Literatura, sociedade e memória: uma entrevista com Ana Cristina Braga Martes

Magnus Ferreira de Melo

Introdução

Faz quarenta anos que a ditadura militar teve o seu fim no país. No entanto, o que se observa — mesmo nas gerações que não passaram pelo período — é uma contínua negação, a tentativa de apagamento e/ou desvio de uma memória que jamais poderá ser subtraída. E, em especial, a década de 2020 assistiu outra vez o momento decisivo de tais atitudes: uma derrocada (felizmente mal-sucedida), sob apoio popular, da democracia — uma tentativa de golpe que fez o Brasil recuar a mais de meio século. Nesse contexto, a leitura de obras como Sobre o que não falamos (Editora 34, 2023), da socióloga e escritora Ana Cristina Braga Martes, autora de A origem da água (Confraria do Vento, 2021), necessitam ser lidas, relidas e debatidas por todos nós — e nesta edição da Revista Mafuá temos a alegria em recebê-la.

Na presente entrevista, Martes nos conta um pouco sobre os processos criativos de seus dois primeiros romances, a sua recepção ao público leitor, o papel da Sociologia na Literatura e, também, sobre o seu futuro projeto literário — o qual estamos ansiosos por ler! Ana, muito obrigado por sua participação.

Segue, a partir daqui, a entrevista:

MAFUÁ — Ana, para começar, uma pergunta de praxe que sempre se passa na cabeça de um leitor: por que escrever? Ou melhor, quando começou a sua relação com o mundo dos romances?

MARTES — Escrevo porque gosto de registrar minhas ideias um pouco malucas, um pouco sensatas, às vezes originais, outras vezes tolas. É uma forma de expressão artística, criativa, um exercício de imaginação, e também uma forma de auto-testemunho, de organização mental. Por um lado, sempre me impressionou o lado intelectual, racional, explicativo das pessoas e, por outro, suas ideias escondidas, subjetivas, não ditas, seus pensamentos tortuosos, insensatos e genuinamente autênticos. A mim impressionam também as ambiguidades, as sutilezas, as nuances, e a intensidade do que se sente, ou seja, tudo aquilo que o cotidiano encobre e disfarça. Este é o mundo que me interessa de verdade, e eu escrevo para viver nele.

MAFUÁ — Você é socióloga — e isso é nítido em suas obras (sem ocorrer interferências de uma área a outra, digo: sem que uma delas prevaleça sobre a outra). Nesse sentido, para você como uma pode beneficiar a outra?

MARTES — A Sociologia, a Filosofia, a Etologia, a Matemática, não importa a área, qualquer conhecimento ajuda a escrever e impacta na escrita de quem escreve. É claro que não da mesma forma. A Sociologia me ajuda a contextualizar a narrativa, a perceber o funcionamento dos diversos tipos de controle social sobre os personagens, o impacto das clivagens sociais sobre os limites e as potencialidades das escolhas individuais. Há temas ou problemas sociológicos dos quais eu não consigo escapar mesmo que seja para pensar um personagem secundário: que lugar essa pessoa ocupa na estrutura social? Qual é o sentido social de suas ações? De que modo suas condições de vida material formatam suas ideias? São questões clássicas da Sociologia. Elas formaram meu modo de pensar o mundo. Eu ainda sou uma estudiosa, ou uma curiosa, quero compreender todas essas questões. Do ponto de vista filosófico, me importa pensar sobre a natureza humana, um tema tão caro aos contratualistas dos século XVII e XVII (Locke, Rousseau, Hobbes) que volta agora com muita força quando nos confrontamos com os computadores (especialmente a IA) e com os desafios da natureza e do meio ambiente (em especial as mudanças climáticas).

MAFUÁ — O lançamento de Sobre o que não falamosantecedeu o ataque do 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Como foi observar aquela tentativa de golpe pouco depois de sua publicação?

MARTES — Durante a pandemia eu vivi o horror de assistir nos meios de comunicação, de ver nas ruas, de ouvir de alguns conhecidos e de poucos familiares, pedidos acalorados pela volta da ditadura militar, expressos com absoluta convicção. Foi um espanto, um pesadelo. Mas quanto ao livro, eu só me dei conta de que estava escrevendo um romance cujo contexto era fortemente marcado pela ditadura depois de um tempo em que, escrevendo-o, eu comecei a pensar sobre o silêncio que rondava a casa em que minha protagonista morava. Inicialmente, eu não tinha decidido escrever sobre isso. Eu tinha apenas uma protagonista pré-adolescente que vivia com os avós numa vila operária no interior. A casa era habitada por um silêncio suspeito. E eu comecei a imaginar que esse silêncio vinha junto com uma série de tabus, de não ditos, interditos e censura. Esta última palavra me revelou o contexto do livro.

Desse modo, a tentativa de golpe, a figura de um capitão, que parecia mais comandar uma vila do que um país, foi se formando na narrativa aos poucos e com nuances. Não queria escrever um livro político, sei que literatura não é Sociologia e nem Ciência Política. Pelo menos não a literatura que eu quero fazer. Minha linguagem é concisa e poética (dizem que é “delicada”). O livro não traz uma literatura de testemunho e muito menos um manifesto político. Nada contra, mas não foi esse o meu caminho. Há fatos que eu incorporei, que realmente aconteceram, mas eu escrevo ficção. Tenho gosto pela fabulação, pela criatividade e pela imaginação. Gosto de inventar. É esse o espaço da liberdade que tento criar para mim.

MAFUÁ — E fazem quase dois anos de lançamento de Sobre o que não falamos! Poderias comentar um pouco sobre a recepção do livro?

MARTES — Acredito que foi boa, fiquei muito feliz e estou feliz ainda, porque sinto que o livro não morreu. Ele continua seguindo o seu caminho e o convite para dar esta entrevista é prova disso. O livro conseguiu alcançar pessoas muito diferentes, tocar e sensibilizar leitores muito diversificados. Mulheres que cumprem pena de detenção; estudantes adolescentes de 12, 17 anos de idade; pessoas que viveram a ditadura e revolveram ou elaboraram as aflições e o medo da época; jovens que nunca tinham ouvido falar, pelo menos não muito – a ponto de não saberem explicar o que é uma ditadura. Participei de algumas feiras literárias, o livro saiu em vários jornais de âmbito nacional, e continua sendo lido em clubes de leitura pelo Brasil afora. Foi indicado como altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e tem aparecido com frequência nas redes sociais, blogs, etc.

MAFUÁ — Como foi o seu processo de escrita? Foi muito diferente de sua primeira obra, A origem da água?

MARTES A origem da água foi baseada numa pesquisa que fiz sobre a vida da escritora Maura Lopes Cançado, principalmente de um diário de hospício que ela escreveu intitulado Hospício é Deus. Eu me baseie nos acontecimentos que considerei cruciais na sua biografia e a partir deles eu elaborei um roteiro inicial. Este roteiro eu segui mais ou menos, ou seja, parcialmente, mudei algumas coisas, mantive outras. Eu digo que o livro é uma biografia inventada da Maura Lopes Cançado.

Sobre o que não falamos foi escrito de forma mais livre, mais solta. Começou como um conto e a história foi se desenrolando a cada capítulo. Os personagens foram se constituindo na medida em que a história avançava, e eu não sabia onde ela ia dar. Reescrevi o primeiro e o último capítulos muitas e muitas vezes.

De um modo geral, eu demoro para terminar um livro porque escrevo e reescrevo centenas de vezes. Faço muitos cortes, descubro no final coisas que fariam sentido se estivessem no começo. Corto personagens, introduzo outros que nem me passavam pela cabeça. Repenso e experimento mudanças na estrutura. O fim da história é sempre um mistério para mim e, talvez por isso, a parte mais difícil.

MAFUÁ — O que te levou abordar esses temas nessas duas obras, ou quais foram as suas inspirações?

MARTES — O tema da loucura, meu primeiro livro, sempre me intrigou. Eu sempre quis saber, entender, chegar perto, embora seja um tema dificílimo do ponto de vista emocional, subjetivo e clínico, inclusive. Por que uma pessoa é acometida por uma crise psicótica? O que a fez chegar a esse ponto? O que pode detonar uma crise? Uma vez instalada, o que é doença e o que não é? O que é parte do quadro clínico do “louco” o que é provocado pelo meio social? O que faz essas pessoas serem tão excluídas e marginalizadas? O que há de saudável e de belo na vida dessas pessoas?

Minha maior inspiração foi a vida e a obra de Maura Lopes Cançado. Tentei ao máximo evitar o lado romanceado da loucura. Mas o fato é que eu pude ver nela uma mulher extraordinária e uma escritora brilhante. Digo que, num certo momento em que estava ainda escrevendo o livro, senti fortemente dentro de mim o desejo de salvá-la. Finalizar o livro foi um alívio. Mas logo percebi que esse alívio não tinha a ver com ela e sim com a finalização de tudo o que a gente escreve, as teses e artigos também são assim.

Quanto ao segundo livro, como disse anteriormente, o tema da ditadura quase se impôs na história. Mas há outros temas que o livro aborda e que são, a meu ver, igualmente importantes e muito ligados um ao outro: violência e racismo. Acredito que há um tipo de naturalização da violência que está impregnado em nós todos, brasileiros. Acontece o mesmo com o racismo. Temos um racismo estrutural e uma violência também estrutural. Por que estrutural? Porque a violência e o racismo estruturam nossa forma de viver nesse país e porque ambos estão submersos na estrutura social, profundamente desigual, do Brasil. Há, inclusive, uma erotização da violência que a muitas crianças estão submetidas. Esta é uma das camadas do livro que raramente é mencionada, mas que eu imputo da maior importância para se pensar a violência no Brasil.

MAFUÁ — Agora, uma pergunta que, com certeza, muitos estão se fazendo: você pretende lançar algum outro projeto literário em breve? (Talvez algo com poesia, contos…).

MARTES — Pretendo lançar meu próximo romance em breve. A história se passa em Boston, e fala da vida de um grupo de brasileiros não documentados que foram para trabalhar na região. A ênfase são os dramas familiares e psicológicos impostos pela condição de terem se tornado imigrantes nos Estados Unidos. É a primeira vez que escrevo em terceira pessoa. Também é o primeiro livro em que tenho três mulheres protagonistas. Entre as coisas que me motivam a continuar escrevendo eu destaco, sobretudo, o desafio de experimentar, de não me repetir, a liberdade de ousar fazer de um jeito que eu ainda não sei. Acredito que meus três livros são diferentes um dos outro em vários aspectos literários.

MAFUÁ — Para encerrar: como você observa o futuro da literatura e o seu impacto na sociedade, sobretudo no Brasil?, pensando em nosso atual estado de coisas.

MARTES — Não sei responder sobre o futuro da literatura. Também não sei responder sobre o futuro do Brasil. Não acredito que o impacto da literatura seja grande, embora eu gostaria que fosse. No Censo de 2024, o Brasil registrou 9,1 milhões de analfabetos. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, neste mesmo ano, 2024, 53% da população declarou não ter lido nenhum livro sequer parcialmente nos últimos três meses. Os livros têm maior impacto, evidentemente, entre os nichos das elites brasileiras, especialmente a classe média intelectualizada. Nesta pesquisa eles detalham: mulheres, leitores de até 30 anos de idade, pessoas com ensino médio completo ou superior. Dentre o universo de leitores, os livros mais procurados incluem autoajuda, entretenimento e religião. Então, embora haja uma torcida bem intencionada e até uma espécie de exaltação romântica em torno do poder insurgente da literatura, eu não acredito sequer no seu poder transformador a curto prazo, exceto para um número limitado de pessoas, infelizmente. Há casos em que a literatura suplanta o âmbito dos potenciais leitores, como no livro Ainda estou aqui, ao ser transformado em um filme muito tocante e premiado com um Oscar. Foi importantíssimo, mas é uma exceção.

Mas, há outras variantes a serem consideradas quando pensamos no futuro e na potência da literatura. A literatura ajuda a configurar um campo social de inquietações, de perguntas, de dúvidas que abrem caminhos capazes de prescrutar e inspirar. Ela também ajuda a reforçar crenças que, de modo geral, tendem a ser mais democráticas, pluralistas e inclusivas. A literatura participa da formação intelectual de um país e nesse sentido, ela sempre terá um papel fundamental. Ao lado dos fatos e eventos históricos, ela traz à luz a estrutura de sensibilidades de uma geração, de um período histórico, de uma era.

Bibliografia citada

MARTES, Ana Cristina Braga. A forma da água. Rio de Janeiro: Confraria do vento, 2019.

MARTES, Ana Cristina Braga. Sobre o que não falamos. São Paulo: Ed. 34, 2023.