“Mídia, Misoginia e Golpe”, entrevista com Elen Cristina Geraldes

Tiago Ribeiro

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 27, 2017. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este artigo?

Sobre os autor(es):

semh.tiago@gmail.com

Nesta edição a Mafuá entrevistou uma das organizadoras da coletânea de entrevistas “Mídia, Misoginia e Golpe”, que discute questões relacionadas ao impeachment da presidenta Dilma Roussef em 2016. A publicação foi organizada também por Tânia Regina Oliveira Ramos, Juliano Domingues da Silva, Liliane Maria Macedo Machado e Vanessa Negrini, em parceria com o Laboratório de Políticas de Comunicação – LaPCom, do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Comunicação da UnB (FAC/UnB), e o Grupo de Trabalho Políticas e Estratégias de Comunicação da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.

Capa do livro: “Mídia, Misoginia e Golpe”

A publicação pode ser acessada, gratuitamente, AQUI.

 


 

“Mídia, Misoginia e Golpe”, entrevista com Elen Cristina Geraldes
Entrevista por Tiago Ribeiro

 

1) Como surgiu a ideia de elaborar a coletânea de entrevistas?

A ideia surgiu da indignação com o golpe de Dilma, sobretudo pela participação da mídia e do judiciário. Víamos também uma grande intolerância de uma parte do Brasil com outra parte, movida sobretudo por preconceitos de origem e de classe social. E tudo encoberto por um grande moralismo, que tentava justificar o afastamento de Dilma exclusivamente por uma reação à corrupção.

2) Na sua opinião, qual é o maior sentimento que conseguimos depreender das falas das entrevistadas e entrevistados?

É o sentimento de indignação, de revolta. Em alguns casos, houve a oportunidade de situar os acontecimentos na história do país, em que os períodos de legalidade são frequentemente interrompidos. Os golpes estão à espreita.

3) O livro parte do pressuposto de que o processo de Impeachment foi um golpe. De que forma isso influencia na recepção do público em geral?

O livro circula principalmente nas áreas de Ciências Sociais e Humanas, nas quais essa percepção é recorrente. Uma parcela da sociedade reconhece a existência do golpe, a outra, o nega. E eu diria que há até um terceiro grupo, que simplesmente fica distante dessa questão: os silenciosos, muitas vezes envolvidos em questões de sobrevivência. E são justamente essas pessoas que não têm tempo para pensar o coletivo, que sofrem no estômago o lado mais perverso do golpe.

4) Até agora, como tem sido a recepção do livro pela academia brasileira?

Recebemos muitos elogios e muitos convites para lançar a obra em todo o país.

5) De acordo com a epígrafe do livro, retirada do primeiro pronunciamento de Dilma após a aprovação do Impeachment pelo Senado, “o golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista.” Na entrevista concedida por Márcia Tiburi, ela afirma, ainda, que “o golpe é neoliberal.” Quais outros qualificativos poderiam ser atribuídos ao golpe?

O golpe é midiático, é moralista, e é, sobretudo, institucional. Tentam nos convencer de que não houve nenhuma interrupção à norma

6) Você acredita que o grande golpe contra a democracia abriu caminho para a produção de novos golpes? Como?

Acredito. Juntamente com os valores da democracia, os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras passaram a ser negados. E também podem ser apagados os direitos de vários grupos, em nome de uma lógica de produção, de lucro.Os riscos são enormes.