, que não seria a de um bacharel diletante, mas de poeta de sincera inspiração. Não diz muita coisa, infelizmente, sobre o que consideramos o principal interesse nessa obra poética, isto é, sua passagem de romântico social e hugoano a realista combativo e crítico. De fato, em Alvoradas, Lúcio parece manter a mesma nota do livro anterior, Névoas matutinas. A diferença está agora, diria, no uso mais insistente do soneto e até da oitava-rima, no que parecem tentativas de afiar a lira, isto é, de usar formas consagradas pela tradição, sem grandes alterações no assunto e nas imagens. Já em Vergastas, os versos se tornam cada vez mais clara e decididamente condoreiros (como em “A montanha” e “A bandeira apedrejada”). E, aos poucos, nos poemas mais tardios desse livro, o poeta já se encaminha para a politização e para a crítica; é a poesia realista aparecendo. Poesia realista que, em Visões do abismo, atinge seu auge, com o exercício da crítica social e do anticlerical ismo. É o que se poderá ver na leitura atenta desses Murmúrios e clamores, livro de não pouco interesse, que, além de exemplificar essa rara poesia realista brasileira, é também testemunha da produção intelectual de uma das mais interessantes, talentosas e sofisticadas gerações de intelectuais brasileiros.

 

[1] http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=8299

[2]. Citado por Eloy Pontes, em A vida exuberante de Olavo Bilac.