Entrevista com John Gledson

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 10, 2009. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este artigo?

Professor, pesquisador, tradutor e crítico, John Gledson é um dos principais nomes mundiais relacionados ao estudo da obra de Machado de Assis.

Nascido em Northumberland, Inglaterra, em 1945, Gledson é doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Princeton (EUA) – título obtido com tese sobre Carlos Drummond de Andrade – e aposentado da Universidade de Liverpool (Inglaterra), onde ministrou aulas foi professor de português, espanhol, literatura brasileira e hispano-americana no Departamento de Estudos Hispânicos, que englobas as pesquisas em estudos latinoamericanos.

Autor de vários livros sobre Machado de Assis como Ficção e História (1986), Impostura e realismo (1984), Por um novo Machado de Assis (2006), Gledson é também responsável pela organização de novas edições da obra de Machado como Contos: uma antologias, publicada pela Companhia das Letras em 1998 e coletâneas de crônicas tais como A Semana (1892-1893), publicada pela Hucitec em 1996 e Bons Dias! Lançado este ano pela Unicamp. Como tradutor, verteu Dom Casmurro para o inglês, bem como Um mestre na periferia do capitalismo, estudo clássico de Roberto Schwarz sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicados em 1998 e 2002, respectivamente.

No ano do centenário de morte de Machado de Assis, a Mafuá teve o privilégio de conseguir uma entrevista exclusiva com John Gledson. Leia a seguir:

 


 

Mafuá – Qual foi seu primeiro contato com a obra de Machado de Assis? O que despertou o seu interesse, a ponto de transformá-lo em um dos mais renomados estudiosos de sua obra?

John Gledson – Devo ter lido Machado por volta de 1970-73, quando começava a estudar seriamente a literatura brasileira. Mas só no fim da década de 70 é que realmente comecei a me empolgar, por duas causas principais. Primeiro, por causa da demissão de um colega em Liverpool, tive que dar aula sobre Machado, mas sobretudo, em 1979 se não me engano, li Ao vencedor as batatas, e fiquei fascinado pelos argumentos claros e convincentes de Roberto Schwarz. Acho que a combinação do argumento em si, o relevo que dá a certos aspectos da sociedade brasileiro que eu tinha visto sem entendê-los – refiro-me principalmente às relações de favor – me atraíram. Talvez, também, a conjuntura histórica (o começo do fim do regime militar) tenha pesado de alguma maneira – vim ao Brasil para estudar literatura, e só lentamente é que comecei a me interessar pela história do país. Mas, no fundo, a razão de me interessar foi a combinação do livro de Roberto e a leitura da obra de Machado em si, que fiz sistematicamente. Aí, topei com “Casa velha”, romance curto que continua a temática dos romances que Schwarz estuda, mas em diapasão mais realista. O primeiro ensaio sobre Machado que escrevi é um estudo detalhado do realismo também detalhado desse romance.

M – Qual a possibilidade de diálogo entre a obra de Machado de Assis, um autor da “periferia do capitalismo” do século XIX, e o leitor de língua inglesa de primeiro mundo do século XXI, tão distantes em termos de realidade, tempo e espaço?

J G – A resposta fácil seria que o poder que Machado tem é o poder de toda grande literatura – também a distância entre Dante e um leitor inglês ou brasileiro do nosso século é grande, porém nunca se questiona que Dante, ou Shakespeare, ou Goethe, são autores que podemos ler com prazer e grande proveito. E é uma resposta correta, claro: Machado é simplesmente um grande escritor, sobretudo de romances e contos, que vale a pena ler, mesmo que por quem sabe pouco do Brasil – o caso de Woody Allen, de Susan Sontag, ou outros que gostaram das coisas dele, principalmente, talvez, do seu feitio humorístico, um pouco cadavérico às vezes, “trivial” e de mau gosto, e dos jogos que faz com o leitor. Não sei o quanto a oposição terceiro/primeiro mundo tem a ver com isso. O que sei é que Machado sabia dessa oposição, e que a assumiu nos seus livros, mesmo que encobertamente, numa situação triangular que contrapõe um “traidor” estrangeirizante, um “caipira”, frequentemente corno, brasileiro, e uma mulher ambígua no meio.

M – Como professor universitário o sr. provavelmente apresentou a obra de Machado a seus alunos. Como foi a recepção da obra machadiana por parte deles?

J G – Normalmente, quando Machado é apresentado de um jeito que ressalte as suas qualidades e a sua originalidade, os estudantes, sobretudo os mais entusiastas e inteligentes, se empolgam. O que tenho notado é que no Brasil a opinião que muita gente tem sobre Machado, que ele é difícil, empolado, é o resultado do oposto, de o professor assumir uma posição “superior”. Me lembro de uma edição “escolar” de Dom Casmurro com uma introdução que na primeira frase fala em metalinguagem; quando dei uma aula uma vez num colégio paulistano, preferi falar nas motivações de José Dias no terceiro capítulo do romance, lembrando a Dona Glória a necessidade de meter “o nosso Bentinho” no seminário, e cumprir a sua promessa. Uma coisa que encoraja muito é a recepção – melhor ainda, as vendas – que tiveram as duas antologia de contos que fiz, pela Companhia das Letras, sobretudo talvez a segunda, os 50 Contos . Um amigo meu me disse que viu à venda na Rondônia – não surpreende talvez, mas confesso que fiquei impressionado!

M – Sabendo que o sr. é também tradutor de Machado, como o sr. avalia as traduções, em geral, da obra machadiana para o inglês? Há, hoje, interesse do público leitor do Reino Unido pela literatura latino-americana ou especificamente pela brasileira?

J G – Tem havido desastres terríveis, principalmente dois. Vou citar nomes, porque importa saber essas coisas. Há uma tradução de Dom Casmurro, de R. Scott-Buccleuch (pron. Buclú), que além de cometer erros fundamentais (“agregado” vira “a friend of the family”, um amigo da família) omite, propositadamente, nunca saberemos porque, 8 ou 9 capítulos do romance. Talvez não importasse tanto se não tivesse sido publicado pela Penguin, editora importantíssima. Outra é a Oxford University Press, onde publiquei minha tradução de Dom Casmurro, que tem uma tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas plagada de erros e infelicidades – foi feita pelo renomado tradutor Gregory Rabassa, que traduziu Cien años de soledad para o inglês. Tratei do assunto num ensaio que escrevi para o Concurso Machado de Assis, patrocinado pelo Ministério de Assuntos Exteriores, e que foi publicado no livro que fizeram dos ensaios premiados. Felizmente, tem uma tradução já velha, mas bem melhor, com o título (infeliz, concordo) de Epitaph of a Small Winner. Os contos, em geral, tiveram melhor sorte, e há muitas outras traduções de outras obras – os romances todos, menos um, foram traduzidos. Mas não sei julgar, por não ter lido. Como disse Machado, citando algum grego clássico, eu já ouvi o próprio rouxinol!

O interesse pela literatura latino-americana é, em geral, muito menor do que devia ser – o interesse por traduções tenho a impressão que está aumentando, mas um problema é que em inglês já existe uma considerável literatura estrangeira de língua inglesa – indiana, australiana, americana, africana etc. A solução, creio, é simplesmente continuar a publicar, e fiar que um dia a qualidade vencerá – às vezes, um livro faz-se popular na esteira de um filme baseado nele, por exemplo.

M – Como o sr., sendo um pesquisador e crítico inglês, considera as tão faladas “influências inglesas” na obra de Machado de Assis.

J G – É um assunto fascinante e complicado, e com muita coisa que não sabemos, talvez nunca saibamos. Machado lia inglês bem? Meu instinto é que sim, de 1870 em diante, mas achar provas concretas não é fácil – às vezes lia em traduções francesas (como provou Jean-Michel Massa, traduziu Oliver Twist de uma tradução francesa). Mas o epígrafe de Falenas (1870) é uma frase de Alfred Tennyson, “Labouring up” (“trabalhando duro, puxando para cima”), uma ótima descrição da persistência e perseverança do nosso amigo, e, curiosamente, tirada de um poema menor do grande poeta vitoriano, o que indica que Machado talvez o tenha lido bastante. Nessa época, ele conheceu Shakespeare (em tradução italiana!) no palco, episódio ressaltado, com toda justiça, por João Roberto Faria – já no fim da década, ele citava o dramaturgo em frases das peças menos conhecidas, versos não famosos.

Outro assunto bem complexo é o argumento que às vezes se propõe que o inglês, a literatura inglesa foi uma espécie de contrapeso, um jeito de sair de debaixo da hegemonia francesa. Sim e não – tinha uma tendência a admirar autores franceses em algum sentido marginais eles mesmos na paisagem francesa – Stendhal, Mérimée, ambos anglófilos aliás. Ou seja, nesse caso haveria não uma oposição francesa-inglesa, mas uma gama, dentro da qual Machado escolhia os autores que lhe falavam. Sem dúvida, no momento da publicação de Memórias póstumas, a tradição humorística inglesa (Sterne, Swift etc.) foi útil para se dar um arrimo no momento que (sabia) ia chocar, mas a história verdadeira é bem mais complexa. Quem estudou o assunto com afinco, num livro que é ainda hoje a melhor fonte para o assunto, é, claro, Eugênio Gomes, no seu Influências inglesas em Machado de Assis.

M – Na sua análise dos romances de Machado, o sr. parte do pressuposto da intencionalidade autoral, tentando perceber nessas obras a reescrita da história do império sob forma de alegoria. Como ele vê essa questão nos contos? Haveria certa continuidade de um projeto histórico-alegórico, ou ficariam os contos mais atentos aos “avulsos” da  condição humana, mesmo quando se pode perceber suas relações com o local?

J G – Depende. Já analisei os contos de Papéis avulsos, num capítulo de Por um novo Machado de Assis, onde analiso a densidade histórica dos contos desse livro, que é muito grande – um caso ainda mais surpreendente é o de “Dona Benedita”, muito complexo, fino, e ferino, analisado num artigo de Maria Lídia Lichtsheidel Maretti. E tem um capítulo curto sobre “Conto de escola”, que mostra que o momento histórico (a Maioridade de Dom Pedro II) dá uma nova dimensão ao conto. Tem outros, “Uma noite”, por exemplo, que se situa na guerra do Paraguai, ou “Maria Cora”, que tem referências importantes à guerra federalista e ao Encilhamento, nos primeiros anos da república. Mas nem todos os contos têm essa dimensão, claro. Talvez deva dizer que nunca foi minha intenção dizer que todo escrito de Machado tenha que ser interpretado num diapasão histórico. Inclusive, não diria que haja uma oposição “história-condição humana” – a história brasileira, como a inglesa, a francesa, faz parte dessa condição.

M – Quanto ao Machado cronista, o sr. faria diferença entre as crônicas escritas antes da Proclamação da República e aquelas publicadas em A Semana ? A densidade histórica dessas últimas interfeririam, de outra parte, no estilo dessas crônicas?

J G – Há sem dúvida uma diferença, que em parte se deve à própria existência da república – Machado nunca foi republicano convicto, e esse fato contribui para uma certa atitude “diplomata” frente ao novo regime – isso se exemplifica na primeira crônica da série “A Semana” (que só começou dois anos e meio depois da própria proclamação, em abril de 1892), analisada em Por um novo… Mas há outro fator. Essa última série, de longe a maior, a mais longeva que escreveu – são 248 crônicas ao todo – é também literariamente a mais ambiciosa. Machado tinha chegado a um ponto alto na sua carreira – já confirmado e consagrado como o maior escritor brasileiro – e nem assinou essas crônicas com pseudônimo – eram dele, sabia-se disso, nem precisava assinar. Há, se não me engano (só analisei a terça parte delas, as correspondentes aos anos 92 e 93) uma ambição maior, que Artur Azevedo reconheceu quando disse que “noutro país mais literário que o nosso teriam produzido grande sensação artística” (isso em 1893). Agora, a densidade histórica, e portanto a dificuldade que apresentam para um leitor não coetâno delas, é grande, só resolvível com as notas que tem a minha edição. Diria que é um novo caso em que não convém separar o “meramente” histórico da “condição humana”. Sim, a sua densidade histórica (pelo menos nas que editei) é muito grande, fascinante, de fato – uma olhada sobre uma década, no mundo e no Brasil, muito conturbada.

M – O sr. tem algum trabalho novo ou em andamento sobre Machado?

J G – No fim do ano passado, publiquei, junto com Lúcia Granja, uma edição de uma série de crônicas muito importantes, as que Machado publicou n’ O Cruzeiro em 1878, “Notas semanais”. Escrevemos uma introdução, que acho bem interessante para quem quiser entender a famosa crise dos quarenta anos, para essas crônicas. Publiquei também um longo ensaio sobre o conto “A Parasita Azul”, dessa mesma década, de 1872, e que contém muitas revalações sobre o mesmo processo, a relação de Machado com seus predecessores brasileiros (Macedo, Alencar, Manuel Antônio de Almeida) e a estrutura dos enredos da sua ficção “madura” (isto é, depois de 1880). E o ensaio sobre tradução que mencionei antes. Ia continuar a estudar os anos 70, mas fui “desviado” – surgiu uma oferta de fazer uma edição de Quincas Borba, romance que sempre me fascinou, em parte pela existência de duas versões, uma em foletim e outra, bem mudada e podada (e melhorada), em livro. Isso, no momento, está concentrando minhas forças. Gostaria, é claro, de continuar a edição de “A Semana”. Pano para mangas…