A Scisma do Caboclo

Samanta Rosa Maia

Ipês é a amostra única, em livro, da poesia de Ricardo Gonçalves. Publicado pela Monteiro Lobato & Cia em 1921, o livro é acompanhado de um prefácio escrito pelo próprio Monteiro Lobato. Nele, o escritor rememora os tempos do Cenáculo, grupo de “conversas intelectuais” (fundado em 1902) que integrou com outros jovens estudantes paulistas, e do Minarete, chalé na rua 21 de abril onde morou Godofredo Rangel, frequentado por ele e outros rapazes: em ambos Ricardo Gonçalves foi também figura constante. A decisão de organizar o volume, póstumo, possivelmente ultrapassou os motivos editoriais e literários.

Nascido em 1883, no dia 08 de agosto, filho de Dr. Mendes Gonçalves (morto em abril de 1911) e de Julieta Ramos Gonçalves, Ricardo Mendes Gonçalves foi o mais velho de cinco irmãos. Criou-se em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e formou-se bacharel em Direito pela Faculdade de São Paulo, em 1912, tendo feito parte do Centro Acadêmico Onze de Agosto e da Liga Acadêmica de São Paulo. No ano seguinte à sua formatura, apoiou a candidatura de Rui Barbosa para presidente da república e candidatou-se a vereador pela Câmara Municipal de São Paulo. Elegeu-se vereador em novembro de 1913 e, cerca de oito meses após ter tomado posse, foi destituído do cargo juntamente com José Piedade. João José Pereira e Luiz Fonseca haviam apresentado recurso contra os dois então vereadores. O motivo alegado para invalidar a candidatura, ao que parece, teria sido a disputa “extra-chapa” – Ricardo Gonçalves e José Piedade teriam concorrido à eleição sozinhos, sem representação de chapa.

Desde a época de estudante até a morte Ricardo Gonçalves publicou seus poemas e traduções assiduamente em uma série de jornais e revistas, como Echo Phonographico, A Cigarra, Imprensa Acadêmica e Revista Americana. Participou de inúmeras conferências, como as promovidas pela Sociedade de Cultura Artística em 1915, junto de escritores como Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Afonso Arinos, Graça Aranha e Martins Fontes. Além disso, atuou em ações políticas e sociais, ao lado de operários, em comícios e greves.

As atividades anarquistas e socialistas que despontaram na literatura do início do século XX, segundo Brito Broca, tinham “inspiração libertária e tolstoiana”, e apesar de terem sido tema de uma porção de poemas, como o “Rebelião”, de Ricardo Gonçalves (que, assim como “Anchieta”, “Os queixadas” e “Uma vela que passa”, infelizmente não está contido em Ipês) geralmente não saíam das páginas de papel. Ricardo Gonçalves talvez seja um caso à parte. Sempre à volta com as causas sociais, punha medo em Monteiro Lobato, como destaca (de A barca de Gleyre) Alaor Barbosa: “[…] há um defeito qualquer dentro do Ricardo, e temo que não se limite a “falhar” burocraticamente, como o Macuco, em paz, manso e gordo. Temo que Ricardo falhe às trágicas […]”.

No dia 11 de outubro do ano seguinte, com uma filha recém-falecida e um filho vivo, suicidou-se. A história, uma “tragédia passional” anunciada – como foi, no ano anterior, a de Batista Cepelos (outro escritor do mesmo período) –, é contada em detalhes na edição de 12 de outubro de 1916 do jornal O Paiz:

Suicidou-se, com um tiro na cabeça, o distinto poeta Ricardo Mendes Gonçalves, que, desde os bancos acadêmicos, sempre se distinguira colaborando em grande número de revistas e jornais.
A notícia do suicídio de Mendes Gonçalves causou grande pesar nas nossas rodas intelectuais, onde contava com grande número de amigos e admiradores.
Chegou à polícia central, onde se achava de serviço o Dr. Acácio Nogueira, a nova de que no Hotel Brasil, junto à porteira da Inglesa, no Brás, se dera uma ocorrência sangrenta: Ricardo Mendes Gonçalves, advogado e poeta, muito conhecido em São Paulo, havia posto termo à existência, desfechando contra o peito dois tiros de revólver.
Aquela autoridade imediatamente dirigiu-se para o local, onde verificou que o fato se revestia ainda de mais gravidade, porquanto a amante do suicida apresentava alguns ferimentos. As providências sobre o caso, pois, não se fizeram demorar, de maneira que a enferma era logo removida para a Santa Casa e o cadáver de Ricardo para o necrotério da central, após o competente exame.
A seguir, a autoridade tratou de inteirar-se de todas as circunstâncias que rodearam a cena, coisa que não foi muito difícil, em consequência do conteúdo de três cartas deixadas pelo morto: uma dirigida à sua veneranda progenitora, a outra à mãe da sua companheira, residente na fazenda Monte Alegre, estação de Moema, e a terceira ao seu amigo do peito, Heitor, ao qual conta as razões que o levaram à trágica resolução.
Há cerca de sete anos, mais ou menos, o Dr. Ricardo Gonçalves tomara-se de amores por Consuelo Camargo de Oliveira, esposa divorciada do engenheiro Cássio Villaça, o qual dela se separara em consequência do seu mau procedimento. Desde então, o Dr. Ricardo Gonçalves e Consuelo Camargo passaram a viver amasiados, tendo habitado durante muito tempo uma pequena chácara na cidade de S. José dos Campos.
Pelo que diz o suicida, na sua última carta ao seu amigo Heitor, o trato carinhoso que lhe dispensava a companheira contribuiu para acentuar a convicção que nutria de ver Consuelo regenerada, cujo único desejo era viver na mais completa felicidade em companhia da amante. Isso mesmo Consuelo dizia sempre ao seu apaixonado amante, que nem por sombras julgava possível ter um dia de recriminá-la, por motivo de um mau passo qualquer.
Dia, porém, chegou que Consuelo, induzida pela voz de um outro homem, esqueceu os votos de felicidade que fizera ao companheiro.
Adoecera-lhe a filhinha Marina, sendo chamado um médico, a fim de cuidar da criança. Justamente esse facultativo foi quem levou Consuelo a quebrar a linha de correção que Ricardo até aí fizera seguir sem deslizes.
Prevalecendo-se do tempo e da freqüência das visitas que fazia à pequena enferma, que coincidiam com a ausência de Ricardo, estando esse em viagem, e também do caráter leviano de Consuelo, de que naturalmente ouvira falar, o médico logrou seduzi-la mais uma vez. O mau passo da amante chegou ao conhecimento de Ricardo, que desde então sentiu uma transformação sensível, segundo ele mesmo narra na sua última missiva.
Essa dolorosa ocorrência ainda mais foi agravada porque a ela se sucedeu o falecimento da pequena Marina. Absorveu por completo o pensamento do infeliz amante matar a desleal companheira e suicidar-se. A amante, porém, talvez arrependida da nova queda, continua a mostrar a mesma carinhosa atenção que cercava o companheiro, de sorte que este foi sempre protelando a prática do seu trágico intento: Ricardo, no entanto, não conseguiu jamais libertar-se dessa ideia sangrenta. Assim, procurou, sempre na certeza plena de sua desdita, consumar a tragédia.
Para mais facilmente arrancar a Consuelo a confissão da sua falta, Ricardo enviou, há dias, para a fazenda da mãe de Consuelo, em Santa Rita, o único filho que lhe restara, e foi pra Santos com a amante, hospedando-se na cada do Dr. Heitor Moraes.
Ontem, finalmente, mostrou a Consuelo um telegrama falso, que disse ter recebido de Santa Rica, comunicando estar enfermo o filho. Propôs, então, irem os dois a Santa Rita, vindo para S. Paulo a fim de embarcarem hoje para aquela cidade.
Aqui chegando, Ricardo fez ver à amante o ardil de que havia lançado mão. Assim de chofre interpelada, Consuelo não pôde deixar de confessar a sua falta, dizendo que desde agosto fora seduzida pelo Dr. Margarido Filho, com o qual, somente, aliás, tivera relações por meio de correspondência amorosa.
Foi aí que, chamada a cumprimento do dever pelo amante, ela se prontificou a morrer com ele. Para isso combinaram que Consuelo se cloroformizasse e ele depois a matasse a tiros, suicidando-se em seguida. Ricardo, porém, no momento em que Consuelo escrevia uma carta à sua mãe, antecipou a realização da tragédia, desfechando um tiro na amante e matando-se em seguida.
As declarações de Consuelo foram tomadas pelos Drs. Acácio Nogueira e Francisco Rezende, na Santa Casa da Misericórdia. Resumem-se essas declarações no seguinte: o verdadeiro nome de Consuelo é Maria do Carmo, conta 26 anos de idade e é filha de Francisco Eduardo de Oliveira, já falecido. Os amantes moravam nesta capital, à rua Homem de Melo.
O estado de Maria do Carmo é gravíssimo, pois o projétil alcançou-a no ombro esquerdo, penetrando na cavidade toráxica.
O cadáver do Dr. Ricardo Gonçalves foi reclamado pela família, que lhe fará o enterramento.
Está aberto o inquérito sobre o fato.

O “amigo do peito”, Heitor de Moraes, a quem Ricardo Gonçalves destinara a terceira carta das cartas de suicídio, era cunhado de Monteiro Lobato.

E a “tragédia passional” cinematográfica não acabou por aí: o jornal O Imparcial, do Rio de Janeiro, fervendo pela liberdade de imprensa, noticiou em setembro de 1917 a prisão de um jornalista do Fanfulla, acusado do crime de injúria pelo Dr. Margarido – o médico-amante de correspondência. Meses depois, Angelo Possi, o jornalista responsável pela publicação afrontosa, foi solto por meio de um pedido dehabeas corpus.

Ipês vem reiterar a força poética obstruída desse tempo e completar o quadro dos títulos “caboclistas”, conforme a abordagem de Antonio Celso Ferreira, da literatura paulista do início do século XX. O “grande filão” dessa literatura, como coloca o autor, era mesmo o tópico regionalista, que restabelecia um sentido ao ambiente urbano europeizado da época ao mesmo tempo em que contribuía com a construção de uma tradição e de uma identidade paulista e nacional. O resultado, que pode ser visto em Ipês, era uma relação mais do que ambígua com o “caipira”: múltipla como uma só.

Referências:

BARBOSA, Alaor. Um cenáculo na paulicéia: um estudo sobre Monteiro Lobato, Godofredo Rangel, José Antônio Nogueira, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Albino de CAmargo. Brasília: Projecto Editorial, 2002.

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1975.

FERREIRA, Antonio Celso. A epopéia bandeirante: letrados, instituições, invenção histórica (1870-1940). São Paulo: Editora UNESP, 2002.

O IMPARCIAL. Hemeroteca Digital Brasileira. Biblioteca Nacional Digital Brasil. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital/>.

O PAIZ. Hemeroteca Digital Brasileira. Biblioteca Nacional Digital Brasil. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital/>.