O De Metris de Terenciano Mauro

Isabela Maia Pereira de Jesus

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 26, 2016. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este artigo?

Sobre os autor(es):

isabelamaiapj@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1062028878272296
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
Faculdade de Ciências e Letras
Departamento de Linguística
Araraquara - São Paulo, Brasil

RESUMO: Este trabalho apresenta um breve comentário acerca dos conceitos métricos colhidos na obra Terentianus de littera, de syllaba, de pedibus, do gramático latino Terenciano Mauro. A partir de uma tradução vernácula de uma passagem do livro De Metris, pretende-se entender melhor a tradição da métrica clássica, bem como as peculiaridades desse autor, a fim de que seja possível observar os mecanismos de composição empregados por poetas latinos. Os versos de autores como Horácio e Catulo são citados e utilizados frequentemente por Terenciano Mauro como exemplos concretos dos metros descritos. Quando demonstra cada metro aplicado em modelos de célebres poetas como esses, o autor os transforma em favor de suas explanações e pontos de vista.

PALAVRAS-CHAVE: Terentianus Maurus. Métrica Latina. Poética Clássica. Tradução.

ABSTRACT: This paper presents a brief comment on metrical concepts taken from the book Terentianus de littera, de syllaba, de pedibus, by the Latin grammarian Terentianus Maurus. Introducing a Portuguese translation from a passage of the book De Metris, this work aims to show not only the tradition of classical metrics, as well as singularities of this author, in order to clarify the composition skills of Latin poets. The verses of poets like Horace and Catulus are usually quoted and used by Terentianus Maurus as concrete examples of describing meters. When the grammarian demonstrates each meter on verses of noted poets, he changes them in favour of his explanations and his own points of view.

KEYWORDS: Terentianus Maurus. Latin Metrics. Classical Poetry. Translation.

 

O poema se nutre da linguagem viva de uma comunidade, de seus mitos, seus sonhos e suas paixões, isto é, suas tendências mais secretas e poderosas. (PAZ, 1982, p. 49-50)

A obra Terentianus de littera, de syllaba, de pedibus, do autor Terenciano Mauro (doravante TM) consiste em um manual técnico que busca apresentar e listar conceitos referentes à poética clássica latina. Esse manual, entre outros de gramáticos antigos, encontra-se no volume VI (Scriptores Artis Metricae) da obra de Heinrich Keil, intitulada Grammatici Latini. Quanto ao autor, pouco se sabe sobre sua biografia. De acordo com Chiara Cignolo (2002, p. XXV), há indícios de ele ter vivido num arco de tempo que cobre um período que vai do século II d. C até o século IV d.C.

Este artigo concentrar-se-á no intervalo de versos de 2351 a 2485, do livro De Metris, segmento em que o manual apresenta ao leitor uma grande variedade de dados, permitindo maior conhecimento e aprofundamento da métrica clássica. Diferentemente de outras obras do gênero, o manual de Terenciano Mauro apresenta a particularidade de ter sido composto em versos latinos, de forma que a obra não revela somente o caráter de instrução próprio do gênero, mas também certo cuidado com o aspecto formal do texto.

Geralmente, o gênero manual técnico é direcionado a um público específico e, por isso, apresenta determinada complexidade em relação ao assunto que aborda, oriunda de pressupostos que o enunciador do discurso supõe sabidos e controlados pelos leitores-destinatários. Nesse caso, TM concentra-se inteiramente sobre a métrica, de modo que apresenta exaustivamente análises de versos pertencentes a cânones da literatura latina. Nota-se também que, em seu texto, o autor organiza os conceitos e as instruções buscando estabelecer um modelo métrico de escrita literária, por meio de exemplos retirados de grandes nomes da literatura.

Quanto à tradução proposta neste trabalho, convém observar que ela procura expressar principalmente o conteúdo dos versos. Diferentemente de uma tradução literária, não se pretende reproduzir aqui a forma metrificada em que está vazado o De Metris. É interessante ressaltar que, até o momento da realização deste estudo, não há tradução vernácula, nem estudos específicos sobre este texto no Brasil. Aliás, existem apenas duas versões em línguas modernas do manual de TM, uma em italiano e outra em francês. A versão traduzida em língua italiana, preparada por Chiara Cignolo (2002) para a Bibliotheca Weidmanniana, contém o texto latino em tradução bilíngue (latim-italiano) e também apresenta uma breve introdução sobre o autor e sobre os textos críticos que apoiam o estabelecimento do texto latino e, por essa razão, é a obra utilizada em cotejo com a tradução vernácula em português que será apresentada neste texto.

Os versos de Terenciano Mauro

No trecho eleito para estudo, observa-se que Terenciano Mauro utiliza-se frequentemente de versos de poetas latinos a fim de ilustrar e demonstrar seus conceitos teóricos. Ele apresenta as possíveis variações dos metros e, geralmente, os transforma para indicar como as mudanças criam seus próprios modelos. Esse é um mecanismo interessante empregado pelo autor – embora não exclusivo dele – para facilitar a compreensão de sua exposição. Ao longo da passagem analisada, TM utiliza um verso de Catulo como o principal modelo contido naquele segmento para a explicação dos demais metros descritos no manual. Trata-se do primeiro verso do Carmen IV: Phaselus ille quem uidetis, hospites1. Este verso é considerado um senário iâmbico perfeito, ou seja, é formado por seis pés iâmbicos (˘ˉ), de tal forma que seu esquema métrico pode ser apresentado assim: Phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdētĭs, hōspĭtēs. Indicando as transformações métricas, Terenciano Mauro reescreve esse metro catuliano como um exemplo ilustrativo para suas explanações métricas. Isso pode ser observado no trecho em que o autor explica os versos septenário iâmbico e octonário trocaico:

Texto Original (2371-2383)
Archilochus autem creticum sicut dedit,
Aeque trimetro iunxit Hipponax pedem
Nouissimum trisyllabum ex prima breui,
longis duabus: antibacch[i]o nomen est.
exemplar eius tale possis fingere,
phaselus ille quem videtis, hospites, Sabinus.’
quadratus ut sit, parte ab ima claudicat:
erit quadratus reddita novissima,
phaselus ille quem videtis, hospites, Sabinus est.’
phaselus ergo quem videtis, hospites, Sabinus’
aeque est et ipse syllabarum quindecim,
ut ille, prima parte qui multatus est;
sed iambicus manebit, unde et natus est.

Tradução de Estudo:
Mas assim como Arquíloco acrescentou o crético,
também Hipônax uniu ao trímetro [iâmbico]
um último pé trissílabo com a primeira [sílaba] breve,
e [seguida de] duas [sílabas] longas: seu nome é “antibáquico”.
Tu poderias criar um exemplo com ele[i], da seguinte forma:
phaselus ille quem uidetis, hospites, Sabinus’.
Para que ele seja um [verso] quadrado, claudica na última parte;
uma vez restituída [a última sílaba], será de novo um quadrado[ii]:
phaselus ille, quem uidetis, hospites, Sabinus est’
phaselus ergo quem uidetis, hospites, Sabinus’
Também esse é igualmente de quinze sílabas,
como aquele [trímetro iâmbico] que foi privado de sua primeira parte,
mas permanecerá iâmbico, [metro] donde se originou.

Nota-se que TM também apresenta explicações sobre as origens da utilização dos metros. Por isso, citou o uso de Hipônax, satírico grego, que é considerado o inventor do tetrâmetro iâmbico catalético[iii] (septenário), que corresponde ao trímetro iâmbico seguido por um pé antibáquico. Desse modo, o autor acrescenta ao verso-base de Catulo um pé antibáquico final (Sābīnŭs), transformando-o em um septenário iâmbico[iv], mas “claudicante”, por conter a mais a sílaba -nŭs, embora esteja prosodicamente neutralizada (porque vem após a última sílaba “forte” do pé iâmbico, que é a longa –bī-): Phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdētĭs, hōspĭtēs, Săbīnŭs. A partir dessa mudança, o autor acrescenta mais uma sílaba final est, formando um octonário trocaico[v] e altera o metro utilizado até então: Phāsĕlūs ĭllē quĕm vīdĕtīs, hŏspītĕs, Săbĭnūs ĕst. Assim, a partir desse último verso, TM apresenta o retorno do septenário iâmbico, pois remove a última sílaba (ĕst) e substitui o pronome ĭllē pela conjunção ērgō ou ērgŏ, porque, segundo Faria (1994, p. 199, s.v. ergo), a partir de Ovídio essa conjunção pode aparecer por vezes com -o- breve. Na versão de TM, é possível observar o esquema do verso da seguinte maneira: Phăsēlŭs ērgŏ quēm vĭdētĭs, hōspĭtēs, Săbīnŭs. TM afirma ser iâmbico esse verso, pois mantém-se com o metro do verso original.

O autor procura evidenciar assim o caminho percorrido entre o verso original e suas transformações, e aponta as variações métricas dos modelos na ordem de exposição, a fim de apresentar um resumo esquemático das alterações, que podem ser resumidas desta forma:

Phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdētĭs, hōspĭtēs. Senário iâmbico
Phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdētĭs, hōspĭtēs, Sābīnŭs. Septenário iâmbico
Phāsĕlūs ĭllē quĕm vīdĕtīs, hŏspītĕs, Sābĭnūs ĕst. Octonário trocaico
Phăsēlŭs ērgŏ quēm vĭdētĭs, hōspĭtēs, Sābīnŭs. Septenário iâmbico

Portanto, a técnica expositiva dos diferentes tipos de metro usada por TM dá-se, em geral, em forjar exemplos próprios, a partir de versos consagrados do cânone literário da poesia latina. Tal expediente é um recurso didático característico de um manual técnico. Na sequência da passagem traduzida para este texto, TM continua sua explanação métrica apresentando a explicação dos trímetros acéfalos, além de expor a procedência desses versos:

Texto Original (2419 – 2426):
Sed et trimetrus, ut quadratus, hic potest
acephalos esse, prima quando demitur,
fierique primus pes et istic creticus.
Nam sicut ille redditur trochaicus,
sic versus ante qui videtur integer,
adest celer phaselus ille quem vides’,
cum demo primam, quod relinquo tale fit,
est celer phaselus ille quem vides’.

Tradução de Estudo:
Mas, como o quadrado[vi], também esse trímetro [iâmbico] pode
ser acéfalo, quando se elimina a primeira [sílaba],
e também nessa posição o primeiro pé pode tornar-se um crético[vii].
Pois, do mesmo modo que aquele [quadrado] se torna trocaico,
assim também aquele verso que, antes e completo, tem este aspecto:
‘adest celer phaselus ille quem vides’[viii];
quando elimino a primeira [sílaba], o que deixo fica assim:
‘est celer phaselus ille quem vides’[ix].

No trecho acima, encontram-se muitos conceitos que já tinham sido abordados em outras passagens do manual de TM. Observa-se que Terenciano Mauro explica o trímetro iâmbico acéfalo[x] aproveitando a demonstração do tetrâmetro iâmbico[xi] acéfalo, mencionado anteriormente a partir do verso 2280 do manual. Desse modo, entende-se que o tetrâmetro iâmbico acéfalo é constituído por um pé crético (ˉ˘ˉ) seguido de um trímetro iâmbico (˘ ˉ ˘ ˉ ˘ ˉ ˘ˉ ˘ ˉ ˘ ˉ), enquanto o trímetro iâmbico acéfalo é formado por um dímetro iâmbico precedido por um crético. É por esse motivo que o autor latino compara o tetrâmetro (quadratus) com o trímetro. De acordo com Chiara Cignolo (2002, p. 540), todos os metros trocaicos cataléticos são considerados forma acéfala do metro iâmbico, assegurando que de fato o tetrâmetro é constituído pela adição de um crético inicial ao trímetro iâmbico.

Assim, TM apresenta a composição do trímetro trocaico catalético, a partir de um trímetro iâmbico. Para ilustrar esse mecanismo, o esticólogo recorre mais uma vez ao exemplo do poema IV de Catulo. Primeiramente, transforma-o em um trímetro iâmbico: ădēst cĕlēr phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdēs. Logo após, elimina a sílaba inicial ăd-, fazendo derivar assim o trímetro trocaico catalético: ēst cĕlēr phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdēs. No verso 2422, ao mencionar que o trímetro se torna trocaico, refere-se ao modo como o pé crético (ˉ˘ˉ) pode ser dividido em um troqueu (ˉ˘) e uma sílaba longa, fazendo com que o verso possa ser analisado dessa maneira. Além da menção ao verso introduzido pelo poeta grego Hipônax (v. 2372), Terenciano Mauro também lembra o trímetro iâmbico catalético de Arquíloco de Paros[xii]:

Texto Original (2428-2432):
Archilochus idem est usus et tali metro.
Vicissim et ille qui quadratus claudicat
et in trimetro, claudicare sic potest,
phaselus ille quem vides Sabinus est’:
phaselus ille quem vides Sabinus’. 

Tradução de Estudo:
Também Arquíloco fez uso igualmente de tal metro[xiii].
Por sua vez, tanto aquele [verso] que é quadrado[xiv] mas claudica
também [o que tem forma] de trímetro pode claudicar assim:
phaselus ille quem vides Sabinus est’[xv]:
phaselus ille quem vides Sabinus’[xvi].

Nessa passagem, explicita-se por meio de exemplos anteriores como aquele metro aparece nas obras do poeta grego Arquíloco. O primeiro é um tetrâmetro iâmbico acéfalo composto a partir do tetrâmetro iâmbico, citado anteriormente no verso 2376 (phaselus ille quem videtis, hospites, Sabinus). Porém, este não apresenta a sílaba –tĭs de videtis nem a palavra hōspĭtēs, e acrescenta a sílaba final est. Desse modo, sua escansão é esta: Phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdēs Săbīnŭs ēst. Observa-se que, por ser um verso acéfalo, ele não apresenta a parte antibáquica final (Săbīnŭs), correspondendo, portanto, somente ao trímetro iâmbico.

A partir desse exemplo, TM apresenta como deverá ficar o trímetro catalético que deseja representar; o que se obtém, no exemplo do trecho aqui reproduzido, pela eliminação da sílaba final (est). É interessante notar que o modo como os modelos métricos são apresentados ao leitor evidencia a diferença entre os versos, já que são alocados um após o outro. Após mostrar e, até certo ponto, desmontar o trímetro, o autor parte para a explicação do dímetro iâmbico e seus usos:

Texto Original (2439-2445):
Nec non dimetrus ex trimetro redditur,
quacumque partem tertiam si detrahas;
stabitque versus octo tantum syllabis,
nisi quando sumet dactylum aut contrarium,
locove iambi qui probatur tribrachys;
talisque versus hic erit,
phaselus ille quem vides. 

Tradução de Estudo:
E de um trímetro [iâmbico] produz-se um dímetro [iâmbico],
se subtraíres a terceira parte de qualquer ponto [que queiras],
e o verso ficará com apenas oito sílabas,
a não ser que ele receba um dátilo ou seu contrário [anapesto],
ou um tríbraco, que é aceito em lugar do iambo;
e esse verso ficará assim:
phaselus ille quem vides[xvii]’.

Nessa passagem, TM cita mais variações possíveis da última sílaba do metro iâmbico puro. É interessante notar que o autor não especifica claramente a que dímetro e trímetro ele se refere em sua explicação. Dessa forma, Terenciano Mauro exige do leitor o esforço ou de reter perfeitamente a matéria específica de que ele trata em cada passagem ou de voltar aos pontos chave do texto em que se encontra claramente a referência à matéria tratada, já que, como ocorre na passagem analisada, a definição de metros e conjuntos de metros não se encontra no período imediatamente anterior. Nesse caso, entende-se que os conceitos devam referir-se ao dímetro e trímetro iâmbicos, pois, como já se mencionou anteriormente, o esticólogo baseia-se em um exemplo de senário iâmbico perfeito, de onde extrai conclusões a partir de transformações sobre ele praticadas com esse fim.

TM também afirma que o dímetro iâmbico se transforma a partir do trímetro, composto anteriormente no verso 2431 (Phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdēs Săbīnŭs ēst). Dessa forma, se for subtraído o terceiro pé de qualquer lugar do verso, ele ficará com dois apenas. Mas os versos terão oito sílabas se forem constituídos por um iambo ou espondeu, exceto quando o iambo for substituído por um dátilo[xviii], anapesto[xix] ou um tríbraco[xx]. Portanto, pode-se concluir que esta é a escansão do verso: Phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdēs.

Nos versos seguintes, TM continua a expor mais usos do dímetro, citando grandes poetas da literatura clássica, característica comum e muito recorrente em obras do gênero manual técnico.

Texto Original (2446-2454):
Plerumque nec carmen modo,
Sed et volumen explicat,
ut pridem Avitus Alfius
libros poeta plusculos,
usus dimetro perpeti
conscribit ‘Exellentium’.
Tales trimetris subdidit Flaccus suis,
ut carmina ostendunt decem,
ibis liburnis inter alta navium,
amice, propugnacula’.

Tradução de Estudo:
Geralmente isso abarca não somente um poema
mas também toda uma obra,
como há algum tempo o poeta Álfio Avito[xxi],
que escreveu diversos livros
[sob o titulo] ‘Exellentium’[xxii],
usando o dímetro continuamente,
[Horácio] Flaco[xxiii] os colocou após seus trímetros,
como mostram dez poemas [seus]:
ibis liburnis inter alta navium,
amice, propugnacula[xxiv]’.

Segundo Terenciano Mauro, os poetas Álfio Avito e Horácio Flaco compuseram seus poemas em séries contínuas de dímetros iâmbicos. Porém, Avito, diferentemente de Horácio, não compõe apenas poemas, mas um livro inteiro em dímetros, de modo a tornar-se inovador nessa modalidade através da obra Exellentium, sobre a qual TM não apresenta detalhes nem fragmentos. De acordo com o autor, em seus dez poemas dos Epodos, Horácio Flaco alterna dímetros e trímetros iâmbicos. Esse aspecto é exemplificado por meio dos dois primeiros versos do Epodo I, em que Horácio apresenta o trímetro ĭbīs lĭbūrnīs īntĕr āltă nāvĭŭm[xxv] antes do dímetro ămīcĕ, prōpūgnācŭlă. Com esse exemplo, é possível entender o motivo que levou o estudioso latino a afirmar que Flaco coloca dímetros logo após seus trímetros: Tales trimetris subdidit Flaccus suis.

TM ilustra assim a forma que parece ser a de um epodo[xxvi], de acordo com o modelo de Arquíloco, nas obras de Horácio, sem perder de vista a transformação de trímetros em dímetros, como já havia apresentado com os metros dos poemas de Catulo. É, portanto, possível perceber a tradição desses metros e o modo como os versificadores e poetas a recriam.

Texto Original (2456-2469):
Archilocus isto saevit iratus metro
contra Lycambam et filias.
Et hic dimetrus non minus
ut ille acephalus esse vel claudus potest:
adest celer phaselus est’:
cum prima dempta est, redditur
est celer phaselus est’,
at cum suprema, claudicat
adest celer phaselus’.
Flaccus priorem sic dedit,
esset ut versus prior
est celer phaselus est’,
post hunc venire talis hic epodus
phaselus ille quem vides Sabinus’.

Tradução de Estudo
Irado, Arquíloco enraiveceu-se nesse metro
contra Licambes e suas filhas. [xxvii]
E também esse dímetro, assim como aquele anterior[xxviii],
pode ser ou coxo ou acéfalo:
adest celer phaselus est’;
quando se elimina a primeira [sílaba], torna-se:
est celer phaselus est’,
mas, quando [se elimina] a última [sílaba], ele claudica:
adest celer phaselus’.
Horácio Flaco apresentou dessa forma o primeiro [dímetro],
de forma que esse verso fosse o primeiro:
est celer phaselus est’,
[para que] viesse depois dele um epodo assim:
phaselus ille quem vides Sabinus’.

Nota-se que o autor apresenta o dímetro acéfalo e catalético utilizados, não apenas por Arquíloco, mas também por Horácio Flaco no poema 18 do segundo livro das Odes. Nesse trecho, TM não explicita os versos de Horácio, mas repete o exemplo do Carmen IV de Catulo, utilizado como base ao longo de suas explanações. Primeiramente, apresenta o dímetro iâmbico ădēst cĕlēr phăsēlŭs ēst. Logo após, dá início a suas transformações, tal como fez na explicação acerca do trímetro iâmbico. Para demonstrar o dímetro iâmbico acéfalo, elimina a primeira sílaba ăd-, de modo que o verso fica assim: ēst cĕlēr phăsēlŭs ēst. Em seguida, com a eliminação da última sílaba ēst, transforma o verso em um dímetro iâmbico catalético: ădēst cĕlēr phăsēlŭs.

No momento em que compara seus exemplos aos de Horácio, é interessante notar que ele apenas compara a forma dos versos, já que mantém o conteúdo de seus modelos transformados. TM menciona que somente em um poema, Horácio alternou um dímetro trocaico catalético – exemplificado pelo verso ēst cĕlēr phăsēlŭs ēst – com um trímetro iâmbico catalético – exemplificado por phăsēlŭs īllĕ quēm vĭdēs Săbīnūs.

Somente mais adiante o autor mencionará os versos horacianos que foram comparados a seus modelos pela semelhança da forma:

Texto Original (v. 2470 –2485)
Sunt tales hoc uno in carmine,
ad usque finem permanent compares epodi,
‘non ebur neque aureum
mea renidet in domo lacunar’[xxix].
non ebur pes creticus:
longa nam fit tertia
consonante ex altera.
neque aureum prima ex trimetro portio est.
mea renidet in domo dimetrus est,
quod ut Sabinus claudicat lacunar.
pedem hinc iambum duplicem
mea reni si dempseris, relinquitur
det in domo lacunar:
adest celer phaselus.
et condere inde carmen
multi solent poetae. 

Tradução de Estudo
[Tais versos] são assim somente nesse poema[xxx],
e epodos semelhantes permanecem até o final,
non ebur neque aureum
mea renidet in domo lacunar’[xxxi].
non ebur’, é um pé crético:
pois a terceira [sílaba] torna-se longa
a partir da consoante seguinte.
neque aureum’ é a primeira parte de um trímetro [iâmbico].
mea renidet in domo’ é um dímetro [iâmbico],
porque, assim como ‘Sabinus’, ‘lacunar’ também claudica.
Se tu tirares daqui o duplo pé iâmbico
mea reni’ [do trímetro iâmbico catalético], resta
det in domo lacunar’,
adest celer phaselus’[xxxii].
E a construir assim um poema
muitos poetas estão habituados.

Tais versos seriam os dois primeiros do poema 18 de Horácio: non ebur neque aureum / mea renidet in domo lacunar. O primeiro verso é um dímetro acéfalo e o outro um trímetro iâmbico, semelhante ao catuliano: phaselus ille quem vides Sabinus. TM inicia uma decomposição do verso, a fim de demonstrar de uma forma minuciosa aquilo que explicou anteriormente. Assim, o autor informa que non ebur é um pé crético (ˉ˘ˉ), já que a consoante que vem após a segunda sílaba de ebur (ou seja, o n– de neque) alonga-a (-būr). Desse modo, subdivide o dímetro acéfalo em um pé crético (nōn ĕbūr) e uma primeira parte de um trímetro iâmbico (nĕquē ăurēum), ao mesmo tempo em que apresenta o trímetro subdividido em um dímetro iâmbico (mĕā rĕnīdĕt īn dŏmō) e um antibáquico (lācūnăr) que, assim como o último pé (Sabinus) do verso de Catulo, claudica. De acordo com Cignolo (2002, p. 545), nessa ode alterna-se o dímetro trocaico catalético com o trímetro iâmbico catalético.

TM prossegue sua explicação ainda comparando o verso horaciano ao modelo utilizado por ele mesmo ao longo de sua obra. Nesse momento, ao eliminar as sílabas mea reni, o que permanece – dĕt īn dŏmō lācūnăr – o autor produz uma forma semelhante ao verso catuliano já utilizado anteriormente: ădēst cĕlēr phăsēlŭs, mencionando novamente o dímetro iâmbico catalético, exposto primeiramente nos versos 2463-64.

Considerações Finais

É possível observar que os trechos da obra de Terenciano Mauro, aqui traduzidos e brevemente comentados e analisados, apresentam uma certa trajetória nos exemplos fornecidos que, por meio de combinações e transformações, buscam apresentar o uso dos mais variados metros e versos recorrentes em muitos poetas. O autor demonstra a aplicação dos metros com seus exemplos elucidativos que, como se pode notar no percurso do texto, geralmente resgatam o modelo central, no presente caso, o verso do IV poema de Catulo: Phaselus ille quem uidetis, hospites.

Desse modo, TM torna mais concreto e identificável o conceito de derivação métrica corrente a partir de certo momento na tradição da Poética clássica latina, além de reafirmar a importância dos cânones de seu tempo. Ademais, ressalta-se que os instrumentos e as técnicas apresentados pelo gramático, ao lado dos demais elementos da poesia, fornecem elementos adicionais e instigantes para fomentar análises mais profundas das obras dos poetas mais respeitados.

Referências

BOLDRINI, S. La prosodia e la metrica dei romani. Roma: Carocci, 2002.

CARDOSO, Z. A. A Literatura Latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 

CIGNOLO, C. Terentiani Mauri de litteris, de syllabis, de metris. A cura de Chiara Cignolo. Hildesheim/Zürich/New York: Georg OlmsVerlag, 2002.

CRUSIUS, F. Iniciación em la Métrica Latina. Barcelona: Casa editorial Bosch, 1951.

FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar Latino Português. Rio de Janeiro: FAE, 1994.

HARVEY, P. Dicionário Oxford de Literatura Clássica. Trad. Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

KEIL, H. (KEILII, H). Grammatici Latini: Scriptores Artis Metricae. Leipzig: Georg Olms Verlagsbuchhandlung, 1961, v. 6.

NETO, J. A. O. O Livro de Catulo. São Paulo: Edusp, 1996.

PAZ, O. O arco e a lira. Tradução de Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

SALVATORE, A. Prosódia e métrica latina: Storia dei metri e dela prosa métrica. Roma: Jouvence, 1983.

Data de envio: 21 de agosto de 2016.

 

[i] Refere-se ao antibáquico, pé de cinco tempos, formado por duas sílabas longas e uma breve (ˉ ˉ ˘), segundo Salvatore (1983, p. 34). Esse pé também pode ser chamado palimbáquio.

[ii] “Verso quadrado” corresponde a um verso formado por oito iambos e, por ser composto somente por estes pés, possui 16 sílabas. Este verso pode ser nomeado também como octonário iâmbico.

[iii] “Catalético” significa que o verso é manco, em que não se verifica uma parte do metro.

[iv] Verso composto por sete pés iâmbicos, de acordo com Crusius (1951, p. 129).

[v] Verso formado por oito pés troqueus (ˉ ˘), podendo ser entendido como uma composição de dois tetrâmetros trocaicos, de acordo com Boldrini (2002, p. 134).

[vi] Segundo Chiara Cignolo (2002, p. 531), o adjetivo quadratus refere-se à extensão de um verso. Pode ser um tetrâmetro ou octonário iâmbico. Nesse caso, o termo alude ao tetrâmetro.

[vii] Pé composto por uma sílaba breve entre duas longas (ˉ ˘ ˉ), de acordo com Crusius (1951, p. 40).

[viii] “Aqui está aquele barquinho veloz que tu vês”.

[ix] “É veloz aquele barquinho que tu vês”.

[x] Com a primeira sílaba eliminada, conforme se explica no próprio excerto aqui transcrito. Ademais, segundo Terenciano Mauro, esse metro foi invenção de Arquíloco, poeta grego de Paros.

[xi] Verso composto de quatro pés métricos iâmbicos, de acordo com Crusius (1951, p. 76).

[xii] Poeta grego que, segundo Harvey (1998, p. 58), provavelmente é do século VII a.C.

[xiii] Trímetro iâmbico catalético.

[xiv] Tetrâmetro acéfalo.

[xv] “Aquele barquinho que tu vês é Sabino”.

[xvi] “Aquele barquinho Sabino que tu vês”.

[xvii] “Aquele barquinho que tu vês”.

[xviii] Pé métrico composto por uma sílaba longa e duas breves (ˉ ˘ ˘), segundo Crusius (1951, p. 40).

[xix] Pé métrico composto por duas sílabas breves e uma longa (˘ ˘ ˉ), segundo Crusius (1951, p. 40).

[xx] Pé composto por três sílabas breves (˘ ˘ ˘) (SALVATORE,1983, p. 34).

[xxi] Poeta latino que, segundo Cignolo (2002, p. 544), pode ser contemporâneo de Terenciano Mauro (séc. II d.C.).

[xxii] “Dos Excelentes”.

[xxiii] Quintus Horatius Flaccus (65-8 a.C.), poeta romano reconhecido por sua maestria em compor os mais variados tipos de metros, compôs livros como o das Odes (obra agrupada em quatro livros) e dos Epodos (conjunto de dezessete poemas). Em relação às Odes, segundo Cardoso (2003, p. 66), Horácio tencionou apresentar ao Lácio os metros eólicos, apesar de Catulo já ter utilizado esses metros anteriormente. No que se refere aos Epodos, de acordo com Cardoso (2003, p. 93), são uma das primeiras obras do poeta e são poemas com aspectos satíricos. Quanto à sua estrutura, são formados por um trímetro e um dímetro iâmbicos.

[xxiv] “Amigo, irás em liburnas entre as altas torres dos navios”. (HORÁCIO, Epodos, I, 1-2). Obs.: liburna é um barco veloz, que recebe esse nome por ser utilizado pelos habitantes da Libúrnia.

[xxv] De acordo com Boldrini (2002, p. 118), os metros iâmbicos admitem substituições no primeiro, quinto e nono elemento do verso, sendo que a última sílaba sempre é “ancípite”, ou seja, pode ser longa ou breve.  O esquema pode ser apresentado assim: X ¯ ˘ ¯ X ¯ ˘ ¯ X ¯ ˘ X (“X” representa a possibilidade de variação entre sílabas breves ou longas). Por esse motivo, convém notar que no verso ĭbīs lĭbūrnīs īntĕr āltă nāvĭŭm, as sílabas longas seguidas em –nīs īn- e as breves em –vĭŭm- podem ser justificadas pela posição.

[xxvi] Segundo Crusius, um epodo iâmbico é a união de um trímetro com um dímetro iâmbico (1951, p. 102), exatamente o que se vê nos Epodos de Horácio.

[xxvii] É interessante notar que os versos 2456 e 2457 mencionam o poema 6 dos Epodos horacianos, em que o tebano Licambes recusa a mão de sua filha a Arquíloco. Indignado, o poeta de Paros escreve versos tão violentos e mordazes contra o pai e a filha, que ambos se enforcam. Por tal razão, o trímetro iâmbico é considerado violento, de acordo com Chiara Cignolo (2002, p. 544).

[xxviii] Refere-se ao trímetro iâmbico explicado anteriormente.

[xxix] HORÁCIO, Odes, II,1-2.

[xxx] Isto é, na Ode II.18 de Horácio, de que TM estava tratando nos versos anteriores.

[xxxi] “Nem marfim nem teto áureo/ rebrilham em minha casa.”

[xxxii] “Aqui está o barquinho veloz”.