Catálogo de Areia

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 23, 2015. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Catálogo de Areia é um movimento cartográfico de imersão, em Florianópolis – Santa Catarina, que se propõe repensar a cidade através de fotografias e produções textuais. Este projeto é produzido por um coletivo anônimo. O projeto pode ser acessado pelo endereço www.catalogodeareia.wordpress.com ou pelo Facebook https://www.facebook.com/catalogodeareia.

 


 

I

Existe um constante devir nesta muralha de areia
assoviam ventos, desenham-se imagens
o lúdico é o espaço desta solidão.
Finitude infinita
a valsa dos grãos
que relampeja faíscas
nunca acesas.
Se existe tempo aqui é só tempo de luto,
tempo de ilha
sem possibilidade peninsular.
Este exílio
feito de pó
e fósseis de baleia
é um mar invertido
que não engole,
expele,
que não afoga,
petrifica.

III

vasto corpo de areias,
dançam baleias por ares indecisos – quão profundas
são as sedes nossas? que
desvairam moças em vozes espectrais –
teu contínuo acalento.
morrendo te espalhas solto, involto
em cortejos. onde há, estão
tuas palavras pelo tempo incobráveis:
princípio meu.

VIII

gosto de pensar nos sons das coisas, nos monólogos aos berros das copas das árvores. sinto-me natureza quando percebo esse som em mim, esse som que não é sintaxe. sei que converso com a selvageria comedida dos vasos de flores sem sequer ouvir e pronunciar uma palavra. a minha doença se ouve no roncar do peito, no soluçar de uma melancolia secreta. tudo o que escondo, meu corpo confessa. em cada bater de pálpebras, descolar dos lábios, um ideograma. eu não silencio nunca, tagarelo com o meu corpo como se vivesse em luto.