Reflexões sobre temas comuns nos contos Svevianos “Il malocchio”, “Lo specifico del dottor Menghi” e “La madre”

Willian Denilson Bimbatti Xavier

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 25, 2016. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Willian Denilson Bimbatti Xavier
willroxas@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/6463515650655106
Universidade Estadual Paulista
Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas
Departamento de Letras Modernas
São José do Rio Preto – São Paulo, Brasil

RESUMO: O presente artigo propõe reflexões sobre os temas presentes em contos do autor italiano Italo Svevo, pseudônimo de Ettore Schmitz (Itália, 1861-1928), e sobre como esses temas influenciam no desenrolar da narrativa e dialogam com outras obras do autor. O corpus estudado é composto pelos contos “Il malocchio”, “Lo specifico del dottor Menghi” e “La madre” em sua relação com conceitos propostos por teóricos que estudam os modos e temas, como Claar (1986), Marasco (2007), Cepach (2008) e Accerboni (2008). O método adotado foi o fenomenológico-hermenêutico, visto que os textos de Svevo são abordados como fenômenos da expressão literária. As figuras da mãe e do médico foram analisadas nas obras inter-relacionando-se com os temas comuns às narrativas svevianas e com as abordagens de estudos literários. Os temas das narrativas svevianas desempenham papel crucial para a análise das obras do autor. Os temas da morte, da doença e a da velhice foram compreendidos através de estudiosos como Claar (1986) e analisados em cada obra. As figuras da mãe e do médico, personagens quase sempre presentes nas narrativas de Italo Svevo, foram essenciais para a pesquisa, uma vez que suas ações determinam o rumo dos personagens e o ambiente à volta. O contraste dos temas se dá em cada detalhe da ação, na qual existe uma espécie de previsibilidade, levando a reflexões sobre a própria personalidade. Os resultados obtidos estiveram de acordo com a proposta inicial, que foi estabelecer uma inter-relação dos temas abordados por Italo Svevo com as suas obras de maneira a melhor compreender o estilo do autor e quais as influências que projeta na Literatura Italiana do século XX.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Italiana; Italo Svevo; Doença; Temas; Conto.

ABSTRACT: This article presents considerations about the themes present in short stories of the italian author Italo Svevo, pseudonym of Ettore Schmitz (Italy, 1861-1928), and how these themes influence in the unroll of the narrative and dialogue with other works from the author. The corpus studied are the short stories “Il malocchio“, “Lo specifico del dottor Menghi” and “La madre“, in their connection with the concepts studied by theorists that researches the themes, such as Claar (1978), Marasco (2007), Cepach (2008) and Accerboni (2008). The hermeneutic phenomenological research method was used, since the texts of Svevo are approached as phenomenon of the literary expression. The pictures of the mother and of the doctor were analyzed in the works, interrelatinig themselves with the common themes to the svevian narratives and with the approaches of literary studies. The themes of the svevian narratives have an important role in the analysis among the works of the author. Themes such as death, disease and old age were comprehended through theoretics such as Claar (1986) and analyzed in each work. The pictures of the mother and of the doctor, in characters always present in the narratives of Italo Svevo were essential to the research, since their actions determine the fate of the characters and the environment as well. The contrast of the themes can be observed in each detail of the action, in which exists a kind of predictability, leading to considerations on their own personality. The final results were in accordance with the initial proposal, that was to stablish an interrelation with the themes approached by Italo Svevo with his works, in order to comprehend the author’s style and which influences it projects in the Italian Literature of the 20th century.

KEYWORDS: Italian Literature; Italo Svevo; Disease; Themes; Short Narrative.

 

Tanto nos contos quanto nos romances svevianos, pode-se notar a recorrência de alguns temas específicos, enfocados pelo autor no desenrolar do enredo de suas histórias ou mesmo para fazer algum tipo de crítica. Neste artigo, abordarei quais são esses temas principais e qual a relação deles com o autor e suas obras, visto que muitas vezes interferem na compreensão dos modos Fantástico e Maravilhoso por parte do leitor.

Ao meu ver, existe uma espécie de padrão por parte do autor italiano, nascido em Trieste, em 1861, e morto em Motta di Livenza, em 1928, ao estabelecer seus personagens em um enredo envolvido em um tema específico, como veremos adiante.

Micaela Pretolani Claar (1986), em sua obra intitulada Guida alla lettura di Svevo, faz algumas considerações a respeito das relações que se estabelecem entre as obras de Italo Svevo e os temas trazidos por ele:

Qualcuno ha parlato in proposito di una “filosofia” sveviana, ora per esaltarla, ora – e più spesso – per trarne spunto per limitare il valore dell’opera dello scrittore triestino in quanto opera “di idee”, ma quella di Svevo è più che una filosofia, come si è visto, è una rielaborazione personale, di origine spesso reattiva, di alcune tra le più significative e importanti corrente di pensiero dell’Ottocento e del primo Novecento […]. (CLAAR, 1986, p. 112)[1]

Pode-se acentuar então, com esse pequeno trecho de Claar, que os temas que denotam uma espécie de filosofia contida nas obras de Italo Svevo não possuem apenas uma função simbólica, ou uma função que embase determinado enredo. É como se fosse um personagem principal, vívido, ativo, sem o qual a história não aconteceria ou, caso acontecesse, não teria a expressividade que possui.

Alguns dos temas recorrentes nos contos aqui analisados são o da doença e o da morte. Riccardo Cepach (2008), no ensaio presente na obra Guarire dalla cura, declara que a doença é conhecida pela crítica como uma das grandes temáticas da narrativa sveviana. Um bom exemplo dessa força é a obra-prima de Svevo, La coscienza di Zeno (A consciência de Zeno), que traz uma variedade de temas que são abordados a cada capítulo, mas que, desde o início até o final, enfoca também o tema da doença que pede a cura ou leva à morte.

O enredo de seu último e mais famoso romance, A consciência de Zeno, cujo título já descortina a possibilidade de ligação com a Psicanálise, é o seguinte: o narrador protagonista, Zeno, resolve escrever uma espécie de autobiografia a pedido de seu psicanalista, Dr. S. No entanto, o paciente abandona o tratamento e seu médico publica suas confissões, nas quais Zeno mostra-se, desde o início de sua existência, um “doente” psicológico, pois nunca conseguiu realizar seus projetos, a começar pelo primeiro de todos: parar de fumar – motivo que o leva a buscar a cura por diversas formas, até terminar num psicanalista. O fumo vai transformando-se, lentamente, no símbolo de sua neurose, de sua vida insatisfatória, de sua introspecção e ironia.

Depois da morte do pai, que lhe deixou um patrimônio considerável, pela primeira vez ele se vê sozinho diante dos deveres e seriedades da vida. Porém, o próprio pai já havia encarregado o contador Olivi de administrar os bens, acreditando na inépcia do filho para os negócios. Zeno, então, conhece um rico comerciante que possui quatro filhas. Corteja duas delas – Ada e Alberta, as mais bonitas –, mas é rejeitado e termina por desposar a outra em idade de casamento, a mais feia, sem amá-la. Da mesma forma como se casou para reagir ao tédio, para fugir dele, lança-se numa relação extraconjugal com Carla, uma jovem cantora, até que ela o deixa para se casar com o professor de canto. Zeno decide participar das atividades comerciais do cunhado, seu antigo rival Guido, o qual parece encarnar a própria imagem do sucesso e da sorte. Entretanto, Guido morre, por engano, ao fingir suicidar-se, depois de haver falido nos negócios.

O romance encerra-se frente à Primeira Guerra Mundial, com uma série de anotações de diário: Zeno enriquece com os tráficos de guerra e descobre, afinal, que não está mais doente, que a doença, assim como a saúde, é apenas uma convicção, e que não existe a necessidade de Psicanálise, pois, na sociedade moderna, todos são doentes. A vida está contaminada nas raízes, e Zeno conclui seus escritos, a fim de enviá-los ao psicanalista, com uma profecia apocalíptica sobre a destruição da humanidade: a eliminação total da doença somente advirá com o fim do mundo. Tal reflexão sobre a principal narrativa de Italo Svevo se faz necessária, uma vez que nela são espelhadas outras comparações que permitem entender como funciona o universo narrativo sveviano.

De acordo com Alberto Cavaglion (2008), não muito tempo atrás, os temas saúde e doença, nas narrativas de Svevo, seguiam dois princípios básicos: o primeiro era o existencialista, a doença do ser; e o segundo era o político-sociológico, a neurose psíquica como sintoma da decadência moral de uma classe, a burguesia triestina. Não se sabe ao certo de qual doença se fala, qual médico é consultado nem qual corrente é seguida, uma vez que isso varia de obra para obra, mas se sabe que é na maioria das vezes a doença do eu, do interior psicológico que se funde com os sentimentos e sensações vividos em grande parte elo personagem principal e influenciados pelos personagens secundários.

Seguindo o princípio existencialista, no qual a doença do eu vem para um primeiro plano na narrativa, Italo Svevo compõe a maior parte de seus personagens. É uma estratégia muito utilizada pelo autor para, além de desenvolver no enredo uma infinita rede de possibilidades para os personagens, criar no leitor uma espécie de identificação pessoal, na qual o leitor assume para si a mesma posição do protagonista, caso se identifique com algo que acontece com ela. Um exemplo que envolve essa acepção é o do personagem Vincenzo Albagi no conto “Il malocchio”.

Vincenzo, ao desenvolver o que chamo de mau-olhado, cria em si mesmo a ideia de que está doente. Porém, no desenrolar da narrativa, é oferecido ao leitor um desafio: essa doença diz respeito ao mau-olhado que cria acidentes com as outras pessoas ou é a doença do eu, a doença do psicológico, que afeta o personagem principal? A seguinte passagem: “La povera coscienza di Vincenzo era ancora agitata da tale delitto che l’altro suo ‘io’ aveva commesso […].” (SVEVO, 1991, p. 702),[2] demonstra bem essa dualidade entre o conflito provocado pela doença do eu, que refere-se à consciência do personagem, e o conflito entre a doença física, que acometia os seus olhos. Isso pode refletir na recepção do leitor sobre o modo Fantástico, que também é analisado pelas sensações vividas pelos personagens. Tomando-se como base Vincenzo, um personagem cujos pensamentos interferem na possibilidade da existência dos poderes malignos de seus olhos, que causaram muitos desastres no decorrer da história, pode-se afirmar que o tema da doença na narrativa sveviana é um fator muito importante quando se fala nos modos Fantástico e Maravilhoso.

Há, também, ainda no conto “Il malocchio”, o tema da doença no que diz respeito à mãe de Vincenzo. Em determinado momento do conto, quando Vincenzo chega a ponto de não saber controlar os próprios olhos malignos, entra em conflito com a mãe. A velha senhora, que fora sempre benevolente com ele e sempre o apoiara em todas as decisões da vida – como a desistência da escola e o ingresso na carreira militar, além do engajamento na vida política –, já estava cansada pelo fato de o filho ainda não ter encontrado um futuro na vida.

Em uma discussão que também envolveu a nora, a mãe de Vincenzo disse ao filho tudo o que pensava, saindo do quarto logo em seguida. Pouco tempo depois, o filho a encontra caída no chão, imóvel e inconsciente:

Non potè mai più parlare con lei. Poche ore dopo la vecchia era stata trovata priva di sensi al suolo. Quando Vincenzo la rivide, la trovò che l’avevano già coricata; supina, immobile pareva presa da un sonno pesante dal respiro regolare ma rumoroso. Il padre gli raccontò che l’aveva vista al ritorno dalla visita alla nuora. A lui era sembrato che stesse bene. Quando era ritornato l’aveva trovata giacente sul tapeto, proprio così come ora giaceva in letto e con lo stesso respiro forte e regolare. (SVEVO, 1991, p. 700)[3]

A passagem acima ilustra o início da doença da mãe, que foi supostamente causada pelo mau-olhado de Vincenzo. Diz-se “supostamente” pois não há provas concretas de que Vincenzo fora realmente o culpado, bem como o enunciador não deixa isso claro, é uma das estratégias utilizadas no texto que mantém uma certa atmosfera de dúvida na narrativa. A questão central é que, após esse episódio, a mãe fica muito doente, doença descrita pelo médico que a atende como sendo uma paralisia cerebral. O rapaz, então, decide seguir os conselhos do médico e cuidar da mãe.

Desse momento em diante, a doença transporta-se para um primeiro plano na narrativa, influenciando o personagem principal, Vincenzo, e os personagens secundários, o pai, o médico e a própria mãe. O ambiente ao redor dos personagens também muda gradativamente, o que antes parecia ser uma história de suspense, carregada de maldade, agora torna o ambiente órbido, triste, como se algo invisível tivesse aparecido e reorganizado o clima da história.

Para fins de comparação, o mesmo pode ser observado na obra Ella Enchanted (Uma garota encantada), escrita por Gail Carson Levine, em 1997. Ella é uma garota que vive feliz com a sua mãe e seu pai em uma humilde casa no campo, até que recebe o encantamento de uma fada que a obriga a fazer tudo o que os outros lhe ordenem. Sua mãe lhe dá todo o suporte e a protege, e tudo parece bem até que a mãe adoece, transformando completamente o clima da narrativa.

No conto “Lo specifico del dottor Menghi”, a doença também aparece, porém em um plano mais psíquico do que físico, pois é o próprio personagem principal que, depois de profundos conflitos internos em sua mente, acaba criando as mazelas físicas que o atingem, bem como atingem também sua mãe, Anna. O Dr. Menghi é um médico decidido, através de seus experimentos, a criar um soro que seja capaz de prolongar a vida através de uma economia das forças vitais. Chiara Marasco (2007), em seu artigo “Suggestioni fantastiche e rivelazioni scientifiche in una novella di Italo Svevo: Lo specifico del dottor Menghi”, declara o seguinte a respeito do tema da doença presente no conto:

La novella contiene molti temi più volte ripresi nella produzione maggiore: l’inafferabilità della salute e la minaccia perene della malattia, la vecchiaia e la sua degenerazione, la morte di un genitore, il desiderio di incidere, sconvolgendolo, sul ritmo vitale dell’uomo, la scettica rapresentazione dei dottori e delle loro cure magiche. (MARASCO, 2007, p. 444)[4]

No caso desse conto, “Lo specifico del dottor Menghi”, não é possível falar de um tema como a doença sem entrar em outros temas paralelos, que também fazem parte do universo narrativo sveviano e que estão entre os mencionados pela autora: a velhice e, consequentemente, a morte. A velhice, enquanto condição necessária e qualificante do homem, é vivida pelos personagens svevianos como forma de adiar, reprimir, exorcizar, através de processos não-naturais de rejuvenescimento, que acabam sempre tendo efeitos grotescos, o passar do tempo. Percebe-se, aqui, que a contribuição de Italo Svevo com o Fantástico e a ficção científica torna-se uma espécie de protesto para indagar os temas de forma lúcida, até mesmo dramática da existência, sem nunca renunciar ao seu ar “irônico.”

A velhice e a morte são, então, temas paralelos à doença e constantemente presentes durante os eventos desenvolvidos pelo Dr. Menghi. O soro é criado única e exclusivamente para retardar o envelhecimento, a velhice é algo temido não apenas no universo sveviano, mas em grande parte das narrativas pertencentes ao mundo do Fantástico.

Como exemplo dentre muitos, na terceira temporada da aclamada série de TV americana, American Horror Story, criada por Ryan Murphy e Brad Falchuk e lançada em 2013, temos como personagem Fiona Goode, vivida pela atriz Jessica Lange. Fiona Goode é considerada a bruxa suprema de um clã que vive escondido da sociedade, protegido sob a fachada de uma escola para meninas. Quando a atual bruxa suprema está velha demais para continuar no posto, uma nova jovem é escolhida para ocupar o seu lugar. Fiona tem dificuldades para aceitar a velhice quando começa a perceber os primeiros sinais, e durante todo o desenrolar da trama busca meios para obter e a imortalidade e enfim parar o envelhecimento.

Assim como o Dr. Menghi em “Lo specifico del dottor Menghi”, Fiona Goode, em American Horror Story, em sua incessante busca pelo prolongamento de sua vida para não perder o posto de bruxa suprema, acaba assassinando uma de suas alunas e causando indiretamente a cegueira de sua filha ao provocar a ira de inimigos com as suas ações. É muito interessante observar como essa abordagem sobre a velhice e o desespero humano em encontrar maneiras para evitá-la é tão parecida em mídias e tempos tão diferentes, como o conto de Italo Svevo e a série de Ryan Murphy, estando no inconsciente coletivo e constituindo medo comum ao ser humano que vive em sociedade.

Outra obra de Italo Svevo na qual existe a presença dos temas da velhice, do medo, do passar do tempo e da procura pelo rejuvenescimento é o conto “Il vino generoso”. O enredo desse conto descreve, inicialmente, a festa de um casamento, no qual estava presente toda a família cujo pai, por conta de algumas doenças, devia tomar remédios, e o médico lhe dera permissão para comer o que quisesse somente naquele dia. De fato, o pai exagerou e bebeu muito vinho, pensando que o estava tornando mais jovem. A bebida lhe dava a sensação de rejuvenescimento, e por isso o homem bebia cada vez mais.

Esse dilema agrava também Giovani Chierici, o protagonista de La Rigenerazione, o texto teatral composto por Italo Svevo. Giovanni é um velho que leva tanto em consideração os limites impostos pela própria idade que faz todos rirem com a decisão de se submeter a uma operação de rejuvenescimento, ou regeneração. Esse acontecimento é perpassado por inúmeras reflexões sobre a existência, a idade, o passar do tempo.

De acordo com Cristiane Vanessa Miorin, em sua dissertação de mestrado:

A categoria morte é ressaltada por meio da figura da velhice, metáfora que permeia a obra toda, uma vez que é a responsável direta pela inabilidade do protagonista, que luta entre o sentimento do desejo juvenil e a impossibilidade trazida pela velhice. (MIORIN, 2006, p. 57)

Ainda sobre a velhice como tema da narrativa sveviana, Claar (1986) afirma que esse tema tem um papel muito importante e complexo na poética de Svevo, muito além do reflexo biográfico do autor. Tal informação embasa-se no fato de que muitos escritores inserem em suas obras aspectos da vida pessoal e cotidiana, experiências vividas e posições pessoais, o que é o caso de Italo Svevo, porém a importância desse aspecto vai muito além do eu do autor, reflete no leitor criando um espectro de reflexões.

Outro tema paralelo ao da doença e ao da velhice é, consequentemente, o da morte. A morte é figura inerente em praticamente todas as histórias de quaisquer gêneros, uma vez que faz parte da humanidade como um todo, o processo temido e onipresente. Algumas vezes, é abordado de maneira leve, sem muito destaque; outras, é trazido para um primeiro plano e se torna o acontecimento mais importante, o clímax de determinada narrativa. A morte também já foi personificada em várias ocasiões, assumindo ao mesmo tempo um papel explícito, como um personagem que interage com o outros, e também implícito, ao cumprir a tarefa inevitável de levar quem quer que seja para o outro mundo.

Nas narrativas svevianas, a morte nunca acontece em primeiro plano, ou seja, nunca é o assunto principal, sempre acompanha algum outro tema como consequência, como é o caso da doença e da velhice. No conto corpus desta pesquisa, “Il malocchio”, a gravidade do mau-olhado do protagonista atinge seu ápice quando Vincenzo Albagi mata a mãe e a esposa. Portanto, é a morte que causa o choque de realidade, é a morte que mostra para o personagem principal o quão longe ele foi em suas ações. O mesmo ocorre com o personagem Dr. Menghi em “Lo specifico del dottor Menghi”, que percebe o que aconteceu, percebe o quão longe foi, quando a mãe lhe faz uma última súplica em seu leito de morte:

Come hai potuto immaginare una cosa tanto orribile? M’hai sepolta viva, tu! Una volta hai detto che quell’orribile cosa cristallizava il corpo umano… io volevo, io volevo movermi, gridare […] Essa cessò di parlare e di bearsi della riacquistata libertà, soltanto per morire. L’eccesso di vita prodotto dalla reazione dell’Annina era stato troppo violento per il suo cuore già ferito.(SVEVO, 1991, p. 693)[5]

Pode-se concluir, a partir desse trecho, o impacto que a morte da mãe Anna causou no psicológico do protagonista, que imediatamente pensou em destruir o soro, derrubar a pesquisa que o tinha levado até ali justamente para evitar que novas mortes ocorressem, evitar que novas pessoas atingissem o nível de insanidade mental que o acometeu a ponto de injetar uma mistura tóxica e perigosa no corpo da mãe já doente. Tem-se então uma rede bem construída, tanto em “Lo specifico del dottor Menghi” quanto em “Il malocchio”, de temas que se inter-relacionam e funcionam como pano de fundo para o enredo, o ambiente e os personagens.

Com relação ao conto “La madre”, os temas da morte e da velhice não aparecem, com a possível exceção do tema da doença, pois um dos únicos indícios de uma doença nessa narrativa seria a do eu, a doença do sujeito psicológico em conflito consigo mesmo. Isso é representado através do personagem principal, o pintinho Curra, que ao ouvir seus companheiros divagando sobre a possibilidade de existir uma mãe, não tira aquilo da cabeça, a ponto de fazer coisas inimagináveis para eles, como atravessar o cercado e andar por terra inexplorada.

Um dos elementos mais comuns das fábulas em geral é a possibilidade de animais falarem e terem ações, o que quase sempre leva a uma moral no fim da história. No conto “La madre”, de Italo Svevo, isso vai além do elemento fabular comum, pois além de falar e caminhar, o pequeno Curra também é capaz de pensar, de refletir sobre a vida, o que traz outro tema comum à narrativa sveviana à tona, a relação do autor com a Psicanálise. Esse tema não é explorado de maneira explícita, visto que se refere ao psicológico dos personagens no geral.

Na introdução de sua dissertação de mestrado, Cristiane Vanessa Miorin constrói um percurso intelectual de Italo Svevo, por meio de uma abordagem breve de algumas de suas obras e de sua vida.  No início, Miorin (2006) descreve a descoberta que Italo Svevo fez, na qual percebeu que a Psicanálise seria um elemento perfeito para definir o sentimento de inadequação que caracteriza os seus principais personagens. O autor, ao longo de suas obras, constrói personagens com uma mentalidade complexa, que fazem as dificuldades da própria vida entrelaçarem-se com o enredo, criando um ambiente profundamente misterioso. Svevo criou esse estereótipo para seus personagens baseado em sua inquietação e seus questionamentos como escritor, sendo ele mesmo fruto exatamente de todos os aspectos que caracterizam a primeira metade do século XX, ou seja, nesta análise pode-se perceber que muito de sua vida pessoal influenciou, sem sombra de dúvida, seus contos e romances. Miorin, na seguinte passagem:

A curiosidade e a reserva de Svevo em relação à Psicanálise ficaram explícitas no enredo de A Consciência de Zeno: é a pedido de seu analista que o narrador Zeno Cosini escreve suas memórias – os estudos universitários interrompidos, a morte do pai, a paixão por uma jovem e o casamento com a irmã dela, a obsessão pelo fumo, a confortável vida familiar, a infidelidade, os altos e baixos profissionais. (MIORIN, 2006, p. 57)

Demonstra-se nesse ponto a flexibilidade de Italo Svevo em construir em seus personagens situações de uma vida cheia de perturbações, que se relacionam com alguns dilemas encontrados pelo próprio autor. Um exemplo de conto que traz alguns desses impasses é o primeiro conto de Svevo, “L’assassinio di Via Belpoggio”, um interessante estudo ficcional de culpa, o qual traz características de um personagem enigmático.

Italo Svevo foi influenciado por diversos pensadores, e, na maioria das vezes, tais correntes por eles propostas deixavam-se transparecer em suas obras, como em La coscienza di Zeno, como afirmam diversos estudiosos da obra sveviana como Ramos (2001), Miorin (2006), Ghidetti (1992), Cepach (2008) e Marasco (2008), entre outros. Pensadores como Schopenhauer, Marx, Darwin e Nietzsche estão presentes através de suas teorias nas obras do autor. Não muito diferente é Sigmund Freud, conhecido como o pai da Psicanálise.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, em linguagem comum, o termo “Psicanálise” é muitas vezes usado como sinônimo de “Psicoterapia” ou mesmo de “Psicologia”. Em linguagem mais própria, no entanto, Psicologia refere-se à ciência que estuda o comportamento e os processos mentais; psicoterapia, ao uso clínico do conhecimento obtido por ela, ou seja, ao trabalho terapêutico baseado no corpo teórico da Psicologia; e Psicanálise refere-se à forma de psicoterapia baseada nas teorias oriundas do trabalho de Sigmund Freud; Psicanálise é, assim, um termo mais específico, sendo uma entre muitas outras formas de Psicoterapia. No romance La coscienza di Zeno, no qual a corrente psicanalítica freudiana é mais explicitamente abordada por Svevo, há o seguinte trecho:

Chamemo-la aventura psíquica. Isto mesmo: quando semelhante análise tem início, é como se entrássemos num bosque sem saber se vamos topar com um bandido ou um amigo. Tampouco se sabe, depois de passada a aventura. Nisto a Psicanálise lembra o espiritismo. (SVEVO, 1991, p. 365)[6]

Assim, nos anos de 1910 a 1918, no período no qual esteve em contato direto com a Psicanálise, através de experiências terapêuticas, leituras pessoais e a sua tradução, Svevo ficou fascinado por Freud e convencido de ter encontrado em seu pensamento a doutrina capaz de explicar cientificamente o mundo interior do homem. As experiências implícitas e explícitas são facilmente reconhecíveis no romance, começando com o pretexto da cura do vício de fumar, que enquadra toda a história.

A aventura psíquica, como escrito nas linhas do último capítulo da obra prima de Svevo, que leva o leitor a conhecer o pensamento do narrador e acompanhar tão de perto suas ações, como se estivesse dentro dele ou muitíssimo próximo, pode ser comparada ao substrato interpretativo que o leitor pode extrair ao ter contato com o fluxo do pensamento de personagens como Dr. Menghi, Vincenzo Albagi e Curra, protagonistas dos contos analisados nessa pesquisa. É possível interpretar que as suas mentes lhes abram caminhos de possibilidades, lhes causem dúvidas, incertezas, medos. Assim, pode-se afirmar que a temática das reflexões presentes na vida de Svevo também se fazem notar na caracterização de seus protagonistas.

Quando se estudam as obras svevianas, não se pode deixar de resvalar no tema do Amor, também presente através de atos e gestos dos personagens, e na forte relação que mantêm uns com os outros. Micaela Pretolani Claar (1986), em sua introdução sobre a temática do Amor, afirma o seguinte:

L’amore, inteso sia come sentimento sia come sessualità, è pur esso un motivo ricorrente nelle diverse opere di Svevo e nei romanzi risulta addiritura essenziale per descrivere il mondo interiore dei personaggi e il loro rapporto con la vita. Infatti, il bisogno di affermazione individuale che caratteriza i protagonisti dei romanzi e anche di alcuni racconti, si esprime soprattutto attraverso l’amore e il desiderio dell’amore e, quindi, attraverso la delineazione dei rapporti tra i vari personaggi e la figura femminile, che dell’amore è il veicolo naturale. (CLAAR, 1986, p. 123)[7]

Segundo a afirmação da autora, o mundo interior dos personagens também é principalmente composto por amor, dando-lhes características mais humanas, como o ato de amar, em contraste com as outras atitudes mais drásticas e outros temas mais mórbidos, como a doença e a morte. Em uma tentativa de caracterizar o amor, Ramos (2001) elenca, em sua tese de doutorado, as seguintes definições cunhadas por Sthendal, que serão aqui utilizadas a fim de caracterizar a presença do amor no corpus:

[…] em seu romance De l’amour, o famoso autor francês [Stendhal] classifica quatro tipos de amor:
1º) amor-paixão é uma espécie de amor entrega, que leva os amantes a agirem até mesmo contra seus próprios interesses;
2º) amor-simpatia é uma espécie de amor apreciação, que se ajusta aos interesses dos amantes;
3º) amor-sexo é o amor carnal baseado na pura atração sexual e realizado completamente no plano físico, com a relação sexual; e
4º) amor-vaidade é o amor que visa somente aos interesses dos amantes egoístas que querem o ser amado como objeto ou instrumento para elevar-se a si mesmo.

Aplicando tais definições aos contos estudados, pode-se estabelecer algumas classificações nos tipos de amor que existem em cada, porém não foram encontradas classificações adequadas às formas de amor-paixão e amor-sexo.

No conto “Il malocchio”, pode-se perceber o tipo do amor-vaidade, no sentido do egoísmo e do uso do amor como forma de elevar a si mesmo. Esse amor é o sentimento demonstrado pelo protagonista Vincenzo Albagi durante todo o enredo, ao se relacionar com as pessoas apenas por demonstrar determinado interesse, e não somente em sua relação interpessoal, mas com a própria idealização de uma boa vida em si. Vincenzo no início do conto tinha uma personalidade egoísta e fria, e sempre demonstrou mais amor pela mãe do que pelo pai, pelo simples fato de que sabia que a velha senhora o defenderia de tudo e de todos, independentemente do que acontecesse.

Além de sentir pela mãe, o personagem também sentia o amor-vaidade pela inspiração em Napoleão Bonaparte, na qual pode ser notado um pouco de inveja, já que para Vincenzo apenas ele era digno de uma vida bela e poderosa como a de Napoleão, tanto que guardava esse sentimento dentro de si como o segredo mais absoluto:

La sua morbida ambizione trapelava da qualche pertugio, dai piccoli occhi ma non dalla grande bocca! Negare la sua ambizione a colei cui l’aveva rivelata lui stesso tante volte a bassa voce in una stanzuccia della casa ove prima di coricarsi avevano sognato insieme, era cosa impossibile. (SVEVO, p. 700)[8]

Apesar de menos explícito, há traços em Vincenzo do amor-simpatia, em rápidas passagens nas quais ele interage com a esposa e o filho pequeno, próximo ao final do conto.

No conto “Lo specifico del dottor Menghi”, há uma complexidade maior na definição dos amores sentidos pelos personagens, justamente porque o Dr. Menghi, personagem principal, está dividido entre o amor-simpatia e o amor-vaidade, o que é claramente mostrado ao longo da narrativa.

Menghi demonstra nas suas declarações em seu diário, lido pelo Dr. Galli, que ama a mãe mais do que qualquer outra coisa no mundo, porém que deve continuar a sua pesquisa de qualquer forma, para finalmente constatar se sua teoria do soro que prolonga a vida através da economia de forças vitais é verdadeira. Então, o amor-simpatia pela mãe é demonstrado quando o filho recorre a ela, a quem ama, porém a quem trata como objeto, usando-a em seus experimentos sem o menor pudor, apenas com a ideia fixa de obter a glória pela invenção da substância mágica. Há, também, como no conto anterior, o amor-vaidade em relação à substância Annina, sentimento que se aproxima do amor-simpatia, quando o médico trata o soro como se fosse um filho querido.

No que diz respeito ao conto “La madre”, há apenas o amor-simpatia, idealizado pelo pintinho protagonista, Curra, que quer fazer de tudo para encontrar a mãe, conhecê-la, tê-la perto de si. É um amor muito forte, um amor direcionado à figura da mãe.

Pode-se concluir, após as reflexões acerca da temática que envolve o universo narrativo sveviano, que os temas são de extrema importância para o desenrolar do enredo, determinando intrínseca e extrinsecamente na personalidade dos personagens e no ambiente que os cerca. Italo Svevo desenvolvia seus temas também nos contos, constituindo, de acordo com Cepach (2008), uma espécie de laboratório narrativo, no qual o autor usava seus contos e temas como uma espécie de oficina sobre o que ele próprio escrevia, como uma forma de preparar-se para os seus romances mais longos e usar os mesmo temas também neles.

REFERÊNCIAS

CAVAGLION, A. Non guarisco però mai: L’avversioni di Svevo per i medici: scienza e letteratura.  In: CEPACH, Riccardo (Org.). Guarire dalla cura: Italo Svevo e i medici.Trieste: Museo Sveviano/Stella Arti Grafiche, 2008. p. 15-31.

CEPACH, R. (Org.) Guarire dalla cura: Italo Svevo e i medici. Trieste: Museo Sveviano/Stella Arti Grafiche, 2008.

CLAAR, M. P. Guida alla lettura di Svevo. Milano: Arnoldo Mondadori, 1986

GHIDETTI, E. Italo Svevo: La coscienza di un borghese triestino. Roma: Riuniti, 1992.

MARASCO, C. Suggestione fantastiche e rivelazioni scientifiche in una novella di Italo Svevo: Lo specifico del dottor Menghi. In: WOLFZETTEL, F. La tentazione del fantastico. Perugia: Guerra, 2007.

MIORIN, C. V. Narcisismo literário: espelhamento, procura e fuga em “A consciência de Zeno” e “O meu ócio”, de Italo Svevo. 2006. Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura) – Universidade Estadual Paulista, São José do Rio Preto, 2006.

PAVANELLO, A. M. A. La sfida di Italo Svevo alla psicoanalisi: guarire dalla cura. In: CEPACH, R. (org.) Guarire dalla cura: Italo Svevo e i medici. Trieste: Museo Sveviano/Stella Arti Grafiche, 2008.

RAMOS, M. C. T. A representação em Memórias póstumas de Brás Cubas e La coscienza di Zeno. 2001. Tese (Doutorado em Teoria Literária) – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, São José do Rio Preto, 2001.

SVEVO, I. Tutti i romanzi e i racconti. Roma: Newton, 1991.

Data de envio: 22 de fevereiro de 2016.

 

[1] “Alguém falou no propósito de uma ‘filosofia’ sveviana, talvez para exaltá-la, talvez – e mais frequentemente – para trazer a inspiração para limitar o valor da obra do escritor triestino enquanto obra “de ideias”, mas aquela de Svevo é mais do que uma filosofia, como se vê, é uma reelaboração pessoal, de origem frequentemente reativa, de algumas entre as mais significativas e importantes correntes do pensamento do século XVIII e da primeira metade do século XIX […].” (Tradução minha).

[2] “A pobre consciência de Vincenzo ainda estava agitada por tal crime que seu outro ‘eu’ havia cometido[…].” (Tradução minha).

[3] “Não pode mais falar com ela. Poucas horas depois a velha havia sido encontrada inconsciente no chão. Quando Vincenzo a viu, já a tinham deitado, imóvel. Parecia mergulhada em um sono profundo, com respiração regular mas barulhenta. O pai lhe contou que que a tinha visto saindo do quarto da nora. Ela parecia bem para ele. Quando voltou a encontrou caída no tapete, desse mesmo jeito que estava na cama e com a mesma respiração forte e regular.” (Tradução minha).

[4] “A obra contém muitos temas outras vezes trabalhados na produção maior: a indefinição da saúde e a ameaça eterna da doença, a velhice e a sua degeneração, a morte de um genitor, o desejo de registrar, perturbador, o ritmo vital do homem, a cética representação dos médicos e de tratamentos mágicos.” (Tradução minha).

[5] “Como pode idealizar uma coisa tão horrível? Você me sepultou viva! Uma vez você disse que aquela coisa horrível cristalizava o corpo humano… eu queria, eu queria me mexer, gritar […]. Ela parou de falar e de tentar se aquecer, apenas para morrer. O excesso de vida produzido pela reação do Annina tinha sido muito violento para o seu coração já ferido.” (Tradução minha).

[6] Trecho extraído de A consciência de Zeno, que já possui tradução oficialmente publicada no Brasil.

[7] “O amor, entendido seja como sentimento seja como sexualidade, é também um motivo recorrente nas diversas obras de Svevo e no romances resulta até mesmo essencial para descrever o mundo interior dos personagens e suas relações com a vida. De fato, a necessidade de afirmação individual que caracteriza os protagonistas do romance e também de alguns contos, exprime-se sobretudo através do amor e o desejo do amor, e, portanto, através da delineação das relações entre os vários personagens e a figura feminina, que é o veículo natural do amor.” (Tradução minha).

[8] “A sua mórbida ambição era expressa por qualquer lugar, menos pela boca grande! Negar a sua ambição para aquela que a tinha revelado tantas vezes em voz baixa, em um quartinho da casa, onde antes de se deitarem sonhavam juntos, era algo impossível.” (Tradução minha).