O jogo narrativo em O paraíso é bem bacana

Laura Fontana Soares

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 26, 2016. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este artigo?

Sobre os autor(es):

l.fontanasoares@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/3170406465169358
Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS)
Faculdade de Letras Português e Espanhol
Chapecó, Santa Catarina, Brasil

RESUMO: Este estudo analisa o jogo das vozes narrativas e narradas em textos literários, partindo da obra O Paraíso é Bem Bacana, de André Sant’Anna, e pontuando as manifestações desta questão na história da literatura brasileira. Voltando-se ao enredo do romance de Sant’Anna, encontra-se a personagem Mané em coma, após um malsucedido atentado terrorista. Neste cenário, tem-se acesso ao pensamento e aos delírios do ex-jogador de futebol, através do discurso do narrador intercalado com depoimentos das personagens. Tal narrador permite que se tenha acesso ao fluxo de consciência de Mané por meio do discurso indireto livre, sem “absorver” a fala da personagem, tampouco estigmatizá-la. Nessa perspectiva, tem-se como foco da análise a maneira que os narradores dão voz às personagens, relação que estabelece espécie de “jogo”, o qual é uma possível imagem de leitura também da obra Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos. Nesta, o sertanejo quase incapaz de falar é instituído de humanidade por intermédio do narrador que não forja uma fala regionalista e cuja linguagem culta não o descaracteriza. Observa-se que a crítica literária concentra-se principalmente no aspecto social figurado em O Paraíso é Bem Bacana e na estrutura de Vidas Secas, sendo o papel do narrador relegado. O propósito desta reflexão é destacar como obras com diferença cronológica significativa apresentam questão estruturante afim. Conclui-se que o jogo de vozes entre narrador e personagem é aquele entre quem possui a palavra e quem a cede ao outro. Este dilema perpassa a história da literatura brasileira e se aproxima do que percebeu Antonio Candido em Mandovi e Contos Gauchescos.

PALAVRAS-CHAVE: Imagem de leitura. Jogo narrativo. Narrador.

ABSTRACT: This study analyzes the “voices’ game” between narrators and characters in literary texts, starting from André Sant’Anna’s novel O Paraíso é Bem Bacana and selecting the manifestations of this question in the Brazilian literature history. Regarding the plot, there is the character Mané in a coma after an unsuccessful terrorist attack.  In this context, it is possible to know the thoughts and deliriums of the former soccer player through the narrator’s talking, intertwined with characters’ testimonies. This narrator allows accessing Mané’s talk by the free indirect speech, without absorbing the character’s speech nor stigmatizing it. By this perspective, the analyses focus is the way that narrators let the characters speech by themselves, setting a “game”, which is a possible reading image also of the book Vidas Secas (1938), written by Graciliano Ramos. The literary criticism pays attention mainly to the social aspect of O Paraíso é Bem Bacana and to the structure of Vidas Secas, so, the narrator’s role has been forgotten. The aim of this reflection is to highlight how literary works which have decades of difference between their first publications present the same main point. This issue crosses Brazilian literature’s history, approaching the analysis of Mandovi and Contos Gauchescos, by Antonio Candido.

KEYWORDS: Reading image. Narrative game. Narrator.

 

Através da obra literária O Paraíso é Bem Bacana (2005), de André Sant’Anna, propõe-se a criação de uma imagem de leitura que emerge a partir, especialmente, do jogo entre as vozes narrativas e as vozes das personagens. O romance de André Sant’Anna, além de retomar problemáticas figuradas em narrativas literárias anteriores, como a questão da transposição ao universo literário de tipos sociais marginais, constitui forma narrativa peculiar, ao trazer um narrador que abre espaço para o discurso de sua personagem principal mesmo que esta esteja em coma, logo, permite a enunciação de seus delírios/ pensamentos.

Assim como em O Paraíso é Bem Bacana, a problemática do inculto, do iletrado que vive à margem da sociedade, oprimido e sem voz, apresenta-se em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Ademais, as falas de narradores e personagens estabelecem relação similar àquela percebida na obra de Sant’Anna. Tal questão perpassa o enredo e o universo ficcional e chama atenção justamente por ser percebida em romances com diferença cronológica significativa

Com o suporte de textos teóricos que analisam as obras separadamente, nota-se a sobrevivência dessa relação estruturante, inclusive em produções literárias além do gênero romance. Assim, torna-se possível estabelecer a imagem do “jogo” como leitura interpretativa de ambas as obras, aproximando-a de estudos já consolidados acerca da relação entre narrador e personagem em narrativas literárias. Denomina-se “jogo” a relação entre narrador e personagem, em que o processo de intercalação dos turnos de fala e da linguagem adotada constituem o ponto nevrálgico da obra, portanto, enfoque desta análise.

O Paraíso é Bem Bacana

O enredo de O Paraíso é Bem Bacana situa-se em meados dos anos 2000 em que a personagem Mané, o menino pobre que se tornou a promessa do futebol, está em coma. Ao ingressar no time de juniores do Herta Berlim, na Alemanha, o adolescente de “mente primitiva”, como é descrito no depoimento daqueles que o cercam, encontra como fuga para seus dilemas e inseguranças o alento das promessas oferecidas pelo Islamismo. Todavia, traduções errôneas e mal fundamentadas levam Mané a almejar, como único objetivo, o paraíso de Alá com suas 72 virgens, reservado aos mártires de fé. Após seu frustrado atentado terrorista, o menino mutilado encontra-se no hospital, em coma.

O tempo da enunciação centra-se em Manuel dos Anjos já inconsciente, emasculado em um hospital na Alemanha, a fantasiar seu merecido paraíso. Através do enunciado, é possível tornar-se mais íntimo da trajetória desse gauche, de sua malograda infância em Ubatuba, interior de São Paulo, em meio à miséria material e humana. Além da narrativa nauseabunda do paraíso-coma de Mané, há, concomitantemente, o julgamento de terceiros sobre o mártir, em forma de depoimentos.

Era um garoto muito simpático. Tímido demais, mas muito simpático […]. Os jogadores brasileiros são humanos, não são máquinas. Deve ser por isso que eles têm tanta criatividade, tanta capacidade para a improvisação. Por isso eles são artistas da bola. Mas o caso de Muhammad Mané é ainda mais estranho, é diferente dos outros. Desde a primeira vez que o vi de perto, no Brasil, num almoço que oferecemos a ele, para discutir a contratação dele, notei que ele era uma pessoa diferente, um brasileiro diferente. (SANT’ANNA, 2005, p. 278)

Nota-se que o discurso do técnico do clube, assim como o de outras personagens, presentes no decorrer da narrativa, apresenta opinião negativa acerca do garoto. Conquanto Mané esteja em coma, poucas são as características positivas ressaltadas nos depoimentos. Tem-se acesso a estes por meio do narrador que dá voz não somente à personagem principal, mas também às secundárias. Este narrador que permite ao leitor conhecer Mané a partir de si, Manoel dos Anjos, principalmente por meio do discurso indireto livre, reproduz o fluxo de consciência da personagem, sua linguagem informal e reiterativa, marcada por descrições de cenas escatológicas. Tais características podem ser identificadas no trecho a seguir, em que Mané, em coma, pensa estar morto, no paraíso de Alá:

Olha só o que eu agora fiquei sabendo: que não tem tempo. Eu não sei explicar direito porque eu era muito burro lá na escola, mas agora eu tô ficando inteligente que nem o Mário Telles queria que eu fosse assim, bom de bola e bom na escola, mas aqui já não tem escola porque eu não gosto e fico inteligente assim mesmo, porque quando eu fico brincando com as bucetinha das minha mulher, sentindo amor, mas um amor mesmo, assim que é amor do jeito que eu achava que era que devia ser […]. (SANT’ANNA, 2005, p. 45)

Sabe-se que Manoel dos Anjos, o Mané, posteriormente Mohammed Mané, é um garoto marginalizado, negro, pobre, sem suporte familiar, características denotadas inclusive pelo seu apelido, “mané”, expressão coloquial que remete a um ninguém, sem valor social, sem identidade. É por meio do fluxo de consciência que se dá a descrição de seu paraíso, movimento possível devido ao narrador, que “cede” espaço àquele que tem sua vida narrada, sem engajar-se em uma denúncia social, do menino pobre que ascendeu socialmente, mas foi vítima da precarização do suporte familiar. A partir desta constatação, é relevante atentar para a maneira que o narrador “dá voz” e relata o que ocorre com Mané:

O Mané podia ter dado uma porrada bem no meio da cara daquele gordinho filho-da-puta.
Mas não.
O Mané ficou rodando em volta do gordinho filho-da-puta, olhando para os lados, esperando que algum filho-da-puta logo apartasse a briga.
Mas não.
Eles eram todos uns filhos-da-puta e queriam ver um filho-da-puta batendo no outro. (SANT’ANNA, 2005, p. 7)

O excerto supracitado elucida a fala do narrador, marcada diversas vezes pela expressão “Mas não.”. Seu posicionamento não destoa do tom incisivo que permeia a narrativa, presente nos acontecimentos e no discurso das personagens, caracterizado pelo julgamento negativo de Mané e dos fatos. Ora, mesmo após a experiência de quase morte do ex-jogador, as personagens e o narrador não o poupam de atributos em negativo, como “filho-da-puta, estranho, tímido, primitivo, atrapalhado”.

Então, o Mané descobriu uma brecha no meio da roda de filhos-da-puta e saiu correndo para se tornar um viado filho-da-puta.
Numa cidade filha-da-puta de pequena como aquela, um moleque bobão como o Mané, ou como o gordinho filho-da-puta, que arrega numa briga na saída da escola, passa a ter uma vida filha-da-puta. (SANT’ANNA, 2005, p. 8)

Essas características linguísticas podem ser interpretadas como um gesto de aproximação entre aquele que detém a voz, no caso o narrador, daqueles que são narrados. Ângela Maria Dias, em seu ensaio “O paraíso é bem bacana: a última ‘teogonia às avessas’ de André Sant’Anna” (2009) já pontua questões sobre a linguagem das personagens; para a autora, a redundância de interjeições, exclamações e a fala onomatopeica caracterizam a expressão oral intrínseca aos sentidos. Logo, o narrador não rotula sua personagem como inferior ao transcrever seu linguajar inculto, mas sim se exime de posicionar-se como superior em relação ao substrato social do qual os narrados advêm.

A narrativa de Mané, estruturada pelo clichê da Pulp Fiction, (DIAS, 2009, p. 157) apresenta repetidas vezes a expressão “Mas não.”. De acordo com Azevedo (2008), a expressão apresenta-se como resistência em optar por uma crítica engajada ou por uma legitimação alienada. Isto é, o ato de dar voz a uma personagem como Manoel dos Anjos não se configura como um movimento de denúncia social, tampouco as marcas da fala do narrador deslegitimam e imbecilizam seu discurso. O que há de sublime na narrativa é a equidade nas falas, estabelecida através do jogo entre estas entidades literárias, narrador e personagem, marcado principalmente pelo discurso indireto livre, o qual permite a comunicação quase em uníssono.

Assim é a problemática percebida por Azevedo (2008), das questões pertinentes ao não engajamento político da prática artística, que estabelece uma relação de sobrevivência na abordagem tanto de André Sant’Anna quanto na de Graciliano Ramos, em sua obra Vidas Secas, em relação as suas personagens, representantes de um outro que, por sua vez, englobam um tipo social arquetipicamente marginalizado e sem representatividade.

Vidas Secas

Com uma diferença temporal de mais de 70 anos, a questão do jogo na fala de narrador e personagem, que se apresenta em O Paraíso é Bem Bacana, está também em Vidas Secas. O sertanejo miserável, junto a sua família, considera-se um “animal”, ser embrutecido com dificuldade de se comunicar verbalmente. Contudo, essas personagens, quase incapazes de falar, são instituídas de humanidade por intermédio do narrador, entidade que não forja uma fala regionalista e cuja linguagem culta não as descaracteriza, mas que revela os anseios e pensamentos daqueles que não se expressam autonomamente. Em relação ao enredo, a incapacidade de comunicação verbal entre os personagens afeta a vida da família nordestina de um modo geral, limitando sua atuação como agentes transformadores da sociedade. O que há de comum entre o personagem Mané e a família de nordestinos é tal incapacidade de expressão verbal, limite imposto pelo exterior, porém superado pela ação dos narradores, através do discurso indireto livre em ambas as obras.

Voltando-se ao já teorizado no universo crítico-literário, sabe-se que o livro é dividido em capítulos, os quais podem ser lidos de forma não linear, uma vez que a história de Vidas Secas é apenas mais umas das inúmeras viagens que os retirantes nordestinos percorreram em suas vidas. Antonio Candido, no ensaio sobre Graciliano Ramos, presente no livro Ficção e Confissão (2006) teoriza sobre a estrutura em rosácea da obra, na qual o início e o fim se tocam. Tal estrutura inovadora recebe destaque em diversos ensaios literários, assim como a relação entre a pobreza vocabular das personagens e o ambiente em que vivem, o árido sertão nordestino.

Em que estariam pensando?, zumbiu sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta – e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.
– Vaquejar, opinou Fabiano. (RAMOS, 2009, p. 123)

No fragmento acima, extraído do capítulo “Fuga”, é possível elucidar o uso do discurso indireto livre, marca do “jogo” entre aquele que cede a voz àquele que não a domina, fazendo as personagens existirem. Nota-se que não há marca de diferenciação proposital entre voz do narrador e do narrado, do culto e do iletrado, mas sim fluidez narrativa. Voltando-se ao estilo composicional de Graciliano Ramos, no ensaio intitulado “Cinquenta anos de Vidas Secas” (2006) Antonio Candido aponta uma característica do autor de só dizer o essencial, observação relevante para a pesquisa sobre a influência da narrativa na obra que justifica a opção acertada de não forjar uma fala regionalista em Vidas Secas.

Ainda sobre a vasta apreciação crítica desta obra, segundo João Cézar de Castro Rocha, Graciliano Ramos “não pretendia representar pobres retirantes o que, numa abordagem tradicional, demandaria uma narrativa estruturada através de ações continuadas dos personagens.” (ROCHA, 2003). Logo, percebe-se que a literalidade da narrativa não se centra na denúncia social, bem como em O Paraíso é Bem Bacana, pois, assim como Graciliano Ramos, André Sant’Anna também não cria por meio de uma narrativa ficcional a imagem de um garoto marginalizado para “denunciar” a realidade carente de muitos jovens. Percebe-se que ambas as obras atingem seu objetivo maior (de não se configurarem como figurações de denúncia social) devido ao tratamento dado aos narradores que, como analisado até este ponto, exercem o jogo narrativo.

Nota-se o reconhecimento da força do narrador em Vidas Secas através da fala de Silviano Santiago, em uma mesa-redonda sobre Graciliano Ramos, da qual o crítico participou juntamente a Alfredo Bosi, Antonio Candido, entre outros. Ao registrar a opinião pessoal sobre o autor, Santiago chama atenção para o fato de Graciliano Ramos não ter forjado uma linguagem regionalista para a família nordestina:

Em Graciliano Ramos, o que eu vejo de muito bonito, por exemplo, em Vidas Secas é que não há uma tentativa de dar voz aos camponeses, aos retirantes. Quero dizer que eles não incutem nos retirantes uma determinada forma de pensamento que fosse compatível com a maneira que ele pensava a marcha da História. (SANTIAGO, 1987, p. 434)

Portanto, não há um narrador incumbido de caricaturar retirantes nordestinos por meio do tratamento linguístico. Conclui-se que tanto o narrador d’O Paraíso quanto o de Vidas Secas não estabelecem relação de distanciamento das personagens. Aqueles “dão voz” a estes que possuem dificuldades em se comunicar verbalmente, sem estigmatizá-los, sem forjar uma fala que deprecie os tipos sociais figurados pelas personagens nas obras.

Mandovi e Contos Gauchescos

É por meio do tratamento dado à relação entre narrador e personagem que se pode estabelecer semelhanças entre os dois romances até aqui citados. Expandindo a análise ao fecundo universo literário, aproxima-se, ainda, da relação entre narrador e personagem analisada por Antonio Candido entre o conto Mandovi, de Coelho Neto, e a obra Contos gauchescos, de João Simões Lopes Neto. Aqui, novamente, surgem questões relativas à linguagem, ao narrador e aos seres sociais figurados a partir dos personagens gaúcho e sertanejo, dois representantes de povos sem voz no meio “culto”.

Em seu texto “A literatura e a formação do homem” (2002), Antonio Candido arrola a gama de questões que tornam o regionalismo ou representação humanizada, ou representação desumanizada do homem e das culturas rurais por meio do tratamento dado às personagens e aos narradores. Para exemplificar tal diferença de representação literária das personagens, Candido analisa produções de Simões Lopes Neto e de Coelho Neto, sendo que estes dois autores produziram num momento de “grande voga da literatura regionalista”. Apesar da situação do regionalismo ser um grande imbróglio tanto entre críticos como entre escritores (CANDIDO, 2002), neste estudo focaliza-se a questão da linguagem adotada pelos autores regionalistas, a qual pode ser artificial, para distanciar narrador e personagem ou pode dar voz à personagem sem caricaturá-la.

Do livro Sertões, de Coelho Neto, Candido alude a um fragmento do conto Mandovi. Nota-se desde o início a distinção entre o narrador, que é um homem culto, e a personagem, iletrada. A fala típica regionalista do caboclo Mandovi beira a notação fonética, como pode ser observado no trecho a seguir:

Depois de uma hesitação, o caboclo decidiu-se:
– Quá! Isso é tonteira. Aquele Manezinho é bicho tão escorvado que é até capaz de botar alguma côsa na bebida mode tontear a gente, só pra ganhar na certa. Quem é que há de gritar meu nome a esta hora, neste descampado? Isso é tonteira memo. Passou a mão pelos olhos, e, resoluto, animou o cão: Bamo, Tigre. Então ocê não ouve, véio? Bota a boca nesse diabo que tá aí tomando confiança com a gente. Bota a boca, Tigre. (NETO, 1926, p. 218)

Candido (2002) considera o estilo de Coelho Neto uma técnica ideológica em que a dualidade das falas de narrador e personagem revela o distanciamento do homem da cidade e do caboclo, pois puxa o texto para dois lados e, assim, separa-a como “objeto exótico”. Desta forma, é através do estilo divergente entre a fala de narrador e personagem que se estabelece uma relação entre estas duas entidades ficcionais que alicerçam a narrativa.

Em contrapartida ao distanciamento entre narrador e personagem, evidenciado pela diferença da linguagem deles, a maneira humanizada de figurar o homem e a cultura rústica é percebida por Candido em Contos Gauchescos, de João Simões Lopes Neto. A relação entre narrador e personagem é estabelecida já a partir da introdução do livro, anterior ao primeiro conto, na primeira frase: “Patrício, apresento-te Blau, o vaqueano.” (LOPES NETO, 2012, p. 3). No decurso dos 14 contos que constituem a obra, o enfoque narrativo recai sobre o narrador rústico, o próprio gaúcho Blau Nunes. Observa-se isso no fragmento do conto Contrabandista (CANDIDO, 2002):

Era já lusco-fusco. Pegaram a acender as luzes.
E nesse mesmo tempo parava no terceiro a comitiva; mas num silêncio, tudo.
E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhos.
Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo entregue de um homem, ainda de pala enfiado…
Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam tudo…; que a festa estava acabada e a tristeza começada…
Levou-se o corpo para a sala da mesa, para o sofá enfeitado, que ia ser o trono dos noivos. Então um dos chegado disse:
– A guarda nos deu em cima… tomou os cargueiros… E mataram o capitão, porque ele avançou sozinho pra mula ponteira e suspendeu um pacote que vinha solto…e ainda o amarrou no corpo…Aí foi que o crivaram de balas…parado…Os ordinários!… Tivemos que brigar, pra tomar o corpo. (LOPES NETO, 2012, p. 142)

Essa indissociação cultural entre narrador e personagem, presente em Contos Gauchescos, projeta o valor da obra para muito além da ilustração da realidade, pois mais significante que isto é o ato de um letrado, no caso o ouvinte de Blau Nunes, passar a palavra integralmente para um não letrado, “o velho cabo Blau Nunes, que se situa dentro da matéria narrada” (CANDIDO, 2002, p. 90), além da maneira que esta ação ocorre. É nesse ponto que as reflexões de Candido, em seu texto, aproximam-se do objeto desta análise, pois os narradores de O Paraíso é Bem Bacana e de Vidas Secas compartilham do gesto de aproximação de suas personagens, bem como o narrador de Contos Gauchescos.

A ação humanizadora, alcançada com êxito por Simões Lopes Neto, só é possível devido à maneira que narrador e personagem se relacionam por meio da linguagem. Tal ação é o que Antonio Candido aponta como “essência humanizadora da literatura” (CANDIDO, 2002, p. 77), visto que esta é uma das modalidades mais ricas de fantasia, necessidade elementar para a satisfação humana.

Considerações finais

A partir da obra de André Sant’Anna, acionam-se outras obras e textos teóricos, como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, “A literatura e a formação do homem”, de Antonio Candido, entre outros, os quais apresentam a linguagem entre narrador e personagens como questão estruturante do fazer literário, movimento recorrente que encontramos ao longo da história da literatura brasileira. Outrossim, além das observações já tecidas pela crítica literária, este estudo centrou-se em uma nova perspectiva, que consiste na relação estabelecida entre narrador e personagem, uma vez que se vê a força da obra nesta relação, a qual denomina-se “jogo”. Tal imagem de leitura foi percebida em O Paraíso é Bem Bacana, Vidas Secas e anteriormente pontuada por Antonio Candido (2002) em Contos Gauchescos.

Referências

AZEVEDO, L. Representação e performance na literatura contemporânea. Cerrados: Revista do Programa de Pós-Graduação em Literatura, Brasília: UNB, v. 16, p. 203-217, set. 2007.

CANDIDO, A. 50 anos de Vidas Secas. In: ______. Ficção E Confissão. Rio de Janeiro: Editora 34, 2006. p. 143-151.

______. A literatura e a formação do homem. In: ______. Textos de intervenção. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 77-92.

DIAS, Â. M. O paraíso é bem bacana: a última “teogonia às avessas” de André Sant’Anna.  Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília: UNB, v. 33, p. 157-170, mai. 2009.

GARBUGLIO, J. C.; BOSI, A.; FACIOLI, V. Graciliano Ramos: antologia e estudos. Participação especial: Silviano Santiago et al. São Paulo: Ática, 1987.

LOPES NETO, J. S. Contos gauchescos: folclore regional. Florianópolis: UFSC, 2012.

NETO, C. Mandovi. In: ______. Sertão. 5.ed. Porto: Chardron, 1926. p. 208-225

RAMOS, G. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2009.

ROCHA, J.C.C. Vidas secas ou a atrofia da palavra. 2003. Disponível em <http://biblioteca.folha.com.br/1/13/2003030906.html>. Acesso em: 26 maio 2015.

SANT’ANNA, A. O Paraíso é Bem Bacana. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Data de envio: 27 de janeiro de 2016.