Cromos



 
A minha musa, a minha pobre musa,
De riso à boca e flores na cabeça,
Morena virgem, rústica e travessa,
Que um vestidinho dos mais simples usa.
 
A noiva alegre de um rapaz de blusa,
Que talvez muita gente não conheça,
De riso à boca e flores na cabeça
Vem visitar-vos, tímida e confusa.
 
Não lhe aumenteis o rúbido embaraço,
Levando-o ao vosso lado e pelo braço
Com requintes fidalgos de condessa;
 
Filha do campo, distinções recusa
A minha musa, a minha pobre musa
De riso à boca e flores na cabeça!
 

 
                                 O sol, príncipe aéreo
De olhar de fogo, o ensangüentado mouro,
Descansa por detrás daqueles montes,
Que recortam violáceos horizontes,
E dorme entre o lençol de nuvens de ouro
                                 No seu leito sidéreo:
                                 São horas... descansemos.
Conhece-me, senhora? Conversemos
                                 Neste quieto recinto,
Em que um perfume delicado sinto...
 
Eu sou o filho agreste das montanhas,
Pastor, talvez, de solidões estranhas!
O camponês que habita a serra oblonga,
                                 Louçã e prazenteira,
Onde, pousada ao ramo da fruteira,
                                 Em horas de verão,
Como ferro a bater grita a araponga,
Repercutindo os ecos no sertão,
                                 E o buriti serrano
 
Aos ventos do deserto enlaça as franças
Quando, estrídulo, clama algum tucano
Em sanguíneas manhãs, frescas e puras
Como o riso argentino das crianças
                                 Que brincam pela estrada...
                                 Terra que, nas planuras,
— Quando não há notívago planeta,
Silente a aldeia, e longe, pelos campos,
                                 Não passeia a toada
De uma amorosa e linda cançoneta —
                                 Bruxuleia, às escuras,
A lamparina azul dos pirilampos,
                                 Nos virentes cafés
De alguma encantadora e mansa plaga
— quando o coqueiro inclina o loiro cacho —
                                 Nas águas do riacho
Que marulha na grota e o campo alaga,
Banho-me todo da cabeça aos pés.
E como o marinheiro, O bom grumete,
                                 Saudoso ou descuidado,
Encordoa a guitarra e canta à lua
                                 Os olhos da menina,
Ao deslizar sereno da falua,
                                 Eu, ao pino, deitado
                                 Sobre o fofo tapete
Da emurchecida relva da campina,
Sob a copa amarela dos ipês
Faço chorar as cordas do machete!
 
Sento-me, às vezes, no alcantil quebrado
                                 À margem de algum rio,
Fugindo à calma, à sombra pitoresca
                                 De um festão debruçado
Que entre flores se deita em desvario
No leito mole da corrente fresca!
Aí me assento triste e solitário
                                 Ouvindo o murmúrio
Da corrente que desce em curso vário:
                                 Aqui, as claras águas
                 Estendem-se dormentes
Como o sonho gentil dos inocentes!
Mais abaixo, despenham-se nas fráguas
                                 Em grandes borbotões;
Furtam-se mais além... e ronca, e ronca
Quando esbate, o cachão, na pedra bronca,
                                 Quebrando as solidões...
                                 E deixa após a espuma,
Que mais parece cerração de bruma!
                                 Senhora, em forte estio
Amo, enlevado, o marulhar do rio.
 
                                 Dias de primavera
Eu deixo-me ficar no campo, à espera
                                 Que o astro-rei se esconda
Entre as cortinas rubras do poente,
A confundir um raio moribundo
                                 No suspiro profundo
Que solta o mar; nas súplicas da onda
                                 Que se estorce na praia,
Qual em mole coxim de alva cambraia
                                 A odalisca gemente
Saudosa do Sultão, que foge ao mundo!
 
                                 Espero o sabiá
Que venha despedir-se em voz saudosa
                                 Dessa tarde formosa,
No verde ramo da cheirosa ingá.
Todo o meu ser nesta hora se extasia
Mergulhado, tristonho, em cisma funda!
                                 E, cheio de ternura,
Vejo a obra de Deus que me circunda.
Contemplo o encanto da ridente Flora
Neste céu de suavíssima poesia,
Onde passa de rosa a nuvem pura.
                                 Minha alma se enamora
Até da flor singela das campinas
                                 Que o encanto seu resume
                                 No célico perfume
Derramado nas auras vespertinas.
E mais ao longe a juriti suspira...
                                 Bem vejo:: um flébil rogo
De viúva na dor, que o companheiro
Carpe, e o filhinho que se foi primeiro
Na solitária e triste sucupira.
                                 Lavrada pelo fogo.
 
                                 E cá, se a noite é bela,
                                 Eu ponho-me a cismar
Debruço ao peitoril de uma janela
De guarida qualquer,amiga e franca...
Que eu nada tenho: minha casa branca,
Onde vivem meus pais, eu deixei-a,
Dentro de um bosque, na pequena aldeia!
                                 É bem pobre o meu lar:
O chão — socalco, e telha vã — o teto;
Roseiras nos moirões, flóreos matizes
Alastrando o cercado, um campo lindo,
Onde, a rir, meus irmãos brincam felizes;
Ao fundo — um laranjal em flor se abrindo!.
                                 Eis o quadro completo.
... Envolve-me o luar na frouxidão
                                 De sua luz bacenta,
E a minha fronte um raio acaricia,
 
                                 Talvez que de poesia,
Que a comoção minha alma experimenta.
Então, senhora, eu sinto que é preciso
                                 Ao menos um sorriso
De mulher, que dê vida à inspiração
Do cantor infeliz, que mal suporta
A dor de ver, tão cedo, a noiva morta!
 

 
I
 
Sou rapariga da aldeia;
Cercam-me os moços da moda,
— Zangões que giram à roda
De impenetrável colméia.
 
Sou loira, simplória e — creia!
Luva ou chapéu me incomoda:
Corro nos campo, a toda,
De chinelinhos sem meia.
 
Ando de flor ao cabelo,
Cruz e verônica ao seio,
E de vestido singelo;
 
Sou namorada de um moço,
Que anda na rua — ele é feio!
De cachê-nez ao pescoço.
 
II
 
Caíra o sol no horizonte!
A rapariga travessa,
Vai, de cântaro à cabeça,
Pelo caminho da fonte.
 
Fumega o rancho. Defronte
Azula-se a mata espessa...
Antes, pois, que a noite desça,
Voam as aves ao monte.
 
Aponta Vésper, brilhante;
E o largo silêncio corta
Uma toada distante...
 
Irado, enxotando o galo,
Está um homem na porta
Dando ração ao cavalo.
 
III
 
Ontem, à porta sombria
De uma casinha fechada,
Bateu ligeira pancada
Mão que tremer parecia...
 
Ouvi... Dentro alguém gemia:
Era mulher desgraçada,
Uma visão desbotada
Quem no tugúrio vivia.
 
Transpus a porta, assustado...
Virgem Maria! De um lado
Onde essa mãe tresloucava,
 
Plácida, magra, amarela
Pelo reflexo da vela,
Uma criança expirava.
 
IV
 
Põe-se a merenda na mesa:
Um tosco móvel de pinho
Quer esconder a pobreza
Num guardanapo de linho.
 
Pouco pão, muita limpeza,
Um só talher; não há vinho!
Há de achar, porém, franqueza
Quem tiver fome em caminho.
 
“Sem cerimônia, patrício;
“Não repare na choupana,
Disse-me o tio Simplício;
 
E a boa dona da casa
Trouxe-me um gole de cana
Em canequinha sem asa!
 
V
 
Entra o luar na varanda,
Iluminando lá dentro
Um grupo, que tem no centro
Uma anciã veneranda;
 
Três rapazitos, em torno,
Vestidos de camisolo,
Loira menina no colo
Fazem do catre um adorno.
 
E, para entreter os netos,
Conta a avozinha uma história,
Que ouvem atentos e quietos;
 
Perto, a filha — o olhar caído,
Numa atitude simplória
Dá cafunés no marido.
 
VI
 
Foi à hora solene da alvorada
Quando o pálido amante, sonolento,
Resistindo às cadeias de um lamento,
Deixou a alcova da mulher amada.
 
Insinua-se,vago, pesa estrada,
Pensativo, calado e a passo lento...
Leva etérea visão no pensamento,
Nem ele sente o frio da orvalhada!
 
E cantam, cantam lindos passarinhos
À débil sombra, em selva buliçosa,
Sobre a beirada rústica dos ninhos!
 
Ergue-se tudo... E a dama voluptuosa
Estende-se outra vez nos alvos linhos,
E dorme, dorme, dorme, a preguiçosa!
 
VII
 
Quando o pai transpõe a entrada,
De guarda-sol e de embrulho,
Vem recebê-lo a criançada
Com grande festa e barulho.
 
E nas bocas impolutas
Daqueles sonhos corpóreos
O malandrim dos cartórios
Coloca beijos e frutas.
 
E à mesa, em nuvens de fumo,
Enquanto faz-se o resumo
Das novidades, assombros!
 
Aquelas boas crianças,
— Bando gazil de aves mansas —
Trepam-lhe em cima dos ombros!
 
VIII
 
São três gárrulas meninas,
Aves do ninho saltando
Para soltarem num bando
Doces canções peregrinas...
 
Alam-se às plantas divinas
Risadas, de quando em quando,
Daquelas bocas, lembrando
Três breves, rubras boninas.
 
Eu, que, matando esperanças,
Da mocidade nos trilhos
Perdi os risos joviais,
 
Sigo invejoso as crianças!
Que as alegrias dos filhos
São o tesouro dos pais!
 
IX
 
Amanhecera. O tropeiro
Passa, cantando, na estrada;
No seu casebre o roceiro
Prepara as foices e a enxada.
 
Ao rumor a luz casada
Enche de vida o terreiro
Parecem bruma cerrada
As flores, lá! do espinheiro...
 
Aspira-se o olor suave
Do bom café... Alto e grave
Bate o pilão nas cozinhas.
 
Há junto à horta uns barrancos,
Onde a mulher, de tamancos,
Distribui milho às galinhas.
 
X
 
Conversam ambos La sala
Juntos, sentados, em paz;
A moca, a rir quando fal
Diz querer bem ao rapaz.
 
Replica o noivo, a mira-la:
Dê-me um beijo, se é capaz...
Grave, de luto e sem gala
Olha-os a mãe por detrás.
 
E treme a luz, que não presta!
A sala, pobre e modesta,
Quase que lôbrega está...
 
Boca aberta, mão no queixo,
Em caprichoso desleixo
Dorme Nhonhô no sofá.
 
XI
 
O sol raios de oiro espalha
Como um fidalgo vadio!
Perto do rancho de palha
Fechado, há pouco; e vazio
 
Uma mulher com a toalha
De linho branco, alvadio,
Sobre a cabeça grisalha,
Lava na beira do rio.
 
Fareja o cão; e ali perto,
Livre do sol, nos verdores,
Por umas frondes coberto,
 
Gordo, risonho e despido,
Com borboletas e flores
Anda o filhinho entretido!
 
XII
 
No rancho a lenha se inflama;
Ao lado — posta uma esteira,
Onde crianças sem cama
Atiçam fogo à chaleira.
 
A rubra luz se derrama
Como um fuzil, de maneira
A deixar ver desse drama
A cena íntima inteira!
 
Chega-se a mãe aos pequenos
Com certo dó:
"... quando menos
Temos a graça de Deus..."
 
Ia o fogo amortecendo...
Deu-lhes a bênção, dizendo:
— Vamos dormir, filhos meus!
 
XIII
 
Na estaca de uma parede
Dá pouca luz a candeia;
Um homem, depois da ceia,
Fuma, deitado na rede.
 
Do camponês rude, vede!
O pensamento vagueia...
Chora num berço de aldeia
O pequerrucho, com sede.
 
"Maria! chama o pai, alto.
(Ergue-se a filha, de um salto)
"Anda ninar teu irmão...
 
E enquanto a moçoila canta,
A mãe, trigueira, de manta,
Debulha guandos, no chão.
 
XIV
 
Eis o casebre antigo dos dois velhos,
Esposos camponeses, onde a filha
De noite sobre a mesa abre a cartilha,
Ouvindo ao ancião veros conselhos.
 
Lança os olhos à mãe — castos espelhos,
Morno raio do amor que em sua alma brilha;
Envolvendo-lhe o busto na mantilha,
Adormecia a moça em seus joelhos.
 
Que de vezes, oh! filha destes lares!
Eu consolei-te os frívolos pesares,
Nessa ternura múltipla de irmão!...
 
Eras cercada, enfim, de um zelo terno,
Quando estávamos todos, pelo inverno,
Ao brazido cordial do teu fogão!
 
XV
 
Caiu a noite, erma e fria.
E aquela saleta, agora,
Caiada por dentro e fora,
A vela acesa alumia:
 
No antigo móvel de braços
Acha-se o pai recostado,
Para o filhinho pasmado
Lendo da Bíblia os pedaços;
 
Na mesa, logo à direita,
Onde uma rosa desfeita
Perde o vigor na caneca,
 
De joelhos na cadeira,
Loira, branca, feiticeira
Brinca Nenê com a boneca.
 
XVI
 
A filha, pálida e loura,
Faz seu serão de costura:
Às vezes pensa... ou procura
Dentro do cesto a tesoura.
 
Vive numa dobadoura
A singular criatura!
Ralha-lhe o pai com doçura,
Ao regressar da lavoura.
 
Dá na varanda oito e meia...
Levanta-se logo a moça,
Pondo os morins no baú;
 
Traz os preparos da ceia;
E, nas tigelas de louça,
Tomam café com beiju.
 
XVII
 
A criação satisfeita
Vai-se chegando ao poleiro;
Volta, suado e trigueiro,
O lavrador da colheita.
 
De cesto e trajo roceiro,
Aquela mulher mal feita
Que o xale aos ombros ajeita,
Junta o café no terreiro;
 
E uma menina rosada
Recolhe a roupa lavada
De beira d’água... Entra o sol!
 
Pelo rafeiro seguido,
O campônio aborrecido
Desce ao riacho, de anzol.
 
XVIII
 
Naquela casa do morro
Mora a viúva com as filhas,
Três singelas maravilhas,
Pupilas de um preto forro.
 
Quando eu passo, ele, de gorro,
Colhendo à horta as ervilhas
Trepadas pelas forquilhas,
Faz sossegar o cachorro...
 
Elas vendo da ladeira
Com quem o Patusco laca,
Vão me esperar na tronqueira;
 
E após um colóquio extenso,
Pedem-me versos em quadra
Para marcarem-me um lenço.
 
XIX
 
A casinha — o sol dobrando,
Projeta sombra na frente,
Onde o casal inocente
Está sorrindo e brincando.
 
Vai a menina cantando,
Medita o irmão... de repente
Safa-se aos pulos, contente
Como graúna de um bando.
 
Chega ao portal pequenino
A mãe, que a olhar, quase cai,
Soltando, pálida, um grito...
 
É que o travesso menino
Com as chilenas do pai
Tenta montar no cabrito.
 
XX
 
As alegrias, desertas
Daquele lar, desde quando!
Hoje voltaram, entrando
Peias janelas abertas.
 
E, como pombas em bando,
Rasteiras, brancas, espertas
As raparigas vão certas
Àquele síto chegando.
 
Palmas lá dentro! E faz frio!
Tiranas e desafio...
Cá fora a lua descamba.
 
Aos rasgados da viola
Quebra-se o corpo pachola
Nos bamboleios do samba.
 
XXI
 
Homens e moças, crianças,
Todos vêm fora, ao terreiro.
Um deles, chamando às danças,
Põe-se a rufar no pandeiro...
 
Principia a cantarola...
Um camponês de unha adunca
Ponteia alegre a viola.
Faz um luar como nunca!
 
Salta una rapaz no fadinho;
Uma mulher, de corpinho,
Vem requebrando de lá;
 
E a meninada bizarra
Faz uma grande algazarra
Brincando o tempo-será.
 
XXII
 
Surge sereno e prazenteiro o dia,
Vai-se diluindo a transparência parda;
Entre os morros a luz, brincando, espia
Do camponês a rústica mansarda.
 
Freme o vergel, que plácido dormia,
E os jubilosos músicos aguarda...
Sacode a palma a trança úmida e fria
Dos suores da noite, e o sol não tarda!
 
Olhai para a cabana: uma donzela
Que as madeixas lustrais trança, de pé,
Do pequenino quarto abre a janela...
 
Nos braços leva a mãe o seu bebé
Ao jasmineiro em flor e, junto dela,
Uma menina ao velho traz café.
 
XXIII
 
Crepita a veia no quarto
Sobre uma cômoda antiga;
No leito — uma rapariga
Geme com as dores do parto.
 
Aos pés inclina-se o espelho,
Pende do teto uma rede,
E, no frontal da parede,
Há um crucifixo velho.
 
Assiste-lhe outra pessoa,
A avó, cabelos brancos,
Que a infeliz neta perdoa.
 
Mãe de Deus! E um maltrapilho
(Cedia a porta aos arrancos)
Toma nos braços o filho!
 
XXIV
 
A casa daquela gente
É branca como um jasmim!
Tem nas vidraças da frente
Forros azuis de metim.
 
Quando o sol tinge o poente,
Vai de bengala ao jardim
Um velhote impertinente,
De roupa clara, de brim.
 
Enxcota os pintos e clama
Contra quem pisa na grama;
Xinga as crianças, cruel!
 
Por encontrá-las adiante
Pondo no lago ondulante
Embarcações de papel.
 
XXV
 
Na alcova sombria e quente,
Pobre de mais, se não erro,
Repousa um moço doente
Sore uma cama de ferro.
 
Pede-lhe baixo, inclinada,
Sua mulher — que adormeça,
Em cuja perna curvada
Ele reclina a cabeça.
 
Vem uma loira figura
Com a colher da tintura,
Que ele recusa, num ai!
 
Mas o solícito anjinho
Diz-lhe com riso e carinho:
— Bebe que é doce, papai!
 
XXVI
 
O lampião sobre a mesa
Jorra o clarão na varanda;
Fora, o luar; meu pai anda
A apreciar-lhe a beleza...
 
Vede que é nua: a pobreza
Fez até lá propaganda;
É minha mãe veneranda
Quem se deitou na marquesa.
 
Dormem-lhe aos pés três crianças,
Meus irmãos, três esperanças;
Chilram os grilos por cima...
 
Riem-se os dois namorados!
Eu, atento para os lados,
Beijo uma flor, minha prima.
 
XXVII
 
Fria, a sala. A noite, fora,
Traja o sendal de viúva;
E o vento que à porta chora
Borrifa os vidros de chuva.
 
Estão no sofá sentadas
Três senhoras; mais adiante
Duas moças enlaçadas
Correm os livros da estante.
 
Espraia-se a luz, em onda,
De um castiçal dos antigos
Sobre uma mesa redonda,
 
Onde, de gorro e cachimbo,
Um velho com três amigos
Joga, em palestra, o marimbo.
 
XXVIII
 
Cheguei ao rancho, era tarde!
Disse ao dono, incontinente:
Careço que do sol quente
O vosso teto me guarde...
 
— Tire o selim do cavalo,
Que há de estar muito cansado..
Depois de tudo arrumado
Pus-me a fumar; que regalo!
 
Deram-me leite e farinha;
Mas ao guasca, antes do almoço,
Faz a mulata um cochicho...
 
Chegando-me a garrafinha,
Diz-me ela assim: antes, moço,
De petiscar, mate o bicho!
 
XXIX
 
Depois do jantar, pequena
Volve a família ao terraço;
Brinca um pimpolho no braço
De uma criada morena.
 
Ali, de verdura amena
Descortina-se um pedaço;
Sente-se o débil mormaço
Da tarde clara e serena.
 
Lê um rapaz, distraído;
Sentam-se esposa e marido
Saboreando o café...
 
A moça, a andar sem destino,
Faz para o irmão pequenino
Um babador de crochê.
 
XXX
 
Passeávamos cedo — eu, minha irmã
E a sua amiga, uma infeliz criança
Neta de um velho, ali, na vizinhança,
Órfã, talvez; chamavam-na Nhãnhã.
 
Quem mais sublime: a rosa da manhã
A se esfolhar no colo da bonança,
Ou ela, um silfo! a sua fronte mansa
Num lírio azul, a túnica de lã?
 
Foi numa dessas ocasiões que a ela
Eu me animei dizer — amo-te, és bela...
E minha irmã me interrompeu: Nhonhô,
 
Tu bem sabes que a órfã bem querida
Vive dos pais saudosa, e, agradecida,
Enxuga ainda as lágrimas do avô.
 
XXXI
 
Hera, musgo e parasita,
Desde o muro ao patamar,
Essa trindade esquisita
Faz o encanto do teu lar.
 
Das janelas vê-se o mar
Beijando a praia infinita...
De tua casa bonita
Veem-se — flores no pomar,
 
Caramanchões pitorescos
E os pombos nos arabescos
Da frente de teu chalé;
 
Uma ave mansa e travessa
Quase pousa-te à cabeça
Quando passeias a pé!
 

 
XXXII
 
Loiro galã — pelo lar
Entra o sol, sem dizer nada,
Alegre como a toada
De uma canção popular.
 
À janela brinca um par
Sob o docel da latada;
Preso, de um prego na entrada,
Põe-se o coleiro a cantar...
 
Pombos, pombas batem asa
Sobre o telhado da casa;
Chamam de dentro — Iaiá...
 
Puxando-a pelas mãozinhas,
Diz-lhe o moço: Mariquinhas,
Vem temperar-nos o chá...
 
XXXIII
 
Já vem surgindo a manhã,
Tão bela manhã de agosto,
Pois que a alegria do rosto
É à dos ares irmã.
 
Na pradaria louçã
Cantam as aves por gosto;
Nenhum sinal de desgosto
Tem o lundu da aldeã!
 
Sobre a casinha de palha,
Que honrada gente agasalha,
Manda-me o sol um "bom dia”.
 
Abre a janela do quarto,
Que eu já de saudades farto
Trouxe-te um beijo, Maria!
 
XXXIV
 
Chega Lulu do colégio
Rubro do sol, como um cardo:
Calça e boné de brim pardo,
Blusa do mesmo protege-o.
 
Entra, e nuns braços se some,
Deixando os livros na mesa.
Voltara em fraldas, surpresa!
Senta-se e diz: ai que fome!
 
E janta. O velho rafeiro
Vem festejá-lo, com o cheiro;
Lambe-o na face o gatinho.
 
A mãe, que os pratos ajunta,
Aberto o livro, pergunta:
— Que lição trazes, filhinho?
 
XXXV
 
Eu vejo de passagem,
Daquela estrada à beira,
Debaixo da figueira
Vergando-se à ramagem,
 
A mãe, rústica imagem,
Sentada numa esteira.
Ao longo da soleira
De seu casai selvagem.
 
Ali — nada é desmancho:
Passai, gentes, e vede
Aquele pobre rancho:
 
Ao lado da parede
Um galho verde e um gancho
Sustêm do filho a rede.
 
XXXVI
 
Domingo. A casa de palha
Abre as janelas ao sol;
Na horta o dono trabalha
Desde que veio o arrebol;
 
E a companheira, de grampo
No cabelo em caracol,
Na erva enxuta do campo
Estende um claro lençol...
 
No ribeiro cristalino
Bebem as aves; o sino
Chama os cristãos à matriz;
 
Entra a mulher... mas da porta
Fala, meiga, para a horta:
— Vamos à missa, Luiz?
 
XXXVII
 
Ave Maria!... Alma, escuta
Os ecos dos campanários
Como gênios solitários
Alevantados da gruta.
 
Da laranjeira impoluta
Nos florescentes cenários,
O dueto dos canários
As horas tardas enluta;
 
Horas de paz e fragrância,
Em que releio a cartilha
Dos hinos sacros da infância!
 
Diz minha mãe, que a partilha
De bênçãos faz, a distância:
— Deus te abençoe, minha filha!
 
XXXVIII
 
O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
 
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
 
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
 
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
 
XXXIX
 
Levanta-se ela do leito
Logo ao romper da manhã,
Chegando aos ombros e ao peito
O chalezinho de lã...
 
Mas só a cama abandona
Depois do sinal da cruz,
Erguendo para a Madona
Os grandes olhos azuei!
 
Enfia o pé na chinela
E vai abrir a janela;
Solta os cabelos e sai...
 
Faz aos irmãos muita festa;
E por um beijo na testa
Recebe a bênção do pai.
 
XL
 
Há umas noites violentas,
De muita agrura e sem brilho,
Que passam, como tormentas,
Pela alma de um pobre filho.
 
Não sei que nuvens são essas...
Aves sinistras! no entanto
Há um milhão de promessas
Na primavera que eu canto.
 
Quero esta luz de setembro!
Mas eu, sombrio, me lembro...
Sombras de luto, passai!
 
Trazei-me, brisas de rosa,
A cantilena saudosa
Do belga exul de meu pai!
 
XLI
 
Nas noites de frio
Os astros chorando
E as folhas boiando
Nas águas do rio;
 
Da tépida aragem
O crebro farfalho
E o choro de orvalho
Que cai da ramagem;
 
A ave em conchego
Na riba que escora
Tão lânguida flor;
 
Do rancho o sossego
E as trovas lá fora
Me falam de amor!...
 
XLII
 
Ergue-se a lua do nevoeiro escuro
Como noiva infeliz — úmida rosa!
E a flor da noite se entreabriu cheirosa
Sobre as ameias pálidas do muro.
 
Vai doce ofego pelo campo fora,
Palor na praia, esmaios na lagoa;
Vago murmúrio perfumado voa...
Ou são queixumes e ais de alguém que chora.
 
É que o verso pueril de umas cantigas
Sai da boca de ternas raparigas,
Todas sentadas ao redor da choça;
 
Vai sentar-se um rapaz no tamborete
A temperar o trêmulo machete,
Em lindas noites de luar, na roça!
 
XLIII
 
É uma branca saleta
De tinhorões nas janelas;
Com o luar entram por elas
Auras de sonhe e violeta;
 
Alta e pequena; repleta
De riso e sol, bagatelas!
Uma porção de aquarelas
Esse El-Dorado completa.
 
Em meio da cantarola
Dos canários na gaiola,
Poeta sem saber como,
 
Metido em chambre de chita
Um moço à mesa da escrita
Rabisca, a lápis, um cromo.
 
XLIV
 
Vermelha, a alcova em que eu entro,
Com cortinados de cassa,
Cheia de prismas por dentro
Quando o sol bate à vidraça.
 
Tem murcho o "bouquet" num vaso
Do par que adorna o toilete;
E o espelho, neste caso,
Cena mais linda reflete:
 
Dorme na cama francesa
Com natural singeleza
Loira mulher da Suíça;
 
Abre um rapaz estouvado
As franjas do cortinado...
Ela, a acordar, se espreguiça.
 
XLV
 
Entra do sol uma aresta
Pela janela fronteira,
Tendo a cortina modesta
De festões de trepadeira.
 
Sobre o banco de madeira
O camponês dorme a sesta;
De lenço branco na testa,
Cose a mulher numa esteira.
 
Um beija-flor esvoaça...
Sai do fogão moribundo
Uma espiral de fumaça...
 
De vestido ao tornozelo,
A moça que vem do fundo
Traz uma flor no cabelo!
 
XLVI
 
Naquele quarto forrado
Há duas redes e um leito,
Onde um moço está deitado
— Livro aberto sobre o peito —
 
Pobremente amortalhado
O estudante de direito
Num camisolo encarnado,
De ramos brancos e estreito
 
Apesar da vela acesa,
Uma sombria tristeza
Paira ali dentro... Qualquer
 
Sente, ao primeiro momento,
Naquele frio aposento
A falta de uma mulher.
 
XLVII
 
Desfruta por bom costume
Um rapaz, naquela casa,
A vida de uma ave implume
Sob o carinho de uma asa.
 
Panela a tempo no lume
Que de tão farta transvasa;
Envolve tudo o perfume
De umas resinas em brasa.
 
E que adorável pobreza!
Na tábua limpa da mesa
A louça enxuta e o talher...
 
Um quê de alegre e tranquilo;
Percebe-se em tudo aquilo
O dedo de uma mulher,
 
XLVIII
 
Quando vai sair da sala,
Para negócios, à rua,
Vê-se tonto o avo e sua...
Rancho de netos lhe fala.
 
E, ao pegar-lhe na bengala
Uma pequena alva e nua,
Promete (e nisto recua)
Trazer-lhe biscoito e bala.
 
Para safar-se com astúcia
Do meio daquela súcia
Ruidosa e loira, vê pancas!
 
Mas não vê, que cego é ele!
Os dedos sujos daquele
Mancharem-lhe as calças brancas!
 
XLIX
 
A sua casa de pinho
É clara, pequena e limpa;
Anda um tiê a fazer ninho
De um angelim pela grimpa.
 
Ela, gorducha e rosada,
Senta-se cedo ao trabalho,
Com a merenda temperada
Sobre o calor do borralho.
 
Somente o dedal faz bulha...
É um gosto, nesse instante,
Vê-la a puxar pela agulha.
 
Eu entro... ela ri-se e cora.
É que apanhei-a em flan-ante
Com os tornozelos de fora..
 
L
 
Fui ao quarto: intermitente
Projetava a lamparina
Uma luz verde, mofina.
Sabre as feições do doente.
 
Como cintila divina.
O seu olhar de demente
Ia pousar frouxamente
Numa chorosa menina.
 
Depois, à imagem de Cristo
Volve a cabeça e diz isto
Com lentidão: "mundo, mundo...”
 
E o Cristo, nu, lacrimoso
Descia o olhar piedoso
Àquele pai moribundo.
 
LI
 
Abre-se ao romper do dia
A porta do novo templo,
E, num belíssimo exemplo,
A trabalhar principia
 
A classe bendita e honesta
Dos queimados proletários;
Às vezes, dos operários
Corre o suor pela testa...
 
Há pela fábrica o ar morno,
O tom violento, amarelo,
Da incandescência do forno...
 
Quem quiser entre e perlustre-a:
Parece a voz do martelo
Elevar hinos a Indústria.
 
LII
 
Curiosa, toda gente
Mira um par nestas alturas.
Que fazem pelo sol quente
Tão fidalgas criaturas?
 
Esbeltos, pela cintura
Enlaçados docemente,
Vão eles, de galgo à frente,
Entre o verdor das culturas;
 
O senhor, de trajo leve,
E a dona, toda de neve,
Incertos ante o riacho...
 
Viver assim como é belo!
Cabeças juntas, debaixo
De um para-sol amarelo!
 
LIII
 
"Dorme, dorme, meu filhinho,
"Não chores, oh! meu amor...
Macios como um arminho,
Fragrantes qual uma flor,
 
Eram os versos sem cor,
Cheios de mágoa e carinho,
Como o arrulho carpidor
Da pomba-rola sem ninho.
 
Ia-os a mãe entoando
Alta noite, acalentando
Seu alvo e loiro penhor...
 
E acabava semi-morta:
"A faca que muito corta
"Dá fundo golpe sem dor!
 
LIV
 
Quando amanhece, a mucama
Traz-lhe o café na bandeja;
Ela inda rola e boceja
Sobre as alvuras da cama.
 
A lamparina derrama
Lácteo clarão, que branqueja
(Seja indiscreta ou não seja)
As formas nuas da dama.
 
O cachorrinho felpudo
Dorme-lhe aos pés, encolhido
Sobre um basquim de veludo;
 
Senta-se a loira Frineia...
E arqueia o dorso despido,
Pedindo um beijo à Tetéia.
 
LV
 
O mesmo teto os abriga,
Casal de primos. O moço,
À mesa, depois do almoço,
Vê coser a rapariga.
 
E dá-se o mesmo alvoroço
Do sangue, na cena, antiga:
Um beijo na fronte amiga
E os braços sobre o pescoço,
 
Quando entra alguém na varanda!
Ele volta-se de banda,
Ela, corada, disfarça
 
E põe-se, com faceirice,
A bordar uma tolice
No pano de talagarça.
 
LVI
 
Neste chalé principesco
Velado de persianas,
Moram, há duas semanas,
Dois casadinhos de fresco.
 
Pelas ruas suburbanas,
Sózinho, madrigalesco,
Anda o casal romanesco
Como senhor de cabanas.
 
Encontro-o pelos caminhos
Tirando flores e ninhos,
A pé vagaroso e bambo...
 
E vão os dois não sei onde!
O moço parece um conde,
A moça parece um jambo!
 
LVII
 
Entremos nas oficinas,
O alegre lar do trabalho,
Onde até frágeis meninas
Encontram doce agasalho.
 
Esta, de um simples retalho,
Faz coisas linda e finas;
Outra ao papel, talho a talho,
Tira um pendão de boninas.
 
À mesa trabalham umas
Em palha, cabelo e plumas,
Com invejável afã;
 
Invade todo o recinto,
Que a largos traços eu pinto,
A grande luz da manhã!
 
LVIII
 
Cheguei ao lar, que alegria!
Que doudejante esperança!
Cá fora — a mesma bonança,
O mesmo sol de outro dia.
 
Mas quando entrei... que mudança!
Três anos... Quem tal diria?
Quase ninguém conhecia
A peregrina criança.
 
— Como estou velho! Estou morto!
Disse-me alguém, repetindo:
— Podia eu ser seu avô...
 
Ora vejam! Torna absorto.
Concluíam todos, rindo:
Como está grande o Nhonhô!
 
LIX
 
Lembro-me bem: certo dia
Fui por alguém convidado
Para um jantar de noivado
Em casa de minha tia.
 
Aceitei. Na mesa havia
Muitos convivas; ao lado
Da noiva, o noivo sentado
Todo feliz; eu dizia,
 
Erguendo o copo: "Senhores,
Sobre a noiva a Divindade
Derrame graças e flores...”
 
Mas eu te confesso, prima,
Que era só minha vontade
Deitar-te vinho por cima!
 
LX
 
Quando vou àquela casa
Fazem-me entrar na varanda;
A filha, a quem arrasto a asa,
O lampião trazer manda.
 
A mãe, mulher veneranda,
Para uma bisca me empraza,
E em gargalhadas desanda
Quando me corta uma vasa.
 
O pai, um calvo jarreta,
De suspensório e jaqueta,
Ri-se também da proeza...
 
De disfarçada maneira,
Vão meus pés e os da parceira
Falando em baixo da mesa...
 
LXI
 
Em torno à mesa: eu, a viúva
E as duas filhas de luto.
São nove da noite; a chuva
Rufar nos vidros escuto.
 
Elas puxando da agulha,
Pelo temor de um sequestro;
Eu, fazendo muita bulha,
Corro os jornais e palestro.
 
A escandalosa notícia
De dois noivos na polícia
Encontro e leio-a, solene...
 
Olha-me a viúva, de esguelha...
E aumenta a flama vermelha
No globo de querosene.
 
LXII
 
Retirada, esconsa e morta
A casa de minha prima;
Floresce de baixo a cima
O jasmineiro da porta.
 
Mas os canários exorta
O viço de um pé de lima,
Que, de pesado, se arrima
Aos moirões secos da horta.
 
De tarde cose à janela
Para, às horas do costume,
Ver-me apontar na cancela...
 
Guarda-me figos, ameixas;
E, trescalando a perfume, O bogari das madeixas.

 
LXIII
 
Arde na frente da casa
Uma animada fogueira;
Levanta-se ígnea poeira
Dos grossos toros em brasa.
 
É noite de Santo Antônio
Naquele lar festejado;
As raparigas no fado
São tentações do demônio!
 
Palmas, vivas e foguetes.
De madrugada a folia
Põe-se, ruidosa, a cavalo...
 
Pelo caminho os machetes
Largam saudosa harmonia...
Além, além, canta o galo!
 
LXIV
 
Na cadeira de balanço
Da sala morna e sombria,
Em posição de descanso
Senhora a ler passa o dia.
 
Tudo ali dentro é tão manso,
Tão tranquilo! que dir-se-ia
Pairar em torno o remanso
De uma choupana vazia...
 
Frisam-lhe a paz preguiçosa
Um tênue rumor infindo,
Como o de asas de um besouro,
 
E essa figura arminosa
Do angorá branco, dormindo
Sobre a poltrona de couro...
 
LXV
 
— Pois é aqui nosso rancho,
Disse, mandando sentar-me;
E depois, com grande alarme,
Botando a rede no gancho,
 
Gritou, lá para a cozinha,
Que o café do meio-dia
A sua boa Maria
Mandado à sala não tinha...
 
E o trouxe em duas tigelas,
Das três filhas uma delas,
De ar faceiroso e pretenso...
 
"Deus salve, moço..." mais nada!
E rindo, tida corada,
Mordia a ponta do lenço!
 
LXVI
 
"Viola, minha viola,
"Viola do coração,
Cantava um cabra pachola,
Tocando numa função.
 
Puxam fieira à castanhola,
Batendo com os pés no chão...
E o fado se desenrola
Na noite de S. João.
 
Pra pá pá... Cresce a alegria
Depois das palmas... Agora,
Com pausada entonação,
 
O trovador concluía
"Viola que geme e chora
"Debaixo da minha mão!
 

 
Figuras
 
Donga
 

 
A sombra de uma palmeira
No fundo claro de um rio
Tem a aparência ligeira
Daquele todo sombrio.
 
Possui o peito vazio
Das afeições, de maneira
A ter no olhar vago e frio
Umas tristezas de freira.
 
Pálida, magra e tão débil
Que parece uma doente,
Exausta, chorosa, flébil...
 
Pálpebras fundas, escuras,
Coando a lágrima quente
De umas perdidas venturas!
 
Nina
 
Tão bela pode que exista,
Mais provocante não há!
O sonho de um panteísta,
A perdição de um paxá.
 
Luze-lhe o raio da vista
Como o alfanje de um rajá,
E vibra a nota de artista,
Em toda parte onde esta.
 
É branca, mais que o luar,
Cabelos fartos, castanhos,
Olhos que lembram o mar...
 
Raio travesso de luz
Irradiando um rebanho
De fantasias azuis!
 
Anjinha
 
Há um mistério travesso
Naquelas negras pupilas;
Delicadezas de gesso
Nas suas feições tranquilas.
 
É sempre o olhar que nos lança
Moroso, súplice e bambo;
Tem vaga-lumes na trança,
Na pele coisas do jambo.
 
Desse ideal que ainda encanta,
Como a imagem de unia santa
Cercada de um resplendor.
 
Daquele corpo tressua
Um certo vago de lua,
Com um leve aroma de flor.
 
Cotinha
 
Muito triste e delicada!
Suponham, para ideá-la,
Uma camélia dobrada
Sobre uma jarra da sala.
 
Vive cismando e, por nada,
Toda estremece e não fala!
Anda aquela alma de Atala
De funda mágoa ralada.
 
Adora o piano, que as notas,
Como saudosas gaivotas,
Alam-se às plagas marinhas...
 
Ah! Deus queira a nau que sondas
No plaino glauco das ondas
Traga-te o riso que tinhas!
 
Xandoca
 
Corpo delgado e franzino
Como o lírio do caminho
Que vergasse, de tão fino,
Ao peso de um passarinho.
 
Canário que solta um trino
Entre as pelúcias do ninho...
Olhar manso e cristalino,
Alvuras frescas de linho.
 
Rosetas vivas na face,
Lábios fechados, vermelhos
Como cravina que nasce...
 
Mãos finas, unhas rosadas,
Pequenos pés sem artelhos,
Tranças ao ombro atiradas!
 
Nenezinha
 
Moçoila de saia curta
Com ares de senhorita;
Borboleta que volita
Por sobre flores de murta.
 
É de uma graça infinita,
Quando os seus vôos encurta:
De cada rosa então furta
O encanto que nela habita.
 
Olhar de boa malícia;
Como que um sonho navega
Naquele mar de delícia...
 
Ave medindo o caminho,
Mas que nas plumas carrega
Ainda o aroma do ninho.
 
Vovó
 
Dorme, infeliz criatura!
Depois da luta é bem doce...
Talvez a vida te fosse
Uma perene amargura.
 
Não é longe a sepultura,
Nem foi teu sono precoce;
Se o teu olhar apagou-se,
Uma lembrança perdura...
 
E lá, na Presença Augusta,
A mim a bênção renova,
Que a tua bênção não custa...
 
Tenho lágrimas na trova,
Depois que a imagem vetusta
Tombou de um século à cova!
 
Carola
 
Coração de favo e nardo,
Alma de estrela e neblina,
Rócio em cálix de bonina,
Onda azul que amaina o cardo.
 
Luar sonâmbulo e tardo,
Íris de luz peregrina,
Nascida em plaga divina,
Aureola a fronte do bardo!
 
Ave, que ao éter se exalça,
Beijando o ninho da balsa
Onde pipila... Jesus!
 
Vive de aromas e orvalhos;
Oscila o corpo nos galhos,
Suspende as plumas à luz.
 
Violeta
 
A sua linda pessoa
Ressumbra lírio e virtude;
Tem nos olhos a quietude
De uma profunda lagoa.
 
Calma, simpática e boa
Como os sons de um alaúde;
Dois mirtos da juventude
A mesta fronte coroa
 
Das paisagens pitorescas,
Um belo e fiel modelo
De castelãs romanescas,
 
Pintando-a de cesta ao braço
Madressilvas no cabelo,
Bordando no seu terraço.
 
Ana
 
Um sonho vago, brilhante,
Um devaneio qualquer,
Não falam bem do semblante,
Da graça desta mulher.
 
É fragrância inebriante,
Num íris de rosicler;
Qualquer coisa deslumbrante
Com o coração de mulher.
 
Eu bebi, raio sedento,
Os teus aljofres, oh! flor!
Numa ilusão de momento...
 
Como lágrimas de amor,
Gotejam no meu tormento
Os teus aljofres, oh! flor!
 
Nhãnha
 
Cabelos com lantejoulas,
Como uma noite estrelada;
A bela fronte banhada
Na dúbia luz das papoulas.
 
Tem semelhança com as rolas
De pelúcia acaboclada,
Que bebem, de madrugada,
O róseo mel das caçoulas.
 
Traçando a curva opulenta,
O seio, que, preso, estua,
Quase o corpinho rebenta...
 
De carnação florescente;
Ama as janelas da rua
E um rapazola doente.
 
Sinhá
 
Fria estátua do abandono!
Inspiras trovas e pena;
Nasceste, moça morena,
Para os veludos de um trono.
 
Tens, vaporosa e serena,
As nostalgias do outono;
Nesse olhar, que pede e ordena,
Boia o fantasma do Sono!
 
Cismando, tuas mãos frias
São duas asas esguias
Entorpecidas no queixo...
 
Ao vago som que proferes
Solto o meu beijo, e não queres!
Quando quiseres, não deixo!
 
Madame
 
É o teu sorriso uma aurora
De cristalino sonido;
A boca — figo partido,
Que mel e aroma dessora.
 
São teus olhares assombros
De incandescente Vesúvio:
Desatam sobre meus ombros
Lúcido e quente dilúvio.
 
São teus pezinhos o metro
Dos bazares do meu plectro,
Para medir sonetilhos;
 
E hás de calçar muitas vezes
Nesses dois mignons franceses
O borzeguim de teus filhos.
 
"Baby"
 
Fina e loira como um talo
Do melhor trigo maduro;
Do azul celeste mais puro
São os olhos de quem falo.
 
Quero prismáticas bolhas
Para ideá-la, e não acho;
Titilações de riacho
Com rumorejo de folhas...
 
"Miss" delicada, e tão alva
Como um botão de limeira
Sobre uma folha de malva;
 
Risos francos de alvorada,
Presos à graça ligeira
De uma menina estouvada!
 
Lulu
 
Da coma brilhante e fina
Descem-lhe cachos à testa;
Muito delgada e franzina,
Mais senhoril que modesta.
 
Ruidosa, alegre e traquina
Nas expansões de uma festa
Há sempre um quê de menina
Numa mulher como esta.
 
Paixão por flores e fitas;
Vem ao salão de visitas
Com um malmequer no decote.
 
E, para mostrar esse anjo
Que não dá corda a marmanjo,
Pregou ao noivo calote!
 
Zizinha
 
Lembra uma flor indiana
De emanação capitosa;
Estranha e brava liana,
Bela, porém venenosa.
 
Ares e olhos de cigana,
Cor verde-mar sulfurosa,
De cujo foco espadana
Certa luz tempestuosa...
 
Polpuda e quase escarlate,
A boca — ninho de estrelas —
Realça em moreno mate;
 
É de, quando ao gênio ardente
Fulge o raio das procelas,
Fazer tremer toda gente
 
Faceira
 
Não sei que magia existe
No rosto desta menina,
Pois tem no olhar meigo e triste
Uma expressão que fascina.
 
Nas suas faces persiste
A palidez da bonina,
Que, se a enchente resiste,
Torna-se branca e mofina.
 
Sacra beleza de um cântico;
Ar pensativo e romântico
E um certo quê de senhora...
 
Corpo mimoso, e trabalha!
Sorriso manso, e retalha!
Sofre, talvez, e não chora!
 
Nene
 
Dia, em rosadas quermesses,
Rompendo no áureo horizonte,
Com cigarras pelas fontes
E passarinhos nas messes,
 
Dá que a boca virgem conte
Os bons conselhos e as preces
Com que, rezando, adormeces
A um beijo de mãe na fronte.
 
E não, oh! pomba travessa!
Histórias de namorados
Que te andam pela cabeça...
 
Mas és criança e não pecas:
— Vamos lá ver teus bordados,
Mostra-me as tuas bonecas!...
 
Dudu
 
Silfo que voa e revoa
Por cima das açucenas,
Iria-lhe as áureas penas
A luz do sol que se escoa...
 
São quatorze anos à toa!
Travessos — como falenas,
Viçosos — como verbenas,
Tranquilos — como lagoa.
 
Os olhos — de fogo e lua,
O corpo — de lírio branco,
A boca — de romã crua;
 
E ela sorrindo — ora, bravo!
Atira a bala no flanco
Do rei das flores, o cravo!
 
Antonica
 
Na palidez doentia
Daquela face morena
Vê-se que o mal de um só dia
Toda uma vida condena.
 
Fronte elegante e serena,
Sem expressões de alegria:
Traços doces de Maria,
Com erros de Madalena.
 
Ilude. Se a noite tomba,
Tem essa pálida rosa
Retraimentos de pomba;
 
Quebrou o leque das asas
Numa queda dolorosa
Sobre um terreno de brasas!
 
Mana
 
Pálido rosto, acusado
Na cabeleira opulenta,
Como um astro que rebenta
No firmamento nublado.
 
Olhar manso e sossegado,
— Vôo de pomba que assenta...
Boca trêmula e sedenta
Aberta ao riso engraçado.
 
Esguio tronco, elegante,
De palmeira triunfante
Nos arrebóis da manhã...
 
Salgueiro do teu jazigo,
Aqui plantei-me, e, comigo,
Muitas saudades, irmã!
 

 
O Canário
 
I
 
Na choupana de um velho proletário,
Entre a ramagem múrmure e sombria
De virente pomar,
Apresentando um rústico cenário:
Às vezes em fragrante eflorescência,
Vistoso e a balouçar,
Outras — de fruto
Os ramos a pender no solo bruto,
Como quem cai em lânguida dormência,
Cantava todo o dia.
Um aflautado e trêmulo canário.
 
II
 
Quem toma, acaso, a travessia curta
Daquele sitio, esmeraldino prado
De rescendente murta
E bananeira agreste, que a fragrância
Percebe-se a distância
Do cachopo escarlate e azul-ferrete,
Na ribanceira hirsuta, entre gungis,
Que marchetam selvático tapete,
Escuta-o, embevecido,
Sentado ao cepo do indaiá partido
Do ribeirão ao lado,
E mais, mais retirado,
O barulho de ariscas juritis.
 
III
 
No caminho há festões de escura sombra,
Com mil flores em cacho;
E a água do riacho,
Que à superfície é como um claro espelho,
Atravessando o leito do caminho
Vai se esconder nos côncavos da alfombra
Da chácara do velho.
Tão mole escorre e rumoreja a fonte
Por debaixo da ponte,
Que a descansar convida-nos baixinho...
 
IV
 
Tão fresca que ela é! Tons anilados
Na profundeza escura e transparente
Da múrmure corrente;
Uma pétala curva, a flor de lima,
A folha verde e limpa do arvoredo
Em delíquio e brinquedo
Escorregando vai...
É um barquinho frágil que se anima...
Some-se! a gente espera:
Dentre a sombra fantástica dos matos
A veia d’água sai,
A deslizar-se-lhe, outra vez, por cima,
Talvez... uma quimera!
Talvez que a pluma branca, alva dos patos,
Como uma nuvem na azulada esfera!
 
V
 
E é tempo. O caminheiro o ponche enrola,
Depois que, o sol medindo, se levanta
                                 Para seguir viagem.
                                 Mas o canário canta
No grubapê flexível da gaiola
Ao lado do oitão
Da Sombria choupana, alegre, entanto,
Por trás dos ramos da limeira — oculta,
Ao dote requebrar daquele canto,
— Silvestre idílio de uma letra inculta —
Mas filho e pai entendem-lhe a linguagem,
Como a bradar — coragem!!
 
VI
 
Tinha um filho pequeno o proletário.
Era o gentil e trêfego Joãozinho,
Fruto do seu amor. No seu caminho
Da vida transitória
Achara uma consorte e, solitário,
Deitava luto em si, dela em memória.
Agora viúvo e pobre,
E triste como um funerário dobre,
Ama o pequeno e dá-lhe bons conselhos,
Quando assentado o tem sobre os joelhos.
 
VII
 
Mandava o filho de manhã à escola.
 
VIII
 
O que a este entretinha era a gaiola,
De grubapê e cana,
Dependurada ao caibro da choupana,
Onde cantava alegre o seu canário.
Era um pássaro belo,
Pequenino, gentil todo amarelo!
Quando voltava do arraial, sozinho,
Com o cajado ao ombro,
Sem mostras de temor, sequer de assombro,
Pelo deserto e rústico caminho;
Na bolsa os livros, o calçado à mão,
Calça ao joelho, em desafio ao chão,
Despida a jaquetinha, o peito aberto,
Cantando uma cantiga
De sertanejo e antiga
E do velho casebre já bem perto,
Conhecia o canário a voz do amigo
E punha-se a cantar, cantar, cantar,
Com a cabacinha junto do postigo...
O menino corria pressuroso,
Mal chegava no lar,
Do seu canário à rústica prisão...
Nadava em pranto o carinhoso olhar!
De júbilo, coitado!
E acariciava-o tanto,
Que o passarinho transformava o canto
Em torrente de célere trinado!
 
X
 
Embora fronte branca e veneranda
Do trêmulo ancião
Pousasse, acabrunhada, sobre a mão
Trigueira e descarnada,
Assim como quem anda
A imaginar a morte muito perto,
Ele sorria sempre, — rir incerto!
Dando ao semblante uma expressão, um brilho,
Como luz de relâmpago em sudário,
Ao infantil espírito do filho,
Ao requebro mavioso do canário!
Tanto que, se achava na gaiola
Mudo e arrepiado,
Quando voltava do labor diário,
Ia chorar o velho na viola
Um lânguido estribilho...
E o bom cantor erguia o bico aberto!
Melancólico, então, era o concerto!
 
________

 
Depois de uma orfandade,
De álgida e lutulenta viuvez,
Estava a f'licidade,
A alegria do albergue solitário,
Do bom filho, do honrado proletário,
Em rústica prisão de grubapês.