Poesia

Giuseppe Varaschin

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 21, 2014. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Giuseppe Varaschin nasceu em Florianópolis e está concluindo o curso graduação em Letras Português na Universidade Federal de Santa Catarina. Tem interesse por linguística e filosofia, mas continua a escrever poesia por hábito e paixão. Contato: giuseppe.varaschin@gmail.com

Segunda-Feira, Terça Rima

No meio do caminho da esperança
a tua leveza é tanta que me leva
aonde eu já nem sei, só sei que cansacasar-se com uma luz que só se eleva;
pintar de cor vermelha o corredor
que ao teu altar conduz, morar na trevaabaixo do teu rastro, o teu albor
que a multidão contempla extasiada
enquanto peregrina ao teu fulgor.

Fazer sangrar joelhos pela escada
que não conduz a ti, mas à tua imagem…
Sou só mais um que não te vai dar nada,

não te oferecerei senão linguagem
lançada, meio ao longe e meio às cegas,
na direção que indica a tua miragem…

Sou só mais um que nunca tu sossegas
com uma indicação mais do que vaga
com mais do que um olhar que se desprega

logo antes de salvar-me desta praga
que não é mais que efeito do lugar
vazio que resta no olho e que o estraga.

Como o vento demole só com ar
e tempo o mais estável, assim também
toda face haveria de carregar

uma inscrição nos olhos que contém
o código secreto que revela
o beijo que há na boca: o armazém

dos dentes, das palavras, é a cela
onde repousa a mímica dos deuses
em alguma gaveta. Qual é a dela?

Onde encontrar, na máquina de adeuses,
a chave que abre a porta à que não veio?
O segredo é falhar, mas quantas vezes?

Acima dos acimas do teu seio
proponho um sorriso como hipótese
de gesto que desencadeia o enleio

que nos fará um só, como uma prótese
que deve assimilar-se ao que ela cura
ao ponto em que se apaga – quando, em tese

exime-se de ser a coisa pura
para tornar-se parte de algo pronto…
Assim, a minha vida é uma procura

por ti, em tudo e sempre, e sempre encontro
migalhas, por aí, em toda parte
mas nunca suficientemente ao ponto

em que eu possa cessar de procurar-te.
Por isso o meu amor é um corolário
da memória, e a memória é mãe da arte.

Mas quem me encontraria n’um horário
desses, além de ti, que és a legenda
que eu propago neste mostruário…

Como te descrever para que entendas
que és tu que sempre infestas esta torre
de marfim, que é meu corpo, cuja fenda

poética só sabe, enquanto morre,
recitar-te? Que tu te reconheças
nesta prece apressada, que percorre

os andares da torre – com a pressa
com que escorre o meu sangue da ferida –
desabando, e que revoga a promessa

de ficar onde a vida habita, tida
em conta por ninguém. Só a vizinha
que acorda com o pranto da partida…

Mas tu nem poderias ser vizinha,
pois tu só poderias ser a esfinge
que me espreita sempre em cada esquina

inquirindo o segredo enquanto finges
não saber bem qual seja a chave ou guia…
E a dúvida que finges me impinge

uma incerteza imensa: onde irias
para levar-me a ti? Por que soslaio
tu me conduzirias? Pelas frias

rotas das coxas tuas? Sempre saio,
com medo, pela rota do silêncio
ou a da fuga. E o riso dela é o raio

que a mata para mim no mesmo imenso
instante em que ela torna-se meu lema
neste abandono após o fim do incenso…

Para ser sepultada num poema,
na tumba de palavras indevidas
do epitáfio, que nunca é um emblema

que comporta o sentido desta vida:
somente uma palavra que insiste
em não apodrecer de não ser lida…

Não a recitação vaga do triste
milagre; mas resposta deste corpo
a uma alma imortal que não existe.

Em Favor das Transformações de Lorenz

É como uma cisão no espaço-tempo
previsto por Minkowski: estás ao lado
– talvez ali na esquina – e no passado;
aqui neste lugar e em outro momento…

Eu nunca mais te vi em movimento!
O rosto fotográfico parado
congelado no tempo, enveredado
ainda, em seu instante poeirento…

‘Inda que tu hoje corras pelas ruas
não haverá um toque que te vença
e te alcance, porque todas as tuas

partes são feitas de antes dessa prensa,
todas compostas de ontens e de fugas…
Ninguém tem teu presente em tua presença!

Sonetilho

Posso pôr o meu pecado
onde manda minha vontade,
pois conheço a realidade
integral do (en)tão sonhado.

Quero então sentir pulsar
este instante acelerado,
o músculo desvairado,
na carne a reverberar…

Quero-me na pele alva
enterrado em perdição
do lugar onde sonhava!

Leva agora minha mão
lá onde antes eu levava
a minha imaginação…

Fábula

Porque vieste do mar e nasceste da ressaca das ondas que quebram tua mãe é a lua.
Tua aparição mística na demolição das vagas para o espanto de um pescador que ali passava.
Mas esse pescador, que te conheceu perdida, embalou o teu corpo como se fosse um remo – e assim ele se fez teu pai.
E tua mãe gigante sempre te vigiava, e quando podia construía pontes impossíveis que a levavam até a areia da praia onde moravas.
E da tua casa podia-se ouvir ainda o martírio das ondas e a sistemática ressurreição de outras como tu.
A maresia enfeitava o ferro com a ferrugem.
E enquanto o sal te acrescentava o corpo que um dia terias e te esculpia como uma estátua, teu pai namorava a tua mãe toda noite perto da janela.
Mas foste filha unigênita desta paixão imensa.
Porque teu sono era tão frágil quanto o silêncio.
E tu cresceste, e choravas cada vez menos e cada pranto era cada vez maior, cada vez mais pesado.
E quando choravas teus olhos sonhavam mirando em mim.
E quando fugias, fugias em minha direção.
Teus pais perguntavam – “Por que lá?”
E dizias – “Porque a viagem é longa.”
Aprendeste a remar com eles, mas agora, remavas para mim.
Até mesmo Deus, com ciúmes, certa vez quando estavas sozinha te disse em oração:
– “O horizonte é uma imensa boca que quer deglutir a tua alma.
O mar é a água na boca.
O sol é o brilho no olhar.
Tua mãe ficou nova e fugiu,
E teu pai, atrás dela, foi passear numa segunda lua de mel.”
Meus lábios arquearam para baixo, porque eu soube que nunca mais irias me abraçar.
Só então eu percebi que tinha engolido o mundo,
E que estavas, já, dentro de mim.

For all sad words of tongue and pen…

Quem foi que arrancou-te
dos mais tenros sonhos
e então colocou-te
diante dos olhos?

Os olhos diante
dos sonhos de antes…
Que a perna se aloje
na fome da noite!

Que noite?! Que noite?!
E a noite passando…

Na sede de hoje,
o beijo de quando?

Sonheto Sonírico

No sono eu derreto a autonomia do objeto
que se me dizia real. Agora, dócil
ao comando do meu pensar, revivo o fóssil
que eu vi berrar, que eu vi morrer em grito abjeto…

Este poder, uma pena que é tão incerto,
pois que o posso exercer de maneira tão fácil…
Tudo simultaneamente possível no ócio
da verossimilhança que descansa perto

deste parto que faço passante, banal
como a esperança viva. Ao meu olhar selado:
ingênua forma que repousa enquanto venço

sua rigidez atrás do cílio. Se o não penso,
não tem sentido, não o vivo como real,
e sim como o que em mim existe apaixonado.

A Anulação Obrigatória do Universo

Aquele encontro pontual com a sepultura
já te está para ti marcado de antemão,
nas macilentas palmas lassas da tua mão,
em cujos abismos teu féretro figura:

Símbolo e anunciação daquela desventura…
– Inevitável! Berra o quiromante: – Não
há ardil que te poupe e anule este tufão,
que é o fim do universo, a inelutável tortura.

O maior dos sofrimentos é um mal venéreo,
e não há sábio nem ciência que alivie
o obrigatório itinerário ao necrotério.

O asqueroso sepulcro que então ali vi
é a tua participação no cemitério
– uma consequência do pecado sem álibi.

Arrebol dos Sonhos

Era ela a moça nívea no arrebol
dos sonhos cultivados no poente
da esperança, esse olor evanescente
que costuma afogar-se junto ao sol…

Porém, antes da noite com seu rol
de estrelas, veio ela, tão ardente
que esqueci que o calor que aquecia a gente
não vinha sempre dela, o meu farol…

Eu comparei-a ao sol porque o ensejo
da rima viesse a mim cantar o plano
que me traria um hausto do seu beijo…

Com os versos que agora eu derramo
se ela me vir assim como eu a vejo,
amar-me-á assim como eu a amo!

Veleira

Por que passeias com uma vela
durante o dia? É porque velas
a lua cheia – de poesia –
que se atrofia?

É por que sabes estar roubando
com tua negra saia todo um bando
de sóis em tantos olhares tontos…
Ficam no ponto

da noite em que tua vela bem vem
como consolo, tolo, de alguém
em quem a tua chama treme à noite
feito um açoite

– de poesia. Por isso a lua
logo comparece – e a culpa é tua –
que a lua assopra, com sua luz,
ondas, menus

de frutos do mar bem naturais
– vela, onde está ela? – onde mais
senão aqui, hoje e eternamente
hiper-presente?

A lua é só olho ou é portal
de ou para Deus? É tua, normal,
só de passagem, e evangelizas
quando deslizas.

E fica claro porque arrastas
a tua chama (clara) é que tuas traças
sempre comem o vestido do céu
e sobra o breu.

Cada dia: tua lição de paz
e a poesia que à noite se faz
é dela mesa que a noite é feita
(co’a tua receita).

Como na batalha o sangue é mais uma cor…

A manhã espalha seu hálito de mel
dentro da batalha travada diante dela,
ao passo que o tempo desfila na janela
seu belo inventário de faces sob um véu.

Véu evanescente que despenca do céu,
feito do tecido do mar que a caravela
furta p’ra bordar o olho que o olhar anela,
mas nunca descerra antes de um mausoléu…

Quem não morrerá embevecido de ti?
Doce vendaval a sonorizar o breu,
sopro da manhã metaforizando a flor…

Antes que tu sumas metrifico o que vi
e tudo ‘inda assim me escapa, pois tudo é teu,
ó suave assobio cantando, chamando a dor…