A crítica literária sobre a literatura da Guiné-Bissau: considerações sobre um “suposto vazio”

Marceano Tomas Urem da Costa

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 29, 2018. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

greenlinegbissau@gmail.com
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Instituto de Humanidades e Letras (IHL)
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB)
Acarapé – Ceará, Brasil

RESUMO: Este trabalho tem como objetivo compreender o percurso da crítica literária e da literatura da Guiné-Bissau, principalmente, no contexto dos países de língua portuguesa. Ao lado disso, procuramos observar a contribuição e a importância de alguns críticos, como Hamilton (1984), Mata (1994), Augel (2007), dentre outros, para a desconstrução da afirmação de um suposto “vazio” na produção literária guineense.

PALAVRAS-CHAVE: Guiné-Bissau; Literatura Guineense; Crítica Literária; Literaturas Africanas em Língua Portuguesa

ABSTRACT: The aim of this work is to understand the course of literary criticism and literature of Guinea Bissau, especially in the context of Portuguese-speaking countries. Beside this, we seek to observe the contribution and importance of some critics, such as Augel (2007), Hamilton (1984), Mata (1994), among others, for the deconstruction of the “empty” presupposition in Guinean literary production.

KEYWORDS: Guinea- Bissau; Guinean Literature; Literature critics; African Literatures in Portuguese

 

A literatura da Guiné-Bissau, comparada com as outras literaturas dos países colonizados por Portugal, indica uma produção tardia temporalmente em termos de publicação. O atraso dos guineenses nas letras justifica-se pela demora da implantação do sistema escolar no país. Ao longo dos primeiros séculos de colonização portuguesa em África, na Guiné-Bissau especialmente, não existiam as condições favoráveis ao desenvolvimento do sistema de educação escolar para que os nativos guineenses pudessem ser escolarizados de igual modo, como aconteceu nos outros países da colonização portuguesa na África, a exemplo de Cabo Verde. Neste contexto, Ocuni Cá (2013), explica que a presença colonial no território guineense não teve como prioridade a criação do sistema de educação escolar; apenas a exploração econômica. Um exemplo foi a própria criação tardia da tipografia, que só veio a ser autorizada em 1879, bem como do primeiro jornal, só em 1924 (AUGEL, 2007).

A tardia aderência dos guineenses à produção literária no país levou à produção dos discursos externos sobre um suposto vazio nessa literatura. Ainda antes da independência do país, a maior parte da produção literária que se verificava no solo guineense era produzida pelos portugueses que viviam na então colônia. O tratado neste texto não se direciona para literatura produzida no período colonial, ou para a literatura colonial; mas para um panorama inicial que situe o leitor para a produção crítica sobre a literatura guineense do pós-independência.

A observação das fortunas críticas a respeito desta literatura serve como o mecanismo viável para melhor verificarmos as produções e publicações das obras literárias deste país, portanto levaremos sempre em consideração o ponto de vista do conjunto de críticos literários, isto é, as publicações por eles realizadas a respeito desta literatura.

Com o intuito de quebrar o silêncio em que se vivia ao longo dos anos de colonização, a produção literária guineense tem trazido novos olhares sobre a cultura e o pensamento literário do povo e do país, tendo despertado a atenção dos críticos desta área do conhecimento, no sentido de começarem a olhar essa literatura com ares de modernidade e sem exotismos.

Para a inovação na literatura deste país, percebemos que, a partir da libertação da Guiné-Bissau, tem-se verificado a emergência dos escritores guineenses e isso tem sido percebido e visto através das crescentes produções e publicações das obras literárias por próprios guineenses com temáticas endógenas. Estas produções e publicações têm sido importantes e determinantes em impulsionar os críticos a se aproximarem dessa literatura, mesmo que partindo de um pressuposto principal que é a literatura com viés voltado para valorização das questões sociais e de uma revisão de seu processo histórico.

Guiné-Bissau é um país que passou por um período de aproximadamente cinco séculos sob a dominação portuguesa, em que a população tinha que suportar todo tipo de discriminação e violação dos seus direitos. Apesar disso, o país conseguiu se libertar dessa dominação em 1973, através de um processo de luta armada desencadeado pelos próprios filhos da terra. Após ter sido tomada a independência, a Guiné-Bissau começou a ganhar outros olhares no campo literário, através dos próprios guineenses, que se dedicaram a mostrar a cultura do seu povo, através da escrita.

A literatura oral na Guiné-Bissau da perspectiva guineense

Além da literatura escrita, vale lembrar uma   outra modalidade de literatura guineense – a literatura oral, baseada na narração das estórias e adivinhas pelos anciões nas aldeias e cidades do país. Além disso, há também as cantigas de mandjuandades, cantadas por diferentes etnias, exaltando a cultura, costumes e a realidade social guineense. Com isso, mostra-se que a riqueza cultural dessa nação não é revelada apenas através da escrita, mas também por diferentes formas. É importante salientar que as cantigas são cantadas em crioulo, a língua nacional do país, por alguns grupos de mandjundades,tais como: Herdeiros di Kumbé, Maran Cabeça, entre outros. Embora o nosso foco neste texto não se direcione à literatura oral, decidimos não deixar de fazer uma breve apresentação sobre essa importantíssima riqueza cultural que a Guiné-Bissau congrega, uma vez que a oralidade é ainda fonte importante no cotidiano guineense. Ainda para esta modalidade de manifestação cultural através de narração de estórias tradicionais, na contemporaneidade, pode-se tomar como exemplo a obra de Odete da Costa Semedo (2010), pelos trabalhos de recolha dos contos tradicionais para compor, posteriormente, dois volumes de livros intitulados – Sonéa: histórias e passadas que ouvi contar I e Djênea: histórias e passadas que ouvi contar II.

Dos primeiros trabalhos sobre a literatura da Guiné-Bissau

Como o nosso objetivo nesse artigo diz respeito à produção literária através da escrita, focalizamos a nossa atenção aos olhares dos críticos que têm trabalhado e dado seus pontos de vista a respeito dessa jovem literatura que tende a evoluir cada vez mais.

Como uma nação que tem levado anos em busca da liberdade, através da literatura, os homens públicos e as lideranças políticas estiveram sempre muito próximos da produção artística, colocando sempre lado a lado os sentimentos de pertencimento cultural e a esperança de construir um novo rumo para uma sociedade livre.Nesse sentido, com a literatura, através das fortunas críticas, é possível perceber as denúncias dos males cometidos pelo colonizador e uma recapitulação do passado histórico do país, como forma de entender o presente.

Como podemos perceber a partir dos trabalhos da pesquisadora brasileira Moema Parente Augel: “dentro do cenário dos questionamentos literários sobre a produção literária de um povo e da sua recepção, os discursos elaborados sobre produção cultural assumem um papel de grande preponderância sobre essa nação” (2007, p.99). Sendo assim, na Guiné-Bissau, a produção literária trata principalmente das temáticas endógenas. Apesar dos guineenses terem emergido na produção literária guineense a partir do período do pós-independência, ainda é possível verificar um sério problema sobre a produção literária desta nação. Trata-se da ausência da informação sobre a existência dos críticos literários propriamente guineenses com obras publicadas sobre a produção literária desse país. A falta de crítica literária que pudesse servir de divulgadora e elaboradora de um caminho a ser seguido, contribui para que essa literatura possa chegar no contexto externo, uma vez que as políticas públicas para tal ainda não se fizeram.

Durante o percurso para a efetivação desse trabalho, percebemos que a maior parte dos olhares sobre a literatura guineense são dos críticos exógenos. O exemplo mais evidente disso recai sobre a maior e incontestável expoente da crítica literária da nação que é brasileira e que tem feito trabalhos sobre a Guiné-Bissau- Moema Parente Augel, uma investigadora que desenvolveu trabalhos in loco na Guiné Bissau,  tendo se aproximado da literatura escrita, mas que ao longo do desenvolvimento de seus estudos, não deixou de observar o contexto tumultuado historicamente, nem desviou o olhar para a produção guineense em língua portuguesa, muito marcada pela presença de outras línguas, especialmente o crioulo.

De acordo com a Moema Parente Augel, sobre a Guiné-Bissau e sua produção literária, “quase todos os olhares que se debruçaram em registrar e em analisar a produção estética guineense vêm de fora. Da mesma forma, são de fato, e, sobretudo, coletâneas estrangeiras que dão um mínimo de visibilidade às incipientes manifestações literárias daquele país” (p.100).

Como se trata do papel dos críticos literários e suas contribuições para uma divulgação da literatura guineense, é importante trazermos informações registradas nas fortunas críticas sobre a Guiné- Bissau em outros países, tratando-se de Portugal e do Brasil, principalmente. Mas antes disso, entendemos que é necessário trazer as informações sobre os guineenses que têm dedicado em estudar a literatura guineense. Segundo as observações dessa pesquisadora, Marcelino Marques de Barros (1843-1929) desenvolveu estudos sobre a literatura oral guineense, nesse caso o crioulo, e ajudou a divulgar exemplos nessa língua e nas línguas das diferentes etnias da Guiné-Bissau (p.100).

Além do Marcelino Marques de Barros, outros guineenses são destacados pela mesma autora como os que têm feito trabalhos sobre a literatura desta nação, mesmo antes da independência do país. Entre os homens, destacados em O desafio do escombro (2007) pela autora, cita-se: Benjamin Pinto Bull, doutorado nos estudos sobre o crioulo guineense em Dakar, cuja tese veio a ser publicada em livro com o título “O crioulo da Guiné-Bissau. Filosofia e a sabedoria”. Neste estudo, e segundo as abordagens dessa autora, percebemos a importância do crioulo como uma riqueza cultural da Guiné-Bissau. Salienta-se que não apenas o crioulo é importante para os guineenses, mas também as diferentes línguas que compõem o mosaico das línguas guineenses. Bull divulgou contos, provérbios e adivinhas, através de uma publicação dedicada à Guiné-Bissau, Cabo-Verde e São Tomé-Príncipe, no periódico da Collection Notre Liberairie (p.101).

Outro guineense que fez trabalhos sobre a literatura guineense, citado por Augel, é Vasco Cabral, um dos grandes expoentes da literatura da Guiné-Bissau, na fase anterior a independência. Além de ser escritor, Cabral escreveu sobre os trovadores populares nacionais (p.102). Estes destaques nos levam a perceber a relevância das contribuições dos guineenses nesse campo de conhecimento na Guiné-Bissau. Ainda de acordo com Augel, o primeiro balanço feito na Guiné-Bissau, sobre a literatura guineense pelos guineenses, pertence ao guineense Leopoldo Amado, que publicou em 1990 um artigo na revista Soronda. Para a autora, “diante de quase ausência de obras e de autores a arrolar, o ensaísta se deteve com mais profundidade na literatura de temática guineense de autores guineenses e portugueses ou cabo-verdianos” (p.102). Entendemos que esta revista guineense com a publicação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa na Guiné-Bissau (INEP) tinha grande importância no que diz respeito aos trabalhos nela divulgados sobre a literatura e a cultura da nação guineense.

Como contribuição, aponta-se também o “periódico Tcholona. Revista de Letras, Artes e Cultura, divulgada durante um curto período de tempo da sua existência (1994-1997), artigos sobre a literatura guineense e sua cultura em geral assinados por guineenses e estrangeiros” (2007, p. 64). Note-se que a produção crítica interna, passa então a restringir-se aos prefácios e posfácios dentro das próprias edições, não tendo um desenvolvimento de um grupo de críticos internamente ao contexto guineense.

Sobre a literatura da Guiné-Bissau em Portugal e no contexto europeu

Conforme pode-se ver a partir dos trabalhos de Augel, no que diz respeito à divulgação da literatura guineense fora do solo guineense, Portugal é o lugar onde se encontram mais informações, a princípio. Desde  antes do início da luta de libertação nacional, o angolano, Mario Pinto de Andrade, fez trabalhos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, quando ainda se encontrava nos estudos na antiga Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, embora  a literatura guineense não tivesse ainda grandes destaques, em termos de  publicações das obras literárias, com temáticas que dizem respeito à cultura do país e do seu povo. Mario Pinto de Andrade não deixou de angariar na publicação de Antologia de poesia negra de expressão portuguesa,  um guineense, Terêncio Casimiro Anahory Silva; apesar de Augel ter indicado que o nome desse autor tem aparecido em outros contextos, como o cabo-verdiano, no qual há apenas a menção de um poema na antologia, marco das literaturas africanas, atestando a raridade de publicações de poesia feita por guineenses até meados do anos 1960.

Outro grande africanista e estudioso das literaturas africanas foi o crítico e escritor português, de nacionalidade assumida tardiamente como cabo-verdiana, Manuel Ferreira (1917-1992), cuja obra No reino de caliban, com um total de trinta e oito poetas, tendo incluído apenas António Baticã Ferreira como um único guineense nessa coletânea, com apenas seis poemas datados de 1972, um ano antes da independência da Guiné-Bissau. Segundo Augel, é de Manuel Ferreira a afirmação de um “espaço vazio” (1975, p.319) na literatura guineense, por este ter acreditado que não haviam sido criadas as condições propícias ou socioculturais para uma revelação de valores literários nesta nação (2007, p. 106). Mesmo considerando a literatura guineense como aquela que carece das condições que a colocasse a par das outras literaturas, só com o aparecimento da coletânea Mantenhas para quem luta, depois da independência, através dos poemas em crioulo, é que este estudioso reconheceu que a literatura guineense começou a ganhar espaço textual dentro do cenário das literaturas africanas dos países colonizados por Portugal.

Ainda na Europa, Augel faz referência a um outro estudioso e professor português, radicado na Alemanha, Luciano Caetano da Rosa que produziu sobre a literatura guineense, trabalho com o título A literatura na Guiné-Bissau. O trabalho foi publicado, segundo a autora, em um número especial, suplemento de periódico “Lusorama: Revista de Estudos sobre os países de Língua Portuguesa”, de 1993 (p.108).

Também, de acordo com José Carlos Venâncio (1992), o olhar crítico dos escritores africanos, e aqui acrescentamos dos críticos dessa literatura, “funciona como o espelho de uma sociedade e o investimento de uma missão terapêutica dupla” (KANE apud VENÂNCIO, 1992, p.9). Baseando-se nessas observações, pode-se apontar que a literatura guineense e a produção até então prendem-se à descrição da realidade social da Guiné-Bissau, das situações políticas e dos conflitos que tem vindo a ganhar a hegemonia no país, que até o presente não tem encontrado um caminho desejável para seu pleno desenvolvimento, portanto o mesmo se pode dizer da fortuna crítica produzida pelos estudiosos.

Sobre a literatura da Guiné-Bissau no Brasil e outros contextos de produção da crítica literária

Além de Portugal, o outro espaço em que a literatura guineense teve sua divulgação foi no Brasil. Mesmo antes da aprovação da Lei nº 10.639/2003, que legitimou o ensino das literaturas africanas de língua portuguesa neste país, houve uma série de publicações nos anos 80, pela editora Ática, que já vinha anunciando a presença da literatura africana com uma necessidade inerente à própria História brasileira. Embora de circulação mais restrita ao público acadêmico, algumas publicações mereceram olhares de alguns estudiosos da área em questão, que ao longo dos últimos 30 anos vêm formando gradativamente uma área de estudos literários africanos, em várias regiões do Brasil. Mesmo assim, segundo Moema Parente Augel, sobre a literatura guineense, “não só em Portugal há pouco conhecimento ou mesmo o silêncio em torno da literatura guineense. No Brasil, até bem pouco tempo, a ausência de informação era ainda uma constante” (p.111).

Embora, desde tempos antes da independência do país, alguns críticos se envolvessem com essa literatura, esse envolvimento não era tão alargado para que se pudesse divulgar essa literatura o quanto era necessário. Ainda, essa ausência pode ser justificada pela pouca presença dos críticos neste campo de saber artístico deste país, veja-se – por exemplo – o caso das disciplinas ministradas nos cursos de graduação, que pouco tendem a tratar a literatura guineense como apenas uma das cinco literaturas africanas em língua portuguesa – pois, como bem sabemos, é nesse contexto que a produção crítica é formada, o que ocorre tanto no Brasil, quanto em Portugal.

Se na própria Guiné-Bissau houve pouca presença dos críticos até antes da independência, e muito menos presença ainda no âmbito acadêmico e nas escolas de base, como poderia essa literatura ganhar uma expressividade abrangente, no que diz respeito a sua propagação, nos outros territórios?

Tem-se como um dos importantes registros sobre a literatura guineense no solo brasileiro o do Núcleo Ibérico, Latino-Americano e Luso-Africano, do Instituto de Letras na cidade de Ijuí, no Rio Grande do Sul, com os Cadernos Luso-Africanos, em 1986. Segundo Augel, esse núcleo, numa das suas publicações, trouxe uma pequena referência sobre a literatura guineense, tendo também trazido alguns registros sobre a publicação da primeira antologia poética da Guiné-Bissau, Mantenhas para quem luta. Embora, essa publicação em solo brasileiro possa ser considerada modesta e despretensiosa, com breve informação para os interessados em estudar a literatura desse país, ela dá mérito a esse núcleo acadêmico e confirma também a presença apenas de pequenas brechas dentro do âmbito universitário.

Um outro exemplo sobre essa literatura, publicada no solo brasileiro e registrada na década de 1990, é a publicação da coletânea organizada por Rogério Andrade Barbosa, No ritmo dos tantãs (1991), com uma segunda edição no Brasil, a Guiné-Bissau aparece representada por Marcelino Marques de Barros, Amilcar Cabral, José Carlos Schwarz, Tony Tcheka, Agnelo Regalo, Tony Davyes e Helder Proença. Para Augel, Barbosa é um estudioso que tem-se dedicado à literatura infanto-juvenil. O trabalho desse escritor brasileiro também tem se pautado na pesquisa de campo, realizada durante vários anos no continente africano, mas nota-se que essa produção é ainda uma forma terceira de divulgação.

De um outro contexto e de acordo com Russel Hamilton (1984), professor e crítico afro-americano, introdutor dos estudos literários da África de Língua Portuguesa na América do Norte, em “A arrancada de uma literatura tardia, capítulo do livro Literatura africana. Literatura necessária, em o volume II, dedicado à Guiné-Bissau, o regime colonial não havia criado condições necessárias, como já dissemos, que favorecessem a implantação e consolidação de um movimento cultural-literário na Guiné-Bissau até antes do período em que o país se libertou da dominação estrangeira. A falta da criação dessas condições, que poderiam permitir o envolvimento ou o contato dos guineenses com a produção literária muitos anos antes da independência, enquadra o país numa situação de desvantagem em termos de produção e publicações de obras literárias por parte dos nativos desta nação. Ora, se o sistema da educação escolar demorou para ser instalado no país, é compreensível a difícil presença dos guineenses na produção da literatura. Pois qualquer produção de escrita literária depende de uma instrução escolar, sendo assim os guineenses excluídos do contexto escolar dificilmente fariam uma literatura que representasse a sua cultura. Mas, com a implantação do sistema escolar na Guiné-Bissau que veio a acontecer muito tarde, culminando com a entrada dos guineenses nas escolas e consequentemente com a instrução básica, deu-lhes a oportunidade de pôr em prática, ou no papel, as suas manifestações literárias. Mesmo que de forma bastante lenta, é a partir, e principalmente, de antologias de poesia que se tem colmatado os supostos discursos sobre o vazio dessa produção.

Tendo se dedicado aos estudos sobre as literaturas dos países africanos de língua oficial portuguesa, embora valha dizer que tais estudos foram publicados primeiro em Angola, na década de 1980, o crítico afro-americano, Russel Hamilton fez abordagens sobre a literatura guineense do pós-independência, a partir das antologias poéticas publicadas na Guiné-Bissau depois da independência. A que marcou o início da primeira publicação literária significativa no país, Mantenhas para quem luta, de 1977, segundo o próprio Hamilton, é a publicação que deu um salto qualitativo e muito positivo na área da literatura e cultura da Guiné-Bissau, pois conseguiu abrir caminhos para ultrapassar o que era representado nas publicações no período colonial.

Ainda, de acordo com Hamilton (1984), a antologia poética Mantenhas para quem luta, publicada quatro anos após a independência do país, deu um ponta pé de saída para a produção literária e editorial no solo guineense. Sendo que, para ele, após ter sido ultrapassada as fases de reivindicação racial e cultural, a sequência de antologias que se viu publicar no país trouxe à tona os descontentamentos e angústias sobre as consequências da colonização, uma vez que boa parte dessa produção já havia sido escrita durante os anos de luta de libertação, apenas esperava-se um meio de divulgação. Ao mesmo tempo, os versos presentes nesta obra, apresentaram a convicção e o otimismo do povo recém-saído da colonização, para a construção de uma nova sociedade justa e pluralista. A construção de uma sociedade que congregue diferentes saberes, valores étnicos e culturais, tidos como uma riqueza nacional.

Com a ideia de construção de uma nação, uma sociedade livre e progressista fora do contexto da exclusão de qualquer que fosse o gênero, Augel comenta, em A nova literatura da Guiné-Bissau, que “Mantenhas para quem luta trata-se de uma poesia com a carga patriótica muito grande. Isso está vinculado ao desejo de querer ver país numa progressão depois de vários anos de exploração colonial que não facilitou de maneira nenhuma aos guineenses que não estivessem na categoria de assimilados a terem o acesso aos direitos sociais que qualquer povo teria o direito de ter.” (1998).

Depois de um ano, surgiu, em 1978, uma nova publicação literária em coletânea dos jovens poetas do país recém-independente, Momentos primeiros da construção, que segundo Augel (1998) os poemas desse livro, tal como os de Mantenhas para quem luta, prestam de igual modo testemunhos sobre a realidade colonial e a ambição de uma viragem da página naquela sociedade. Ainda nessa ordem de ideias,

Mesmo magoados e descontentes com o sistema colonial, os poetas guineenses dessa época acreditavam numa mudança progressiva na Guiné-Bissau. Ao se lerem as produções dos poetas guineenses se depara com o testemunho patriótico exaltado por estes poetas (p.98).

Continuando nessa discussão, temos trazido as observações de Inocência Mata, uma professora e crítica são-tomense, também dedicada aos estudos literários dos países africanos de língua oficial portuguesa do período depois das independências. Segundo esta pesquisadora, no que diz respeito à literatura guineense do pós-independência: “durante algum tempo, tornou-se frequente falar sobre o vazio literário guineense. Comparada às outras literaturas africanas de língua oficial portuguesa, a literatura guineense é tardia e escassa” (MATA, 1994, p.356). A pesquisadora busca esclarecer que, apesar de a literatura guineense ter sido desfavorecida em termos das condições que permitissem a sua evolução ao longo do período colonial, e mesmo ocupando uma posição mais ou menos baixa em termos de comparação com outras literaturas africanas de língua portuguesa, ela nunca deixa e nem vai deixar de ser aquela que representa o povo guineense, pois essa sua posição não explica a sua inexistência.

Como já referimos nesse trabalho, a Guiné-Bissau possui duas modalidades de literatura, a preponderância da literatura oral, que é a primeira forma de manifestação de cultura, o que também pode ajudar a explicar a escassez na produção inicial da escrita, uma vez que esta é valorizada no seu contexto interno e, por assim dizer, tem maior reconhecimento interno do que a própria escrita, em termos artísticos.

Para Inocência Mata (1994), as primeiras antologias que marcaram o início da publicação literária no país após a independência, hoje, ganham um significado que vai além da qualidade literária dos textos nelas presentes e passam a carregar um significado “sócio ideológico” com uma importante função no contexto da afirmação “sociológica” de um sistema literário nacional. Mata também aborda o uso da língua crioula nas primeiras e contínuas publicações de antologias literárias no país como a forma de reconfirmação da maturidade de uma literatura nacional.

Vale dizer que a crítica produzida em Portugal, e especialmente no Brasil, através da publicação de artigos em periódicos, além de alguma produção recente em teses e dissertações, é um corpus que, embora não elencado aqui, configura-se como importante acervo para marcar a importância da contribuição e o desdobramento dos pesquisadores aqui citados, como Moema Augel, Russel Hamilton, Manuel Ferreira, Inocência Mata, uma vez que estes, no âmbito acadêmico, contribuem para que haja uma continuidade do interesse crítico pela produção guineense. Mesmo que boa parte dessa produção seja realizada fora da Guiné-Bissau, é possível notar que há um respeito pelas contribuições de outras línguas, bem como pelo contexto histórico-político, cenário bastante diferente do que se via ao longo do processo colonial e no imediato do pós-independência.

Em suma, com um aumento na produção e publicação de obras literárias guineenses dentro e fora da Guiné-Bissau, já é possível pensar que, nos últimos anos, houve uma desconstrução dos discursos sobre o “suposto vazio”, tanto da crítica, quanto da literatura da Guiné-Bissau, uma vez que, diferente do período colonial e do imediato pós-independência, tem-se considerado as contribuições da oralidade e do contexto histórico guineense, como um valor inerente e indissociável dessa produção.

Referências

AUGEL, Moema Parente. A nova literatura da Guiné-Bissau. Bissau: INEP, 1998.

_____. O desafio do escombro: nação, identidades e pós-colonialismo na literatura da Guiné- Bissau. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.

CÁ, Lourenço Ocuni. Políticas Públicas em Educação na Guiné-Bissau: um apanhado histórico. Tese de doutorado. Unicamp, Campinas, 2013.

FERREIRA Manuel. No Reino de Caliban. Seara Nova: Lisboa, 1975.

HAMILTON, Russel.  A arrancada tardia de uma literatura. In. Literatura africana. Literatura necessária. Volume 2. Luanda: INLD, 1984, p. 215-234.

LEITE, Joaquim Eduardo B. da Costa. A Literatura Guineense: Contribuição para a Identidade da Nação. Tese de doutorado apresentada à Universidade de Coimbra, 2014.

MATA, I. A literatura colonial de inspiração bolamense. In. África – Revista do Centro de Estudos Africanos, São Paulo, USP, n. 16-17, 1993-1994, p. 199-209.

SEMEDO, Maria Odete C. Soares. As Manduandadi – Cantigas de Mulher na Guiné-Bissau: da tradição à oratura. Tese de doutorado apresentada à Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2010.

VENÂNCIO, José Carlos Literatura e poder na África Lusófona – Lisboa: Ministério da Educação. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.