13 poemas em homenagem aos poetas de outubro

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Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 26, 2016. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Em homenagem aos poetas aniversariantes do mês de outubro, Mário de Andrade, Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, a Mafuá preparou uma edição especial, convidando graduandos a expor suas criações.

 


 

POEMAS

3 tempos

Fez o mais conflituoso
Pisou no chão mais liso
E bailarina do vento
Caiu seca
Mole
De tanto riso

Cheirou bálsamos de pedra sabão
Esculturou-se
Complexa,
abstrata e resedá
Riu anexa,
lambeu dentes ensalivados
Queixou-se,
queixo galopando em blá blá blá

Comeu peles e pelos
Do ralo da alma, arrancou cabelos
Esgueirou-se pensamento lapidado,
com água corrente,
coração furado

Marcou a página com livro maior
Acreditou em balão
Viagem borboleta de asa só

Dançou
Bateu joelho na quina
Varal que arrebenta a testa
“Cara-paça”
O cuco ameaça
Tempo Tempo Tempo
Engoliu a menina.

(Vivianne Moureau)

 


 

Homenagem aos poetas marginais

No Utopier a gente bebia
Nicolas Bier, Malttoso,
Chacalate com Cacauso,
Alvinho, Leminschin e
Cesártica.

(Zé Luísque)

 


 

sem pisar
nos teus pés
arrisco
no escuro
desses olhos
um passo
de jazz
.
um sopro
no papel
para assobiar
um beijo
no saxofone
feito
a lápis
.

(Beatriz Tajima Silveira)

 


 

Boa viagem, mis amicos

la estrada
es aberta
la pasage
es libre
los locos
são muitos

Há um caminho que se pasa
bien o mal
como te convén

(Ju Rode)

 


 

Esse teu choro é a alma
que escorre para ser vista,
dizendo: “essa é minha alma”
triste ou feliz, quando choras
desafogas do teu peito
a alma submersa que
não soube nadar direito

(Fabiano Foresti)

 


 

quem sou eu na fila do pão,
quem sou eu ao amanhecer do dia,
levanto,
escovo os dentes
jogo uma água suja no rosto,
cuspo o que engoli
seco.
quem sou eu na fila do pão,
corre, anda, vai
senão o pão esfria.
quem sou eu que sem palavras
espero o desabar das consoantes
sem vogais.
quem sou eu que compro pão
seco,
esfarelado,
amarelo
enferrujado.
quem sou eu cambaleante pelas ruas ao primeiro raiar do sol,
quem sou eu que esqueci o crepuscular e levanto
pela manhã,
o galo canta,
o sol aparece morno e úmido
no ruído que anuncia a manhã,
amanhã será
outro,
vou para fila do pão
não sei quem eu sou
até a rosa
que foi vermelha
amanheceu
na hora de comprar pão.
não choveu
e a coisa não está boa,
quem sou eu na fila do pão.

(Márcia Mendonça)

 


 

Resiliência

costumava esbarrar em pessoas imóveis,
numa fracassada tentativa de jogá-las em minha direção.

mergulhava em águas profundamente invisíveis,
esperando desvendar mistérios num oceano desconhecido.

lia minuciosamente cada rodapé de minhas páginas-cor- pastel,
imaginando um futuro, qual cabia exatamente entre as arestas de minha ideologia incontestável.

julgava romeu por sua tolice, mas nunca desconsiderava o devaneio de julieta, alegando à mim, um
destino já prescrito por william.
proferia os países com gosto onipresente, e planejava até mesmo os passos já dados.

então,
em pouca distância
e não muito imperceptível,
você surgiu.

manso feito mar aberto em temporada invernal;
inocente feito inseto dançando em planta carnívora.

ludibriado, emaranhei meus sentimentos
mais resguardados a suas promessas ancoradas,

que num velejar de dias,
transformaram-se na mais destruidora alteração da superfície marítima..

por todos em que esbarrei,
ganhei e levei até certo ponto,
hematomas que eu mesmo ajudei a provocar,
quais passaram com o tempo.
mas você,
não,
você não me deixou hematomas,
abriste um talho.

a ferida que provocaste foi profundamente dorida,
as horas foram tremendamente cansativas,
a sequidão de meus ossos e a finura de minhas maçãs do rosto
refletiam nos baldes cheios das torcidas de minha roupa de cama.

assim, partiste,
e na ressalva humilhante de um antigo amor,
renunciaste o copo que não terminara de ser bebido,
forçando a mim derramá-lo ao chão,
sugando tudo daquilo que sobrou apenas comigo.

de todas as pessoas imóveis;
de todos os hematomas;
foste a montanha mais difícil de ser movimentada,
entretanto,
continua sendo a cicatriz mais fácil de esconder.

(Jonas Prado)

 


 

Romance a noto com paralelismos

Oh, Noto orgulhoso que outonos precede,
que nimbos oprime e coriscos despede,
soprai belicoso, do sul amoestando:
“Cautela!, cautela!, é o outono a chegar!”

Quem guia nos ares mil nuvens chispando,
Quem rasga de Nix, a ribombos, o manto?
Quem freme nas trevas c’informes fantasmas:
“Cautela!, cautela!, é o outono a chegar!”

Refúgios buscai! Alçai mil choupanas!
Vem Noto gerir uma lida e assi brama:
“São findos, ouvi!, dois longos verões!
Cautela!, cautela!, é o outono a chegar!”

Silentes se quedam, no entanto, os bulcões,
silentes no prélio protelam serões.
Lá fora há só tebras, lá fora o silêncio.
Cautela!, cautela!, é o outono a chegar!

Ouvi:

Cautela!, cautela!, é o outono a chegar!

(Gabriel Esteves)

 


 

Latim vulgar

Tanto clichê
Tanto mais do mesmo
Que esqueci do quanto eu tenho em mim
A febre do luar
Que me contempla
Não sei o que dizer
Quando meu corpo
Não responde
Uma língua dos anjos
Latim vulgar a gritar em mim
Cantos que não sou capaz
Tanto pudor e eu nem sei quem sou

(Barbara Varga)

 


 

Ópio
Sob o nó do tempo,
Sinto, no lasso toque,
Emergir a figura
Do medo.

(Igor S. Livramento)

 


 

Não palavra

A palavra que fala
E quando falta, mais ainda
Mais que cala, mais que minta
A fala da não-palavra

Se não-palavra, não- fala
Se não-fala, não- cala
Se não-cala, não- música
Se não-música, não- poesia
Se não-poesia, não- vida
Se não-vida, não- palavra;

E a língua sem palavra
Da palavra sem língua
A mãe ou a cria
Mas que belo palavrão
No fio da lábia linguista…

(Ernesto da Costa Gama)
insiste o corpo nas asas
a marca da insistência são as plumas escassas
que a derme não sustenta
insiste o corpo em destemporalizar-se
desterritorializar-se
em desdobramentos
tonto
corpo encerrado em si
tomba tropeça e titubeia
tonto
grita o corpo
grita encerrado em si
corta um pedaço de si
desiste das plumas
insiste o corpo na escassez do próprio corpo
a marca da insistência é o homem
que a derme sustenta

(Uína Ailin)

 


 

Plântula

Dias vesanos, noites inquietas.
Escapulário revestido de
suor entorpecido de luxúria.
Fomenta clamor pelo profeta.
Fantasia do corpo cedido
Ninfeta cometa injúria
Libertine-se com esse poeta.
Desafoga o tormento moído.
Inviolada, deita-se lascívia.

(Bianca Franchini)

 


 

Duas almas no cais

São duas almas no cais
Duas gotas de orvalho
Duas flores num só galho
Ensombrecidos ciúmes
Um piscar de vagalumes
Namorando as estrelas
Sonhando um dia tê-las
Em evolar de perfumes

A lua prateando as águas
Golfinhos nadam serenos
O mundo fica pequeno
Pra duas almas unidas
Habitando duas vidas
Dualismo para doutrina
Somente o amor ensina
A missão a ser comprida

Gaivotas voam baixinho
Lânguido vento soprando
A esperança palmilhando
Parecem sons ancestrais
Contemporâneo se faz
Pulsando ondas gigantes
Murmurando aos amantes
São duas almas no cais

Olhar de almas gêmeas
No cais mirante altivo
Internalizado em livros
Segredando as emoções
Magias, sonhos, paixões
Petrificados em corais
São duas almas no cais
Um amor dois corações

Pôr do sol avermelhado
Qual semblante de desejo
Na mescla doce do beijo
O mar revolto em sinais
O vento que vem e vai
O barco ainda distante
Ali sonham dois amantes
São duas almas no cais

(Arlindo Nogueira)

 


 

A chuva

Quem diria
Que um dia
Eu sentiria saudade daquele momento
Noite fria, chuva gelada
E o doce beijo do vento
Quem diria
Que eu iria
Um dia querer voltar atrás
Pele fria, roupa molhada
Tua voz que não me deixa em paz
Quem diria
Que eu seria
Mais uma vítima do tempo
Tu jazias, junto a mim
No mais profundo silencio
Quem diria
Que passaria
E a chuva deixaria saudade
Gotas que escorrem, amores que morrem
Quem me dera chovesse pela eternidade

(Bruno A. Castello)

 


 

Imaginando Cruz e Sousa e Gavita

Nos madrigais teço a ti meus versos,
minha Gavita, de tez de veludo,
teu arcangélico olhar me diz tudo,
estamos nós dois em amor imersos.

Sempre te amarei, minha mulher, Gavita
e estarei contigo, seja aonde for
tal qual perfume de cheirosa flor,
… tal qual o vento, que a pluma levita.

Meu amor, a vida nos foi tão dura…
Não suportaste perder cada herdeiro.
No taciturno silêncio te veio a loucura…

E a ingente peste me exauriu inteiro.
Eu, que te cobria com véus de ternura,
pra excelsa pátria, hoje parto primeiro!

(Edenice Fraga)
digredi de novo
de novo digreções.

milhares de pensamentos
ao mesmo tempo
e tudo se interrompe
quando lembro de ti.

todos os ex-amores aparecem juntos,
em minha mente
e uma fila indiana se forma em minha frente
e tu, infeliz, és o primeiro a cobrar a entrada.

do cupido estúpido,
pedi distância.

disseram-me que o amor era fugaz,
fui olhar no dicionário (on-line)
o que isso queria dizer
mas não tinha exemplo para amor,
então fui consultar os poetas :
amor fugidio,
efêmero.
eureca!

passam-se séculos e ainda dói sofrer por amor,
mas entre Pénelopes e Julietas
acabo como a Cassandra,
só e incompreendida,
porém certa.
Eis a grande questão da humanidade feminina:
escolher pelo tesão e esquecer a razão?
eureca de novo!
fugaz é o tesão da paixão.
o amor fica, assim como a razão.

(Mei.)

 


 

– é uma cigarra sendo estrangulada. a sua voz está sendo arrancada. só restará fala a cigarra solta sirenes sopranos estranhos…

Agora esvaziando-se de tudo que era orgânico esquecendo totalmente de quando cantava que faça que amanheça que um dia novo aconteça

e as noites ainda umedecem ecos medonhos em sonhos com seu corpinho gigante de habilidade trilhava um som de tom de chegada “invado invento um tanto de outra cidade” dançava frevo jazz dançava lambada cansada não havia mais pedaço de melodia amassada num curto canto de queda a cigarra acendeu. num uivo metalizado e metrificado num ato treinado sem culpa não percebeu: acharam suas rimas pobres nunca mais poderá anunciar verão num tom irônico de odes eram proclamados “pega ladrão!”

azul vermelho azul vermelho quero saber de quem rouba mais dinheiro sem roxo sem bagunça sem tom misturado quando grito teu nome tu já és culpado

(Jacqueline Nascimento)

 


 

Feitiço

Não se meta com a bruxa
Que é forte o seu querer
Se lhe dá o coração
Nunca podes devolver

Nunca iludas uma bruxa
Para não se arrepender
Cada lágrima vertida
Guarda um tanto de poder

E se a bruxa for sereia
Tudo pode acontecer
Matá-la de amores na praia
Ou de amores no mar morrer

Vá com calma, marinheiro
Para não enlouquecer
Não se meta com a bruxa
Que é mui forte o seu querer!

(Sarah de Souza)

 


 

Palavras largadas ao acaso,
Em folhas de papel em branco.
Rimas feitas, desfeitas
De uma linha para outra,
Como saltos de poça em poça.
Sentimento que que jorram de fontes inquietas
De certezas incomodantes.
Pensamentos abertos, fechados
Que buscam se entender, se conhecer.
Poema, o confidente dos loucos apaixonados,
Dos revolucionários, dos sedentários,
Dos apartidários, dos revolucionários.
Confidente dos que tem o prazer de dividir
Seus momentos de loucura e lucidez,
Com as poucas linhas que ele tem a oferecer.

(Priscila Pieper Silva)

 


 

Não sei o que sou
Se carne ou se alma
Se tudo ou se nada

Essa ideia de mundo
Já me devorou

(Tiago Kroich)