A terra vista pela primeira vez: um paralelo entre a “Carta” de Pero Vaz de Caminha e a música “Terra” de Caetano Veloso

Caroline Dias dos Santos

Resumo: Este artigo propõe uma análise comparativa entre a Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500 , e a música “Terra”, de Caetano Veloso, de 1970. O objetivo foi explorar as distintas “primeiras visões” da terra brasileira e como elas contribuem para a compreensão de uma identidade nacional. Para isso, foi utilizada uma abordagem de análise textual comparativa, examinando a descrição de Caminha sobre as terras avistadas, focando em sua visão de exploração e no etnocentrismo colonial. Em paralelo, analisei “Terra” de Caetano Veloso, composta durante a ditadura militar e inspirada nas primeiras fotos do planeta vistas por ele na prisão. Busquei entender como a canção reflete as complexidades e contradições da realidade brasileira. Com o estudo, percebi que ambas as obras abordam a relação com a terra e a identidade nacional. Caminha retrata o Brasil como um território a ser possuído e explorado, enquanto Caetano apresenta uma “Terra” simbólica, de lutas e cultura. Concluo que essas visões são cruciais para entender a evolução do Brasil e como a arte é fundamental para questionar nossa identidade.

Palavras-Chave: Literatura Brasileira; Pero Vaz de Caminha; Caetano Veloso.

Abstract: The purpose of this article is to make a comparative analysis between Pero Vaz de Caminha’s Letter, from 1500, and Caetano Veloso’s song “Terra”, from 1970. The objective was to explore the distinct “first views” of the Brazilian land and how they contribute to understanding national identity. To this end, a comparative textual analysis approach was adopted. I examined Caminha’s description of the sighted lands, focusing on his vision of exploration and the colonial ethnocentrism. In parallel, I analyzed “Terra” by Caetano Veloso, composed during the military dictatorship and inspired by the first photos of the planet he saw in prison. I sought to understand how the song reflects the complexities and contradictions of Brazilian reality. The study revealed that both works address the relationship with the land and national identity. Caminha portrays Brazil as a territory to be possessed and explored, while Caetano presents a symbolic “Terra” of struggles and culture. I conclude that these visions are crucial for understanding Brazil’s evolution and how art is fundamental for questioning our identity.

Key-words: Brazilian literature; Pero Vaz de Caminha; Caetano Veloso.

Introdução

A arte, em suas mais diversas formas, tem a capacidade de expressar, de variadas maneiras, inclusive das mais profundas, pensamentos e sensações de uma época. Ambas formas de expressões culturais como: Literatura e Música, podem romper com uma linha do tempo e correlacionar com diferentes momentos históricos. No Brasil, muitas obras musicais e literárias se tornam referências, tamanha importância que se têm para que se possa entender a formação do país, num processo como um todo, de reconhecer sua própria identidade e os impasses que nos conduz até hoje. A Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, é indiscutivelmente um dos maiores marcos literários do Brasil. De outro modo, “Terra”, música composta por Caetano Veloso de 1970, chega como uma das canções mais simbólicas da música popular brasileira, ao fazer uma reflexão sobre questões profundas do nosso país, e até mesmo revelar pontos importantes referente a identidade do Brasil.

Neste artigo, analisaremos as obras, fazendo uma analogia entre as duas “primeiras vezes”: a de Pero Vaz de Caminha e do Caetano Veloso. A comparação será analisada a partir do momento do “terra à vista” descrita na Carta de Pero Vaz de Caminha, ao avistar pela primeira vez as terras brasileiras, com o momento em que preso pela ditadura militar, Caetano Veloso vê, pela primeira vez através de uma revista, as fotos do planeta terra.

Essas duas obras, por mais que sejam de épocas completamente distintas, elas compartilham tópicos semelhantes, como a relação com a terra e a construção de uma identidade nacional. Através dessa comparação, procuraremos aprofundar o nosso conhecimento das diversas formas de percepção sobre o nosso país, desde a visão colonial até a contemporânea.

A Carta de Pero Vaz de Caminha: o primeiro olhar sobre a terra brasileira

Mais conhecida como a certidão de nascimento do Brasil, A Carta, de Pero Vaz de caminha vem detalhar com cor, aroma e minúcia os 10 dias da semana de Vera Cruz. A pensar que Caminha estava a bordo de um dos navios de Pedro Álvares Cabral, como um dos escrivães da expedição com destino a Calicute, na Índia, no entanto, durante a viagem, os navegadores portugueses acabaram por avistar terras desconhecidas, que mais tarde seriam reconhecidas como parte da América do Sul. Essa carta foi destinada ao Rei de Portugal, Dom Manuel I, e foi escrita no ano de 1500, relatando a chegada dos portugueses em terras brasileiras, e dessa forma, Caminha se tornou o primeiro cronista do Brasil.

Esse relato é conhecido como o primeiro documento escrito sobre o Brasil, e com detalhes, Caminha descreve como em um diário, um testemunho vivo do encontro entre duas culturas – a europeia e a indígena – citando desde os dias da semana até as descrições “mais vergonhosas” como por exemplo: “e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas”, quando vai se referir às partes íntimas das mulheres indígenas, deixando explícito o etnocentrismo dos colonizadores. Portanto, esse documento representa o ponto de partida para a formação da identidade nacional, ou ao menos para as primeiras representações sobre o território que viria a ser o Brasil.

As sutilezas da escrita eram tamanhas que as descrições se manifestavam em cada palavra: da beleza da natureza das palmeiras, da lagoa de água doce, das pinturas dos corpos dos povos originários e até dos sons que se podiam “ouvir” das duas missas que foram feitas na tentativa de catequizar os indígenas. Caminha destaca, além das belezas naturais, também a possibilidade de exploração das terras, já que ele via o Brasil como um lugar cheio de riquezas. Ele faz uma narrativa em que a terra, que ele chama de Vera Cruz, é retratada como um paraíso, um lugar pleno de riquezas naturais e de possibilidades para o império português. Ele descreve as paisagens exuberantes, com florestas densas, água doce em abundância, e árvores de grande valor, como o pau-brasil, que daria nome ao país. No entanto, a visão de Caminha sobre essa terra não é apenas de encantamento, mas também de apropriação.

É possível observar em cada palavra escrita, as mentalidades e perspectivas da época, tanto dos colonizadores quanto dos povos indígenas. Esse olhar distorcido, característico de uma mentalidade colonial, reflete o etnocentrismo típico do período. Caminha, como membro da expedição portuguesa, traz uma visão de superioridade em relação aos indígenas, que eram vistos como “selvagens” ou “primitivos” na ótica europeia. E esse documento registra esses primeiros encontros entre os europeus e os brasileiros nativos. A sensibilidade de Caminha pinta um retrato substancial e muitas vezes controverso da origem do descobrimento do Brasil. Para ele, a terra em si, não era vista como um espaço geográfico, mas como uma ideia que está ligada a um projeto de expansão do império português. Ele descreve a terra com uma visão utópica, um paraíso perdido que em breve irá pertencer aos colonizadores. Mesmo diante de tamanho encantamento, por esse “paraíso”, ele não vai camuflar a visão do colonizador, a visão de quem chega para possuir. Essa visão pragmática e ao mesmo tempo romântica da nova terra reflete o início do processo de colonização. A carta de Caminha, ao mesmo tempo em que é um relato de descoberta, também é um documento de justificação do processo de apropriação e conquista.

Em última análise, a Carta de Pero Vaz de Caminha não é apenas um relato histórico, mas também um reflexo das primeiras construções de uma identidade nacional. Ela marca o ponto de partida para a formação do Brasil enquanto projeto colonial e revela as primeiras tensões entre as visões europeias e indígenas. A sensibilidade com que Caminha descreve a natureza e os povos nativos contrasta com a visão de domínio e exploração que caracteriza o olhar colonial.

“Terra” de Caetano Veloso: o olhar de quem já vive na terra

Em 1970, ou seja, mais de quatro séculos depois, Caetano Veloso, músico e compositor, um dos nomes de extrema importância na música brasileira, com toda a sua poesia e encantamento, lança a música “Terra”, e ao contrário de Pero Vaz de Caminha, que enxerga as terras brasileiras como espaço físico e geográfico a ser explorado por Portugal, Caetano traz nas palavras da canção, o seu tom lírico e intenso, que ao mesmo tempo traz reflexões e criticidade.

Segundo o professor de filosofia da Unifesp, Tales Ab’Sáber (2022, n.p.), ainda existem pessoas que não conhecem Caetano Veloso, e para facilitar o entendimento e até para o conhecimento próprio, ele elaborou um esquema que esclarece a obra do cantor e compositor. O Professor organizou os pensamentos das canções de Caetano em torno de quatro eixos: o primeiro dos eixos é a grande pesquisa que o Caetano faz em torno da história do Brasil, que se expande até a história do próprio mundo; o segundo eixo é o seu lirismo profundo, do autoerotismo e contemporâneo; o terceiro eixo seria a alta pesquisa poética, buscando na natureza humana as diversas questões que trazem sentido e “infernalmente inteligente”; e o último e quarto eixo é o vanguardismo belo e agradável, trazendo nas canções uma espécie de experimentação que evolui em alguns aspectos, como Ab´sáber (2014) diz: “as estratégias pop e problemas ligados a modernização atrasada e heterogênea brasileira”.

[…] a principal característica desta obra, a sua marca própria, é o seu lirismo dialético, a pulsação muito erótica de um eu que se celebra na mesma dimensão em que equaciona as dimensões do seu mundo. O eu celebrado por se encontrar no mundo que encanta, ou o eu que encanta o mundo, e por isso celebra a si próprio, é a liga central deste artista (Ab Sáber, 2022, n.p.).

Aplicando a organização do Professor Tales Ab’Sáber, “Terra”, seria classificada no terceiro eixo, trazendo em sua letra uma alta poética e diversas questões da natureza humana, ao invés de Caminha, Caetano Veloso escreveu sobre uma “Terra” simbólica, com uma ideia que envolve contradições e as complexidades da realidade brasileira. Uma música que ao ouvir, o ouvinte é conduzido aos sentimentos de sofrimento, de clareza e escuridão, mas que ao mesmo tempo é irradiado por uma beleza grandiosa. Caetano, não fala de posse ou domínio dessa “Terra”, mas de uma terra que é, sincronicamente, uma mina de dignidade e aflições. Marcada por muita luta, por história e por cultura, mas também, essa mesma terra é grifada pela opressão, visto que essa música foi composta em um contexto da época em que o Brasil vivia a ditadura militar.

Em 21 de dezembro de 1968, o foguete Saturno V SA-503 realizava a sua primeira viagem a lua, os três tripulantes a bordo, Frank Borman, Jim Lovell e William Anders tinham como objetivo pousar na lua, eles ficaram em órbita por um período de seis dias e esse feito não aconteceu. O astronauta William Anders, “aproveitou a viagem” e fez várias fotos do planeta terra, mostrando pela primeira vez: “a profusão de cores em meio ao breu”.

As imagens feitas do espaço por Anders, que mostram pela primeira vez a profusão de cores em meio ao breu, deslumbraram o mundo. O astronauta costuma dizer: “Viemos explorar a Lua e descobrimos a Terra”. Até então, nunca tínhamos visto o nosso planeta do lado de lá (Picchonelli; Uchinaka, 2020).

Após 7 dias da viagem dos “errantes navegantes”, no dia 27 de dezembro de 1968, Caetano Veloso juntamente com Gilberto Gil, foram presos pelo regime militar, 14 dias após o AI-5 entrar em vigor. O AI-5 foi considerado o Ato Institucional mais duro da ditadura militar, e é ele que marca o início dos chamados “anos de chumbo”.

O AI-5 foi responsável pela edição de 12 artigos, marcados pela suspensão de direitos e garantias individuais, além do endurecimento na repressão por parte do governo. O ato entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968, e só foi extinto em 1º de janeiro de 1979, nos últimos meses do governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), como parte do processo de abertura política que culminou na redemocratização, em 1985 (Aguiar, 2024).

Em seu livro, Verdade Tropical, lançado em 1997, Caetano narra o período que esteve na prisão, no quartel dos paraquedistas, e recebia com frequência revistas com fotografias de mulheres seminuas, de atrizes e também de vedetes. A carência sexual era tão impetuosa, que era preciso fazer grande esforço para não se masturbar vendo aquelas imagens das mulheres, conta Caetano. Até que um dia a sua esposa da época, Dedé, trouxe a ele uma revista Manchete com as primeiras fotografias do planeta terra tirada pelo astronauta William Anders do foguete Saturno V SA-503, além de ter ficado muito emocionado ao ver as fotos, Caetano confirmava o que só sabia por dedução, ao ver cada uma das imagens.

[…] — o que provocava forte emoção, pois confirmava o que só tínhamos chegado a saber por dedução e só víamos em representações abstratas — e eu considerava a ironia de minha situação: preso numa cela mínima, admirava as imagens do planeta inteiro, visto do amplo espaço (Veloso, 1997, p. 392-393).

E após alguns anos preso e exilado, quando ele volta à Bahia, Caetano compõe a música “Terra”, ao referir-se a esse momento vivido dentro da prisão quando viu as fotografias, além disso, ele cita que na parte da música em que diz: “porém lá não estava nua”, ele está relacionando às outras fotografias que via das mulheres seminuas que o “enchiam de desejo” todas as noites.

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim, coberta de nuvens (Veloso, 1970).

A relação de Caetano com a terra é, de certo modo, afetiva e poética. A terra é vista como algo que emana de dentro do povo, algo que vai além da mera observação da natureza ou da geografia, e se torna um símbolo da identidade brasileira, de todas as suas lutas, suas contradições e seus sonhos.

A primeira visão da terra: Caminha e Caetano

A analogia entre os olhares de Pero Vaz de Caminha e Caetano Veloso sobre a terra pode ser feita a partir de vários aspectos: adicionando inclusive a visão que ambos têm pelo que o Brasil representa a cada um deles. Ambos os autores, têm uma primeira visão dissemelhante sobre a terra, e a principal diferença deste olhar está na posse e na complexidade desta perspectiva.

Para Caminha, o Brasil é um novo território, pronto para ser explorado, com riquezas naturais abundantes, sem a presença de uma estrutura de organização, de um estado, que seja análogo à europeia. Ele descreve a terra de uma forma quase encantadora, mágica, com euforia e assombro, ele narra de uma maneira com sentimentos à uma terra anônima até então, mas que logo será apropriada e possuída. Sua visão é de domínio, incumbido pelo desejo de possuir e pelo olhar europeu de que a terra que eles descobriram, deveria ser sujeita aos poderes do império português.

Em Caetano, há uma certa complexidade da visão sobre a terra. A terra em 1970 já foi apropriada, e passa por uma profusão de mudanças sociais e políticas, determinadas pela ditadura militar. Não é necessário que se conquiste a terra, até porque ela já foi conquistada e adaptada, para Caetano a terra precisa de reflexão e entendimento. Nas escritas de Caetano, o que mais podemos observar sobre a terra, são as questões que ele traz sobre identidade, cultura e de resistência. Há um simbolismo intenso sobre a terra diante da visão de Caetano, ela é cheia de incongruências, pois paralelamente é um lugar de lutas e de beleza, de resistência e de desafios.

A principal diferença entre o olhar de Caminha e o olhar de Caetano está, portanto, no tratamento da terra. Se para Caminha a terra é um novo território a ser explorado e conquistado, para Caetano a terra é algo já vivido, algo que já carrega a história de seu povo, e que precisa ser refletido e compreendido nas suas complexidades.

O impacto da terra no sentimento nacional: da Colonização à Modernidade

A terra é, sem dúvida, um dos maiores símbolos de identidade de um país. No início, a terra no Brasil, foi vista como algo a ser conquistado e dominado, mas ao passar dos séculos, essa mesma terra passou a simbolizar também os conflitos sociais e a luta pela identidade nacional. Para Caminha, a visão que ele tinha sobre a terra era de apropriação, algo que no período colonial, deveria ser ocupada pelos portugueses. Ele não reconhecia a diversidade e abundância cultural e étnica que já existia nas terras brasileiras, a relação com a terra está tomada completamente por uma visão colonialista.

Por outra perspectiva, Caetano Veloso, em “Terra”, tem um olhar com mais criticidade e modernidade sobre a terra. Para Caetano, a terra não é mais uma superfície a ser dominada ou possuída, mas sim um lugar de reflexão e símbolo da identidade nacional. A complexidade da visão do Caetano sobre a terra, vem com uma série de luzes e sombras, sentimentos carregados de pertencimento. Para ele a terra não é um pedaço de terra física, com suas cores, natureza abundante, para Caetano, a terra é a personificação da luta do povo brasileiro, que perpassa gerações de resistência e transformação.

A terra, assim, não é apenas um espaço físico, mas um conceito construído ao longo do tempo. Ela é ao mesmo tempo real e simbólica, marcada tanto pela história quanto pela cultura. No olhar de Caetano, a terra é a síntese de todas as experiências brasileiras, que vão da colonização à modernidade.

Conclusão: da descoberta à reflexão

Ao fazermos as comparações devidas dos olhares sobre a terra de ambos os autores: Pero Vaz de Caminha e Caetano Veloso, compreendemos que os dois, de maneiras distintas, fazem uma reflexão sobre o Brasil e sua terra, mas a partir de perspectivas bem diferentes. Enquanto Caminha vê a terra como um território a ser descoberto e conquistado, Caetano, quase 500 anos depois, reflete sobre a terra de maneira mais madura, complexa e crítica. A terra de Caetano traz consigo uma simbologia cheia de paradoxos, e a sua visão sobre ela não é de ocupação, mas sim de reflexão.

Essas duas visões, embora classificadas por contextos históricos contrários, demonstram uma compreensão rica sobre a evolução da identidade brasileira e sobre como a terra – e o Brasil como um todo – foram observados e vividos por seus habitantes ao longo do tempo. Para Caminha a terra é a terra do futuro, a terra que será conquistada e descoberta por Portugal, já para Caetano, ela é uma terra de um passado presente, conhecida pela história, por sua cultura e pela luta incessante da sua identidade.

Ainda, podemos acrescentar uma rápida reflexão sobre o quão importante é a arte, literatura, música e fotografia, manifestações diferentes de cultura, e que mesmo diante de perspectivas distintas, podemos entender como são fundamentais para a identidade nacional. A literatura, tal como, na obra de Caminha e na música de Caetano, é capaz de transportar sentimentos, emoções, as inquietudes e as transformações de um povo. Ela permite que a história seja sentida e vista, não somente através dos eventos acontecidos em cada um dos períodos históricos, mas que ela também possa ser classificada e conceituada através das subjetividades, pelas tensões e pelas esperanças de quem a vive. Já a fotografia, além de ser uma imagem a ser apreciada, tem o poder de resgatar memórias esquecidas, que, ao serem observadas, podem voltar à mente em questão de segundos, ela documenta o real e o efêmero, e também evidencia a beleza e os impasses de uma sociedade. Caetano, por exemplo, ao rever a revista Manchete, 50 anos depois, se emociona, e traz à tona inúmeros sentimentos vividos na época da sua prisão.

Ficou combinado entre os diretores que eles não mostrariam a revista com antecedência a Caetano, só no momento em que ele citasse a história —e era muito provável que citasse. “E foi realmente uma surpresa”, descreve Calil. Era exatamente aquela edição que ele não via há mais de 50 anos […] (Picchonelli; uchinaka, 2020).

Em geral, a arte, seja escrita, musical ou visual, tem a capacidade de marcar o tempo e, simultaneamente, propor uma análise crítica sobre o presente. Assim, todo esse conhecimento adquirido através das múltiplas expressões humanas, não só conservam as memórias, mas também nos proporcionam desafios para nos questionarmos o que somos e o que ainda podemos ser. Ao fazermos essas reflexões sobre o Brasil, através da literatura e da música, através de Caminha e Caetano, somos chamados a enfrentar a nossa própria identidade de forma complexa, que é quase sempre transformada e moldada pela arte.

Referências

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