Escritor branco, discurso negro: as vozes negras e periféricas presentes em “Contos Negreiros”, de Marcelino Freire

Igor Duarte

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 28, 2017. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Igor Duarte
duarte@ufrgs.br
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Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Instituto de Letras (IL)
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
Porto Alegre – Rio Grande do Sul, Brasil

RESUMO: O presente artigo tem como objeto de estudo o livro Contos Negreiros, de Marcelino Freire. Serão discutidos alguns aspectos de como os negros são representados em seus contos e a maneira como contista dá espaço à voz negra de periferia. Concomitante a isso, também discutiremos a violência constante que sofrem as suas personagens e a exclusão imposta a elas por causa dos preconceitos ainda enraizados na sociedade contemporânea.

PALAVRAS-CHAVE: Negros. Violência. Contemporaneidade.

ABSTRACT: This article has as the main aim of analysis the book Contos Negreiros, by Marcelino Freire. Thereunto, it will be necessary discussing some aspects such as how are represented the afro-descendants people in his stories as well as the way by which the author gave space to the black voice of periphery. Concurrently, we are going to discuss the frequent violence the characters suffer and their imposed exclusion due to prejudices still rooted in contemporary society.

KEYWORDS: Black people. Violence. Contemporary.

 

Introdução

A sociedade brasileira, frequentemente marcada por desigualdade social, preconceito e violência contra tantas minorias, pouco concedeu ao longo da constituição de sua literatura espaço para a voz negra. O topos da enunciação sempre foi marcado pelas classes dominantes, desde os tempos de escravidão, e a voz branca e masculina sempre esteve preenchendo lugares que não eram seus e exercendo poder sobre o outro. No âmbito de nossa história, tais preconceitos étnicos resultaram em atos de extrema violência, como genocídios, a miséria humana e a marginalização forçada dos negros que viviam nos centros urbanos.

Dessa maneira, podemos notar que pouco mudamos socialmente ao longo dos anos e que, por isso, conforme afirma Jaime Ginzburg (2012) em seu livro Crítica em tempos de violência, “os grupos reificados pela escravidão, por preconceitos e violência institucional, muitas vezes não tiveram a oportunidade de apresentar seus pontos de vistas sobre as transformações históricas” (GINZBURG, 2012, p. 30). Assim posto, a voz literária negra e periférica só passou a ter um pouco mais de visibilidade no mundo das letras durante a contemporaneidade, quando surgiram escritores como Paulo Lins, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda e outros que fazem uso da literatura para expor a violência sentida pelo povo excluído.

Em vista disso, discutiremos no presente artigo a visão do escritor Marcelino Freire¹ sobre o “outro” em seu livro Contos Negreiros (2005), que trata das diversas tipificações dos negros na sociedade brasileira, os espaços que possuem e as vozes por vezes ainda silenciadas.

O autor e sua visão sobre o negro

Marcelino Freire, em entrevista concedida a Ramon Mello², afirma que escreve porque gosta de olhar para o outro e que, ao escrever, preocupa-se em se vingar do governo, do seu pai, da sua mãe e da pobreza. O autor, que é branco, de fato não sabe como é estar no lugar de um negro. Contudo, demonstra ser um grande pesquisador e, apesar de não ter sofrido racismo, sofreu preconceitos por ser nordestino, homossexual e de família pobre.

No âmbito da filosofia da linguagem, que muito serve como amparo teórico para estudos que se referem à literatura e práticas socioculturais, temos Mikhail Bakhtin (2010), que diz que não há enunciação representada que não esteja conectada a uma avaliação social. Nesse sentido, veremos que o enunciado de Contos Negreiros dialoga com a realidade do povo negro a partir do momento em que seu autor, que não passa pelos mesmos preconceitos racistas, faz um profundo reconhecimento do outro e estabelece uma relação de alteridade imagética, que comprova que discursos se constroem sobre outros discursos. Somente, então, após essa construção é possível ao autor falar sobre determinado tema que não o atinge diretamente.

Segundo Antônio Candido (1987), o escritor de contos

agride o leitor pela violência, não apenas dos temas, mas dos recursos técnicos — fundindo ser e ato na eficácia de uma fala magistral em primeira pessoa, propondo soluções alternativas na sequência da narração, avançando as fronteiras da literatura no rumo duma espécie de notícia crua da vida (CANDIDO, 1987, p. 255).

Assim, Freire capta para o seu discurso uma voz que não é sua, mas que consegue transmitir, com menos ou mais intensidade, a violência que é sentida pelo outro. As vozes de seus contos, oriundas de outros espaços sociais, normalmente são de negros que não acreditam na liberdade que muito foi discutida após a escravidão. Também, em boa parte de seus fragmentos, as personagens não aceitam os papéis e os destinos reservados a elas pela bruta realidade.

As vozes negras e violentadas

Através da apresentação das personagens afrodescendentes na obra de Marcelino Freire notamos que o passado ainda vive nos dias atuais. O Brasil Colônia e sua escravidão ainda estão presentes em nossa sociedade e contribuem veementemente para a violência e marginalização. Além disso, há também um preconceito que se estabelece pelo olhar mediante uma avaliação social pela aparência do outro, como acontece no conto “Solar dos Príncipes”, pelo porteiro: “Estamos fazendo um filme”, respondemos. […] “Estamos filmando.” Filmando? Ladrão é assim quando quer sequestrar.” (FREIRE, 2012, p. 23). Logo no começo do conto, é perceptível ao leitor que nada além de suas cores de pele indica ao porteiro que os quatro jovens negros queriam realizar algum sequestro ou roubar algo. O preconceito, por parte do funcionário que também é negro, é puramente social.

Em outros momentos, somos levados a crer que os negros não são donos dos seus próprios corpos, como a personagem presente em “Nação Zumbi”: “E esse rim não é meu, bando de filho da puta? Cuidar da minha saúde ninguém cuida” (FREIRE, 2012, p. 55). Com isso, torna-se perceptível aos olhos do leitor o quanto ainda temos em nossa sociedade uma cultura escravocrata que toma para si aquilo que é do outro. Ao pregar o discurso alheio, Marcelino Freire, mesmo que não tivesse o objetivo, toma a ação de dar visibilidade à voz negra e afastá-la, através do poder literário, das margens da sociedade.

Com o grande aparecimento de escritores contemporâneos que surgiram para dar voz a si mesmos e aos outros os discursos periféricos têm sido reescritos para uma nova literatura que busca a todo instante desconstruir preconceitos e sensibilizar o olhar do leitor para com o outro. Percorrendo esse caminho, Freire nos mostra que toda tipificação negra carrega em si outros subtipos que também sofrem violência. Dessa maneira, temos em sua literatura o negro que é gay, o negro que é pobre, a negra que é mulher, e o negro que é homem, que apresentam um discurso autocrítico de suas situações de vidas. Na voz de “Totonha”, por exemplo, temos o discurso de uma senhora que parece já estar acostumada com a marginalização imposta a ela e que, por isso, recusa-se a aprender a ler, já que isso não mudaria a sua situação, que é marcada por preconceito racial em todas as classes: “Dona professora, que valia tem meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?” (FREIRE, 2012, p.80). Na voz do conto “Esquece”, por sua vez, o autor evidencia os diversos tipos de violência sofridos por quem mora na periferia. Embora não tenhamos um nome, o narrador do conto é alguém indignado com todos os atos de maldade praticados contra ele: “Violência é a gente ficar com a mão levantada cabeça baixa em frente à multidão e depois entrar no camburão roxo de humilhação e pancada e chegar na delegacia e o cara puxar nossa ficha corrida e dizer que vai acabar outra vez com a nossa vida.” (FREIRE, 2012, p. 32).

Ainda nesse conto, torna-se evidente que Contos Negreiros transpassa a escrita, ganha espaço na oralidade e parece não caber no próprio texto, e por isso necessita de uma voz física. Os contos passam a contribuir para a poética da oralidade à medida que o autor dá voz às personagens que não sabem ler e nem escrever mas que sempre tiveram ouvidos e outros aspectos comunicativos. Contos Negreiros tornou-se até mesmo um audiolivro e parte de peças teatrais, nos quais o autor vai além da escrita e empresta a sua própria voz às personagens. Se considerarmos a possibilidade da escrita ser um mecanismo pelo qual a linguagem oral se inscreve na história, Freire concede espaço àqueles que no passado (e, por muitas vezes, no presente) foram menosprezados e violentados de diversas maneiras.

A violência presente em Contos Negreiros é simbólica e, de acordo com Pierre Bourdieu (1992), a simbologia da violência dá-se sempre que uma classe com maior poder aquisitivo, isto é, economicamente mais favorecida, impõe a sua cultura à classe que sofre opressão. Como exemplo disso, temos o conto “Nossa Rainha”, no qual a mídia impõe a cultura de uma elite à filha de uma mãe pobre: “Mãe, eu quero ser Xuxa. Mas minha filha. Eu quero ser Xuxa. A menina não tem nem nove anos, fica tagarelando com as bonecas. Com as pedras do morro. Eu quero ser Xuxa. Mas minha filha.” (FREIRE, 2012, p. 73).

Por vezes, na sociedade os oprimidos não percebem a opressão que já está naturalizada em suas vidas. Contudo, nesse conto, a mãe parece perceber e revoltar-se com a situação que a “rainha dos baixinhos” causa à filha: “O que Xuxa está pensando? O que Padre Marcelo está pensando? Que tanto disco à venda, que tanto boneco, que tanta prece! Tenha santa paciência”. (FREIRE, 2012, p. 73).

Antônio Candido, em Na noite enxovalhada, afirma que

Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de “dar voz”, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor de sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada. (CANDIDO, 1999, p. 88).

E é exatamente isso que Marcelino Freire nos mostra em Contos Negreiros. São as vozes de pessoas silenciadas ao longo da história e que nunca detiveram de privilégios, mesmo que ficcionalmente. O contista rompe com a estagnação literária que por muito tempo enxergou os negros ocupando postos inferiores e subalternos em suas obras. Ademais, o autor não expressa em seus contos apenas a vontade de dar voz a esses, mas constrói um novo vínculo entre a marginalização desses sujeitos e a linguagem. Nesse sentido, se recorrermos novamente ao dialogismo de Bakhtin, constatamos que as vozes presentes nos contos de Freire também são suas, mesmo que esse não tenha passado pelas experiências das mesmas, já que “o discurso do outro possui uma expressão dupla: a sua própria e a do enunciado que o acolhe” (BAKTHIN, 1997, p. 299).

Através de terminologias africanas, o contista também traz para a atualidade a história dos primeiros povos negros no Brasil, ao passo que utiliza nomes de figuras históricas como Zumbi dos Palmares, Cavaleiro Tição, Rainha Quelé e nomeia algumas de suas personagens com nomes de orixás, como Odé, Obatalá e Olurum. Essa atitude retrata na contemporaneidade aquilo que não está estritamente ligado à história escrita, mas que resistiu ao tempo e ainda encontra-se entre nós.

Infelizmente, após séculos do início da escravidão em nosso país, a discriminação racial ainda é algo que afronta e permanece viva na sociedade brasileira. E sendo os tempos passados a base de início de anos de exclusão e segregação do povo negro, poucas mudanças tivemos no que se refere aos preconceitos. No conto “Curso Superior”, por exemplo, um filho expõe a sua mãe os seus medos em frequentar lugares pertencentes à classe opressora. O jovem demonstra-se inseguro em iniciar um curso superior porque teve uma educação precária devido aos preconceitos que sofrera: “O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei” (FREIRE, 2012, p. 97).

Além disso, a personagem tem as suas ações decididas através do preconceito social e racial que sofre e, por esse motivo, sente medo em fracassar: “O meu medo é o preconceito e o professor ficar me perguntando o tempo inteiro por que eu não passei por que eu não passei por que eu não passei por que fiquei olhando aquela loira gostosa o que é que eu faço se ela me der bola hein mãe não sei.” (FREIRE, 2012, p. 97).

A perplexidade do autor em escrever sobre tais fatos reside no outro, de modo que o contista causa uma “inadequação” à escrita de seus contos, por muitas vezes, deixando até mesmo a pontuação de lado para adaptar-se ao meio social contemporâneo. Conforme Karl SchØllhammer (2009), a literatura da atualidade:

[…] não será necessariamente aquela que representa a atualidade, a não ser por uma inadequação, uma estranheza histórica que a faz perceber as zonas marginais e obscuras do presente, que se afastam de sua lógica. Ser contemporâneo, segundo esse raciocínio, é ser capaz de se orientar no escuro e, a partir daí, ter coragem de reconhecer e de se comprometer com um presente com o qual não é possível coincidir. (SCHØLLHAMMER, 2009, p. 10).

Assim, em seus dezesseis contos estão presentes traços marcantes da literatura contemporânea e características da oralidade, que talvez existam pela proximidade que Freire tem com o teatro, e uma cópia perfeita e bem estudada em sua escrita do meio social do qual retrata. Tais aspectos proporcionam ao leitor não somente as emoções esperadas ao ler qualquer outro livro de nossa literatura, mas surpreendem porque põem em pauta a pura e bruta realidade de nossa sociedade. Marcelino Freire veste, no seu fazer literário, vozes que não são suas, mas que mostram a revolta, pulsação e dureza de um povo. Por isso o leitor, ao ler seus contos, sente-se como se estivesse ouvindo vozes que gritam, que têm vidas e que sofrem.

Entretanto, ainda é preciso salientar que o autor traz, em sua obra, modificações do espaço no qual a violência ocorria como em obras do século passado. Se antes na história da literatura brasileira tínhamos a violência que acontecia no mundo rural, como n’Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou em Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa, hoje ela se inscreve no espaço urbano, mas de outras maneiras. Ela não se dá de modo circunstancial, motivada, por exemplo, pela guerra de Canudos ou pelo sistema jagunço, mas existe no mundo urbanizado de maneira existencial e precária.

Considerações finais

A violência discutida em Contos Negreiros não está ligada às crises e conflitos individualizados, mas, sim, às crises e conflitos sociais, compartilhados e vividos por seres humanos excluídos e postos às margens da sociedade. Desse modo, o autor, por trabalhar com personagens que têm suas existências tão fragmentadas, compõe o seu texto com base na falta de sensibilidade e compaixão do mundo contemporâneo. Por mais que na escrita esteja posta uma violência ficcional, ela foi composta por dores verdadeiras de um povo, que foram transpostas para a literatura de modo que sensibilize o leitor de maneira polêmica e dê abertura a um debate necessário que tenha o objetivo de proporcionar a compensação e reparos sociais dos oprimidos.

As vozes presentes em seus contos ganham espaço através de um escritor indignado com a situação social e perplexo, sobretudo no que diz respeito ao desumano. O autor volta o seu olhar para os que vivem e estão presos nas margens, e liberta, através da escrita, suas vozes revoltadas que gritam por socorro. Além disso, Marcelino Freire, com Contos Negreiros, denuncia uma desigualdade que está extremamente próxima de todos os cidadãos, mas que é ignorada por muitos, tornando invisível as vidas daqueles que são vistos como diferentes.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

_________. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello & Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010, 160p.

BOURDIEU, Pierre e PASSERON, Jean Claude. A reprodução. Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992.

CANDIDO, Antônio. A nova narrativa. In: CANDIDO, Antônio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

__________. Na noite enxovalhada. Remate de males, Campinas, SP, n.19, p.83-88, 1999.

FREIRE, Marcelino. Contos Negreiros (2005). São Paulo: Record, 2012.

GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência. São Paulo: EDUSP, 2012.

SCHØLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

 

¹ Marcelino Juvêncio Freire (Sertânia, 20 de março de 1967). Escritor brasileiro.

² FREIRE, Marcelino. As vozes e os livros de Marcelino Freire. Entrevista concedida a Ramon Mello.

 

Data de envio: 19 de junho de 2017.