Cipó-cobra

Emmanuel Fritz Neves

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 29, 2018. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Acadêmico do curso de Letras Português
Universidade Federal de Santa Catarina

Ritmados os humanos, que em duas pernas andam em movimentos constantes, carregados de braços paralelos, quase que melodiosos. Crescem em progressão, geometria a-ritm-ética talvez. Nascem, vivem, morrem, vivem, morrem, sempre presos à circularidade, ao ciclo. Apesar de sociais, insetos humanos são indissociáveis, idiossincráticos; convivem, mas não exibem seu real ser, seu real querer; se ocultam e se projetam. Sociedade mútua, composta por relações de parasitismo; intraespecífica não harmônica. Confesso que me preocupei de início, mostrei-me outro e não eu mesmo, consternado,sentia-me atópico, atípico. Anômalo eu que me distanciei do social, predisposto ao ideal de que a vida não era apenas aquele comum, a todos igual. Busquei-me em primeiro lugar, ainda busco, mas não com ritmada vontade de humano. Não ando como antes, rastejo como cobra, me esquivo do todo que agora já não é mais nada. Sou cobra não-peçonhenta; cobra-cipó, camuflada em meio ao meio, me assemelho a todos e assemelho a nenhum. Troco de pele costumeiramente, buscando sempre me agregar em minha companhia, assim me detenho em minha casa: minha casa sou eu. Rotineiramente sinto-me sozinho, admito isso, mas curo-me com rápida companhia, afinal, humanos não são complementares, são individuais. Por ser cobra, me apego facilmente, saio de casa, abandono o eu em busca do teu, me esforço mas, por ser humano cobra, também me canso. Perco minha casa e primeiro abrigo. Ando perdido e em busca do método protetivo tão comum a nós ofídios. Busco enlaçar-me em trepadeira, camuflo-me, converto-me em cipó-cobra.