A crítica de ontem, de Nestor Victor

Isabela Melim Borges

Crítica de ontem

Nestor Victor

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Um francês ficar apreensivo com a hegemonia da raça germânica! E então como havemos de ficar nós outros, irrisórios negroides da América do Sul?
VÍTOR, Nestor. A Hora.

Poeta, contista, ensaísta, romancista, crítico e conferencista, Nestor Victor dos Santos nasceu em Paranaguá (PR) em 12 de abril de 1868 e faleceu no Rio de Janeiro em 13 de outubro de 1932. Junto com Dario Vellozo, Silveira Netto, Julio Pernetta e Antonio Braga, fundou a revista O Cenáculo, que circulou de 1895 até 1897 na capital paranaense e cuja ênfase era a estética simbolista.

Nestor Victor deixou-nos uma extensa obra: Signos (1897), livro de contos; A Hora (1898), em que analisou o livro Os Desplantados (Les Déracinés), de Maurice Barrès, O Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand além de três livros de Henrik Ibsen. Em 1899 publicou Cruz e Souza, um extenso estudo sobre a obra do poeta, de quem era amigo e, em 1900, deu ao público seu livro de poemas À Cruz e Souza. No mesmo ano publicou o romance Amigos e, dois anos depois, Transfigurações (poemas – 1902). No entanto, foram a crítica e o ensaísmo que lhe conferiram maior notoriedade.

Em A crítica de ontem (1919), Nestor Vitor reúne textos críticos escritos em um período bem anterior à sua publicação. Inicialmente, como diz no prefácio, publicaria em 1914, mas não o fez por estar absorvido como estava todo o meu ser pelo cataclismo tremendo sob que estremecia estarrecido o mundo (p. 1), referindo-se, obviamente, à Primeira Grande Guerra. O livro é dividido em duas partes em que, de acordo com a tese de Diálogos críticos de Nestor Vítor, de Allan Valenza da Silveira,

a ideia era selecionar textos para a primeira parte que representassem o que ele, Nestor Víctor, havia sido enquanto crítico durante os seus primeiros anos de militância crítica, deixando para a segunda parte a sua postura, considerada por ele próprio, na época, como mais atual enquanto crítico (que se torna, para o próprio crítico, arcaica devido às mudanças no pensamento trazidas pela Guerra) (p. 57).

Dessa forma, o próprio Nestor Victor admite que quando voltou ao livro, não mais o reconheceu, até o título em que havia pensado já era velho: “O que fui, o que sou”. Admite que o livro deveria se chamar “O que fui” por não mais fazer jus ao crítico que ele havia se tornado (p.5).

O ensaísta, na primeira parte, trata de autores e obras, como Silveira Netto e seus poemas em Luar de Inverno; analisa O Ateneu de Raul Pompeia; As Procelárias de Magalhães Azeredo. Logo depois vem “Os novos”, uma crítica aos “neófitos nefelibatas”, aqui no sentido mais pejorativo possível, uma vez que Nestor Victor os considera

… desorganizados indivíduos, sacos de disparates e de incongruências, falsificadores de sensações, caricaturistas da Dor, ápteros que o sopro da insânia faz doudejar momentaneamente nos ares e que atribuem nesciamente o fenômeno à possança aquilina de asas (p. 53).

Mais adiante, fala sobre Luiz Delfino; aborda Canaã de Graça Aranha; elogia Olavo Bilac; traz duas páginas comparando Machado de Assis com José Alencar, onde admite que “ O brasileiro idealizado, eis o que viu Alencar; o que Machado de Assis viu foi o carioca ao pé da letra, senão ainda pior do que é” (p. 90). Escreve 31 páginas sobre Correia Garção, após o qual aborda escritos de Novalis, Emerson, Shakespeare, Nietzsche e, com Balzac, termina a primeira parte do seu livro.

A segunda parte vai de Eugène Carrière até Cruz e Souza — este, com o texto O poeta negro —, passando por Rubén Darío, Alberto de Oliveira, Machado de Assis, João do Rio, Júlia Lopes de Almeida, Mário Pederneiras, e, mais uma vez, por Raul Pompeia e seu O Ateneu. Aqui, Nestor Victor admite a releitura do romance:

De princípio ao fim, estas quase trezentas páginas do Atheneu ainda nos empolgam na segunda leitura como um excelente volume que nunca nos tivesse passado pelas mãos. Empolgam-nos e até nos deslumbram. Apenas o que se dá é que não chegam ao ponto de conturbar-nos, como acontecera da primeira vez. Pelo contrário, surpreende-nos o fato de irmos vendo tão claramente e tão serenamente tudo, como se hoje nos favorecesse uma outra luz, mais estável e reveladora (p. 235-236).

Há nessa citação, assim como no restante dessa nova crítica, um olhar mais compreensivo e consciencioso, características presentes na crítica de Nestor Victor de “hoje”, que se diferenciam daquelas que perpassaram o primeiro ensaio sobre o mesmo romance na primeira parte do livro. Em seguida, trata de Fábio Luz, Corrêa de Araújo, Rocha Pombo, Auta de Souza, Emiliano Perneta, Coelho Netto e Hermes Fontes. Entre esses últimos ensaios, está “Academia Anarquizada” em que, por conta da entrada de Oswaldo Cruz na Academia Brasileira de Letras, admite que:

Resultará daí que muitos dos melhores espíritos numa dada época se furtem ao aborrecimento de tais provas, podendo acontecer que o ilustre instituto venha a valer menos do que os seus excluídos, e de modo tão patente que até os cegos os possam reconhecer (p. 317).

Em suma, temos em Nestor Victor um escritor ainda pouco estudado, mas que merece visibilidade por sua competente leitura, poder de observação e talento de escrita. Trata-se de crítico que está seguramente no mesmo patamar de José Veríssimo e Sílvio Romero, trazendo, naturalmente, uma visão própria e perspectivas teóricas diferentes que condizem com o momento em que escreve.

A crítica de ontem passa a ser um convite para quem quiser conhecer um pouco do que escreveu e pensou Nestor Victor.

Referências

VICTOR, Nestor. A crítica de ontem. Livraria Editora Leite Ribeiro& Maurillo. Rio de Janeiro: 1919.

_____________. A Hora: Os desplantados de Maurice Barrès, O Cyrano de Bergérac de Edmond Rostand, H. Ibsen. Livraria Garnier, Rio de Janeiro: 1901. In: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?id=220554 Acesso em: 30/05/2017.

SILVEIRA, Allan Valenza. Tese de doutorado: Diálogos Críticos de Nestor Victor. UFPR. Curitiba: 2010.