Na Íntima

Juliana Faria, Isabela Melim Borges Sandoval

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 24, 2015. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este artigo?

NA ÍNTIMA aconteceu naturalmente parecendo até que já estava predestinada e digo o porquê: primeiramente, em decorrência dos trinta anos de amizade entre a fotógrafa e a curadora e pesquisadora do poeta Bernardino da Costa Lopes, o B. Lopes. As paixões e assuntos em comum sempre levaram Juliana e Isabela a crer que um dia fariam algo juntas. Algo que significasse para as duas.

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Das linhas firmes
do teu vulto escapa
LOPES, B. excerto de “Magnícica”. Brasões, 1895.

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Láctea,
da lactescência das opalas
LOPES, B. excerto de “Magnícica”. Brasões, 1895.

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Pela curva do pé já se adivinha
A perna, o dorso, o colo, os braços…
LOPES, B. excerto de “Toda”. Sinhá Flor, 1899.

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Vem tu, cantando e rindo, debruça-te
Nesta estrelada curva de sonetos.
LOPES, B. excerto de “Délia”. Brasões, 1895.

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Penso, trêmulo e pálido, que assisto
À aparição bizarra de um cometa.
LOPES, B. excerto de “Acrobata”. Brasões, 1895.

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Larva assombrosa, aérea e multiforme
Na apoteose brilhante de um par de asas,
Deixando a seda de um casulo enorme.
LOPES, B. excerto de “Miss Alma”. Brasões, 1895.

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E não me arranca do infernal delírio
A surpresa que, doido, a todos causo…
LOPES, B. excerto de “Écuyére”. Brasões, 1895.

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Da boca incorre-lhe o melífluo suco,
Sai-lhe dos olhos o ávido lampejo…
LOPES, B. excerto de “Cabocla”. Helenos, 1901.

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A carne em flor,
carne insolente e herege
LOPES, B. excerto de “Acrobata”. Brasões, 1895.

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Do pecado e do crime a apoteose,
Com toda pompa o nosso amor celebre;
Tem cheiro, este excitante, em alta dose
Que me desvaire e me alucine a febre.
LOPES, B. excerto de “Insolência da carne”. Brasões, 1895.

SOBRE

Isabela Melim Borges Sandoval é editora da revista Texto Digital, periódico científico; é também membro do NuPILL – núcleo de pesquisa em informática, literatura e linguística – ambos vinculados a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); e metranda em literatura, cujo objeto de pesquisa é o poeta Bernardino da Costa Lopes (B. Lopes).

Juliana é fotógrafa mas tem na bagagem mais de 10 anos no ofício de redatora e roteirista. Viajante curiosa, devoradora de imagens e apaixonada por textos, ela não teve dúvidas de que o diálogo entre as amigas – a fotografia e a literatura – poderia render frutos. Assim nasceu Revelando B. Lopes.

Bernardino da Costa Lopes, dono do pseudônimo em questão, foi um escritor e poeta que publicou no Rio de Janeiro entre 1881 e 1905, período conhecido como Belle Époque, tendo como contemporâneos e colegas Olavo Bilac, Cruz e Souza e Machado de Assis, só para citar aqui os mais conhecidos e tentar situar o leitor. Pois bem, B. Lopes foi um dos fundadores do movimento simbolista brasileiro. Mas você já ouviu falar dele? Acredito que não. E é isso que Isabela tenta entender. Qual a causa da sua invisibilidade? Muitos críticos da época o enalteciam. Seus versos eram declamados, copiados de norte a sul do Brasil. No entanto, hoje, seu nome é parcamente lembrado pelos historiadores da literatura.

Foi numa conversa na casa de Isabela, em Florianópolis, que ela apresentou o autor à amiga. Juliana em seguida lhe mostrou uma série de imagens que parecia dar sentido aos versos do autor, especialmente aos versos virtuosos de amor que B. Lopes dedicou a sua musa. Ou às suas musas. Empolgadas, elas decidiram criar algo que ajudasse a trazer à luz, novamente, o incrível repertório de B. Lopes. Um poeta que merece ter sua obra conhecida e reconhecida pela atual cena literária nacional. Justiça seja feita.

Obra poética: Cromos (1881), Pizzicatos (1886), Dona Carmen (1890), Brasões (1895), Sinhá Flor (1899), Val de Lírios (1900), Helenos (1901), Patrício (1904) e Plumário (1905).