Tradução de Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Luíz Horácio

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 25, 2016. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Luíz Horácio
Universidade Federal de Santa Catarina
Florianópolis, Brasil
luizhoracio57@gmail.com

A tradução de Madame Bovary faz parte de meus estudos e pesquisas sobre tradução bem como contempla o aspecto profissional. Sugeri à editora Revan a retradução da obra, durante a tradução a editora decidiu suspender o projeto, em boa hora este foi acolhido pela editora inVerso, de Curitiba e segue seu curso. Paralelamente, desenvolvo minha pesquisa sobre tradução no doutorado da PGET, sob orientação do professor Alckmar Luiz dos Santos, cujo objeto é a retradução de Gargantua, de François Rabelais, assim como um estudo acerca da autonomia do tradutor. Junta-se a isso o fato de eu ser colaborador do jornal de Rascunho e também escrever livros. Sou autor de cinco romances, e a editora programou para maio o lançamento do próximo, Noite passada sonhei com orquídeas.

 


 

A AUTONOMIA DO TRADUTOR. BREVE REFLEXÃO ACERCA DA TRADUÇÃO DE MADAME BOVARY

J’appelle mauvaise traduction la traduction qui, généralement sous couvert de transmissibilité, opere une négation systématique de l’étrangeté de l’oeuvre étrangère
Antoine Berman

O presente trabalho tem como objetivo fazer algumas considerações sobre a tarefa do tradutor, mais especificamente a autonomia deste profissional. Embora a preocupação de Walter Benjamin em La tache du traducteur (2011) ao abordar o traduzir como algo sublime, para tanto não poupou metáforas, não parece ser tão sublime tal prática quando o tema está afeito a uma casa editorial.  Importante ressaltar que toda tradução implica um autor, o responsável pela reinvenção, pela ressignificação da obra. A relação de poder, editora e tradutor, autoridade e obediência, requer aprofundado exame. Conforme Lefevere (1992), a tradução tem relação com autoridade e legitimidade e, em última análise, com poder. Ainda, segundo este autor, a tradução não significa apenas ‘uma janela aberta para um outro mundo’, ou qualquer desses clichês superficiais. A tradução é um canal aberto, muitas vezes com algumas resistências, pelo qual as influências estrangeiras podem penetrar na cultura local, desafiá-la e até mesmo contribuir para subvertê-la.

Cabe ao tradutor não dissociar ética e estética, mas até que ponto o poder (editora) permite esse cuidado e concede o “poder/autonomia” ao tradutor? Estaríamos vivendo tempos em que o tradutor não passa de um refém das exigências e concessões do mercado, onde a percepção de marcas do tradutor acaba por comprometer a fidelidade? Qual o parâmetro? A obra original?  Mas, vale insistir no óbvio; tradução é tradução, não se trata da obra original em língua estrangeira equivalente em forma e sentido. Tradução é fruto do trabalho do tradutor. Precisamos entender a relação entre poder e verdade (tradução). Não se trata de combater o poder, apontar o que ele nega, mas sim compreender como ele é exercido.

O trabalho de retradução de Madame Bovary para o português é resultado de uma sugestão à editora. Embora as traduções existentes carreguem seus méritos, permito-me discordar de algumas delas e em meu trabalho apresento e justifico minhas escolhas.

Pois bem, atentemos para a palavra ruelle, em português ruela, viela. No trecho citado as personagens se encontram no interior de um quarto. Ilana opta por ruazinha, Mario prefere canto

A seguir, alguns exemplos:

Nastasie, près du lit, tenait la lumière, Madame, par pudeur, restait tournée vers la ruelle et montrait le dos.

Ilana Heinberg (editora L&PM) traduziu o trecho da seguinte forma: Nastasie, próxima da cama, segurava uma lamparina; a mulher, por pudor, ficara voltada para a ruazinha e dava-lhe as costas.

Mario Laranjeira (Cia. das Letras) assim o fez: Nastasie, junto à cama, segurava a luz. A patroa, por pudor, permanecia virada para o canto e dava as costas.

De minha parte optei por esta construção: Nastasie, perto da cama, segurava a lamparina. A senhora, por pudor, mantinha-se voltada para o canto e dava-lhe as costas.

Não me parece a melhor escolha traduzir ruelle por ruazinha pois   ruelle- espaço existente entre a cama e a parede de um quarto. Nos séc. XVII e XVIII ruelle designa por metonímia o lugar do quarto de dormir, onde as damas refinadas recebiam seus visitantes. No trecho de autoria de Mario Laranjeira não me alinho ao fato de segurar a luz.

Et puis la veuve était maigre; elle avait les dents longues;

Mario Laranjeira assim traduziu: E além disso a viúva era magra; tinha dentes compridos.

Discordo pois à época a expressão tinha por significado ser ambiciosa. Mistura conotações humanas (1548, “avoir grand faim”) e animais.

Mais adiante, a seguinte frase:

Charles se trînait à la rampe, les genoux lui rentraient dans le corps. 

 

Charles arrastava-se no corrimão, seus joelhos não aguentavam o peso do corpo. Assim traduziu Ilana Heinenberg

Mario Laranjeira assim o fez: Charles se arrastava na rampa, os joelhos lhe entravam no corpo.

Optei por Charles arrastou-se pelo corrimão, estava exausto. A expressão grifada significa fadiga, exaustão.

Oriento meu trabalho de tradutor segundo os preceitos de Antoine Berman, sobretudo no que diz respeito a aceitação de certas estranhezas do idioma original da obra sejam, além de preservadores da identidade do texto, elementos capazes de aumentar o espectro de conhecimento do leitor.

Durante a tradução de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, mantive esse princípio, no entanto o editor apresentou algumas ressalvas. Uma delas, mantive arrondissement, me parece bastante conhecido como indicador de região na cidade de Paris. O editor por sua vez, trocou para distrito.

Num outro trecho …le noveau était um gars de la campagne, d’une quinzaine d’années…, minha tradução apontava um adolescente da campanha, o editor preferiu um adolescente da zona rural. Talvez rapazote fosse a melhor escolha. O que me resta fazer? Conversar, tentar convencê-lo. Voto vencido, mantenho a questão. Faço do meu modo, ou não faço? Não apresentei essa insatisfação ao editor e segui sua orientação. Logo, onde está a autonomia do tradutor? Quando ela ocorre é por concessão do editor, no mais o termo não extrapola o alcance de “um termo” simplesmente.

Mas como comportar-se frente ao poder do editor? Em alguns casos, dependendo do renome do tradutor o diálogo ocorre e as possibilidades de um resultado satisfatório ao tradutor são razoáveis. Em caso de tradutor iniciante vale o determinado pelo editor. O poder maior excede a jurisdição da editora, ele vem do “deus mercado” que prima por conceder facilidades aos leitores. Não seria diferente ao tratarmos de tradução.

Diante dos exemplos citados impossível discordar de Borges (2005) quando cita a “dinastia inimiga” onde um tradutor traduz contra o outro. No caso particular da retradução de Madame Bovary vale destacar Berman:

Si le destin d’un oeuvre est sa traduction, celui d’ une traduction est d’être “supplantée “ par une autre traduction (2008, 143).

 

BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, W. Expérience et pauvreté. Paris : Éditions Payot & Rivages, 2011.

BERMAN, A. L’épreuve de l’étranger . Paris : Ed. Gallimard, 1984.

______. L’Âge de la traduction. “La tâche du traducteur” de Walter Benjamin un commentaire. Paris: Presses Universitaires de Vincennes, 2008.

BORGES,J.L. História da eternidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

FLAUBERT, G. Madame Bovary. Paris : Ed. Gallimard, 2001.

LEFEVERE, A. Translations, history culture. London : . Ed. Taylor & Francis Ltd, 1992.

 


 

MADAME BOVARY
Gustave Flaubert

 

Nous étions à l’Étude, quand le Proviseur entra, suivi d’un nouveau habillé en bourgeois et d’un garçon de classe qui portait un grand pupitre. Ceux qui dormaient se réveillèrent, et chacun se leva comme surpris dans son travail.

Le Proviseur nous fit signe de nous rasseoir; puis, se tournant vers le maître d’études:

— Monsieur Roger, lui dit-il à demi-voix, voici un élève que je vous recommande, il entre en cinquième. Si son travail et sa conduite sont méritoires, il passera dans les grands, où l’appelle son âge.

Resté dans l’angle, derrière la porte, si bien qu’on l’apercevait à peine, le nouveau était un gars de la campagne, d’une quinzaine d’années environ, et plus haut de taille qu’aucun de nous tous. Il avait les cheveux coupés droit sur le front, comme un chantre de village, l’air raisonnable et fort embarrassé. Quoiqu’il ne fût pas large des épaules, son habit-veste de drap vert à boutons noirs devait le gêner aux entournures et laissait voir, par la fente des parements, des poignets rouges habitués à être nus. Ses jambes, en bas bleus, sortaient d’un pantalon jaunâtre très tiré par les bretelles. Il était chaussé de souliers forts, mal cirés, garnis de clous.

On commença la récitation des leçons. Il les écouta de toutes ses oreilles, attentif comme au sermon, n’osant même croiser les cuisses, ni s’appuyer sur le coude, et, à deux heures, quand la cloche sonna, le maître d’études fut obligé de l’avertir, pour qu’il se mît avec nous dans les rangs.

Nous avions l’habitude, en entrant en classe, de jeter nos casquettes par terre, afin d’avoir ensuite nos mains plus libres; il fallait, dès le seuil de la porte, les lancer sous le banc, de façon à frapper contre la muraille en faisant beaucoup de poussière; c’était là le genre.

Mais, soit qu’il n’eût pas remarqué cette manoeuvre ou qu’il n’eut osé s’y soumettre, la prière était finie que le nouveau tenait encore sa casquette sur ses deux genoux. C’était une de ces coiffures d’ordre composite, où l’on retrouve les éléments du bonnet à poil, du chapska, du chapeau rond, de la casquette de loutre et du bonnet de coton, une de ces pauvres choses, enfin, dont la laideur muette a des profondeurs d’expression comme le visage d’un imbécile. Ovoïde et renflée de baleines, elle commençait par trois boudins circulaires; puis s’alternaient, séparés par une bande rouge, des losanges de velours et de poils de lapin; venait ensuite une façon de sac qui se terminait par un polygone cartonné, couvert d’une broderie en soutache compliquée, et d’où pendait, au bout d’un long cordon trop mince, un petit croisillon de fils d’or, en manière de gland. Elle était neuve; la visière brillait.

— Levez-vous, dit le professeur.

Il se leva; sa casquette tomba. Toute la classe se mit à rire.

Il se baissa pour la reprendre. Un voisin la fit tomber d’un coup de coude, il la ramassa encore une fois.

— Débarrassez-vous donc de votre casque, dit le professeur, qui était un homme d’esprit.

Il y eut un rire éclatant des écoliers qui décontenança le pauvre garçon, si bien qu’il ne savait s’il fallait garder sa casquette à la main, la laisser par terre ou la mettre sur sa tête. Il se rassit et la posa sur ses genoux.

— Levez-vous, reprit le professeur, et dites-moi votre nom.

Le nouveau articula, d’une voix bredouillante, un nom inintelligible.

— Répétez!

Le même bredouillement de syllabes se fit entendre, couvert par les huées de la classe.

— Plus haut! cria le maître, plus haut!

Le nouveau, prenant alors une résolution extrême, ouvrit une bouche démesurée et lança à pleins poumons, comme pour appeler quelqu’un, ce mot: Charbovari.

Ce fut un vacarme qui s’élança d’un bond, monta en crescendo, avec des éclats de voix aigus (on hurlait, on aboyait, on trépignait, on répétait: Charbovari! Charbovari!), puis qui roula en notes isolées, se calmant à grand-peine, et parfois qui reprenait tout à coup sur la ligne d’un banc où saillissait encore çà et là, comme un pétard mal éteint, quelque rire étouffé.

Cependant, sous la pluie des pensums, l’ordre peu à peu se rétablit dans la classe, et le professeur, parvenu à saisir le nom de Charles Bovary, se l’étant fait dicter, épeler et relire, commanda tout de suite au pauvre diable d’aller s’asseoir sur le banc de paresse, au pied de la chaire. Il se mit en mouvement, mais, avant de partir, hésita.

— Que cherchez-vous? demanda le professeur.

— Ma cas… fit timidement le nouveau, promenant autour de lui des regards inquiets.

— Cinq cents vers à toute la classe! exclamé d’une voix furieuse, arrêta, comme le Quos ego, une bourrasque nouvelle. — Restez donc tranquilles! continuait le professeur indigné, et s’essuyant le front avec son mouchoir qu’il venait de prendre dans sa toque: Quant à vous, le nouveau, vous me copierez vingt fois le verbe ridiculus sum.

Puis, d’une voix plus douce:

— Eh! vous la retrouverez, votre casquette; on ne vous l’a pas volée!

Tout reprit son calme. Les têtes se courbèrent sur les cartons, et le nouveau resta pendant deux heures dans une tenue exemplaire, quoiqu’il y eût bien, de temps à autre, quelque boulette de papier lancée d’un bec de plume qui vînt s’éclabousser sur sa figure. Mais il s’essuyait avec la main, et demeurait immobile, les yeux baissés.

Le soir, à l’Étude, il tira ses bouts de manches de son pupitre, mit en ordre ses petites affaires, régla soigneusement son papier. Nous le vîmes qui travaillait en conscience, cherchant tous les mots dans le dictionnaire et se donnant beaucoup de mal. Grâce, sans doute, à cette bonne volonté dont il fit preuve, il dut de ne pas descendre dans la classe inférieure; car, s’il savait passablement ses règles, il n’avait guère d’élégance dans les tournures. C’était le curé de son village qui lui avait commencé le latin, ses parents, par économie, ne l’ayant envoyé au collège que le plus tard possible.

Son père, M. Charles-Denis-Bartholomé Bovary, ancien aide- chirurgien-major, compromis, vers 1812, dans des affaires de conscription, et forcé, vers cette époque, de quitter le service, avait alors profité de ses avantages personnels pour saisir au passage une dot de soixante mille francs, qui s’offrait en la fille d’un marchand bonnetier, devenue amoureuse de sa tournure. Bel homme, hâbleur, faisant sonner haut ses éperons, portant des favoris rejoints aux moustaches, les doigts toujours garnis de bagues et habillé de couleurs voyantes, il avait l’aspect d’un brave, avec l’entrain facile d’un commis voyageur. Une fois marié, il vécut deux ou trois ans sur la fortune de sa femme, dînant bien, se levant tard, fumant dans de grandes pipes en porcelaine, ne rentrant le soir qu’après le spectacle et fréquentant les cafés. Le beau-père mourut et laissa peu de chose; il en fut indigné, se lança dans la fabrique, y perdit quelque argent, puis se retira dans la campagne, où il voulut faire valoir. Mais, comme il ne s’entendait guère plus en culture qu’en indiennes, qu’il montait ses chevaux au lieu de les envoyer au labour, buvait son cidre en bouteilles au lieu de le vendre en barriques, mangeait les plus belles volailles de sa cour et graissait ses souliers de chasse avec le lard de ses cochons, il ne tarda point à s’apercevoir qu’il valait mieux planter là toute spéculation.

Moyennant deux cents francs par an, il trouva donc à louer dans un village, sur les confins du pays de Caux et de la Picardie, une sorte de logis moitié ferme, moitié maison de maître; et, chagrin, rongé de regrets, accusant le ciel, jaloux contre tout le monde, il s’enferma dès l’âge de quarante-cinq ans, dégoûté des hommes, disait-il, et décidé à vivre en paix.

Sa femme avait été folle de lui autrefois; elle l’avait aimé avec mille servilités qui l’avaient détaché d’elle encore davantage. Enjouée jadis, expansive et tout aimante, elle était, en vieillissant, devenue (à la façon du vin éventé qui se tourne en vinaigre) d’humeur difficile, piaillarde, nerveuse. Elle avait tant souffert, sans se plaindre, d’abord, quand elle le voyait courir après toutes les gotons de village et que vingt mauvais lieux le lui renvoyaient le soir, blasé et puant l’ivresse! Puis l’orgueil s’était révolté. Alors elle s’était tue, avalant sa rage dans un stoïcisme muet, qu’elle garda jusqu’à sa mort. Elle était sans cesse en courses, en affaires. Elle allait chez les avoués, chez le président, se rappelait l’échéance des billets, obtenait des retards; et, à la maison, repassait, cousait, blanchissait, surveillait les ouvriers, soldait les mémoires, tandis que, sans s’inquiéter de rien, Monsieur, continuellement engourdi dans une somnolence boudeuse dont il ne se réveillait que pour lui dire des choses désobligeantes, restait à fumer au coin du feu, en crachant dans les cendres.

Quand elle eut un enfant, il le fallut mettre en nourrice. Rentré chez eux, le marmot fut gâté comme un prince. Sa mère le nourrissait de confitures; son père le laissait courir sans souliers, et, pour faire le philosophe, disait même qu’il pouvait bien aller tout nu, comme les enfants des bêtes. À l’encontre des tendances maternelles, il avait en tête un certain idéal viril de l’enfance, d’après lequel il tâchait de former son fils, voulant qu’on l’élevât durement, à la spartiate, pour lui faire une bonne constitution. Il l’envoyait se coucher sans feu, lui apprenait à boire de grands coups de rhum et à insulter les processions. Mais, naturellement paisible, le petit répondait mal à ses efforts. Sa mère le traînait toujours après elle; elle lui découpait des cartons, lui racontait des histoires, s’entretenait avec lui dans des monologues sans fin, pleins de gaietés mélancoliques et de chatteries babillardes. Dans l’isolement de sa vie, elle reporta sur cette tête d’enfant toutes ses vanités éparses, brisées. Elle rêvait de hautes positions, elle le voyait déjà grand, beau, spirituel, établi, dans les ponts et chaussées ou dans la magistrature. Elle lui apprit à lire, et même lui enseigna, sur un vieux piano qu’elle avait, à chanter deux ou trois petites romances. Mais, à tout cela, M. Bovary, peu soucieux des lettres, disait que ce n’était pas la peine! Auraient-ils jamais de quoi l’entretenir dans les écoles du gouvernement, lui acheter une charge ou un fonds de commerce? D’ailleurs, avec du toupet, un homme réussit toujours dans le monde. Madame Bovary se mordait les lèvres, et l’enfant vagabondait dans le village.

Il suivait les laboureurs, et chassait, à coups de motte de terre, les corbeaux qui s’envolaient. Il mangeait des mûres le long des fossés, gardait les dindons avec une gaule, fanait à la moisson, courait dans le bois, jouait à la marelle sous le porche de l’église les jours de pluie, et, aux grandes fêtes, suppliait le bedeau de lui laisser sonner les cloches, pour se pendre de tout son corps à la grande corde et se sentir emporter par elle dans sa volée.

Aussi poussa-t-il comme un chêne. Il acquit de fortes mains, de belles couleurs.

À douze ans, sa mère obtint que l’on commençât ses études. On en chargea le curé. Mais les leçons étaient si courtes et si mal suivies, qu’elles ne pouvaient servir à grand-chose. C’était aux moments perdus qu’elles se donnaient, dans la sacristie, debout, à la hâte, entre un baptême et un enterrement; ou bien le curé envoyait chercher son élève après l’Angélus, quand il n’avait pas à sortir. On montait dans sa chambre, on s’installait: les moucherons et les papillons de nuit tournoyaient autour de la chandelle. Il faisait chaud, l’enfant s’endormait; et le bonhomme, s’assoupissant les mains sur son ventre, ne tardait pas à ronfler, la bouche ouverte. D’autres fois, quand M. le curé, revenant de porter le viatique à quelque malade des environs, apercevait Charles qui polissonnait dans la campagne, il l’appelait, le sermonnait un quart d’heure et profitait de l’occasion pour lui faire conjuguer son verbe au pied d’un arbre. La pluie venait les interrompre, ou une connaissance qui passait. Du reste, il était toujours content de lui, disait même que le jeune homme avait beaucoup de mémoire.

Charles ne pouvait en rester là. Madame fut énergique. Honteux, ou fatigué plutôt, Monsieur céda sans résistance, et l’on attendit encore un an que le gamin eût fait sa première communion.

Six mois se passèrent encore; et, l’année d’après, Charles fut définitivement envoyé au collège de Rouen, où son père l’amena lui-même, vers la fin d’octobre, à l’époque de la foire Saint- Romain.

Il serait maintenant impossible à aucun de nous de se rien rappeler de lui. C’était un garçon de tempérament modéré, qui jouait aux récréations, travaillait à l’étude, écoutant en classe, dormant bien au dortoir, mangeant bien au réfectoire. Il avait pour correspondant un quincaillier en gros de la rue Ganterie, qui le faisait sortir une fois par mois, le dimanche, après que sa boutique était fermée, l’envoyait se promener sur le port à regarder les bateaux, puis le ramenait au collège dès sept heures, avant le souper. Le soir de chaque jeudi, il écrivait une longue lettre à sa mère, avec de l’encre rouge et trois pains à cacheter; puis il repassait ses cahiers d’histoire, ou bien lisait un vieux volume d’Anacharsis qui traînait dans l’étude. En promenade, il causait avec le domestique, qui était de la campagne comme lui.

À force de s’appliquer, il se maintint toujours vers le milieu de la classe; une fois même, il gagna un premier accessit d’histoire naturelle. Mais à la fin de sa troisième, ses parents le retirèrent du collège pour lui faire étudier la médecine, persuadés qu’il pourrait se pousser seul jusqu’au baccalauréat.

Sa mère lui choisit une chambre, au quatrième, sur l’Eau-de-Robec, chez un teinturier de sa connaissance: Elle conclut les arrangements pour sa pension, se procura des meubles, une table et deux chaises, fit venir de chez elle un vieux lit en merisier, et acheta de plus un petit poêle en fonte, avec la provision de bois qui devait chauffer son pauvre enfant. Puis elle partit au bout de la semaine, après mille recommandations de se bien conduire, maintenant qu’il allait être abandonné à lui-même.

Le programme des cours, qu’il lut sur l’affiche, lui fit un effet d’étourdissement: cours d’anatomie, cours de pathologie, cours de physiologie, cours de pharmacie, cours de chimie, et de botanique, et de clinique, et de thérapeutique, sans compter l’hygiène ni la matière médicale, tous noms dont il ignorait les étymologies et qui étaient comme autant de portes de sanctuaires pleins d’augustes ténèbres.

Il n’y comprit rien; il avait beau écouter, il ne saisissait pas. Il travaillait pourtant, il avait des cahiers reliés, il suivait tous les cours; il ne perdait pas une seule visite. Il accomplissait sa petite tâche quotidienne à la manière du cheval de manège, qui tourne en place les yeux bandés, ignorant de la besogne qu’il broie.

Pour lui épargner de la dépense, sa mère lui envoyait chaque semaine, par le messager, un morceau de veau cuit au four, avec quoi il déjeunait le matin; quand il était rentré de l’hôpital, tout en battant la semelle contre le mur. Ensuite il fallait courir aux leçons, à l’amphithéâtre, à l’hospice, et revenir chez lui, à travers toutes les rues. Le soir, après le maigre dîner de son propriétaire, il remontait à sa chambre et se remettait au travail, dans ses habits mouillés qui fumaient sur son corps, devant le poêle rougi.

Dans les beaux soirs d’été; à l’heure où les rues tièdes sont vides, quand les servantes, jouent au volant sur le seuil des portes, il ouvrait sa fenêtre et s’accoudait. La rivière, qui fait de ce quartier de Rouen comme une ignoble petite Venise, coulait en bas, sous lui, jaune, violette ou bleue, entre ses ponts et ses grilles. Des ouvriers, accroupis au bord, lavaient leurs bras dans l’eau. Sur des perches partant du haut des greniers, des écheveaux de coton séchaient à l’air. En face, au-delà des toits, le grand ciel pur s’étendait, avec le soleil rouge se couchant. Qu’il devait faire bon là-bas! Quelle fraîcheur sous la hêtraie! Et il ouvrait les narines pour aspirer les bonnes odeurs de la campagne, qui ne venaient pas jusqu’à lui.

Il maigrit, sa taille s’allongea, et sa figure prit une sorte d’expression dolente qui la rendit presque intéressante.

Naturellement, par nonchalance; il en vint à se délier de toutes les résolutions qu’il s’était faites. Une fois, il manqua la visite, le lendemain son cours, et, savourant la paresse, peu à peu, n’y retourna plus.

Il prit l’habitude du cabaret, avec la passion des dominos. S’enfermer chaque soir dans un sale appartement public, pour y taper sur des tables de marbre de petits os de mouton marqués de points noirs, lui semblait un acte précieux de sa liberté, qui le rehaussait d’estime vis-à-vis de lui-même. C’était comme l’initiation au monde, l’accès des plaisirs défendus; et, en entrant, il posait la main sur le bouton de la porte avec une joie presque sensuelle. Alors, beaucoup de choses comprimées en lui, se dilatèrent; il apprit par coeur des couplets qu’il chantait aux bienvenues, s’enthousiasma pour Béranger, sut faire du punch et connut enfin l’amour.

Grâce à ces travaux préparatoires, il échoua complètement à son examen d’officier de santé. On l’attendait le soir même à la maison pour fêter son succès.

Il partit à pied et s’arrêta vers l’entrée du village, où il fit demander sa mère, lui conta tout. Elle l’excusa, rejetant l’échec sur l’injustice des examinateurs, et le raffermit un peu, se chargeant d’arranger les choses. Cinq ans plus tard seulement, M. Bovary connut la vérité; elle était vieille, il l’accepta, ne pouvant d’ailleurs supposer qu’un homme issu de lui fût un sot.

Charles se remit donc au travail et prépara sans discontinuer les matières de son examen, dont il apprit d’avance toutes les questions par coeur. Il fut reçu avec une assez bonne note. Quel beau jour pour sa mère! On donna un grand dîner.

Où irait-il exercer son art? À Tostes. Il n’y avait là qu’un vieux médecin. Depuis longtemps madame Bovary guettait sa mort, et le bonhomme n’avait point encore plié bagage, que Charles était installé en face, comme son successeur.

Mais ce n’était pas tout que d’avoir élevé son fils, de lui avoir fait apprendre la médecine et découvert Tostes pour l’exercer: il lui fallait une femme. Elle lui en trouva une: la veuve d’un huissier de Dieppe, qui avait quarante-cinq ans et douze cents livres de rente.

Quoiqu’elle fût laide, sèche comme un cotret, et bourgeonnée comme un printemps, certes madame Dubuc ne manquait pas de partis à choisir. Pour arriver à ses fins, la mère Bovary fut obligée de les évincer tous, et elle déjoua même fort habilement les intrigues d’un charcutier qui était soutenu par les prêtres.

Charles avait entrevu dans le mariage l’avènement d’une condition meilleure, imaginant qu’il serait plus libre et pourrait disposer de sa personne et de son argent. Mais sa femme fut le maître; il devait devant le monde dire ceci, ne pas dire cela, faire maigre tous les vendredis, s’habiller comme elle l’entendait, harceler par son ordre les clients qui ne payaient pas. Elle décachetait ses lettres, épiait ses démarches, et l’écoutait, à travers la cloison, donner ses consultations dans son cabinet, quand il y avait des femmes.

Il lui fallait son chocolat tous les matins, des égards à n’en plus finir. Elle se plaignait sans cesse de ses nerfs, de sa poitrine, de ses humeurs. Le bruit des pas lui faisait mal; on s’en allait, la solitude lui devenait odieuse; revenait-on près d’elle, c’était pour la voir mourir, sans doute. Le soir, quand Charles rentrait, elle sortait de dessous ses draps ses longs bras maigres, les lui passait autour du cou, et, l’ayant fait asseoir au bord du lit, se mettait à lui parler de ses chagrins: il l’oubliait, il en aimait une autre! On lui avait bien dit qu’elle serait malheureuse; et elle finissait en lui demandant quelque sirop pour sa santé et un peu plus d’amour.

II

Une nuit, vers onze heures, ils furent réveillés par le bruit d’un cheval qui s’arrêta juste à la porte. La bonne ouvrit la lucarne du grenier et parlementa quelque temps avec un homme resté en bas, dans la rue. Il venait chercher le médecin; il avait une lettre. Nastasie descendit les marches en grelottant, et alla ouvrir la serrure et les verrous, l’un après l’autre. L’homme laissa son cheval, et, suivant la bonne, entra tout à coup derrière elle. Il tira de dedans son bonnet de laine à houppes grises, une lettre enveloppée dans un chiffon, et la présenta délicatement à Charles, qui s’accouda sur l’oreiller pour la lire. Nastasie, près du lit, tenait la lumière. Madame, par pudeur, restait tournée vers la ruelle et montrait le dos.

Cette lettre, cachetée d’un petit cachet de cire bleue, suppliait M. Bovary de se rendre immédiatement à la ferme des Bertaux, pour remettre une jambe cassée. Or il y a, de Tostes aux Bertaux, six bonnes lieues de traverse, en passant par Longueville et Saint- Victor. La nuit était noire. Madame Bovary jeune redoutait les accidents pour son mari. Donc il fut décidé que le valet d’écurie prendrait les devants. Charles partirait trois heures plus tard, au lever de la lune. On enverrait un gamin à sa rencontre, afin de lui montrer le chemin de la ferme et d’ouvrir les clôtures devant lui.

Vers quatre heures du matin, Charles, bien enveloppé dans son manteau, se mit en route pour les Bertaux. Encore endormi par la chaleur du sommeil, il se laissait bercer au trot pacifique de sa bête. Quand elle s’arrêtait d’elle-même devant ces trous entourés d’épines que l’on creuse au bord des sillons, Charles se réveillant en sursaut, se rappelait vite la jambe cassée, et il tâchait de se remettre en mémoire toutes les fractures qu’il savait. La pluie ne tombait plus; le jour commençait à venir, et, sur les branches des pommiers sans feuilles, des oiseaux se tenaient immobiles, hérissant leurs petites plumes au vent froid du matin. La plate campagne s’étalait à perte de vue, et les bouquets d’arbres autour des fermes faisaient, à intervalles éloignés, des taches d’un violet noir sur cette grande surface grise, qui se perdait à l’horizon dans le ton morne du ciel. Charles, de temps à autre, ouvrait les yeux; puis, son esprit se fatiguant et le sommeil revenant de soi-même, bientôt il entrait dans une sorte d’assoupissement où, ses sensations récentes se confondant avec des souvenirs, lui-même se percevait double, à la fois étudiant et marié, couché dans son lit comme tout à l’heure, traversant une salle d’opérés comme autrefois. L’odeur chaude des cataplasmes se mêlait dans sa tête à la verte odeur de la rosée; il entendait rouler sur leur tringle les anneaux de fer des lits et sa femme dormir… Comme il passait par Vassonville, il aperçut, au bord d’un fossé, un jeune garçon assis sur l’herbe.

— Êtes-vous le médecin? demanda l’enfant.

Et, sur la réponse de Charles, il prit ses sabots à ses mains et se mit à courir devant lui.

L’officier de santé, chemin faisant, comprit aux discours de son guide que M. Rouault devait être un cultivateur des plus aisés. Il s’était cassé la jambe, la veille au soir, en revenant de faire les Rois, chez un voisin. Sa femme était morte depuis deux ans. Il n’avait avec lui que sa demoiselle, qui l’aidait à tenir la maison.

Les ornières devinrent plus profondes. On approchait des Bertaux. Le petit gars, se coulant alors par un trou de haie, disparut, puis, il revint au bout d’une cour en ouvrir la barrière. Le cheval glissait sur l’herbe mouillée; Charles se baissait pour passer sous les branches. Les chiens de garde à la niche aboyaient en tirant sur leur chaîne. Quand il entra dans les Bertaux, son cheval eut peur et fit un grand écart.

C’était une ferme de bonne apparence. On voyait dans les écuries, par le dessus des portes ouvertes, de gros chevaux de labour qui mangeaient tranquillement dans des râteliers neufs. Le long des bâtiments s’étendait un large fumier, de la buée s’en élevait, et, parmi les poules et les dindons, picoraient dessus cinq ou six paons, luxe des basses-cours cauchoises. La bergerie était longue, la grange était haute, à murs lisses comme la main. Il y avait sous le hangar deux grandes charrettes et quatre charrues, avec leurs fouets, leurs colliers, leurs équipages complets, dont les toisons de laine bleue se salissaient à la poussière fine qui tombait des greniers. La cour allait en montant; plantée d’arbres symétriquement espacés, et le bruit gai d’un troupeau d’oies retentissait près de la mare.

Une jeune femme, en robe de mérinos bleu garnie de trois volants, vint sur le seuil de la maison pour recevoir M. Bovary, qu’elle fit entrer dans la cuisine, où flambait un grand feu. Le déjeuner des gens bouillonnait alentour, dans des petits pots de taille inégale. Des vêtements humides séchaient dans l’intérieur de la cheminée. La pelle, les pincettes et le bec du soufflet, tous de proportion colossale, brillaient comme de l’acier poli, tandis que le long des murs s’étendait une abondante batterie de cuisine, où miroitait inégalement la flamme claire du foyer, jointe aux premières lueurs du soleil arrivant par les carreaux.

Charles monta, au premier, voir le malade. Il le trouva dans son lit, suant sous ses couvertures et ayant rejeté bien loin son bonnet de coton. C’était un gros petit homme de cinquante ans, à la peau blanche, à l’oeil bleu, chauve sur le devant de la tête, et qui portait des boucles d’oreilles. Il avait à ses côtés, sur une chaise, une grande carafe d’eau-de-vie, dont il se versait de temps à autre pour se donner du coeur au ventre; mais, dès qu’il vit le médecin, son exaltation tomba, et, au lieu de sacrer comme il faisait depuis douze heures, il se prit à geindre faiblement.

La fracture était simple, sans complication d’aucune espèce. Charles n’eût osé en souhaiter de plus facile. Alors, se rappelant les allures de ses maîtres auprès du lit des blessés, il réconforta le patient avec toutes sortes de bons mots; caresses chirurgicales qui sont comme l’huile dont on graisse les bistouris. Afin d’avoir des attelles, on alla chercher, sous la charreterie, un paquet de lattes. Charles en choisit une, la coupa en morceaux et la polit avec un éclat de vitre, tandis que la servante déchirait des draps pour faire des bandes, et que mademoiselle Emma tâchait à coudre des coussinets. Comme elle fut longtemps avant de trouver son étui, son père s’impatienta; elle ne répondit rien; mais, tout en cousant, elle se piquait les doigts, qu’elle portait ensuite à sa bouche pour les sucer.

Charles fut surpris de la blancheur de ses ongles. Ils étaient brillants, fins du bout, plus nettoyés que les ivoires de Dieppe, et taillés en amande. Sa main pourtant n’était pas belle, point assez pâle peut-être, et un peu sèche aux phalanges; elle était trop longue aussi, et sans molles inflexions de lignes sur les contours. Ce qu’elle avait de beau, c’étaient les yeux; quoiqu’ils fussent bruns, ils semblaient noirs à cause des cils, et son regard arrivait franchement à vous avec une hardiesse candide.

Une fois le pansement fait, le médecin fut invité, par M. Rouault lui-même, à prendre un morceau avant de partir.

Charles descendit dans la salle, au rez-de-chaussée. Deux couverts, avec des timbales d’argent, y étaient mis sur une petite table, au pied d’un grand lit à baldaquin revêtu d’une indienne à personnages représentant des Turcs. On sentait une odeur d’iris et de draps humides, qui s’échappait de la haute armoire en bois de chêne, faisant face à la fenêtre. Par terre, dans les angles, étaient rangés, debout, des sacs de blé. C’était le trop-plein du grenier proche, où l’on montait par trois marches de pierre. Il y avait, pour décorer l’appartement, accrochée à un clou, au milieu du mur dont la peinture verte s’écaillait sous le salpêtre, une tête de Minerve au crayon noir, encadrée de dorure, et qui portait au bas, écrit en lettres gothiques: «À mon cher papa.»

On parla d’abord du malade, puis du temps qu’il faisait, des grands froids, des loups qui couraient les champs, la nuit. Mademoiselle Rouault ne s’amusait guère à la campagne, maintenant surtout qu’elle était chargée presque à elle seule des soins de la ferme. Comme la salle était fraîche, elle grelottait tout en mangeant, ce qui découvrait un peu ses lèvres charnues, qu’elle avait coutume de mordillonner à ses moments de silence.

Son cou sortait d’un col blanc, rabattu. Ses cheveux, dont les deux bandeaux noirs semblaient chacun d’un seul morceau, tant ils étaient lisses, étaient séparés sur le milieu de la tête par une raie fine, qui s’enfonçait légèrement selon la courbe du crâne; et, laissant voir à peine le bout de l’oreille, ils allaient se confondre par derrière en un chignon abondant, avec un mouvement ondé vers les tempes, que le médecin de campagne remarqua là pour la première fois de sa vie. Ses pommettes étaient roses. Elle portait, comme un homme, passé entre deux boutons de son corsage, un lorgnon d’écaille.

Quand Charles, après être monté dire adieu au père Rouault, rentra dans la salle avant de partir, il la trouva debout, le front contre la fenêtre, et qui regardait dans le jardin, où les échalas des haricots avaient été renversés par le vent. Elle se retourna.

— Cherchez-vous quelque chose? demanda-t-elle.

— Ma cravache, s’il vous plaît, répondit-il.

Et il se mit à fureter sur le lit, derrière les portes, sous les chaises; elle était tombée à terre, entre les sacs et la muraille. Mademoiselle Emma l’aperçut; elle se pencha sur les sacs de blé. Charles, par galanterie, se précipita et, comme il allongeait aussi son bras dans le même mouvement, il sentit sa poitrine effleurer le dos de la jeune fille, courbée sous lui. Elle se redressa toute rouge et le regarda par-dessus l’épaule, en lui tendant son nerf de boeuf.

Au lieu de revenir aux Bertaux trois jours après, comme il l’avait promis, c’est le lendemain même qu’il y retourna, puis deux fois la semaine régulièrement, sans compter les visites inattendues qu’il faisait de temps à autre, comme par mégarde.

Tout, du reste, alla bien; la guérison s’établit selon les règles, et quand, au bout de quarante-six jours, on vit le père Rouault qui s’essayait à marcher seul dans sa masure, on commença à considérer M. Bovary comme un homme de grande capacité. Le père Rouault disait qu’il n’aurait pas été mieux guéri par les premiers médecins d’Yvetot ou même de Rouen.

Quant à Charles, il ne chercha point à se demander pourquoi il venait aux Bertaux avec plaisir. Y eût-il songé, qu’il aurait sans doute attribué son zèle à la gravité du cas, ou peut-être au profit qu’il en espérait. Était-ce pour cela, cependant, que ses visites à la ferme faisaient, parmi les pauvres occupations de sa vie, une exception charmante? Ces jours-là il se levait de bonne heure, partait au galop, poussait sa bête, puis il descendait pour s’essuyer les pieds sur l’herbe, et passait ses gants noirs avant d’entrer. Il aimait à se voir arriver dans la cour, à sentir contre son épaule la barrière qui tournait, et le coq qui chantait sur le mur, les garçons qui venaient à sa rencontre. Il aimait la grange et les écuries; il aimait le père Rouault; qui lui tapait dans la main en l’appelant son sauveur; il aimait les petits sabots de mademoiselle Emma sur les dalles lavées de la cuisine; ses talons hauts la grandissaient un peu, et, quand elle marchait devant lui, les semelles de bois, se relevant vite, claquaient avec un bruit sec contre le cuir de la bottine.

Elle le reconduisait toujours jusqu’à la première marche du perron. Lorsqu’on n’avait pas encore amené son cheval, elle restait là. On s’était dit adieu, on ne parlait plus; le grand air l’entourait, levant pêle-mêle les petits cheveux follets de sa nuque, ou secouant sur sa hanche les cordons de son tablier, qui se tortillaient comme des banderoles. Une fois, par un temps de dégel, l’écorce des arbres suintait dans la cour, la neige sur les couvertures des bâtiments se fondait. Elle était sur le seuil; elle alla chercher son ombrelle, elle l’ouvrit. L’ombrelle, de soie gorge de pigeon, que traversait le soleil, éclairait de reflets mobiles la peau blanche de sa figure. Elle souriait là- dessous à la chaleur tiède; et on entendait les gouttes d’eau, une à une, tomber sur la moire tendue.

Dans les premiers temps que Charles fréquentait les Bertaux, madame Bovary jeune ne manquait pas de s’informer du malade, et même sur le livre qu’elle tenait en partie double, elle avait choisi pour M. Rouault une belle page blanche. Mais quand elle sut qu’il avait une fille, elle alla aux informations; et elle apprit que mademoiselle Rouault, élevée au couvent, chez les Ursulines, avait reçu, comme on dit, une belle éducation, qu’elle savait, en conséquence, la danse, la géographie, le dessin, faire de la tapisserie et toucher du piano. Ce fut le comble!

— C’est donc pour cela, se disait-elle, qu’il a la figure si épanouie quand il va la voir, et qu’il met son gilet neuf, au risque de l’abîmer à la pluie? Ah! cette femme! cette femme!…

Et elle la détesta, d’instinct. D’abord, elle se soulagea par des allusions, Charles ne les comprit pas; ensuite, par des réflexions incidentes qu’il laissait passer de peur de l’orage; enfin, par des apostrophes à brûle-pourpoint auxquelles il ne savait que répondre.

— D’où vient qu’il retournait aux Bertaux, puisque M. Rouault était guéri et que ces gens-là n’avaient pas encore payé? Ah! c’est qu’il y avait là-bas une personne, quelqu’un qui savait causer, une brodeuse, un bel esprit. C’était là ce qu’il aimait: il lui fallait des demoiselles de ville! — Et elle reprenait:

— La fille au père Rouault, une demoiselle de ville! Allons donc! leur grand-père était berger, et ils ont un cousin qui a failli passer par les assises pour un mauvais coup, dans une dispute. Ce n’est pas la peine de faire tant de fla-fla, ni de se montrer le dimanche à l’église avec une robe de soie, comme une comtesse. Pauvre bonhomme, d’ailleurs, qui sans les colzas de l’an passé, eût été bien embarrassé de payer ses arrérages!

Par lassitude, Charles cessa de retourner aux Bertaux. Héloïse lui avait fait jurer qu’il n’irait plus, la main sur son livre de messe, après beaucoup de sanglots et de baisers, dans une grande explosion d’amour. Il obéit donc; mais la hardiesse de son désir protesta contre la servilité de sa conduite, et, par une sorte d’hypocrisie naïve, il estima que cette défense de la voir était pour lui comme un droit de l’aimer. Et puis la veuve était maigre; elle avait les dents longues; elle portait en toute saison un petit châle noir dont la pointe lui descendait entre les omoplates; sa taille dure était engainée dans des robes en façon de fourreau, trop courtes, qui découvraient ses chevilles, avec les rubans de ses souliers larges s’entrecroisant sur des bas gris.

La mère de Charles venait les voir de temps à autre; mais, au bout de quelques jours, la bru semblait l’aiguiser à son fil; et alors, comme deux couteaux, elles étaient à le scarifier par leurs réflexions et leurs observations. Il avait tort de tant manger! Pourquoi toujours offrir la goutte au premier venu? Quel entêtement que de ne pas vouloir porter de flanelle!

Il arriva qu’au commencement du printemps, un notaire d’Ingouville, détenteur de fonds de la veuve Dubuc, s’embarqua, par une belle marée, emportant avec lui tout l’argent de son étude. Héloïse, il est vrai, possédait encore, outre une part de bateau évaluée six mille francs, sa maison de la rue Saint- François; et cependant, de toute cette fortune que l’on avait fait sonner si haut, rien, si ce n’est un peu de mobilier et quelques nippes, n’avait paru dans le ménage. Il fallut tirer la chose au clair. La maison de Dieppe se trouva vermoulue d’hypothèques jusque dans ses pilotis; ce qu’elle avait mis chez le notaire, Dieu seul le savait, et la part de barque n’excéda point mille écus. Elle avait donc menti, la bonne dame! Dans son exaspération, M. Bovary père, brisant une chaise contre les pavés, accusa sa femme d’avoir fait le malheur de leur fils en l’attelant à une haridelle semblable, dont les harnais ne valaient pas la peau. Ils vinrent à Tostes. On s’expliqua. Il y eut des scènes. Héloïse, en pleurs, se jetant dans les bras de son mari, le conjura de la défendre de ses parents. Charles voulut parler pour elle. Ceux-ci se fâchèrent, et ils partirent.

Mais le coup était porté. Huit jours après, comme elle étendait du linge dans sa cour, elle fut prise d’un crachement de sang, et le lendemain, tandis que Charles avait le dos tourné pour fermer le rideau de la fenêtre, elle dit: «Ah! mon Dieu!» poussa un soupir et s’évanouit. Elle était morte! Quel étonnement!

Quand tout fut fini au cimetière, Charles rentra chez lui. Il ne trouva personne en bas; il monta au premier, dans la chambre, vit sa robe encore accrochée au pied de l’alcôve; alors, s’appuyant contre le secrétaire, il resta jusqu’au soir perdu dans une rêverie douloureuse. Elle l’avait aimé, après tout.

 


 

MADAME BOVARY
Tradução de Luíz Horácio

 

Estávamos na sala de estudos quando o diretor entrou seguido de um novato sem uniforme e de um auxiliar que carregava uma grande carteira. Aqueles que dormiam despertaram, e todos se levantaram como surpreendidos em seu trabalho.

O diretor sinalizou para nos sentarmos novamente e, a seguir, dirigindo-se ao coordenador dos estudos:

– Senhor Roger, disse-lhe a meia voz, recomendo-lhe este aluno, ele entra no quinto ano. Se fizer por merecer, por sua dedicação e conduta, se juntará aos grandes, de acordo com sua idade.

O novato, que havia ficado em um canto, atrás da porta, de modo que mal conseguíamos vê-lo, era um adolescente da zona rural, de aproximadamente quinze anos, e mais alto do que qualquer um de nós. Tinha os cabelos cortados retos sobre a testa, como o dos cantores do coral da igreja, aparentava sensatez e bastante tímido. Apesar de não ter ombros largos, seu paletó de cor verde e botões pretos parecia um tanto apertado, deixando-o pouco à vontade e, pela abertura das mangas, podíamos ver seus pulsos vermelhos habituados a andar arremangados. Suas pernas, em meias azuis, sobressaíam de calças amareladas, muito esticadas pelos suspensórios. Calçava sapatos rústicos, mal engraxados, reforçados com pregos.

Começamos a recitar as lições. Ele escutava com toda atenção, como a ouvir um sermão, não ousando sequer cruzar as pernas, nem apoiar-se sobre o cotovelo, e, às duas horas, quando o sino soou, o coordenador dos estudos precisou chamar sua atenção para que se pusesse em fila conosco.

Tínhamos por hábito, ao entramos em sala de aula, jogar nossos bonés ao chão, de modo a ficarmos com as mãos livres; devíamos lançá-los da soleira da porta para debaixo do banco, dessa maneira, ao se chocarem com a parede, levantassem muita poeira, essa era a nossa solenidade.

Mas, fosse porque não tivesse percebido a manobra, ou porque não ousasse experimentá-la, a oração terminara e o novato ainda mantinha o boné sobre seus joelhos. Tratava-se de um daqueles barretes compostos, onde se encontram elementos do boné de pele, chapska[1], chapéu arredondado, gorro de pele de lontra e do boné de algodão, enfim, uma coisa vulgar cuja feiura taciturna carrega profundas expressões, como o rosto de um imbecil. Ovóide e provido de barbatanas, o boné começava por três cilindros circulares, a seguir alternavam-se, separados por uma faixa vermelha, losangos de veludo e pele de coelho; em seguida vinha algo semelhante a um saco que terminava em um polígono cartonado, coberto por um intrincado bordado em trança, de onde pendia, na extremidade de um cordão muito fino, um pequeno emaranhado de fios dourados, em forma de uma semente de carvalho. Era um boné novo; a viseira brilhava.

– Levante-se, disse o professor.

– Ele se levantou, seu boné caiu. Toda a classe prorrompeu em risos.

Abaixou-se para pegá-lo. Um colega o derrubou novamente com uma cotovelada, ele tornou a juntá-lo.

-Livre-se de seu boné, disse o professor que era um homem espirituoso.

Uma gargalhada geral ecoou pela sala, suficiente para perturbar o pobre rapaz que não sabia se devia segurar seu boné na mão, deixá-lo no chão ou enfiá-lo na cabeça.

Tornou a sentar-se e a colocá-lo sobre os joelhos.

– Levante-se, repetiu o professor, e diga-me o seu nome.

O novato articulou, com uma voz titubeante, um nome ininteligível.

-Repita!

O mesmo balbuciar de sílabas se fez ouvir, encoberto pelos apupos da classe.

-Mais alto! gritou o professor, mais alto!

O novato, tomando então uma resolução extrema, abriu desmesuradamente a boca e projetou a plenos pulmões, como se quisesse chamar alguém, esta palavra: Charbovari[2].

Uma enorme algazarra tomou conta da sala, foi aumentando em crescendo, numa gritaria estridente (uivavam, latiam, sapateavam, repetiam: Charbovari ! Charbovari!), depois circulou em notas isoladas, acalmando-se a duras penas, e por vezes recomeçava subitamente numa fileira de bancos, onde explodia aqui e ali, como uma bomba mal desativada, algum riso sufocado.

Porém, graças a uma profusão de castigos, pouco a pouco foi restabelecida a ordem na classe e o professor, assim que conseguiu compreender o nome de Charles Bovary, após tê-lo feito ditar, soletrar e reler, mandou o pobre diabo sentar-se no banco dos preguiçosos, ao pé do estrado do professor. O novato ameaçou partir, mas antes mesmo de começar a andar, hesitou.

-O que procura? indagou o professor.

-Meu bo…, disse timidamente o novato, percebendo em torno de si olhares inquietos.

-Quinhentos versos para toda a classe! exclamou furiosamente o professor, impedindo, como o Quos ego[3], uma nova borrasca. – Calem-se! continuou o professor indignado, e enxugando a testa com o lenço que acabara de tirar de sua touca. – Quanto a você, novato, copiará vinte vezes o verbo ridiculus sum[4].

A seguir, com uma voz mais suave:

-Ei, logo encontrará seu boné, ninguém o roubou!

Tudo voltou à calma. As cabeças se inclinaram sobre os cadernos, e o novato manteve uma postura exemplar durante duas horas, ainda que recebesse, de vez em quando, alguma bolinha de papel arremessada com um bico de pena, que acabava por sujar seu rosto.

Mas ele limpava-se com a mão e permanecia imóvel, olhos baixos.

Ao final da tarde, na sala de estudo, tirou da carteira suas mangas sobressalentes, organizou seu material, pautou cuidadosamente o papel. Nós o vimos trabalhar conscienciosamente, procurando todas as palavras no dicionário e fazendo um grande esforço. Graças, sem dúvida, a essa boa vontade, foi que não precisou regredir à classe inferior; pois, embora soubesse razoavelmente as regras, seu estilo ao escrever não era dos mais elegantes.

Começara os estudos do latim com o padre de sua cidade, dado que seus pais, por economia, o enviaram à escola o mais tarde possível.

Seu pai, senhor Charles-Denis-Bartholomé Bovary, antigo auxiliar do cirurgião-mor, comprometido, por volta de 1812, com assuntos de alistamento militar, e forçado, por essa época, a abandonar o serviço, aproveitara-se então de suas vantagens pessoais para receber um dote de sessenta mil francos, referentes à filha do dono de uma malharia que se apaixonara pela sua elegância. Homem bonito, falastrão, costumava fazer barulho com suas esporas, cultivava suíças que encostavam nos bigodes, os dedos sempre enfeitados com anéis e vestido com cores vistosas, tinha o aspecto de um bravo aliado à desenvoltura de um caixeiro-viajante. Depois de casado, sustentou-se durante dois ou três anos graças a fortuna de sua mulher, jantando bem, levantando-se tarde, fumando em grandes cachimbos de porcelana, só regressando para casa tarde da noite após o espetáculo e frequentando os cafés. O sogro morreu e deixou pouca coisa; ele ficou indignado, lançou-se na indústria, perdeu algum dinheiro, depois retirou-se para o campo, onde pretendia recuperar-se. Mas como não entendia mais de agricultura do que de tecidos indianos, montava em seus cavalos em vez de pô-los a trabalhar, bebia garrafas da sidra que produzia em vez de comercializá-las em barris, comia as melhores aves do galinheiro e engraxava as botas de caça com a banha dos seus porcos, não demorou a perceber que seria melhor abandonar qualquer mercantilização.

Mediante duzentos francos anuais, encontrou, então, para arrendar, num povoado nos confins da região de Caux e da Picardie, uma espécie de residência, metade fazenda, metade casa senhorial; e magoado, roído pelo remorso, acusando o céu, invejando a tudo e a todos, escolheu viver recluso aos quarenta e cinco anos, dizia-se desgostoso dos homens e decidido a viver em paz.

Sua mulher tinha sido louca por ele, antigamente; amara-o com mil servilismos, estes acabaram por afastá-lo cada vez mais. Outrora alegre, expansiva e apaixonada, tornara-se, ao envelhecer (feito vinho que ao entrar em contato com o ar se transforma em vinagre), mal humorada, gritona, nervosa. Muito sofrera, sem se queixar, primeiro quando o via correr atrás de toda prostituta do povoado e quando, à noite, vinte lugares de péssima fama o mandavam de volta, debilitado e fedendo a embriaguez! Depois o orgulho se revoltou. Então calou-se, engolindo sua raiva num estoicismo mudo, que preservou até a morte. Ela estava constantemente fazendo compras, tratando de negócios. Costumava ir aos advogados, ao presidente do conselho, recordava-se do vencimento dos títulos, conseguia prorrogações; e, em casa, passava roupa, costurava, lavava, controlava os empregados, pagava as contas, enquanto, sem nenhuma preocupação, o senhor, permanentemente entorpecido numa sonolência amuada da qual despertava apenas para insultá-la, permanecia fumando junto à lareira, cuspindo nas cinzas.

Quando ela teve um filho, precisou confiá-lo a uma ama de leite. Ao voltar para casa, o menino foi mimado como um príncipe. A mãe o alimentava com geleias; o pai permitia que corresse descalço e, para dar-se ares de filósofo, dizia até que podia andar completamente nu, como os filhotes dos animais. Opondo-se às tendências maternas, mantinha um certo ideal viril da infância, segundo o qual procurava formar seu filho, almejando uma educação espartana, de modo a adquirir uma robusta compleição. Ordenava que dormisse sem acender a lareira, ensinava-lhe a beber grandes doses de rum e a insultar as procissões. Mas, naturalmente calmo, o menino respondia mal a seus esforços. Andava sempre pendurado à saia da mãe, que recortava figuras de cartolina para ele, contava-lhe histórias, entretinha-se com o pequeno em intermináveis monólogos repletos de alegrias melancólicas e de meigas tagarelices. Em sua existência solitária, transferiu para aquela cabeça infantil todas as suas vaidades esparsas, despedaçadas. Sonhava com altas posições, imaginava-o crescido, belo, espirituoso, estabelecido, alto funcionário do departamento de Obras e Viação ou na magistratura. Ensinou-o a ler e, fazendo uso de um velho piano que tinha, ensinou-lhe a cantar duas ou três pequenas romanças. Mas, a tudo isso, o senhor Bovary, pouco preocupado com as letras, dizia que não valia a pena. Afinal de contas, chegaria o dia em que eles teriam condições para mantê-lo em escolas do governo, comprar-lhe um cargo ou montar um estabelecimento comercial? Aliás, petulância, é fundamental para um homem triunfar nessa vida. A senhora Bovary mordia os lábios e o filho vagabundeava pelo povoado.

Ele seguia os lavradores e, jogando torrões, espantava os corvos que levantavam voo. Comia amoras ao longo das valas, conduzia os perus com uma vara, secava os grãos dos cereais durante a colheita, corria pelo bosque, em dias de chuva jogava amarelinha sob o pórtico da igreja, e, nas grandes festas, suplicava ao sacristão que lhe deixasse tocar os sinos, para se pendurar na imensa corda e se deixar conduzir por ela em seu voo. Assim cresceu como um carvalho. Desenvolveu mãos fortes e aparência saudável.

Aos doze anos, sua mãe conseguiu que começasse seus estudos. O padre ficou encarregado de instruí-lo. Mas as lições eram tão curtas e tão mal desenvolvidas que não podiam servir para grande coisa. Costumavam acontecer nas horas vagas, na sacristia, de pé, às pressas, entre um batizado e um enterro; ou então o padre mandava buscar o seu aluno após o Ângelus, quando não precisaria sair. Subiam ao seu quarto, acomodavam-se: mosquitos e mariposas giravam em torno da vela. Fazia calor, o menino adormecia, e o padre sonolento, mãos sobre a barriga, não tardava a roncar, a boca aberta. Noutras oportunidades, quando o senhor padre, ao retornar após ter levado o Sacramento da Eucaristia a algum doente dos arredores, percebia Charles fazendo travessuras pelo campo, chamava-o, passava-lhe um sermão de quarto de hora e aproveitava a ocasião para fazê-lo conjugar um verbo à sombra de uma árvore. A chuva costumava interrompê-los, quando não o fazia algum conhecido que por ali passava. De resto, estava sempre satisfeito com o aluno, dizia inclusive que aquele menino tinha excelente memória. Charles não podia se acomodar. A mãe foi enérgica. Envergonhado, ou fatigado, para ser mais preciso, o senhor Bovary concordou sem resistência, e ainda esperaram um ano até o menino fazer sua primeira comunhão. Mais seis meses se passaram; e, no ano seguinte, Charles foi definitivamente enviado ao colégio de Rouen, levado por seu próprio pai, ao final de outubro, à época da feira de Saint-Romain. Agora seria praticamente impossível a qualquer um de nós recordar algo a respeito dele. Era um menino de temperamento moderado, que costumava brincar nos recreios, dedicado ao estudo, sempre atento às aulas, dormia bem no dormitório, comia bem no refeitório. Mantinha contato com o dono de uma loja de ferragens da Rue Ganterie, que o fazia sair uma vez por mês, no domingo, após o fechamento de sua loja, levando-o a passear até o porto para ver os navios, em seguida o acompanhava de retorno ao colégio, por volta das sete horas, antes da ceia. Todas as quintas-feiras à noite escrevia, com tinta vermelha, uma longa carta à mãe, e fechava com um lacre triplo, depois repassava seus cadernos de história, ou então lia um velho volume de Anacharsis[5], esquecido em cima das carteiras da sala de estudo. Durante os passeios, conversava com o criado, que, assim como ele, também era do campo.

Graças a sua dedicação aos estudos, mantinha-se na média da classe; certa vez obteve uma distinção em História Natural. Mas, ao final do terceiro ano, seus pais o retiraram do colégio para que fosse estudar Medicina, persuadidos de que ele poderia estudar sozinho até o final do ensino médio. A mãe escolheu uma habitação para ele no 4º Distrito, com vista para o Eau-de-Robec, na casa de um tintureiro seu conhecido.

Cuidou dos detalhes de sua pensão, procurou móveis, uma mesa e duas cadeiras, mandou buscar em sua casa uma velha cama em cerejeira, também comprou um pequeno aquecedor em ferro fundido, com provisão de lenha suficiente para aquecer seu pobre filho. Partiu ao final da semana, depois de mil recomendações para que se comportasse bem, pois a partir daquele momento estaria por sua conta e risco. O programa dos cursos, que leu no quadro de informações, deixou-o atordoado: aulas de anatomia, aulas de patologia, aulas de fisiologia, aulas de farmácia, aulas de química, e de botânica, e de clínica, e de terapêutica, sem contar a higiene nem a matéria médica, nomes cujas etimologias ele desconhecia e que eram considerados como tantas outras portas de santuários, repletas de augustas trevas.

Ele não entendia nada; por mais que prestasse atenção não assimilava. No entanto, esforçava-se, seus cadernos tinham capas duras, assistia a todas aulas, não perdia uma consulta sequer. Cumpria sua rotina à maneira como um cavalo que faz girar o moinho, dando voltas de olhos vendados, ignorante do trabalho que desempenha.

Para evitar despesa, a mãe enviava a cada semanas, pelo mensageiro, um pedaço de vitela assada ao forno, que ele comia pela manhã ao regressar do hospital, enquanto batia com a sola dos sapatos contra o chão, de modo a aquecer os pés. Em seguida precisava correr às aulas, ao anfiteatro, ao asilo, e novamente voltar a casa, percorrendo a pé todas aquelas ruas. À noite, após o frugal jantar oferecido pelo seu senhorio, subia a seu quarto e retomava o trabalho, ainda com as roupas úmidas a fumegar diante do aquecedor.

Nas belas noites de verão, no momento de temperatura amena e ruas desertas, quando as criadas jogam peteca junto a soleira das portas, ele abria a janela e debruçava-se sobre o parapeito. O rio que faz deste bairro de Rouen uma pequena e ignóbil Veneza, logo abaixo, amarelo, violeta ou azul, entre suas pontes e gradis. Operários, agachados à margem, lavavam seus braços. Sobre grandes varas que saiam do alto do sótão, meadas de algodão secavam ao ar livre. Em frente, além dos telhados, se estendia a imensidão límpida do céu, com o sol vermelho em seu ocaso. Como devia estar agradável por lá! Quanto frescor no bosque de faias! E ele abria as narinas para aspirar os bons aromas do campo, que não chegavam a ele.

Emagreceu, seu corpo alongou e o rosto adquiriu uma expressão dolente que o tornou quase interessante.

Naturalmente, por desinteresse, deixou de lado todas as resoluções que havia tomado. Uma vez, faltou a consulta, no dia seguinte faltou as aulas, e saboreando a preguiça, pouco a pouco, abandonou definitivamente.

Habituou-se a frequentar o cabaré, com paixão especial pelo dominó. Isolar-se todas as noites, no interior de um imóvel público sujo, para bater sobre a mesa de mármore, ossinhos de carneiro marcados com pontos pretos, significava-lhe um ato precioso de liberdade, que elevava sua auto estima. Era como a iniciação ao mundo, o acesso aos prazeres proibidos; e, ao entrar, ele acionava a maçaneta com um prazer quase sensual. Então muitas coisas que ele reprimia foram liberadas, decorou algumas trovas que cantava em festas de boas- vindas, entusiasmou-se por Béranger[6], aprendeu a fazer ponche e conheceu enfim o amor.

Graças a esses trabalhos preparatórios, fracassou completamente no exame para Oficial de Saúde[7]. Naquela mesma noite era esperado em casa para comemorar seu triunfo!

Partiu a pé e parou na entrada do povoado, onde mandou chamar a mãe e contou-lhe tudo. Ela desculpou-o, imputando a reprovação à injustiça dos examinadores, tranquilizou-o um pouco, encarregando-se de ajeitar as coisas. Somente cinco anos mais tarde, o senhor Bovary conheceu a verdade, que era velha, e ele aceitou, não podia, aliás, supor que seu descendente fosse um tolo.

Charles retomou os estudos e preparou sem descanso as matérias de seu exame, das quais decorou antecipadamente todas questões. Foi aprovado com uma boa nota. Que dia feliz para sua mãe! Ofereceram um grande jantar.

Onde exerceria sua arte? Em Tostes. Lá só havia um velho médico. Há muito tempo que a senhora Bovary almejava sua morte e, o pobre homem sequer tinha feito as definitivas malas, Charles já se instalara em frente, como seu sucessor.

Mas ainda não era tudo, ter criado o filho, tê-lo feito estudar medicina e descobrir Tostes para exercê-la: ele precisava de uma mulher. Ela encontrou uma: a viúva de um oficial de justiça de Dieppe, que tinha quarenta e cinco anos e renda de mil e duzentas libras.

A despeito de ser feia, seca feito uma taquara, e com tantas bexigas no rosto quando botões na primavera, certamente à senhora Dubuc não faltavam pretendentes a escolher. Para alcançar seu propósito, a mãe Bovary foi obrigada a afastá-los todos, e frustrou com imensa habilidade a estratégia de um salcicheiro que contava com a aprovação dos padres.

Charles entrevira no casamento, a possibilidade de uma melhor condição, imaginando-se mais livre e que poderia dispor de si e de seu dinheiro. Mas quem mandava era sua mulher, ele devia, diante das pessoas, dizer isto, não dizer aquilo, jejuar todas sextas-feiras, vestir-se conforme ela determinava, pressionar, seguindo suas ordens, os clientes que não pagavam.

Ela abria suas cartas, espionava o que fazia, e escutava, atrás do biombo, o que dizia durante suas consultas em seu gabinete, quando os pacientes eram mulheres. Não abria mão de seu chocolate todas as manhãs, exigia atenções permanentes. Queixava-se incessantemente de seus nervos, de seu peito, de seu estado de espírito. O barulho dos passos lhe fazia mal; as pessoas partiam, a solidão se tornava terrível; se voltassem para junto dela, era para assistir a sua morte, sem dúvida. À noite, quando Charles voltava para casa, ela tirava debaixo dos lençóis seus longos braços magros, enlaçava seu pescoço, e após fazê-lo sentar-se à beira da cama, punha-se a falar de seus desgostos: ele a esquecia, ele amava uma outra! Bem que tinham lhe dito que seria infeliz, e acabava por pedir a ele um xarope qualquer para sua saúde e um pouco mais de amor.

II

Uma noite, por volta das onze horas, foram acordados pelo barulho de um cavalo que parou bem em frente à porta. A criada abriu a clarabóia do sótão e conversou algum tempo com um homem, que ficara embaixo, na rua. Vinha procurar o médico; trazia uma carta. Nastasie desceu os degraus tremendo de frio e foi abrir a fechadura e os ferrolhos, um após o outro. O homem deixou o cavalo, e, logo entrou seguindo a criada. Tirou de dentro de sua touca de lã com pompons cinza, uma carta envolta por um trapo, e apresentou-a delicadamente a Charles, que se debruçou sobre o travesseiro para lê-la. Nastasie, perto da cama, segurava a lamparina. A senhora, por pudor, manteve-se voltada para o canto[8] e dava-lhe as costas.

Essa carta, fechada com um pequeno lacre de cera azul, suplicava ao senhor Bovary que fosse imediatamente à fazenda dos Bertaux, para tratar de uma perna quebrada. Ora, de Tostes aos Bertaux, havia pelo menos seis boas léguas para atravessar, passando por Longueville e Saint-Victor. A noite estava escura. A jovem senhora Bovary temia que seu marido se acidentasse. Então ficou decidido que o cavalariço partiria antes. Charles seguiria três horas mais tarde, ao nascer da Lua. Enviariam um rapaz ao seu encontro, a fim de mostrar-lhe o caminho da fazenda e abrir as porteiras para ele.

Em torno das quatro horas da manhã, Charles, bem protegido por seu casaco, pegou a estrada em direção à fazenda dos Bertaux. Ainda entorpecido pelo calor do sono, deixava-se embalar ao trote pacífico de seu cavalo. Quando este parava instintivamente diante dos buracos cercados de espinhos que se abrem à beira dos sulcos formados pelos arados, Charles despertava sobressaltado, lembrava-se subitamente da perna quebrada, e procurava recordar-se de todas as fraturas que conhecia. A chuva havia parado; o dia começava a nascer e, sobre os galhos das macieiras sem folhas, os pássaros se mantinham imóveis, eriçando suas pluminhas ao vento frio da manhã. A planície se estendia a perder de vista e os pequenos bosques em torno das fazendas criavam, a grandes intervalos, manchas de um violeta escuro sobre a enorme superfície cinzenta, que se confundia, no horizonte, com o tom melancólico do céu. Charles, de tempos em tempos, abria os olhos; depois, com seu espírito cansando e o sono voltando por si mesmo, logo mergulhava numa espécie de torpor onde, confundia suas sensações recentes com lembranças, tinha impressão de uma dupla personalidade, ainda estudante e já homem casado, deitado em sua cama como há pouco, e ao mesmo tempo atravessando uma sala de recuperação, como antigamente. O cheiro quente das cataplasmas misturava-se em sua mente como o cheiro do orvalho, ouvia correr as argolas nos varões de ferro das camas e sua mulher dormir…Ao passar por Vassonville, percebeu, à beira de uma vala, um menino sentado sobre o gramado.

-O senhor é o médico? Perguntou o menino.

E com a resposta de Charles, deu de mão em seus tamancos e saiu correndo a frente.

A caminho, o oficial de saúde, concluiu, segundo o discurso de seu guia, que o senhor Rouault devia ser um agricultor dos mais abastados. Quebrara a perna na véspera, à noite, ao retornar da festa de Reis, na casa de um vizinho. Sua mulher morrera havia dois anos. Tinha como companhia uma jovem que o ajudava a manter a casa.

Os sulcos das rodas na estrada se tornaram mais profundos. Aproximavam-se dos Bertaux. O menino, atravessando uma abertura nos arbustos, desapareceu, logo retornou vindo do fundo de um pátio para abrir a porteira. O cavalo escorregava sobre a grama molhada; Charles se curvava para passar sob os galhos. Os cães de guarda, amarrados às suas casas, latiam esticando as correntes. Quando entrou na propriedade dos Bertaux, o cavalo assustou-se e recuou.

A fazenda apresentava um bom aspecto. Avistavam-se, pela abertura superior das portas das estrebarias, robustos cavalos usados para puxar o arado, que comiam tranquilamente em manjedouras novas. Ao longo das instalações estendia-se uma grande estrumeira, de onde o vapor emanava, e, entre as galinhas e os perus, esgaravatavam cinco ou seis pavões, luxo dos galinheiros de Caux. O curral era comprido, o celeiro alto, as paredes lisas como a palma da mão. No interior do galpão havia duas grandes carroças e quatro arados, com seus chicotes, cabrestos e todos os arreios, entre eles pelegos tingidos de azul, que se sujavam com a poeira que caía dos celeiros. O pátio, em desnível, coberto por árvores simetricamente espaçadas, e a algazarra de um bando de gansos ecoava próximo a um charco.

Uma jovem, em um vestido de merino azul enfeitado com babados, apareceu à soleira da porta para receber o senhor Bovary, ela o conduziu até a cozinha, onde flamejava um braseiro. O almoço das pessoas fervia ao redor, em panelas de tamanhos desiguais. Roupas úmidas secavam no interior da lareira. A pá, as pinças e o bico do fole, todos de proporções colossais, brilhavam como aço polido, enquanto que ao longo das paredes estendia-se uma abundante bateria de cozinha, onde se refletia de modo irregular a chama clara do fogão, junto com os primeiros raios de sol que entravam pelas vidraças.

Charles subiu ao primeiro andar para ver o doente. Encontrou-o na cama, suando sob as cobertas, após ter jogado bem longe a sua touca de algodão. Era um homenzinho gordo, de cinquenta anos, pele branca, olhos azuis, calvo na frente, e usava brincos. Tinha ao seu lado, sobre uma cadeira, uma grande garrafa de aguardente, da qual se servia de vez em quando para ganhar coragem; mas, ao avistar o médico, sua exaltação diminuiu, e, no lugar dos insultos que proferira durante doze horas, pôs-se a gemer levemente.

A fratura era simples, sem complicação de qualquer espécie. Charles não poderia ter desejado nada mais fácil. Então, lembrando-se das atitudes de seus mestres junto ao leito dos feridos, reconfortou o paciente como toda a sorte de palavras animadoras, carícias cirúrgicas, que são com o óleo com que se lubrifica os bisturis. Com propósito de arranjar umas talas, foram buscar algumas ripas no galpão das carroças. Charles escolheu uma, cortou-a em pedaços e a poliu com um pedaço de vidro, enquanto a criada rasgava um lençol para fazer ataduras e a senhorita Emma esforçava-se à costurar almofadinhas. Como demorou para encontrar seu estojo, seu pai se impacientou; ela não respondeu, mas, enquanto costurava, ela espetava seus dedos, que em seguida levava à boca para sugá-los.

Charles surpreendeu-se com a brancura de suas unhas. Eram brilhantes, finas nas pontas, mais limpas do que o marfim de Dieppe, e cortadas em forma de amêndoas. As mãos, no entanto, não era bonitas, talvez fossem muito pálidas, e um pouco secas nas falanges; também eram muito compridas, e sem suavidade de linhas nos contornos. O que ela tinha de belo eram os olhos, apesar de castanhos, pareciam pretos por causa dos cílios, e seu olhar chegava francamente com uma ousadia inocente.

Feito o curativo, o médico foi convidado pelo senhor Rouault, a comer algo antes de partir.

Charles desceu à sala, no térreo. Dois talheres e copos de prata estavam sobre uma mesinha, ao pé de uma grande cama com dossel revestida com tecido indiano estampada com personagens representando turcos. Sentia-se um perfume de íris e de lençóis úmidos, que escapavam do grande armário de carvalho em frente à janela. Pelo chão, nos cantos, estavam ordenados, de pé, sacos de trigo. Era o excedente do celeiro vizinho, que se estendia por três degraus de pedra. Para decorar a residência havia, pendurada num prego ao centro da parede onde a pintura verde descascava devido ao salitre, uma cabeça de Minerva desenhada com lápis preto, enquadrada numa moldura dourada, e que trazia abaixo, escrito em letras góticas: “Ao meu querido papai.”

Primeiro falaram do doente, depois do tempo, das forte ondas de frio, dos lobos que, à noite, corriam pelos campos. A jovem Rouault não apreciava nem um pouco a vida no campo, sobretudo agora que estava encarregada praticamente sozinha de cuidar da fazenda. Como fazia frio na sala, ela tremia ao comer, isso revelava um pouco seus lábios carnudos, os quais costumava  mordiscar em seus momentos de silêncio. Seu pescoço despontava em meio a gola branca virada. Seus cabelos, divididos em dois bandós negros dando impressão de ser inteiriço, de tão lisos que eram; estavam separados desde o meio da testa por uma fina risca, que se afundava levemente, seguindo a curva do crânio, deixando à mostra apenas as pontas das orelhas; juntavam-se atrás, num farto birote, com movimento ondulado em direção às têmporas, que o médico da campanha reparava pela primeira vez em sua vida. As maçãs de seu rosto eram rosadas. Ela usava, feito um homem, preso entre dois botões de seu corpete, um lornhão com aros de casco tartaruga.

Quando Charles, após ter subido para se despedir do senhor Rouault, voltou à sala antes de partir, encontrou-a de pé, testa apoiada na janela, olhando para o jardim, onde os suportes dos pés de feijão tinham sido derrubados pelo vento. Ela voltou-se.

-Procura alguma coisa? ela perguntou.

-Meu chicote, por favor – respondeu ele.

Ele se pôs a vasculhar sobre a cama, atrás das portas, debaixo das cadeiras, tinha caído no chão, entre os sacos e a parede. A senhorita Emma encontrou-o, inclinou-se sobre os sacos de trigo. Charles, por delicadeza, precipitou-se e, como também tinha feito o mesmo movimento de estender o braço, sentiu o peito roçar as costas da jovem curvada logo abaixo dele. Ela endireitou-se, bastante ruborizada e olhou-o por cima do ombro, entregando-lhe seu nervo de boi.

Em vez de voltar aos Bertaux três dias depois, conforme prometera, voltou no dia seguinte mesmo, e depois duas vezes por semana, regularmente, sem contar as visitas que fazia de vez em quando, como que por acaso.

De resto, tudo correu bem; a recuperação transcorreu segundo a praxe, e quando depois de quarenta e seis dias, o velho Rouault foi visto tentando andar sozinho em sua modesta casa[9], começaram a considerar o senhor Bovary, um homem de grande capacidade. Rouault afirmava que não teria sido mais bem assistido pelos médicos de Yvetot ou mesmo os de Rouen.

Quanto a Charles, não chegou a se questionar a razão do tamanho prazer que sentia ao visitar os Bertaux. Caso tivesse refletido a respeito, certamente atribuiria seu zelo à gravidade do caso, ou talvez, ao lucro que esperava. Seria por isso, no entanto, que suas visitas à fazenda compreendiam, entre as pobres ocupações de sua vida, uma encantadora exceção? Nesses dias, ele acordava cedo, partia a galope, forçando o animal, depois descia para limpar os pés no gramado, e vestir as luvas pretas antes de entrar. Gostava de se ver chegar ao pátio, de sentir a porteira tocar seu ombro ao abrir, o galo que cantava em cima do muro, os meninos que vinham encontrá-lo. Gostava do celeiro e das estrebarias, gostava do senhor Rouault, que lhe dava tapinhas na mão chamando-o de seu salvador, gostava dos pequenos tamanquinhos da senhorita Emma sobre o mosaico lavado da cozinha, seus saltos altos tornavam-na um pouco mais alta e, quando ela andava diante dele, as solas de madeira, levantando-se rapidamente, produziam um ruído seco contra o couro da botina.

Ela costumava acompanhá-lo até o primeiro degrau da escada externa. Ali permanecia, até que trouxessem o seu cavalo. Não trocavam palavras, já tinham se despedido, a brisa leve a envolvia e desalinhava alguns cabelinhos de sua nuca, ou sacudia sobre os quadris os cordões de seu avental, que se retorciam como bandeirolas. Uma vez, na época do degelo, escorria água das cascas das árvores pelo pátio, a neve sobre os telhados das casas e dos galpões, derretia. Ela estava na soleira da porta; foi buscar a sombrinha, abriu-a. A sombrinha de seda furta-cor[10], que o sol atravessava, iluminava com reflexos móveis a pele branca de seu rosto. Emma sorria sob o calor tépido; e ouviam-se as gotas d’água, uma a uma, caindo sobre a seda esticada.

Nos primeiros tempos em que Charles frequentava os Bertaux, a senhora Bovary procurava informar-se sobre o doente, e mesmo no livro que mantinha em páginas divididas ao meio, escolhera para o senhor Rouault uma bela página em branco. Mas, quando soube que ele tinha uma filha, buscou informações, e ficou sabendo que a senhorita Rouault, educada em convento, com as irmãs Ursulines, tinha recebido, como se diz, uma bela educação, e aprendera, consequentemente, dança, geografia, desenho, fazer tapeçarias e tocar piano. Foi o cúmulo!

– É por isso então, pensava ela, que ele se mostra tão animado quando vai encontrá-la, e que veste seu colete novo, mesmo sob risco de estragá-lo na chuva? Ah! essa mulher! essa mulher!…

E ela a detestou instintivamente. Primeiro, ela se aliviou com alusões que Charles não compreendia, a seguir, com reflexões ocasionais que ele deixava passar por temer uma tempestade; finalmente com ataques à queima roupa aos quais não sabia como responder.

– Por que razão continuava a ir aos Bertaux, visto que o senhor Rouault estava curado e aquelas pessoas ainda não tinham pagado a conta? Ah! é que havia lá uma pessoa, alguém que sabia conversar, uma bordadeira, uma pessoa culta. Estava lá o que ele gostava: precisava de moças da cidade! E deu seguimento:

– A filha do senhor Rouault, uma moça da cidade! Faça-me o favor! seu avô era pastor, e eles têm um primo que quase foi a julgamento, por causa de uma atitude desleal; durante uma disputa. Não vale a pena tamanha ostentação, nem de se mostrar aos domingos na igreja com um vestido de seda, feito uma condessa. Pobre homem, aliás, sem o colza do ano passado, teria ficado bastante atrapalhado para pagar suas dívidas!

Cansado, Charles deixou de ir aos Bertaux. Héloïse o fizera jurar que não iria mais, com a mão sobre o livro de rezas, depois de muitos soluços e beijos, numa grande explosão de amor. Ele então obedeceu; mas o atrevimento de seu desejo protestou contra o servilismo de sua conduta, e, por uma espécie de hipocrisia ingênua, estimou que essa proibição de vê-la significava para ele o direito de amá-la. Além disso, a viúva era magra, ambiciosa[11]; usava em todas as estações um pequeno xale preto cuja ponta descia entre as omoplatas; o corpo firme, sempre envolto em vestidos justos, demasiado curtos, que deixavam ver seus tornozelos, com as fitas de seus grandes sapatos entrelaçados sobre meias cinzentas.

A mãe de Charles de vez em quando os visitava, mas, ao fim de alguns dias, a nora parecia tê-la afiado ao seu estilo; e então, como duas facas, elas o golpeavam com suas reflexões e observações. Ele comia demais! Por que aquela mania de sempre oferecer aguardente ao primeiro que chegasse? Quanta teimosia em não querer usar roupa de flanela!

Ocorreu que, no começo da primavera, o tabelião de Ingouville, depositário dos bens da viúva Dubuc, embarcou, um belo dia, levando consigo todo dinheiro de seu cartório. Héloïse, é verdade, possuía ainda, parte de um barco avaliada em seis mil francos, sua casa da rua Saint-François; e, no entanto, de toda aquela fortuna que tanto alarde merecera, nada, além de alguns móveis e trapos apareceram naquela casa. Era necessário esclarecer as coisas. A casa de Dieppe se encontrava carcomida pelas hipotecas até suas fundações, o que ela havia entregado ao tabelião, só Deus sabia, e a parte no barco se resumia a mil escudos. Havia mentido, então, a boa senhora! Em sua exasperação, o senhor Bovary pai, quebrando uma cadeira contra o piso, acusava sua mulher de ter provocado a desgraça de seu filho ligando-o a semelhante matungo, cujos arreios não valiam nada. Foram a Tostes. Explicaram-se. Ocorreram cenas. Héloïse, aos prantos, jogou-se nos braços do seu marido, obrigando-o a defendê-la de seus pais. Charles quis falar por ela. Contrariados, eles partiram.

Mas o golpe fora desferido. Transcorridos oito dias, enquanto estendia roupas no quintal, ela foi surpreendida ao escarrar sangue, e no dia seguinte, enquanto Charles lhe voltara as costas para fechar as cortinas da janela, ela disse: “Ah! meu Deus!” deu um suspiro e desmaiou. Estava morta! Que espanto!

Ao término da cerimônia fúnebre, no cemitério, Charles voltou para casa. Não encontrou ninguém no térreo, subiu ao primeiro andar, no quarto, viu o vestido dela ainda pendurado na cama; então, apoiando-se na escrivaninha; assim permaneceu até o anoitecer perdido num doloroso devaneio. Apesar de tudo, ela o tinha amado.

 

[1] Chapska é um capacete militar, de origem polonesa em forma de cone, possui viseira, tem seus lados côncavos e cobertura reta em forma de quadrado, usado pelos lanceiros franceses, a partir do primeiro império.

[2] A reação da turma à palavra Charbovary talvez tenha origem numa possível deformação que levaria à charivari que significa confusão, barulheira.

[3] Expressão retirada da Eneida, de Virgílio. Netuno a profere quando de sua irritação com os ventos que acabaram por dispersar a frota de Enéias. Flaubert utiliza a expressão para caracterizar uma ameaça do professor aos alunos.

[4] “Eu sou ridículo”, em latim.

[5] Voyage du Jeune Anacharsi em Grèce dans le milieu du IV siècle avant l’ère vulgaire, escrita pelo abade Jean-Jacques Barthélemy ( 1788) , versa sobre a vida quotidiana da Antiguidade, influenciou a literatura romântica francesa.

[6] Jean-Pierre Béranger (1780-1857). Flaubert não tem a menor admiração por Béranger, a quem considera o poeta dos amores fáceis. “L’immense gloire de cet homme est, selon moi, une des preuves les plus criantes de la bêtise du public. Ni Shakespeare, ni Goethe, ni Byron, aucun grand homme enfim n’a été si universellement admiré.” A imensa glória deste homem é, na minha opinião, uma das provas mais gritantes da estupidez do público. Nem Shakespeare, nem Goethe, nem Byron, nenhum grande homem, enfim, foi tão universalmente admirado” (Correspondance,1857,p.774).

[7] Os oficiais de saúde integram uma classe de médicos com formação menos abrangentes do que os doutores em medicina. Instituida por lei em 1803 limita a região de trabalho do oficial de saúde ao departamento onde foram examinados por um júri nomeado para esse fim. Ficavam impedidos de praticar grandes cirurgias sem assistência de um doutor em medicina. Foi abolida em 1892.

[8] Ruelle- espaço existente entre a cama e a parede de um quarto. Nos séc. XVII e XVIII ruelle designa por metonímia o lugar do quarto de dormir, onde as damas refinadas recebiam seus visitantes.

[9] Na Normandie (Pays de Caux) a palavra designa uma habitação rural, um conjunto de instalações agrícolas e, por extensão, uma pastagem cercada com árvores frutíferas (ao redor das edificações da fazenda).

[10] No original, soie gorge de pigeon- que apresenta uma variação de cores conforme a incidência da luz. Podemos observar tal fenômeno nas penas dos pombos, mais precisamente no pescoço dessas aves.

[11] No original, elle avait les dents longues– ser ambiciosa. Mistura conotações humanas (1548, “avoir grand faim”) e animais.