Procelárias, de Magalhães de Azeredo

Alckmar Luiz dos Santos

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 20, 2013. ISSNe: 1806-2555.

Procelárias

Magalhães de Azeredo

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Magalhães de Azeredo nasceu no Rio de Janeiro, em 1872 e morreu em Roma, em 1963. Não apenas morreu no exterior, passou fora do Brasil boa parte de sua vida. Foi diplomata de profissão, mas também jornalista, poeta, contista e ensaísta. Embora fisicamente distante de sua terra, nunca perdeu seus laços. Em sua casa em Roma, em especial depois de 1934, quando se aposentou, até o final da vida, recebia constantemente escritores e intelectuais brasileiros. Manteve também farta correspondência com seus concidadãos, em particular com Machado de Assis, com quem compartilhou, entre outras coisas, a fundação da Academia Brasileira de Letras. Nesta, Magalhães de Azeredo foi fundador da cadeira número 9, tendo escolhido como patrono Gonçalves de Magalhães, que, além de ter o mesmo sobrenome, era também poeta e diplomata como ele. A correspondência entre Azeredo e Machado está publicada já há vários anos. Nela, se podem encontrar elementos que descrevem bastante bem a relação entre ambos: amistosa, de muito respeito, mas sempre com aquela retenção que parecia ser a marca registrada de Machado e que foi também, de certa forma, adotada por seu amigo mais jovem. Contudo, uma diferença radical os separava: a ânsia das viagens (que, para os diplomatas, é trabalho, mas não apenas isso). Machado nunca saiu do Brasil; mesmo do Rio de Janeiro afastou-se episodicamente, indo a Barbacena. À exceção da cidade mineira, o mais distante que esteve de sua cidade natal foi em Petrópolis. Já Magalhães de Azeredo serviu como diplomata no Uruguai (de 1895 a 1896), no Vaticano (de 1896 a 1901 e de 1914 a 1934), em Cuba (1912), na Grécia (1913 a 1914). Sua produção intelectual, a exemplo de suas moradias, é relativamente grande e variada. Reúne poemas: Alma primitiva(1895); A Portugal. No centenário das Indias. (1898); Procelárias (1898); Baladas e fantasias (1900); O poema da paz, na aurora do século XX (1901); A Leão XIII, poeta latino. Elegias. (1901); Álvaro (1903); Horas sagradas(1903); Odes e elegias (1904); Canção de Mignon (1906, tradução feita a partir do original de Goethe); O hino de púrpura (1906); Vida e sonho (1919); A Volta do Imperador (1920); Laudes do Jardim Real de Atenas (1921);Sinfonia evangélica (1925); Verão e outono (1950). Contos: Quase parábola (1913); Ariadne (1922); Casos do amor e do instinto (1924); O eterno e o efêmero (1936). Estudos de história: All’Italia nel lutto della Calabria e della Sicilia (1910); O reconhecimento da Independência e do Império do Brasil pela Santa Sé (1932); Memórias de guerra: o Vaticano e a Itália nas duas guerras mundiais (2004). Crítica literária: José de Alencar (1895); Homens e livros (1902). Epistolografia: Correspondência de Machado de Assis com Magalhães de Azeredo (1969). Há um romance em parceria com Olavo Bilac, Sanatorium, resultado do exílio de ambos, em Ouro Preto, durante o governo de Floriano Peixoto. Em 2004, foram publicadas suas Memórias, organizadas por Afonso Arinos Filho.

De seus versos, disse Machado de Assis: “Eis aqui um livro feito de verdade e poesia”[1]. A questão é trazer à luz o que o grande escritor entendeu por verdade na poesia. Diz ele que, nesses versos, “a verdade entra aqui pela sinceridade do homem”, juízo que, se não obscurece ainda mais a afirmação, tampouco a esclarece. Contudo, outra característica é levantada pelo crítico, no que a descrição crítica fica mais clara: o apuro formal, que Machado chama de perfeição. De fato, em Procelária, os hábitos parnasianos estão presentes de maneira bem evidente. Basta ver, entre outros, sua “Ode triunfal” (curiosamente, mesmo título do famoso poema de Fernando Pessoa; mas apenas o título os aproxima, pois são, no mais, em tudo diferentes):

Deusa, que o meu olhar quer e procura,
Não receies descer do pedestal,
A que te ergueu, em soberana altura
O prestigio da tua formosura,
Deusa, deusa imortal!
Sei que, antes de fitar-te o resplendente
Vulto, humilde a teus curvar-me devo;
E é de joelhos, com o fervor de um crente,
Que estes versos terníssimos escrevo!
Se os não desdenhas, bela e nobre imagem,
— Qual nume augusto não desdenha o incenso,
Que lhe oferece ignoto peregrino —
Levem-te eles meu voto de homenagem,
Digam-te quanto sonho e quanto penso!
O teu poder divino

Aqui, a alternância dos decassílabos bem torneados com seu quebrado de seis sílabas repete uma construção versificatória relativamente comum entre os parnasianos, além da temática, combinando sugestões de ligeiro erotismo com imagens provenientes da Grécia antiga. Contudo, um dos poemas mais próximos da sensibilidade parnasiana é especialmente aquele em que Magalhães de Azeredo quase repete os versos finais do conhecidíssimo (já então, a sua época) “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac. Neste último, temos:

Celebrarei o teu oficio
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!

Caia eu também, sem esperança,
Porém tranqüilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do Estilo!

No poema “O escudo” de Magalhães de Azeredo, pode-se ler:

Mas, quando mesmo eu caia, ignorado do vulgo,
Sob o meu próprio esforço inútil sucumbindo,
Morrerei orgulhoso em teu prol, e, caindo,
Direi: como te adoro, e que feliz me julgo!

Mas há também expansão de sentimentos, reflexões timbradas, por vezes, de leve melancolia, como em “Velhos papéis”, no que se aproxima de um Raimundo Correia (homenageado no poema “Velhice de Don Juan”, que lhe é dedicado). Ou cenas que se inspiram diretamente de quadros realistas, de uma realidade aviltada e um tanto repulsiva, como no soneto “O cão”, aproximando-se de um baudelairianismo evidente. Ou um diálogo a modo de homenagem a Poe, no poema “O abutre”. Contudo, em nenhum desses exemplos se pode falar propriamente de originalidade, de um poeta que tenha buscado uma voz individual, um timbre próprio, uma marca pessoal. Se se pode pensar nisso, não seria em Procelárias, mas em outras obras. Nessa, seu autor, à imitação das aves que lhe servem de título, vagueia sobretudo entre influências e sugestões diversas, de outros poetas. Haverá que esperar que apareçam obras como Laudes do Jardim Real de Atenas, em que o trabalho formal, ainda que evidentemente parnasiano, vai em busca de novos metros e ritmos, como a utilização de versos pentadecassílabos (contendo 15 sílabas e que, a bem da verdade, não foi aceito pela tradição dos estudos versificatórios), no poema “A estátua mutilada”[2]:

De alvíssimo pentélico as formas divinas refulgem.
Certo, gerou-te a pátria da Beleza,

a Hélade eterna. Ó corpo sublime, que bárbaras garras
torpes te mutilaram atrozmente?

Psique, Afrodite ou Juno, quem quer que tu foste, sem pena
o martelo sacrílego feriu-te,

os brancos pés quebrou-te, rompeu-te os esplêndidos braços
(onde essas mãos liriais foram dispersas?);

nívea petrina, seios em flor, belos flancos polidos
como urnas … nada, ah! nada te pouparam!

Somente o rosto. Intacto, sereno ele brilha. Sereno,
hierático, impassível, e perfeito.

Eram assim as Deusas. Tu és uma Deusa. Debalde
te ofenderam, debalde ignaras gentes

aqui te relegaram supina, nesta orla do bosque,
numa rústica e sórdida morada.

Debalde, ano após ano, por séculos lentos e escuros,
entre almas incapazes de entender-te,

de te sentir o arcano prestígio, dormiste em silêncio,
tu sabias (as Deusas tudo sabem)

que eu de longínquas terras viria, de terras selvagens;
para te amar, ó Deusa, de joelhos…

Em Procelárias, por outro lado, se pode ver talvez a base da criação poética de Magalhães de Azeredo. Se não há, nesses versos, tanta originalidade, como já afirmei acima, isso nos permite, ao menos, mapear suas influências mais evidentes, seus autores prediletos. Permite também ver o poeta ainda experimentando algumas linguagens, tateando por imagens ainda, às vezes, um pouco românticas (tanto as de um romantismo religioso, quanto as de um romantismo que se autoimpõe a pecha de maldito) ou outras, já um tanto realistas (seja nas descrições, seja na temática e na postura crítica). Vocês, aqui, certamente não vão encontrar um poeta genial, mas vão poder conhecer um autor mediano, típico daquele período, realizando sua obra com competência, com conhecimento, com empenho. Já vale o tempo dispendido na leitura!

 

[1] Disponível em http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=8301. Acesso em 8/10/2013.

[2] Em várias fontes, esse poema é associado a Procelárias. Contudo, como nosso leitor poderá ver, nele é que não se encontra efetivamente.