Resumo: Este trabalho tem como objetivo realizar um estudo interpretativo da poética do escritor Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875), mais conhecido como Fagundes Varela, pela óptica da angústia existencial conforme delineada pelos filósofos Martin Heidegger e Søren Kierkegaard. Nesse sentido, contextualizaram-se os conceitos centrais das perspectivas filosóficas referidas e o Romantismo brasileiro, com o fim de consolidar o alicerce teórico. Por conseguinte, interpretaram-se cinco poemas célebres da produção poética de Varela, identificando as manifestações subjetivas da angústia existencial em diferentes momentos e eixos temáticos de suas obras. Metodologicamente, utilizou-se a revisão bibliográfica de artigos científicos, livros teóricos e textos hospedados em sites especializados para, assim, concretizar o cunho interpretativo apreciado para o desenvolvimento do artigo. No âmbito dos resultados, verificaram-se as repercussões da angústia existencial nos poemas analisados, ampliando as novas possibilidades críticas e hermenêuticas sobre a poética de Fagundes Varela.
Palavras-Chave: angústia existencial; poesia; Fagundes Varela; Romantismo.
Abstract: This paper aims to conduct an interpretative study of the poetics of the writer Luís Nicolau Fagundes Varela (1841–1875), best known as Fagundes Varela, through the lens of existential anguish as delineated by the philosophers Martin Heidegger and Søren Kierkegaard. In this regard, the central concepts of the aforementioned philosophical perspectives, Brazilian Romanticism, and the highlighted author were contextualized in order to establish the theoretical foundation. Subsequently, five renowned poems from Varela’s poetic production were interpreted, identifying subjective manifestations of existential anguish across different moments and thematic axes of his work. Methodologically, a bibliographical review of scholarly articles, theoretical works, and texts hosted on specialized websites was employed to support the interpretative approach adopted in the article. As for the results, the study verified the repercussions of existential anguish in the analyzed poems, expanding critical and hermeneutic possibilities regarding Fagundes Varela’s poetics.
Keywords: existential anguish; poetry; Fagundes Varela; Romanticism.
Introdução
Entre os sentimentos aflitivos que os seres humanos são capazes de nomear, a angústia figura como um dos mais subjetivos e solitários que é possível de se assimilar. Ela é uma emoção paradoxal que imerge o indivíduo no limbo das perguntas sem respostas e dos problemas sem soluções evidentes. Do credor ao cético, todos estão suscetíveis a vivenciar a angústia, muitas vezes elevada ao nível existencial.
Ademais, o sentimento supracitado se manifesta em cada ser de maneira singular, assumindo diferentes formas: um tempo árduo passageiro, uma tristeza perante o fim, um vazio sem fundos, uma dor psíquica do coração – entre outras possibilidades. Decerto, uma das opções é a transposição da angústia em material artístico, seja ele literário, plástico, visual ou cênico. O artista, ao encontrar nessa percepção mundana uma ferramenta para o seu ofício, eleva a sua produção a nível existencial, tangenciando ou não o seu intimismo. Esse gesto obscuramente catártico evidencia a beleza do poder da ponte entre o mundano e o imaginário – eventualmente escapista -, atingindo os receptores da arte com abundância filosófica e não-conformista perante à realidade.
Por conseguinte, menciona-se Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875), mais conhecido por Fagundes Varela, poeta que se destaca pela sua literatura no século XIX. Ao longo dos seus trinta e três anos de vida, Varela produziu muito material poético que, à estilística romântica, teceu laços com o que posteriormente ficou conhecido como existencialismo, trazendo temáticas por vezes umbrosas e angustiantes. Desse modo, progride-se o presente artigo em diferentes momentos: primeiramente, é definida a angústia no âmbito filosófico; em seguida, é contextualizado o Romantismo brasileiro, conceituando alguns itens característicos do movimento; posteriormente, são realizadas interpretações em sua poética, tecendo a angústia existencial com elementos próprios do Romantismo, como a melancolia, a morte e o escapismo.
A angústia como experiência existencial
Antes de se abordar sobre as temáticas principais deste trabalho, é crucial fundamentar as concepções de angústia para posteriormente coligá-la a Varela e a sua poética. Para essas determinações, usa-se o cunho filosófico, baseando-se em perspectivas existencialistas sobre o obscuro sentimento. Sob essa óptica, trazem-se como base dois artigos: 1) A angústia, o nada e o ser em Heidegger (2003), de Marco Aurélio Werle, em que é realizada uma sistematização analítica dos conceitos de angústia do filósofo Martin Heidegger (1889-1976) e; 2) Søren Kierkegaard: uma fenomenologia da angústia (2011), de Roberto Garaventa, que sintetiza de modo escrupuloso a concepção de angústia de acordo com o filósofo Søren Kierkegaard (1813-1855).
Primeiramente, discute-se a temática no âmbito da angústia em Heidegger, que exige preconcepções do existir. Assim, Werle (2003) diferencia o ente do ser, que trata de uma dualidade do ser uma coisa na existência e o próprio estado de ser, ou seja, o ser uma coisa se exerce no plano ôntico (relativo ao ente), enquanto o estado de ser está no plano ontológico (relativo ao ser). Baseado nisso, o mesmo autor explica o conceito originado de Heidegger chamado Dasein (ser-aí), que ultrapassa a separação dos conceitos de sujeito e objeto. Dasein, por conseguinte, é o homem que existe no cotidiano e se relaciona com os outros homens e suas atividades – é, ao mesmo tempo, ser o homem e o mundo que o cerca dentro de sua realidade finita e destinada.
Outrossim, situa-se a angústia em Heidegger por meio de uma pergunta, traçado o existencialismo do Dasein: “qual é o traço constitutivo da existência do Dasein, no qual reside a totalidade do ser da existência do homem?” (Werle, 2003, p. 104). O conceito de angústia é o que responde à questão, uma vez que ela diz respeito às essências de ser humano, Dasein e o ser-no-mundo. Ela está além do plano ôntico, pois sua dimensão é, também ontológica – o homem, em sua capacidade enquanto ser racional, é o único a senti-la em termos existenciais (Werle, 2003).
Nesse seguimento, surge o medo – ou o temor -, que é uma dimensão diversa da angústia, mas que se relaciona com ela. O temor é uma tentativa de escape do ser-aí de si mesmo. Esse sentimento, pretensamente, é dirigido para os fatores externos do existir, quando, na verdade, ele se volta também ao particular. O medo provém de algo que ameaça o indivíduo, abrindo-o para o mundo e, em seguida, injeta-se no ser-aí, tornando essa concepção um fenômeno particular (Werle, 2003). A diferença entre angústia e temor reside nos fatos de que a angústia é mais complexa e densa, como está exposto na sequência.
Ademais, a existência por si própria gera a angústia do ente e, assim, o ser humano é suspenso nela. Contudo, quando é questionado o que angustia cada um particularmente, o indivíduo por si não sabe as razões que o levam ao beco da sua existência, o que o leva ao nada – que originaria e fundamentalmente determina a angústia. O fator nada, por sua vez, é marcado nas concepções de Heidegger, ainda de acordo com Werle (2003), pela subjetividade. A subjetividade do nada se define no ponto que o nada não se verifica em algo unanimemente definido ou concreto, mas como algo articulado por si, sendo seu próprio sujeito. Essa característica pode até mesmo resultar em uma tranquilidade estranha, que suspende o homem a tal condição (Werle, 2003).
Desse modo, algo que pode se tornar uma virada da existência é a resolução da autenticidade, o que coloca a angústia frente à morte – assim, é despertado o ser-para-a-morte. Em continuidade à ideia anterior, a morte constitui um significado simbólico e transcendental para o Dasein, uma vez que o põe no paralelo do poder-ser ao não-ser e na consciência do limite de sua existência na realidade. Dessa maneira, ela fundamenta o ato de existir, pois ela só faz sentido para quem se faz valer na própria existência. Os efeitos no indivíduo que assimila essa última proposição são que ele tem a consciência da experiência do existir, além da assunção da atitude autêntica existencial (Werle, 2003).
Definida a concepção de angústia em Heidegger, parte-se para a definição da mesma temática para Kierkegaard. Segundo Garaventa (2011), em Kierkegaard, a angústia está situada, principalmente, na dimensão da liberdade que o indivíduo tem ao assumir uma identidade e escolher o direcionamento particular, fazendo-o se deparar com o nada – que também tem seu papel nessa perspectiva – ao não ser o que ele não é ainda. A angústia ascende quando a possibilidade de escolha pode levá-lo a caminhos em que a falha é presente perante à concretude de sua própria identidade.
De acordo com Garaventa (2011), outros dois conceitos fundamentais na perspectiva de Kierkegaard são a inocência e a ignorância. Primordialmente, o homem vive em uma condição de ingenuidade em relação às suas conciliações, o que leva às determinações de 1) inocência: quando o homem não realizou o “salto no pecado” (quando ele transgride, em sua liberdade, e comete o primeiro “pecado”) e 2) ignorância: a não consciência da distinção entre bem e mal. Estando ele em estado de paz, surge o nada, que se canaliza em angústia.
Assim, é realizado o pecado, partido do estado de inocência para a pecaminosidade. O pecado está nas rédeas da angústia, por ter vindo também da liberdade de escolha, mas isso não o desculpa eticamente por ter realizado tal ato – o que novamente o leva à angústia (Garaventa, 2011).
Um arrependimento marcado pela angústia (ou seja, uma angústia que se mostra como arrependimento) chega, de fato, “sempre um instante atrasado” pelo qual, longe de libertar do pecado, está, pelo contrário, diretamente ao seu serviço (Garaventa, 2011).
Desse modo, percebe-se a condição inevitável da angústia ora na inocência, ora no pecado. Ela é inerente no âmbito existencial, e a sua fuga é ela própria, o que aproxima em um ponto de cruzada os conceitos de Heidegger apresentados por Werle e as concepções de Kierkegaard abordadas por Garaventa. Segundo Garaventa (2011), a angústia somente seria superada pela fé – em termos teológicos -, abrindo-se para o “Eterno”.
Portanto, ambos os conceitos de angústia são fundamentais para a compreensão desse sentimento no aspecto existencial de cada indivíduo. As duas visões do mesmo conceito originário traçam paralelos em relação ao ser, ao viver, ao existir e ao agir, por caminhos diferentes e que se costuram na medida que se decorrem em contextos ora similares, ora diversos. Adiante, nos princípios do presente artigo, são correlacionados esses conceitos na poesia de Fagundes Varela.
Romantismo: uma breve contextualização
Apresentados os supracitados conceitos de angústia, outra contextualização crucial é o do Romantismo, em especial o brasileiro, e a vida de Fagundes Varela no presente trabalho. Ambos os fatores situam a poesia produzida na época e como isso inferia na estilística do autor. Dessa forma, é possível fazer as interpretações históricas, literárias e filosóficas da angústia na poesia de Varela, uma vez que contribui para a análise do macro ao micro da obra do escritor. Para traçar os aspectos históricos que envolvem o Pré-Romantismo como também o Romantismo, serão utilizados os dois volumes de Formação da Literatura Brasileira (ambos de edições do ano de 2000, editadas originalmente em 1959), de Antonio Candido.
Primordialmente, contextualiza-se o Pré-Romantismo Brasileiro, que demarca a transição entre o Neoclassicismo-Arcadismo e o Romantismo consolidado. Nesse sentido, Candido (2000a) introduz o Pré-Romantismo como sendo algo franco-brasileiro, já que o Romantismo no Brasil foi muito influenciado por estrangeiros que estiveram em território nacional produzindo suas respectivas literaturas. As tendências românticas já ocupavam seus espaços em livros, poemas e materiais bibliográficos com o exalto da natureza, a maior aparição da sensibilidade e a atmosfera de mistério entrando em cena.
Desse modo, Candido (2000a) cita alguns autores que compelem no florescimento do Pré-Romantismo entre as décadas de 1820 e 1830, como: Teodoro Taunay, que escreveu os Idílios Brasileiros em latim, que trazem poemas ao estilo neoclássico, mas que inspiraram aos moços brasileiros a relevância da poética de Independência; Édouard Corbière, autor do qual os seus poemas podem ser considerados os primeiros a tratar dos indígenas brasileiros – o que memora o indianismo romântico; Ferdinand Denis, escritor de Cenas da Natureza nos Trópicos, que se utiliza da natureza para buscar novas emoções, além de também ter escrito uma tentativa de ficção indianista chamada Os Machakalis; por fim, os autores de Jakaré-Ouassou ou Les Toupinambas, Daniel Gavet e Philippe Boucher, que de fato é uma obra precursora da ficção indianista, a qual retrata o conflito entre o donatário da Bahia (Francisco Pereira Coutinho) e os tupinambás.
Quando se trata de um Pré-Romantismo crucialmente brasileiro, Candido (2000a) aponta dois escritores que contribuíram para a consolidação do movimento em suas bases que o caracterizam. Entre os mencionados pelo autor, estão: Domingos Borges de Barros, poeta que equilibrou o naturalismo dos árcades e a subjetividade mais aparentada nas tendências literárias, além de também escrever odes à saudade e à melancolia – o que recorda de alguns elementos românticos; Frei Francisco de Monte Alverne, que, de acordo com Candido, influenciou diretamente a primeira geração romântica por acrescer o individualismo – regido pela religiosidade -, uma vez que exalta o eu e a experiência do sentir, retomando aspectos de melancolia, mistério e harmonia próprias do Romantismo, além de exaltar o ato literário em serviço à nação.
Outro fator que leva à consolidação do Romantismo no Brasil, segundo Candido (2000a), é a independência literária. O autor, assim, visualiza que nos ideais que o Romantismo se propõe, reside a consciência nacional brasileira – já que o Classicismo estaria associado à Colônia. Esse movimento teria uma dinâmica similar aos movimentos de independência do país. Dessa maneira, nasce uma nova geração que anseia constituir uma literatura nova para desenvolver uma tradição literária brasileira, havendo uma “independência mental” (Candido, 2000a, p. 282).
Conforme Candido (2000a), o escritor português Almeida Garret (1799-1854) no ano de 1826 influenciava, em tom aconselhador, que os brasileiros trocassem a mitologia pelas histórias locais. Na sequência, o autor Ferdinand Denis, em seu livro Resumé de l’Histoire Littéraire du Brésil já propunha uma rejeição às mitologias greco-romanas, sugerindo como pilares da literatura os primeiros colonos e os indígenas. Nesse sentido, quem despertou o espírito romântico, ainda de acordo com Candido (2000a) são o grupo Niterói e o escritor Gonçalves Magalhães, principalmente no âmbito da doutrina literária e a sensibilidade demarcada pelo Romantismo. Contudo, o autor também destaca a Sociedade Filomática, que foi agrupamento de professores alunos que constavam com ações literárias. Findando o contexto Pré-Romântico, Candido ainda exalta Firmino Rodrigues Silva, autor de Nênia, que teria consolidado a poesia nacional, uma vez que aborda o indígena, a questão do patriotismo, a sensibilidade romântica e a melancolia.
Desse modo, iniciaram-se as criações literárias pertencentes ao Romantismo no Brasil. O que primeiro demarca o movimento no território nacional é o sentimento nacionalista que germinou na segunda metade do século XVIII com a Inconfidência Mineira, assim, na contemporaneidade dos primeiros tempos românticos, o que motivava o brado nacionalista foi a Independência do Brasil. Esse fator inspirou os escritores da época a buscarem exprimir uma literatura nacional, com devoção à pátria, nova ordem no âmbito sentimental, com traços independentes e não similares aos portugueses ou os clássicos (Candido, 2000b).
Ademais, dados os fatores nacionalistas e os solavancos de escritores românticos, Candido (2000b) expõe algumas características e temáticas comuns nessas gerações, como: 1) a expressão local e universal dessa renovação literária, mostrando-se autenticamente nacional; 2) a celebração da natureza; 3) a religiosidade, que se contrapunha aos ideais pagãos neoclássicos; 4) o indianismo, uma corrente literária que exaltava o aborígene do território brasileiro, usando muitos de seus mitos; 5) o individualismo e o relativismo, bases do ato romântico, que levam o homem ao seu particular esoterismo e mistério, além da adequação dos seus soluços e do seu ângulo (ponto de vista) pessoal e; 6) pessimismo e sadismo. Dessa maneira, nas palavras de Candido (2000b, p. 29): “Para o romântico, a razão é um limite que importa superar pelo arranco das potências obscuras do ser”.
Contextualizadas a ascensão do Romantismo e as temáticas que o regem, fundamenta-se esse teor histórico do trabalho baseado no fato que Fagundes Varela, enquanto escritor e autor ativo no século XIX, trouxe em sua poética diversos elementos que foram retratados anteriormente. A seguir, analisa-se a obra do poeta apreciado que, através de eixos temáticos, identifica-se o cunho interpretativo existencialista alicerçado no presente ensaio.
A melancolia como estado subjetivo de angústia na poética de Fagundes Varela
Para esta e as outras seções nas quais a interpretação da obra é o núcleo do presente ensaio, destaca-se a figura do autor Varela – e não do escritor. Embora a produção literária e a vida particular dele, algumas vezes, tenham se tangenciado no feitio poético, isso não reforça ou justifica uma perspectiva biográfica das obras. Dessa maneira, interpretam-se os escritos como a arte em si mesma, o poema como átomo indivisível de si, o texto. Como desenvolveu Roland Barthes (2004, p. 68) em seu ensaio Da obra ao texto: “O Texto aborda-se, prova-se com relação ao signo. A obra se fecha sobre o significado”, ou seja, o produto literário fala por si em seu campo de significados.
Outrossim, as duas temáticas abraçadas nesta seção andam em conjunto quando aparecem na poética de Fagundes Varela: a melancolia e o suicídio. A melancolia ultrarromântica emerge, repete e se canaliza na produção literária do autor, sem censura ou preocupação quanto ao escândalo que poderia ser a manifestação do melodrama masculino, da fragilidade, do terror da existência. Por conseguinte, como visto posteriormente, aparece o suicídio como emblema do sentido final das coisas – incalável, bruto e enfático.
De acordo com Gismárcia da Silva Picoli (2019, p. 10), em sua dissertação Sobre a dor do existir: a configuração da melancolia nos poemas românticos brasileiros define inicialmente a melancolia como “estado anímico de indiferença perante a vida, inércia, sofrimento, um estado excepcional que provoca profundas elucubrações sobre o existir”. Posteriormente, a supracitada autora se aprofunda na melancolia romântica, especialmente a que abrange a segunda geração do Romantismo que, em termos históricos, no âmbito psicológico é demarcada pela focalização do indivíduo. Assim, a sensibilidade do período eleva a subjetividade, estado esse que contempla propriamente a melancolia e correlacionados, além de suas oposições, como o entusiasmo (Picoli, 2019).
Cumpre ainda salientar o termo literário “mal do século” (mal du siècle), que demarcou a poesia romântica no século XIX. Segundo Rosa Maria Mijas Beloto e Miguel Teixeira dos Santos Neto (2023), em um estudo sobre as características da poesia romântica, definem “mal do século” como uma tendência dos eus líricos ansiarem a morte decorrente de não correspondências amorosas, além de relacionarem à tuberculose, doença que afligia com veemência a sociedade brasileira da época. Acrescentando à noção anterior, Carlos Ceia (2009), no E-Dicionário de Termos Literários, designa o termo como o oposto do entusiasmo de estar vivo – sentir-se em estado de melancolia, em perdição e aborrecido com o vazio da vida.
A vacuidade e a melancolia romântica – regidas sob o mal do século – que se manifestam literariamente no período de Varela muitas vezes vão ao encontro com a subjetividade tratada nos eixos filosóficos. Logo, concebe-se o nada, que suspende o ser humano na própria existência, impondo-o a angústia. Sob essa óptica, analisam-se dois poemas de Fagundes Varela: “Arquétipo” e “Tristeza”, presentes na obra Noturnas.
Primeiramente, interpreta-se o poema “Arquétipo”, que possui nove estrofes de sextetos. O poema narra a vida de uma figura masculina que, aparentemente, desde a infância percebe o mundo de forma indiferente, e na mocidade, prossegue-se com essa sensação, como induz a segunda estrofe:
Sim, era uma criança, e no entanto
Friez de morte lhe coava n’alma!
O seu riso era triste como o inverno,
E dos olhos cansados, nem um raio
Nem um clarão, nem pálido lampejo
Da mocidade o fogo revelavam!
(Varela, 1956, n.p.)
A indiferença resulta como o nada encontra o ser na sua construção de identidade, como descrito por Garaventa (2011) e por Werle (2003), situando a angústia no desenvolvimento da persona retratada no poema. A canalização do nada cresce na construção do poema, como é apontado na quarta estrofe:
Em nada acreditava; há muito tempo
Que a ideia de Deus soprara d’alma
Como das botas a poeira incômoda.
O Evangelho era um livro de anedotas,
Beethoven torturava-lhe os ouvidos,
A Poesia provocava o sono.
(Varela, 1956, n.p.)
A imagética de fatos iconográficos nesse poema evidencia o estado de imersão da personagem retratada na melancolia da desambição. Através do prisma indicado por Garaventa (2011), excluindo-se o fator religioso e conservando-se o espiritual, é notório a não-permanência da fé na personagem, o que sintetiza a angústia.
Nas estrofes seguintes, a personagem subsiste na mesma perspectiva, sempre fria e descrente, mesmo diante das moças que suspiram por ele. Ao notar-se solteiro, o protagonista do poema tenta na vida amorosa:
Quatro dias depois tinha casado.
Escolhera uma noiva descuidoso,
Como um brinco chinês — um livro in-fólio,
Ao altar conduziu-a, distraído,
E as juras divinais do casamento
Repetiu bocejando ao sacerdote.Como tudo na vida, o matrimônio
Bem cedo o aborreceu; após três meses
Disse Adeus à mulher que pranteava,
E acendendo um cigarro, a passos lentos
Dirigiu-se ao teatro onde assistiu
Um drama de Feuillet, — quase dormindo. —
(Varela, 1956, n.p.)
Esse caráter individualista teoricamente consolidado – já que nada provoca prazer ou diferença na vida dele – destrói o casamento do homem retratado. O pessimismo, traço romântico, conjura-se na admissão da angústia – ela é o nada. Nesse caso, a angústia existencial leva a personagem ao que é indiciado na estrofe final: o suicídio.
Por fim de contas, uma noite bela,
Depois de ter ceado entre dous padres,
Em casa de morena Cidalisa,
Pegou numa pistola e entre as fumaças
De saboroso — Havana — à eternidade
Foi ver si divertia-se um momento.
(Varela, 1956, n.p.)
Desse modo, conclui-se que o poema “Arquétipo” revela o caráter anódino do existir, o aprisionamento de sentir a realidade existencial em detrimento da angústia profunda. Candido (2000b, p. 232), aponta, nesse poema, a existência de um “spleen byroniano do herói”, descrevendo a perspectiva desiludida da vida. Aparentemente, o título dá-se em decorrência do arquétipo peculiar de persona ultrarromântica.
Em seguida, analisa-se brevemente o poema “Tristeza”, que possui dez sextetos. Como o título propriamente refere, o poema tem teor triste, mas maior do que a palavra triste tem em seu signo: mentalmente melancólico e suicida. O desamparo, dessa vez, é trazido em 1ª pessoa do singular, diz respeito ao sujeito poético.
Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!
(Varela, 1956, n.p., grifo nosso)
A musicalidade dos versos, percebida pelo ritmo e as rimas (grifadas), realça o suspiro gradativo da descrença, do desencontro e da desilusão. A morbidez do poema é acumulativa conforme são lidos os versos, como posteriormente se observa na quarta estrofe na qual o sujeito lírico vê na natureza a morte e questiona-se quando será a vez dele se deparar com ela.
Quero morrer, que este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel;
Porque meu seio gastou-se,
Meu talento evaporou-se
Dos martírios ao tropel!Quero morrer: não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançar ao chão,
Do pó desprender-me rindo
E as asas brancas abrindo
Lançar-me pela amplidão!
(Varela, 1956, n.p.)
Esse aspecto suicida que o sujeito lírico ecoa recorre a outro fator que os conceitos de angústia em perspectiva traçam: o da morte. Nesse âmbito, dedica-se a seção seguinte a enfatizar a imagética da morte na angústia.
Destarte, infere-se que a melancolia explicita o fator angustiante perante a suspensão da existência humana – ela, na poética de Varela, prende o individualismo romântico ao nada e o complexo diante da identidade (refugiado na figura da morte e no limiar da tristeza). Como supramencionado, a seção seguinte elabora a morte na poesia construída pelo autor, o que também é um destaque para a óptica em perspectiva no presente trabalho.
A morte na poética de Fagundes Varela: o grotesco da condição vital
Visando a temática desta parte, rememoram-se rapidamente alguns preceitos que se instalam na interpretação dos dois poemas que são tratados nesta seção. O primeiro deles é a de morte em Heidegger, que se projeta no ser-para-a-morte como fator que traz a virada existencial. O segundo é a particularidade pessimista que ambienta parte do Romantismo, em especial o Ultrarromantismo, no qual Fagundes Varela se insere – nesse aspecto, em específico, acrescenta-se o pedestal cristalizado da morte para os autores que se inserem no mesmo grupo.
Em vista do caráter mórbido, a temática do suicídio já esteve presente nos dois poemas analisados anteriormente. O sujeito lírico, em decorrência do seu sofrimento, recorre à morte um refúgio – um fim da existência. Na perspectiva heideggeriana, de acordo com Mauren Alexandra Sampaio e Magali Roseira Boemer (2000), o ser-para-a-morte mostra ao homem, além do Dasein (ser-aí), a opção do não-ser-aí. Dessa forma, o suicídio emblema um curso não natural do ser-para-a-morte, uma vez que priva o ser de ser-para-a-morte. A morte, assim, representa uma não-assimilação da angústia existencial. Essa não-absorvência é nítida nas duas últimas estrofes citadas na seção anterior, no qual o eu-lírico martiriza sua condição vital.
No poema “Sobre um túmulo”, também contido na obra Noturnas, Varela traz diretamente a temática da morte em conjunto com elementos que sintetizam uma imagética naturalista, presente no Romantismo.
Torce-te aí na sepultura fria
Onde passa rugindo o furacão,
Seja-te o orvalho das manhãs negado,
Soe em teu leito a voz da maldição!
Teu castigo será gemer debalde
Buscando o sono que o sudário deixa,
Ouvir nas trevas de uma noite horrenda
De errantes larvas a funérea queixa!
Pese-te a terra qual um fardo imenso,
Infecta podridão cubra teus olhos,
Seque o salgueiro que sombreia a lousa
E em seu lugar estendam-se os abrolhos!
Roam-te o Ódio, — a maldição, — o olvido,
E quando as turbas levantar-se um dia,
— Aparências de Deus, — para afundar-se
No seio d’Ele, ardentes de alegria,
Surdo sejas aos ecos da trombeta
Em teu leito de pedra enregelada;
Findem-se os mundos, e a existência tua
Fria se apague na soidão do nada!
(Varela, 1956, n.p., grifo nosso)
Nos grifos, tecem-se o quadro naturalista que leva ao grupo de palavras que memoram a noite, a sombra, o lado similarmente gótico do poema. A morte, nesta poesia, é gritada em relação à condição funérea de um cadáver. O sujeito lírico realiza a catarse do ódio em relação ao objeto morto, amaldiçoando o ser que um dia sentiu o ser-para-a-morte – o que demonstra a ironia do autor Varela, uma vez que ora cristaliza e ora amaldiçoa o fim. Se o cunho intertextual for válido, excedendo a regra inicialmente proposta, e a tendência do autor Varela é se transpor no ser que morre, é possível deduzir que o cadáver revele algo sobre o próprio sujeito lírico – qual parte de si morre, o que seu espírito diz sobre sua vida, o que circunda as ações que enquanto vivo o defunto vivera.
Outro poema em que a questão da morte aparece diretamente é “Cântico do Calvário”, contido na obra Cantos e fantasias (1865), cuja a edição utilizada para a análise é a original de 1865. O caso desse poema, quiçá, seja especial no sentido que as entidades autor e escritor tangenciam-se, como é mostrado na epígrafe: “À memória do meu filho – Morto a 11 de dezembro de 1863” (Varela, 1865, p. 79). O filho retratado é Emiliano, o primeiro filho de Fagundes Varela, que morreu aos três meses. Candido (2000b) dedica uma pequena parte de seu livro Formação da Literatura Brasileira (2000) para destacar a riqueza desse poema, afirmando que o cunho simbólico desse último é a experiência vivida pelo poeta e o mistério do feitio poético, que estão coligados pela morte.
[…]
Eras o idyllio de um amor sublime.
Eras a gloria, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engulio-te o temporal do norte!
Tecto, cahiste ! — Crença, já não vives!
(Varela, 1865, p. 80)
Esse trecho, localizado na primeira estrofe, indicia o sofrimento existencial perante o ser-para-a-morte de outrem – o inconformismo que o limite da vida pode simbolizar, ora motivando ora derrocando. O imagético fúnebre segue ao longo dos versos, mencionando lágrimas, Deus e a importância que a criança tinha para a figura do autor.
Tornei-me o écho das tristezas todas
Que entre os homens achei! O lago escuro
Onde ao clarão dos fogos da tormenta
Mirão-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias!…
[…]
Quantas noites de angustias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene
Do selvagem corsel?… E tudo embalde!
A vida parecia ardente e douda
Agarrar-se a meu ser!… E tu tão joven,
Tão puro ainda, — ainda n’alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crysalida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!
Ah! quando a vez primeira, em meus cabellos
Senti bater teu hálito suave;
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos socegados,
Abysmos de innocencia e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
[…]
(Varela, 1865, p. 82-83, grifo nosso)
Varela não abandona o estilismo romântico para enfatizar as dores internas, uma vez que correlaciona elementos da natureza com emoções, sentimentos e momentos de sua vida perante ao que é tratado no poema – como demonstrado nos grifos. Ainda assim, por meio da escolha de palavras, é indubitável a sensibilidade que é transmitida ao leitor; o byronismo em seus apelos melancólicos vale-se diante da perda do filho.
A figura do autor, por conseguinte, vê-se defronte ao nada e, na tentativa de apaziguar a mente, recolhe-se às memórias:
As illusões que murchão-se comtigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de phrases pueris, estultas,
O linho mortuario que retalhão
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, — sinto o aroma
Do incenso das igrejas, — ouço os cantos
Dos ministros de Deos que me repetem
Que não és mais da terra!… E choro embalde
(Varela, 1865, p. 87)
Na interpretação existencialista abarcada, o nada põe o autor em uma posição de ressignificar a sua identidade – a sua melancolia envolve-o em sofrimento, mas o que se exprime dele? O poema recorre algumas vezes ao teor religioso, em que há a esperança de reencontro depois da morte, contudo, seria esse o aspecto que realmente pacifica de modo profundo a angústia do ser-para-a-morte? O escapismo, por essa via, é ao que recorrem os poetas românticos e, por isso, é tema da última parte das interpretações da poética de Varela perante à angústia, que está a seguir.
O escapismo e a angústia: a transposição de elementos
O escapismo é um elemento recorrente nas obras românticas – ele simboliza o refúgio da realidade ou o exílio fantasioso que o reconforta. Ora essa ferramenta é usada para a idealização de o que deveria ser, ora para o rompimento existencial do mundo traiçoeiro e cinzento. Restaurando a concepção de subjetividade abordada por Werle (2003), é possível correlacionar que o indivíduo, ao se deparar com a totalidade do que o cerca – num sentido existencial -, encontra-se no estado de angústia, uma vez que sua percepção não está sólida ou concreta, mas desordenada. Isso resulta no estado de escapismo: a mente à parte de tudo que busca sentido em um plano subjetivo.
Correlacionados os fatores que tematizam a seção, menciona-se o poema “O foragido”, de Fagundes Varela, presente na obra Noturnas. Essa produção poética do autor rompe com a imagética soturna do restante do livro, em virtude do escapismo se realçar de modo enfático nos seus treze quartetos.
Minha casa é deserta; na frente
Brotam plantas bravias do chão,
Nas paredes limosas — o cardo —
Ergue a fronte silente ao tufão.Minha casa é deserta. O que é feito
Desses templos benditos d’outrora,
Quando em torno cresciam roseiras,
Onde as auras brincavam n’aurora?Hoje a tribo das aves errantes
Dos telhados se acampa no vão,
A lagarta percorre as muralhas,
Canta o grilo pousado ao fogão.
(Varela, 1956, n.p.)
Nitidamente, o sujeito lírico percebe a passagem do tempo por meio do crescimento da flora em sua casa – fator que pode ser interpretado como o Dasein (Heidegger) deslocado de si. A paisagem natural retratada no campo léxico complementa essa inserção abrupta de elementos que antes – ou no presente do discurso do poema – não faziam sentido existirem nesse lar.
Tudo é tredo, meus Deus! o que é feito
Dessas eras de paz que lá vão,
Quando junto do fogo eu ouvia
As legendas sem fim do serão?[…]
Junto à cruz que se eleva na estrada
Seco e triste se embala o chorão,
Não há mais o esfumar das acácias,
Nem do crente a — sentida oração.
(Varela, 1956, n.p.)
Nas estrofes acima, o sujeito lírico aparenta romper com algo que antes o confortava, que o ajudava a manter – de certa forma – sua fé na sua realidade existencial. Essa perspectiva leva ele à atitude do escape, que apenas relega a angústia. Contudo, o cenário antes bucólico e natural retratado no poema aos poucos se torna um tormento, como demonstrado pelas estrofes posteriores:
[…]
Nunca mais eu terei as venturas
Desses tempos de paz que lá vão!Nunca mais desses dias passados
Uma luz surgirá dentre as brumas!
As montanhas se embuçam nas trevas,
As torrentes se vendam de espumas!Corre pois vendaval das tormentas,
Hoje é tua esta morna soidão!
Nada tenho, que um céu lutulento
E uma cama de espinhos no chão!
(Varela, 1956, n.p.)
A subjetividade, antes anestesiante, nessas estrofes torna-se solitária, punidora, descrente – o escapismo transpõe-se em seu lado sombrio, no qual o sofrimento, o isolamento e o constante inconformismo tornam-se o verdadeiro refúgio. Assim, é possível notar a transfiguração defectiva do encontro do sujeito lírico com a angústia de modo a não a superar como conceituam Werle (2003) ou Garaventa (2011).
Tragicamente, finaliza-se o poema com o eu lírico rendendo-se à dor: “Quero ao longo perder-me das selvas/Onde passa rugindo o tufão!” (Varela, 1956, n.p.). Portanto, é notável o elemento escapista em “O foragido” e como ele se relaciona direta e indiretamente com as concepções abordadas da angústia, além de adequar-se às características românticas relacionadas à natureza – ora idílica, ora carrasca.
Considerações finais
Em suma, analisou-se, como era objetivo do trabalho, a presença das concepções de angústias de Heidegger e Kierkegaard, respectivamente aludidas por Werle (2003) e Garaventa (2011), na poética do poeta Fagundes Varela em alguns de seus poemas presentes em Noturnas – da qual foi retirada a maior parte dos poemas – e da sua produção célebre “Cântico do Calvário” – inserida no livro Cantos e fantasias. Por meio das interpretações realizadas, foi possível entrelaçar os supracitados conteúdos filosóficos com os elementos do Romantismo como um todo, decerto, no eixo do autor estudado. Sendo assim, confere-se a possibilidade da continuidade de interpretações realizadas no mesmo sentido com outros autores que possuam temáticas similares em suas poéticas, reforçando a relevância da óptica existencial em escritores que se propõem a escrever o lúgubre, o grotesco, o aflitivo – o angustiante.
Referências
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