Na margem de lá

Cleonice Alves Lopes Flois

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 28, 2017. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Cleonice Alves Lopes Flois
cleonice.flois@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/0095392651884770
Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)
Mestrado em andamento em Letras -Linguagem e Sociedade

Sempre a vi tão tristonha, de um acabrunhamento que justificava sua ausência quase reclusa naquela casa. Sua desestrutura física morava com a filha, o genro e um netinho desde que viera do interior. Seu espírito só Deus sabe em que paragens se desencontrava, mas quem a via era sabedor de que naquela desabitação, espírito nenhum habitava. Ouvi dizer que o marido se morrera de um jeito triste como só os entristecidos sabem morrer, deixou de lado a vida para encontrar uma namorada antiga: a morte. Ouvi, um dia, de alguém que entendia de assuntos vários, que quem se parte pro outro lado assim tão sem jeito, é porque já vinha mantendo um romance escondido há muito tempo com aquela que vive nos rondando, mas nem sempre nos acha. O marido da mulher tristonha devia ter um namoro com a morte antes mesmo de conhecer sua esposa e começar a namorá-la. E, parafraseando o poeta, paixão antiga sempre mexe com a gente.

Pobre dele que ficou viúvo, ao menos é assim que se diz por aqui: “Viúvo é quem morre”. Se bem que, nesse caso, não sei não. Vendo-a como não a via, era de pensar os contrários. Muito bonita ainda era, apesar de nunca mostrar os dentes. Poderia arrumar alguém, mas desvivendo assim escondida dificilmente arrumaria pretendente, a não ser que fosse alguém como eu, que vê beleza numa mulher de olhar triste. Mas, esse pensar que deve estar na cabeça de todo o vizinhedo, não deve nem ter chegado perto do pensar dela. Contrariando essas ideias, ela não estava sem alguém, carregava uma existência na lembrança, e existências não há como apagar, existem e pronto. No caso dela havia um peso bem mais pesado, tão grande quanto a vida. O que ela carregava era uma existência inexistente, um peso morto que não morria nunca, e bem vivo apagava a possibilidade de vida vindoura dela. E o que restava era uma subvida, tão subterrânea e raquítica que a fazia vegetar numa ausência dela nela mesma. E assim, arrastando os passos descompassados ela seguia, mais porque tinha que seguir do que por querer ir em frente. Só ia, sem saber se pra frente ou pro lado, parecia mais ser para o mesmo lado que o desfalecido se fora.

Um dia, na saída da igreja, resolvi me aproximar, não sei ao certo se foi só por curiosidade. Interesseiro, cheguei de mansinho, cumprimentei ela e os seus, mal me respondeu, fez um gesto de cabeça e saiu caminhando com o neto pela mão. Espichei a pernada, puxei conversa, falei do menino como estava crescido, falei do dia que estava fresco, falei da homilia do padre e mil outras coisas. Mal pronunciou palavra. Olhou pra trás, pra filha e o genro que vinham suspeitosos como se procurasse um socorro, pegou o menino no colo e apertou o passo no rumo de casa. Claro estava, não queria proximitudes.

De chateado em chateado, me sabia culpado, não tinha nada que puxar assunto. Se mal conversa com seus pares como ia falar comigo. Tão diferente dos iguais, quase que indiferente, vive calada, só fala com o padre em dia de confissão. Nada a ver com as viúvalegres que se riem por aí. Por esse jeito me consolei, mas pra me desconsolar logo em seguida, ao pensar que não era apenas comigo, era contigo, conosco e convosco também. Diante de tanta obliquidade senti tristeza por ela. Não pode viver de verdade um ser humano que não conversa, se vivemos pra ser viventes, como pode alguém não ser falante. Senti pena. Toda essa entristecência só porque o marido se perdeu? Azar o dele, devia estar já de miolo mole, tivessem internado o bendito, talvez não tivesse feito tanto estrago. Se bem que, naquelas tantas, já devia estar estragado, que nem feijão velho com algum caruncho encarunchando as ideias, os sentidos e as feitas.

Mais alguns dias passados, sem desanimar de não desanimar, tirei proveito de uma ida ao mercado para observigiá-la de perto. Queria saber como se portaria num reduto de senhoras, mas do jeito que chegou saiu, sem dizer mais que uhums e ahãms. Em várias abordagens manteve-se firmergulhada no seu papel de coadjuvante de inúmeros monólogos aos quais respondia com interjeicionados monossílabos. Se aquilo era conversa, ela conversou. Saiu do local sem haver dito mais que dez vocábulos. Fiquei ainda mais intrigado. Deveria haver um pluri atrás de tantos monos. Estava cada vez mais cheio de pensares sobre aquele gênero monossilábico que se diferenciava das outras mulheres exatamente pelo oposto do que em geral as identificava, essa pagava para não falar, conforme diz o ditado, enquanto que as maiorias, falavam pelos cotovelos.

Muitas mulheres perdem o marido por motivo os mais variados, nesse caso, ele que se perdera pois deixou tudo, a família, os amigos, ele mesmo, e se foi para o outro lado, para a margem de lá. Já não dava créditos aos desargumentos da esposa, nem ouvia os falares dos filhos. Um deles, o espera até hoje. Ainda aguarda seu retorno, mesmo que o entorno lhe diga severamente que não há volta pra quem mal esteve, parece que já chegou saindo, nem esquentou assento e saiu ao vento, em busca do que lhe faltava, ou daquilo que estava cheio. Do quê? Só Deus sabe! Essas coisas do lado de lá nem presta falar muito, a gente fica só meio de suspeita, achando que pode ser o que talvez seja, talvez não. Vá lá saber! Mas, há uma pergunta que não cala, como pode voltar um corpo se seu espírito já se fora? Como disse, nem bem esquentou lugar já se foi, só pode ser porque nunca esteve realmente. Devia ser daqueles que conversa com a gente olhando ao longe, procurando alguma coisa que jamais se encontra onde aquele que olha está. Gente inquieta que desinquieta a gente só de estar perto. Chega a me dar arrepio só de pensar.

Nessa região em que moro há muitas viúvas e outras ainda viuvadoiras cujos maridos sofriam de vários tipos de tumores por causa do gosto de tragar até o último suspiro. Morriam-se e deixavam seus rebentos aos cuidados das infelizes desposas. Meu pai fora um desses. Não o conheci vivo depois dos meus dez anos. Nem por isso minha mãe tornou-se calada. Ao contrário, falava cada vez mais, falava tanto que, às vezes, até fazia chover gotículas de saliva aos ouvintes. Cheguei a dar graças quando ela dormia. Passei, por essa desmedida, a adorar o silêncio. Minha mãe tinha muitos pluri que eu nem conseguia mais ver seu mono. Acho até que tornou-se muitas pra deixar de ser ela. Como saber exatamente. Vivemos com alguém que acreditamos amar infinitamente, mas nem de perto conseguimos saber o que sente ou pensa com exatidão exata. Acho que é tudo mais idealizado do que real. Vemos ações e a partir delas formamos nosso pensar sobre como é essa ou aquela pessoa que nos cerca, mas não sei se dá pra saber se o que pensamos é realmente aquilo que é. Ou dá pra saber e, preferimos, por muitas vezes, viver num faz de conta coloridinho, ou mesmo desbotadinho, do que aceitar o preto e branco da vida como ela é.

A história triste de meus pais era entristecente porque toda vez que eu a ouvia me sentia entristecido. Parece até história de novela televisada, porém os personagens não tem maquiadores, se mostram um ao outro tal e qual estão naquele instante, tudo se dá sem editar, em tempo real. Minha mãe sofreu bastante com a doença do meu pai. Os dois perderam cabelo ao mesmo tempo, ele pelo veneno que mata o venenoso e ela, por vê-lo envenenado se envenenava de tristeza. Foi um ano inteiro tendo a companhia do medo, ora mais presente ora menos, mas nunca ausente. Uma vez alguém disse que temos tanto medo que algo aconteça que passamos o tempo empedernidos. As vezes quando acontece o que tanto tememos, ficamos aliviados pois, já não temos mais que ter medo, temos então outros enfrentamentos.

Com o tempo, esse curador de toda gente, mamãe voltou a conversar e dar risadas. Fazia isso tão bem que minhas tias diziam que ela estava afugentando as más lembranças. Foi o som das suas gargalhadas que trouxeram a vida de volta pra nossa casa. Hoje, ela não ri tão gostoso, mas compensa com falatório. E como fala. Falava muito, se cansa, descansa, fala um pouco menos, mas não para. É por isso que estranho a mulher sem voz, ela ainda não afugentou suas tristezas, carrega um defunto na sua alma, e isso deve ser tão pesado que ela não tem forças sequer pra falar. Uma mulher sem fala está tão morta quanto aquele que se matou.

Eu, por minha vez, busco também minha voz. Depois que meus olhos alçaram voo para a outra margem, a margem dos olhos da mulher triste, minha razão deixou de ser expressa e um gosto doceamargoazedo fez parada no meu coração. Não consigo por meu intento deixar de pensar nas sem-razões da sua ex-fala e me vejo, vezes várias, emudecido diante de tanto silenciamento. Será que me perdi, eu também, naquele lado que não tem volta? Acho que se me perdi, foi do lado oposto ao que se perdera o falecido dela. Ele se enamorou da morte, eu estou enamorado da vida, não da vida que ela vive, pois acho que ela não vive, mas me enamorei da vida que espreito pelo buraco da fechadura da esperança. Ele se refugiou na margem de lá, eu me refugio nas margens de cá, as margens dela, nas beiradinhas em que eu consigo aportar, nos bocados de espaço que eu acho que vejo, e que ela, de lampejo, insiste em ocultar. Quiça de beirinha em beirinha, de bocadinho em bocadinho, eu chegue na encosta, e possa fazer leito do leito do rio que a deixou interrogativa.

Se eu me perder nesse intento, nessa jornada pra além do que é real, que eu possa ter seus monossílabos por alimento, já que o silêncio me apazigua, me anima, me apraz e seu olhar triste não me afugenta, ao contrário, esse profundo voraz, me norteia, me orienta para um fundo que não sei, não sei se vou, não sei se fico, pois de tanto lugar nesse mundo, o único que reivindico é o lugar que não é meu, que é ocupado por um sujeito oculto extremamente presente, o mesmo que se perdeu dentro do seu ser existente e levou a se perder com sua extensão de ente, todos os que estavam do lado de cá, uma vez que ninguém, exceto nosso Senhor Jesus Cristo, conseguiu, ao mesmo tempo, passar pra lá e aqui manter raiz. No entanto, se o espírito do desfalecido precisou achar tal saída, o espírito dos seus ainda vaga perdido numa entre margem desconhecida, essa que chamo de terceira, porque não é uma nem é outra, é aquela que não se sabe qual é. É o espaço em que nada se identifica, que as identidades se inexistem, se perdem, onde os espaços são tão fronteiriços com o possível e o surreal que já não se sabe se é o que era ou se é o que queria ser.

A minha tão sonhada mulher triste, que não é minha exatamente, mas o é hipoteticamente, por ser aquela que só eu aspiro, que apenas eu idealizo, subsiste numa vida meio sem vida. Comporta-se de maneira inigual numa desambientação comiserada sem saber se vai para mais longe ou se fica, mesmo que ao ficar está tão distante que, talvez, se estivesse longe geograficamente estivesse mais perto do que está. Assim, como não sabe se ausenta-se ou permanece, não parte, mas também não fica, não está bem como mal esteve, situa-se num intervalo entre o não saber se acomoda-se ou foge. Não decide, mesmo assim decide enquanto não toma decisão, porque quem não toma rumo já está de rumo tomado. Não decidir, não escolher já é decisão, já é escolha. O rumo de quem não tomou rumo é passar os dias nesta desmaré que não leva e não trás a nenhum lugar, só mantém naquele mesmo estado de torpor, nem morrido nem vivido, meio dormindo meio cochilando, num sonambulismo de olho aberto e pensamento fechado, sem sentir nem ser sentido, existindo só para dar testemunho de que se vive sem se viver.

De tanto pensar nos infortúnios dos acabrunhados, dos desprovidos de ardor e entusiasmo para viver e não somente arrastar as chinelas pela estrada, dos que dão um passo por vez e esse passo é tão trôpego como o de uma criança recém andante, dos que cambaleiam pelas horas vazias de nenhuma inexistente presença sobre a terra, de muito matutar nesses pesares alheios que já não são tão alheios à medida que também são desta mulher emudecida, me vejo a circundar sua casa, digo, o local onde ela está instalada. Passo por lá angustiadas vezes, esperançosos dias, já não tenho desculpas a dar a quem pergunta o porquê de tanto ir e vir. Já comprei tudo que precisava por ali, paguei toda conta devida daqueles lados, visitei todos quanto conheço naquelas bandas e decorei o caminho, até as plantas ao lado da estrada conheço bem, só falta afundar o chão de tanto caminhar, mas assim mesmo, passo lá toda vez que consigo, pois se não faço isso com os pés faço com o pensamento. Até dormindo me vejo diante da casa dela.

Após meses nesse insucesso já não me sinto mais quem era, parece que outro não ser está desabitando meu eu. Não reconheço meus pensamentos, não são raciocínios próprios, por vezes acho que nem são raciocínios, nem reflexões ou pensares, são o que não me atrevo a nominar, o que não conjeturo supor, o que não ouso cogitar. Me vejo nesta situação em que a vida começa a perder a graça, e pior, tende a perder o sentido. Logo eu que gostava tanto da minha existência, se fosse ela, a mulher que se calou, ainda entendo. Pois é a vida dela que é vista como sem graça, como sem nenhum sentido. Em conversa com um outro passante tempos atrás, ouvi dele um veredito sobre ela que me deixou contrariado. Dizia o infeliz que a mulher que morava naquela casa levava uma vida tão sem graça que mais parecia que a vida a levava, que até a desgraça passava bem longe dela pra não ser contaminada com aquele estado de não graça. Que comentário impertinente, pensei quando ele terminou de proferir aquele mau agouro, me segurei pra não esquentar a orelha do absurdido que cuidava da vida dos outros sem cuidar melhor da sua. Quanta falta de sentido, quanto desprovimento de noção, por que será que as pessoas acham que podem opinar sobre o ser ou o não ser de alguém sem que isso lhes seja pedido. Quanto desvario.

Sem saber, exatamente, por que fiquei tão irritado com o cuidador de vidas dos outros, me permiti um certo isolamento, já que aquela situação de não reconhecimento do meu eu estava se tornando um tanto estranha. Me recolhi para dentro de mim mesmo e deixei de pronunciar tantas falas quanto fazia antes deste mau tempo. Explicava pra minha razão que era coisa do tempo, que em breve cessaria o estio e a chuva viria de novo. Se era falta de chover o que me fazia mal, haveria de ser resolvido logo, mas algo me fazia suspeitoso de que havia outro porém que não era o que parecia ser. Não era o clima, tampouco o tempo; era uma sensação de não pertencimento àquela coisa toda, àquela gente, àquele lugar, àquele eu que eu conheci meus anos todos. Me sentia privado de energia pra continuar querendo, pra continuar buscando a mulher sem fala, a mulher que cala, ou toda e qualquer pessoa desse mundo todo.

Assim não sendo, foi natural pra mim me esquivar da dúvida com a única certeza que eu tinha. Tudo se deu de maneira tão simples que quando notei, já havia sido. Se me perguntavam, mal respondia, se me falavam ficava arredio, minha mãe se achegou o que conseguiu, me deu seu carinho, falou um montão, cansou, falou um pouquinho, me deu sua bênção, ficou meio de lado, me olhando com estranheza, cheia de interrogativos, de repente minha progenitora era só inquietação. Eu por minha vez, era só calmaria, aconchegado em meu novo mundo, sem saber quem fui, quem era, quem fora, sem me identificar com tudo e com nada, num lugar indefinido entre o que existiu de mim e o que eu queria que existisse. Sem me reconhecer naquela gente, naquele retrato, naquele espelho. Apenas uma névoa de memória, verdadeira, real ou falsa, fictícia, criada? Apenas um vislumbre de imagem de um alguém, que podia ser eu, podia ser a mulher calada, ou podia ser aquele que fugiu de si para dentro de si mesmo, que desvivia naquela fronteira, naquele fio delimitador tão fino, tão invisível, tão tênue, que limita a razão e deslimita a percepção. Fronteira que serve de margem para o que está no meio, que conserta o que desconcerta, que me faz encontrar o que perdi, achar o que buscava e nem sabia que estava buscando, a outra margem, a periférica, a descentrada, a que não é daqui nem dali – a margem de lá.

Ouviu-se dizer, anos mais tarde, que todos os homens que amaram aquela mulher tristonha tinham se morrido. Morreram de morte prematura e enigmática de forma que ninguém entendera o que se passara, só se sabia o que se falava, que foram se perdendo deles mesmos, primeiro um, num local de pouca habitação e depois outro, em lugar de muita desabitação. De tanto tentar entender o desentendido se desentenderam de quem eram, de muito forcejar para compreender o que não trazia respostas prontas ficaram cheios de perguntas, todas inacabadas, recém iniciadas, principiozinho de indagações que remetiam todas as pistas para um lugar difícil de encontrar, para o mais profundo dos seres, para o íntimo de cada um, e, por estar nesse lugar tão distante apesar de tão próximo não atinavam que deviam se olhar por dentro, não no retrato, não no espelho, mas dentro da alma, no lugar exclusivo em que estão todas as respostas e todas as perguntas. Mas aí é que mora o perigo, pois justamente esse recinto estava desencontrado, enquanto não sabiam quem eram, qual seu verdadeiro eu, não podiam encontrar sua essência, precisavam ir ainda mais fundo, voltar para as suas belas lembranças, memórias da infância vivida, e tentar nelas se achar, encontrar suas identidades, o que os tornava únicos, singulares, incomparáveis com quaisquer outros viventes. Se conseguissem se descobrir novamente sairiam da margem de lá, assimilariam suas existências e passariam a viver em vez de desviver, a se olhar ao invés de olhar só para o outro, se amar também no lugar de amar somente outra pessoa ou não amar ninguém e ficar ensimesmado na sua reclusa reclusão. Se ambos os homens que amaram aquela mulher que ficou emudecida tivessem encontrado a si mesmos antes de tudo, nunca teriam se perdido. Se aquela mulher soubesse quem era antes de tudo, nunca teria perdido sua voz.