A mão da limpeza: a trajetória negra na literatura

Jéssica Caroline Pessoa dos Santos

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 29, 2018. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Centro de Humanidades
Instituto de Letras
Rio de Janeiro – Brasil
jessicacps2012@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/0248516825759736

RESUMO: O presente texto tem como objetivo de retratar através da canção do cantor brasileiro Gilberto Gil “Mão da limpeza” uma análise histórica-literária da negritude na sociedade brasileira partindo-se desde dos tempos coloniais até o dia de hoje. A relação conta tanto com textos interdisciplinares de literatura como de cultura e patrimônio.

PALAVRAS – CHAVE: Canção; Literatura; Negro; Sociedade brasileira.

ABSTRACT: The present text aims to portray through the song of the Brazilian singer Gilberto Gil “Mão da limpeza” a historical-literary analysis of the blackness in the Brazilian society starting from colonial times until the present day. The relation counts as much with interdisciplinary texts of literature, culture and patrimony.

KEY WORDS: Song; Literature; Black ; Brazilian Society.

 

A mão da limpeza
(Gilberto Gil)

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Que mentira danada, ê

Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o negro penava, ê

Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza

Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza

Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
Eta branco sujão

A presente canção compõe o álbum Raça Humana de 1984 do compositor e cantor Gilberto Gil, um dos representantes do movimento de ruptura cultural-artística Tropicália dos anos 1960, e retrata como o negro é visto na sociedade brasileira.

Mesmo com a abolição da escravatura, o negro ainda sofre com o estigma de ser “a mão da limpeza” que asseia o que o branco deixa, demonstrando a hierarquia totalmente ultrapassada e preconceituosa que ainda interpreta o negro como o sujo e o branco como o limpo. Assim como Gil relata em seu site:

Eu fiz A Mão da Limpeza para repor certas coisas no lugar e remendar um preconceito histórico contra os negros; para responder, no mesmo tom, um desaforo – o velho ditado: Negro, quando não suja na entrada, suja na saída. A música é de alguma maneira uma resposta a certos preconceitos que ainda são encontrados na sociedade brasileira atual. (GIL).

Outra perspectiva a ser investigada é como o significado de “mão” pode ser polissêmico, representando também a força braçal que sustentou, através de seu sofrido trabalho, a sociedade brasileira do século XIX.

Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
(…)
E que ainda sustenta até hoje
Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão

Pois afinal, negro é quem limpa, é a mão-de-obra que subsiste e sustenta a história e a sociedade brasileira ao longo dos anos com o seu trabalho duro e suor.

Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza

Mesmo assim a mão é pura, pois não se contaminou com a “sujeira branca”. A canção também é uma condenação moral aos brancos que são “sujos de alma” por permitir a predação da raça negra através do sistema de escravidão, implantado ao longo do século XIX e representado até hoje por outros tipos de preconceitos raciais.

Negra é a mão
De imaculada nobreza
Na verdade, a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só

Fazendo-se um percurso histórico, desde sempre, o papel do negro foi visto e revisto por grandes personalidades, sendo essas, em sua maioria, brancos. Ao longo do século XVII podemos observar que a participação dos negros no Brasil Colonial aconteceu a partir do momento em que a colônia portuguesa teve a necessidade de obter um grande número de trabalhadores para ocuparem, em princípio, as grandes fazendas produtoras de cana-de-açúcar. Com a já realizada exploração e dominação do litoral africano, os portugueses buscaram nos negros a mão de obra escrava para ocupar tais postos de trabalho no solo brasileiro.

E então deu-se início ao tráfico negreiro, uma prática que atravessou séculos e forçou os negros a saírem de sua terra natal para serem escravizados em outras terras, muitas vezes, completamente desconhecidas. Em terras brasileiras, a força de trabalho dos negros foi sistematicamente empregada pela lógica do abuso e da violência. Além da demanda econômica, a escravidão africana foi justificada pelo discurso religioso cristão da época, que definiu a escravidão como um tipo de “castigo” que iria aproximar os negros ao cristianismo, justificando assim a sua inferioridade perante os brancos.

Conceito visto em vários discursos na época como por exemplo no discurso do padre jesuíta italiano Antonil (1649-1716) chamado Cultura e Opulência do Brasil (1711), o sacerdote demonstra com essa obra uma série de “conselhos” direcionados aos senhores de engenho, como, por exemplo, o modo de tratar o escravo e administrar o dinheiro perante a família e negócios, a fim de manter o poder da coroa.

Novamente, o escravo é visto como a “mão” trabalhadora que através de seu ofício gera riqueza para o seu senhor. A mão mercantil e sofrida que só serve para dar lucro por meio de uma visão instaurada na sociedade patriarcal brasileira que o século XIX possuía.

OS ESCRAVOS são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente. E do modo como se há com eles, depende tê-los bons ou maus para o serviço. (ANTONIL, 1982, p. 33).

E, por isso, deve ser tratado sem muitos castigos para conseguirem se valer do trabalho que lhes era imposto e assim, gerar lucro para o seu senhor. Para isto, é necessário doutriná-lo com dogmas próprios da religião e tratá-los melhor, perdoando suas desavenças, visto que eles eram necessários para a manutenção da riqueza da sociedade da época.

O certo é que, se o senhor se houver com os escravos como pai, dando-lhes o necessário para o sustento e vestido, e algum descanso no trabalho, se poderá também depois haver como senhor, e não estranharão, sendo convencidos das culpas que cometeram, de receberem com misericórdia o justo e merecido castigo. E se, depois de errarem como fracos, vierem por si mesmos a pedir perdão ao senhor ou buscarem padrinhos que os acompanhem, em tal caso é costume, no Brasil, perdoar-lhes. (ANTONIL, 1982, p. 38).

A partir de 1870, o Império comandado por D. Pedro II já não conseguia atender aos diversos setores sociais. A desestabilização da relação com a Igreja Católica, que desde a época colonial foi submetida ao Estado através do padroado, ou seja, nenhuma ordem do papa vigorava no Brasil antes de ser aprovada pelo Imperador, pela questão da manutenção de reuniões maçônicas, e a insatisfação do Exército, pós-vitória da Guerra do Paraguai, contribuíram, mais tarde, para uma mesma solução: o fim da monarquia e a instituição da República.

Além disso, a questão escravocrata também contribuiu para a restauração da República, por quanto as relações políticas com os latifundiários escravistas foram desestabilizadas por acreditarem que receberiam indenizações pelo abolicionismo.

Contrapondo a essa visão, no século XIX, surgiram, no Brasil, movimentos abolicionistas influenciados, sobretudo, pelas ainda que lentas pressões externas da política inglesa, que de há muito se opunha ao tráfico escravista, e pelas pressões internas de um grande movimento popular:o abolicionismo, cuja origem remonta aos quilombos e às revoltas de africanos iniciadas ainda no período colonial. Eventos já existentes em todo o mundo, a exemplo da “Proclamação de Emancipação” nos Estados Unidos em 1863. Um dos pioneiros no Brasil é o abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910) que em sua obra de memórias, Minha formação (1900), demonstra como o escravizado pode ser outra “mão”: distinta da que a sociedade empregava, como sendo a de um mero serviçal, agora com um papel importante na construção cívica e moral de todos os indivíduos.

Embora ainda haja a visão concreta da realidade do ser escravo na sociedade brasileira daquele século, o texto de Nabuco comprova uma tentativa de ver o negro como um indivíduo, pois é um relato mais humanizado de um abolicionista que faz desta causa sua razão de existência e não mede esforços para atingir os seus objetivos.

Entre mim e eles deve ter-se dado uma troca contínua de simpatia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instinto mercenário da nossa época, sobrenatural à força de naturalidade humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti distintamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possível. ” (NABUCO, 1900, p. 170).

Até hoje são vistos grandes preconceitos para com a raça negra. Os negros ainda são as principais vítimas das maiorias dos casos de homicídios no país. Resquícios da mentalidade patriarcal escravocrata e branca do Brasil colônia, e disseminada no século XIX, fazem com que a imagem do negro ainda seja vista com muito preconceito pela sociedade brasileira atual.

Mesmo que muitos negros tenham feito história no Brasil, e que sejam os principais representantes de toda a formação da cultura brasileira, como por exemplo o caso da figura do Pelé no futebol brasileiro, o fato é que: “Aqui, brancos sempre conviveram com negros, mesmo sob a escravidão. Do que não gostam é de serem representados por eles, fora ou dentro do país.” (RUFINO, 2005, pág. 6)

Mentalidade que, infelizmente, ainda repercute no Brasil, mas que se espera que um dia acabe em nome da paz de um país grande e miscigenado composto por várias crenças, raças e culturas mistas, e que por isso deve se ter respeito mútuo.

(Utopia desejosa.)

Referências

Livros

ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1982. (Coleção Reconquista do Brasil).

NABUCO, Joaquim. Minha formação. Ed. Saraiva de Bolso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

RUFINO, Joel. Culturas negras, civilizações brasileiras. Revista Palmares, 2005. Disponível em: <http://www.palmares.gov.br/wp-content/uploads/2011/02/revista01.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2018.

Sítios eletrônicos

GIL, Gilberto. A mão da limpeza. Disponível em: <http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_info.php?id=236&letra>. Acesso em: 16 abr. 2018.

TROPICÁLIA. Disponível em: <http://tropicalia.com.br/identifisignificados/movimento>. Acesso em: 16 abr. 2018.