O recado do Morro: o Bailde Guimarães Rosa

Daniela Severo de Souza Scheifler

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 5, 2006. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Graduanda em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. [ danis@producao.ufrgs.br ]

Resumo: Este trabalho visa investigar a metafísica, em especial a astrológica, presente no conto O recado do morro da obra Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa. O estudo terá por ponto de partida o nome dos personagens, suas ações e os lugares que estes percorrem no decorrer da narrativa, evidenciando correspondências com a linguagem astrológica. Também será analisada a aderência de alguns personagens aos conceitos de Direito e Esquerdo, entendidos como a complementação entre racionalidade e irracionalidade.

Palavras-chave
: Literatura brasileira; metafísica; João Guimarães Rosa.

Abstract: This research aims to investigate the metaphysics present in the story O Recado do Morro, part of João Guimarães Rosa’s Corpo de Baile, with special emphasis in the astrological metaphysics. The starting point for the analysis will be the characters’ names, actions and the places covered by them in the course of the story, highlighting correspondences to the astrological language. It will also be analyzed some of the characters’ adherence to the Right and Left concepts, understood as the complementarity between racionality and irracionality.

Key-words: Brasilian Literature; metaphysics; João Guimarães Rosa.

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“O melhor, sem dúvida, é escutar Platão: é preciso -diz ele – que haja no universo um sólido que seja resistente; é por isso que a terra está situada no centro, como uma ponte sobre o abismo; ela oferece um solo firme a quem sobre ela caminha, e os animais que estão em sua superfície dela tiram necessariamente uma solidez semelhante à sua”.
Plotino, Enéadas, II i 7.

Para compreender o universo extraordinário criado por Guimarães Rosa, é preciso que adentremos o mistério cósmico ao qual ele se refere. Esse mistério que Rosa traz à tona através da geografia do sertão remete ao ponto de vista do sertanejo que, indiferente ao raciocínio lógico, é acessível a toda espécie de impulsos vagos, sonhos, premonições, crendices, porque está distante da nossa civilização urbana e niveladora. São almas receptivas ao extraordinário, ao milagre, e são elas que decifram O recado do morro, um dos sete contos do livro Corpo de Baile.

A importância que João Guimarães Rosa dava à metafísica é evidente em sua obra. Sabemos, também, do seu engajamento maçônico e da sua biblioteca, que foi conservada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, na qual há um grande número de obras que remetem ao metafísico e ao religioso (UTEZA, 1994). Em Correspondência com o Tradutor Alemão e em entrevistas que concedeu a jornalistas e críticos em pelo menos três ocasiões onde se manifestou longamente sobre sua obra, João Guimarães Rosa se dizia um místico (LORENZ, 1965). Como maçom, ele buscava dar às suas obras a palavra depurada[1] que o artista poderia elaborar a partir da língua portuguesa. A preocupação que ele tinha com a palavra era a de extrair dela a Pedra Filosofal. Para ele o escritor deveria retirar da palavra toda sua significação cotidiana e buscar nela um sentido que remetesse ao infinito e à eternidade, por isso “o escritor deve ser um feiticeiro das palavras”.

Numa epígrafe em que cita Plotino na abertura de Manuelzão e Miguilim – e que Rosa citará também no discurso de recepção na academia -, propõe uma imagem do uno em sua relação com o múltiplo: “Num círculo, o centro é naturalmente imóvel; mas se a circunferência também o fosse, não seria ela senão um centro imenso” (ROSA, 2001b). No conto O recado do morro, é visível a imagem de centro e circunferência, ligada ao movimento dos planetas. Neste conto, temos a representação da terra como o centro e os seus viajantes/dançarinos como a circunferência que se move. Na narrativa é possível identificar uma configuração astrológica, pois Rosa nomeia suas personagens e os espaços que elas percorrem no desenrolar da estória de acordo com os nomes dos sete planetas da astrologia clássica[2]. Além disso, é possível ver nas ações das personagens uma correlação com o significado que lhes dão a mitologia e a astrologia.

Em Correspondência com o Tradutor Italiano, Rosa (2003) diz que Corpo de Baile foi praticamente todo escrito em “efervescência de caos, trabalho quase mediúnico e elaboração subconsciente”, e que, depois do livro pronto e publicado, achou muitas coisas nele que haviam surgido por si mesmas, “milagrosamente”. O recado do morro fala da terra, do Morro das Garças que, imóvel, acompanha a viagem de ida e de volta de um grupo de viajantes/ dançarinos/ planetas guiados pelo enxadeiro Pedro Orósio. Este grupo passa por sete fazendas, e acontecimentos que nelas se dão nos remetem à simbologia astrológica, através dos seus nomes/códigos.

Aos quais, sol a sol e val a val, mapeados por modos e caminhos tortuosos, nas principais tinham sido, rol: a do Jove, entre o Ribeirão Maquiné e o Rio das Pedras – fazenda com espaço de casarão e sobrefartura: a dona Vininha, aprazível, ao pé da Serra do Boiadeiro – aí Pedro Orósio principiou namoro com uma rapariga de muito quilate, por seus escolhidos olhos e sua fina alvura; o Nhô Hermes, à beira do córrego da capivara – onde acharam compra de cinqüenta novilhos curraleiros; a Nhá Selena, na ponta da Serra de Santa Rita – onde teve uma festinha e frei Sinfrão disse duas missas, confessou mais de dúzia de pessoas: o Marciano, na fralda da Serra do Repartimento, seu contraforte de mais cabo, mediando na cabeceira do Córrego da Onça para a do Córrego do Medo – lá o Pedro Orósio quase teve de aceitar ajuizada briga com um campeiro morro-vermelhano; e, assaz, passado o São Francisco, o Apolinário na vertente do Formoso – ali já eram os campos – gerais, dentro do Sol (ROSA, 2001a, p. 53).

Na linguagem astrológica, Júpiter (Jove) está associado à expansão, à graça, à fé e à confiança; Vênus (Vininha) está associada ao recebimento de afetos, à partilha, ao prazer, à socialização, ao amor e ao namoro; Mercúrio (Nhô Hermes) está associado à comunicação, à inteligência, aos negócios e ao movimento; a Lua (Nhá Selena) se relaciona com o inconsciente, com as emoções e com os cultos; Marte (Marciano) se associa à ação, à energia física, à agressividade e ao impulso auto-afirmativo; o Sol (Apolinário = Apolo) é relacionado à vitalidade, ao senso de individualidade, aos valores essenciais e ao otimismo; e, por fim, Saturno (Seo Juca Saturnino) está associado à reserva, à severidade, às responsabilidades e ao trabalho. “Ainda na véspera, na Fazenda do Saco – dos -Cochos, de Seo Saturnino, onde tinham falhado, aparecera o Maral, primo do Ivo, os dois resumiram muita conversa apartada. O Maral, outro que mal escondia o ferrão·(…)” (ROSA, 2001a, p.36).

O recado infra-lógico de João Guimarães Rosa

“Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbadora e rebelde a qualquer lógica, que é chamada realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o absurdo que o óbvio, que o frouxo. Toda a lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade”.
Guimarães Rosa

A narrativa do conto inicia da seguinte forma: “Sem que bem se saiba, conseguiu-se rastrear pelo avesso um caso de vida e de morte, extraordinariamente comum, que se armou com o enxadeiro Pedro Orósio (…)” (ROSA, 2001a, p. 27). Nota-se, já no início do conto, tratar-se de uma narrativa cujo significado será descoberto através do seu lado avesso, ou seja, do irracional, do ilógico. Também se pode notar que o fragmento “um caso de vida e de morte, extraordinariamente comum” tem relação com a viagem[3] que percorrem todos na vida, por isso o comum. Esta viagem terá um ponto final ou de transformação na morte, a quem todos pagarão o seu tributo[4].

Ainda na primeira página do conto encontramos esta narração: “E iam, serra acima, cinco homens, pelo espigão divisor. Dia a muito menos de meio, solene sol, as sombras deles davam para o lado esquerdo[5] (…)” (ROSA, 2001a, p. 27). A narrativa, segundo Vilhena (1992), mostra a viagem de um grupo de viajantes pelo Direito – Pedro, Olquiste, Sinfrão, Jujuca e Ivo – e pelo avesso -Guegue, Joãozezim, Nominedômine, Coletor e Laudelim. De um lado, o pensamento racional pelo Direito e, de outro, o pensamento irracional pelo Esquerdo. De um lado, esse conto trata de uma viagem no plano externo, ou seja, viagem de Cordisburgo a Maquine, mas, por outro lado (o avesso), é também uma viagem para o plano interno, pois Pedro Orósio nasceu no “sertão dos campos-gerais” e a viagem o faz lembrar do passado.

E, mesmo agora, só se ajustava de vir com a comitiva era porque tencionava chegar, mais norte, até o começo de lá, e ele aproveitava, queria rever a vaqueirama irmã, os de chapéu de couro, tornar a escutar os sofrês cantando claro em bandas nas palmas da palmeira; pelo menos pisar o chapadão chato, de vista descoberta, e cheirar outra vez o resseco ar forte daqueles campos, que a alma da gente não esquece nunca direito e o coração de geralista está sempre pedindo baixinho. Porque Pedro Orósio não era serviçal de Seo Jujuca do Açude – ele trabucava forro, plantando à meia sua rocinha, colhia até cana e algodão (…) (ROSA, 2001a, p. 32).

Trata-se também de uma viagem para a terra natal, para dentro e de volta, por isso Pedro Orósio aceita conduzir o grupo nessa viagem. Segundo Sperber (1976), na obra de Guimarães Rosa há acontecimentos que se referem de algum modo aos temas platônicos, tais como o mito da caverna, o esquecimento, a lembrança, o ver com novos olhos e o tema da volta, central na narrativa de O Recado do Morro.

Pedro Orósio, também conhecido como Pê-boi, é o personagem principal deste conto. “Debaixo de ordem. De guiador-a pé, descalço[6] – Pedro: moço, a nuca bem-feita, graúda membradura; e marcadamente erguido (…)” Ele faz parte do lado direito da narrativa, que representa a ordem e, como tal é ele quem conduz o grupo. No entanto, é a ele que se destina o recado. Segundo Machado (1976), Pedro Orósio é Pedro (terra) e Orósio é oros (montanha) e ósio (escolhido). O morro quer falar àquele que lhe é semelhante. Pedro Orósio é, portanto, pedra e é, também, montanha. Mas ele é, ainda, o oposto do morro. Semelhante a Mercúrio, é o guia, quem inicia o movimento e conhece os caminhos. Semelhante à terra, vai a pé experimentando o mundo físico, por isso é Pê-boi. Demora a entender as coisas, as rumina primeiro, análogo ao signo de touro, que possui percepção profunda da matéria, pois a experimenta com os pés postos no chão. E, como o boi, é grande e apegado à solidez da terra.

O Direito

Todos os personagens guiados por Pedro Orósio têm relação com a ordem: “Seguindo-o a cavalo, três patrões, entrajados e de limpo aspecto, gente de pessôa” (ROSA, 2001a, p.28). Seguem Pedro Orósio o alemão Seo Alquiste, o frade Frei Sinfrão, o fazendeiro Seo Jujuca do Açude e, por último, atrás de todos, um camarada de Pedro, o Ivo Crônhico, “a cavalo esse, e tangendo os burros cargueiros” (ROSA, 2001a, p.28). Estes que o seguem são pessoas bem colocadas na vida: um cientista, um padre, um fazendeiro e Ivo, um boiadeiro.

Seo Alquiste é o naturalista, é quem observa, anota, cataloga, classifica e capta o mundo através dos sentidos:

Ao dito, seo Alquiste estacava, sem jeito, a cavalo não se governava bem. Tomava nota, escrevia na caderneta; a caso, tirava retratos. (…) Outra-mão, ele desenhava, desenhava: de tudo tirava traço e figura leal (ROSA, 2001a, p.31).

Para Machado (1976), Seo Alquiste representa na narrativa a percepção aguda e a objetividade da câmera. Ele carrega a máquina consigo o tempo todo para segurar momentaneamente o tempo, imobilizar o instante que passa, captar, fixar e revelar o que está por trás de tudo, inclusive do imediatamente visível. O nome Alquiste/Alquist evoca a sua condição de naturalista ou cientista interessado nas ciências naturais, por meio de uma alusão (em alemão) aos ramos do olmo.

Frei Sinfrão[7] representa, na narrativa, o pensamento que venera o desconhecido, o invisível que está fora da área dos sentidos e que é recebido como revelação.

Ou o frade frei Sinfrão, sempre rezando, em hora de folga, com o terço ou missalzinho; mas rezava enormes quantidades, e assim atarefado e alegre, como se no lucrativo de um trabalho, produzindo, e não do jeito que as pessoas comuns podem rezar: a curto e com distração, ou então no por-socorro de uma tristeza ansiada, em momentos de aperto (ROSA, 2001a, p.34).

Para Machado (1976), o nome de Frei Sinfrão lembra sinfronismo[8], indicando que é através de uma concordância da razão, de uma reunião ou convergência do pensamento ou do próprio espírito que os diversos elementos vão se estruturar, apelando para a sensibilidade básica do homem através dos tempos, independente da cronologia.

O Seo Jujuca representa o pensamento prático, que calcula, que planeja a vida para o futuro:

Mesmo Seo Jujuca do Açude, rapaz moço e daqui, mas com seus estudos da lida certa de todo o plantio de cultura, e das doenças e remédios para o gado, para os animais. Pois Seo Jujuca trazia a espingarda, caçava e pescava; mas, no mais do tempo, a tenção dele estava no comparara as terras do arredor, lavoura e campos de pastagens, saber de tudo avaliado por onde pegava a pena comprar, barganhar, arrendar – negociar alqueires e novilhos, madeiras e safras; seo Jujuca era um moço atilado e ambicioneiro (ROSA, 2001a, p.34).

Os três juntos, Alquiste, Sinfrão e Jujuca, são os homens pensantes. Eles representam, segundo Machado (1976), o lado Direito/racional da narrativa. Além de Pedro Orósio, junto com eles vai Ivo Crônico[9], cujo nome nos remete ao tempo: “E esse Ivo era um sujeito de muita opinião, que teimava de cumprir tudo o que dava anúncio de um dia fazer. Por isso, o apelido dele, que tinha, era: Crônico – (do qual não gostava)” (ROSA, 2001a, p.55).

Assim, temos uma imagem dos representantes da ordem na narrativa; o corpo que guia (Pedro Orósio) e o pensamento/alma (Alquiste, Sinfrão, Jujuca) humano que viaja no tempo (Ivo). Nessa viagem de vida e de morte/transformação anunciada pelo morro, Pedro Orósio se dirige ao passado, à infância e ao país de origem. Além disso, Pedro se dirige para o futuro que o levará para o seu destino, para as transformações que ele lhe reserva.

O avesso

O grupo que representa o esquerdo/avesso da narrativa é composto pelas personagens Guégue, Joãozezim, Nominedômine, Coletor e Laudelim.

Cada personagem do lado direito tem sua contrapartida no lado esquerdo. Seo Alquiste tem seu reflexo irracional no Coletor que, como naturalista, anota tudo, desta vez sem qualquer ordem ou sentido:

Escrevia em papel, riscava no chão, entalhava em casca de arvore, em qualquer parte (…) Ia alinhando números tão descabados de compridos, que pessoa nenhuma não era capaz de tabuar: seus ouros, suas casas, suas terras, suas boiadas no invernar, sua cavalaria de ótimas eguadas, seus contos-de-réis em numerário, cada lançamento daqueles era feito uma correição de formiguinhas pretas infileiradas (ROSA, 2001a, p.64).

O Guégue tem seu reflexo irracional em Seo Jujuca. É ele quem cuida dos afazeres práticos da fazenda de D. Vininha, a seu modo:

Ah, era um especialmente, o Guégue! – D. Vininha e seu Nhôto contavam, ara de rir. Tratava dos porcos de ceva, levava a comida dos camaradas na roça, e cuidava a contento de todo o serviço do terreiro, prestava muito zelo (ROSA, 2001a, p.61).

A religiosidade prática de Frei Sinfrão espelha-se de modo contrário na irracionalidade do misticismo de Nominedômine:

Mas nesse justo momento, vinham chegando os frades -frei Sinfrão e frei Florduardo – e vinham enérgicos. O Nominedômine, de lá do altar, curvou mesura profunda e agarrou acabar de sermoar, depressa ainda mais, sabendo que agora lhe sobrava pouquinho tempo (ROSA, 2001a, p.80).

Pedro tem seu reflexo contrário em Laudelim Pulgapé (Pedro tem a alcunha de Pê-boi e Laudelim, de Pulgapé: um boi, o outro pulga), que, ao contrário de Pedro (que rastreia a terra, o corpo, o sensível), “dava de com os olhos não ver, ouvido não escutar, e se despreparava todo, nuvejava” (ROSA, 2001a, p.87).

Finalmente, o contrário de Ivo parece ser Joãozezim: Ivo é o que viaja atrás de todo o grupo, está por último; Joãozezim é menino pequeno, é o primeiro, está no início da vida: “Ah, já Crônhico velho (…)” (ROSA, 2001a, p.74). Ivo é referido como velho e Joãozezim aparece na narrativa como o “menino Joãozezim”.

A epígrafe usada está em Corpo de Baile (colocada, na edição do livro que tem três volumes, naquele que contém O Recado do Morro). Trata-se de um trecho de Plotino que cita Platão referindo-se à criação e ordenação do cosmos. Segundo a narrativa do Timeu, diálogo de Platão que dá conta da formação do cosmos (PLATÃO, 2001), este é tirado do caos pré-existente, transformado, o cosmos seria uma cópia a partir do modelo da eternidade – a idéia do bem. O cosmos, para Platão, é cópia da eternidade e sendo cópia não é a própria eternidade. Está no tempo, dividido entre dois círculos básicos, que se articulam e que possuem movimentos diferentes: o movimento do Mesmo e o movimento do Outro. O primeiro é movimento em torno de si mesmo, sobre si mesmo e no mesmo lugar. O segundo sai de si e volta a si em movimento circular, divido em sete esferas: do Sol, da Lua, de Marte, de Vênus, de Júpiter, de Mercúrio e de Saturno.O movimento do Mesmo é o que mais próximo está do modelo e é captado somente pelo pensamento; é aquele das estrelas fixas. O movimento do Outro é sensível, captado pelos sentidos do corpo: é aquele dos planetas, dos “viajantes”. Com a criação do céu, isto é, das estrelas fixas e dos planetas está criado o tempo, constituído por esses dois movimentos. Ao completar a viagem, os períodos, os oito círculos de movimentos desencontrados encontram-se no choque da consciência da morte /transformação, na consciência de si. Com isto o corpo e a alma integram-se e a totalidade animada, imaginada, pensada, liberta-se e regressa ao modelo de onde saiu. Regressa à origem – à sua estrela-, saltando pelas estrelas fixas, que são a imagem mais aproximada do Modelo eterno.

Fica evidente a correspondência desses períodos em vários contextos da narrativa. Um deles é a imagem fixa das sete fazendas cujos nomes são planetários (as fazendas não se movem; pode-se entender que são estrelas fixas), e outro é a imagem dos sete viajantes, amigos de Pedro Orósio, que também possuem nomes planetários e que se movem em torno das fazendas.

Pedro, que se inclinava para a terra, salta, no final da narrativa, para o espírito, para a contemplação do Modelo: “Daí com medo de crime, esquipou, mesmo com a noite, abriu grandes pernas. Mediu o mundo. Por tantas serras, pulando de estrela em estrela, até os seus Gerais” (ROSA, 2001a, p.105).

A linguagem astrológica se manifesta através de um código que evoca símbolos e, como símbolo, representa qualidades complexas. Essas qualidades podem ser positivas ou negativas. Na maioria das vezes, trazem essas duas qualidades compreendidas num todo, como se tivesse que existir o mal para o fortalecimento do bem. É aí que entram os companheiros de Pedro Orósio evocando essa imagem negativa do código. Na verdade, através deles, Pedro Orósio toma consciência do negativo numa inspiração súbita (Mercúrio) que antes foi bastante ruminada (Touro). Seus companheiros querem matá-lo por ciúmes, pois ele rouba todas as moças. É importante observar que, de acordo com Victoria (2000), Mercúrio, no seu aspecto negativo, é associado aos ladrões, aos ladinos. Então, é através deles que Pedro Orósio entra em contato com o seu lado negativo. Segundo Calvino (1990):

Mercúrio, de pés alados, leve e aéreo, hábil, e ágil, flexível e desenvolto (…) Na sabedoria antiga, na qual microcosmo e macrocosmo se refletem nas correspondências entre psicologia e astrologia, entre humores, temperamentos, planetas, constelações, as leis que regem mercúrio são as mais instáveis e oscilantes. Mas segundo a opinião mais difundida, o temperamento influenciado por Mercúrio (de inclinação para as trocas, o comércio e a destreza) contrapõe-se ao temperamento influenciado por Saturno (tendente ao melancólico, ao solitário, ao contemplativo) (CALVINO, 1990, p. 64).

Pedro Orósio, de certa forma, se contrapõe ao Ivo Crônhico que na narrativa é quem representa o tempo e é quem dá os limites, uma vez que é ele que fica atrás da comitiva cerceando os bois, enquanto que Pedro Orósio é quem inicia o movimento e abre os caminhos.

No entanto, Pedro Orósio é um homem bom. Na verdade, ele tem tanto de bem quanto de mal; os seus companheiros fazem com que ele tenha de se haver com o seu lado negativo. A partir disso, Pedro então se transforma. Nessa viagem para o interior, entra em contato consigo mesmo em todos os seus aspectos; o direito e o esquerdo. Era sábado de lua cheia e Pedro Orósio estava no Beco na saída para o Saco-dos-Cochos (fazenda de Seo Saturnino). O beco evoca a imagem de contração e limites, usada na linguagem astrológica. Pedro, por mais magnânimo belo e forte que seja, tem de se haver com os seus próprios limites, tem de os vencer através do esforço e da aceitação. Sábado corresponde também a Saturno, aliás, no conto existe a correspondência entre os dias da semana, os planetas e os acontecimentos que se dão análogos às características desses. Em português não existe quase essa correspondência entre os planetas e os dias da semana, mas em outras línguas, como o francês e o italiano, essa correspondência ainda pode ser vista: Sábato em italiano e Samedi em francês se correspondem com Sábado em português, que é dia de Saturno.

E como no conto existe a presença marcante de dois personagens estrangeiros (Seo Alquiste e Frei Sinfrão), parece que não existe problema em recorrermos a outras línguas para fazer essa analogia.

No final do conto, Ivo Crônhico muda a cronologia. Transfere a festa de Domingo para sábado, que é seu dia:

De contria, vinham o Ivo e o Martinho – mais esse! – queriam por toda lei que o Pedro Orósio quisesse já de já se amadrinhar com eles. – “Não por ora, amigos…” Pois enquanto, ele precisava de gerir seu dia sozinho. A bem não falar, alguma coisa naqueles ainda o punha a resguardar uma menos confiança. Muito leve. – “Mas, olha: de tardinha, depois do jantar, hem?” “- Mas a festa não é amanhã?” “- Virou pra hoje. Sabe não sabe? Você é um que vem?” “-Vou” (ROSA, 2001a, p.83).

Essa mudança na data da festa, ou seja, na cronologia, é bastante significativa, uma vez que o sábado, dia regido por Saturno, é o dia de Ivo, da execução dos seus planos de morte e traição. Pedro Orósio vai ter que se haver com os seus aspectos negativos, que trazem os seus companheiros na forma de traição e morte por ciúmes. Isso vai exigir de Pedro Orósio uma contração dele próprio e do recado destinado a ele, uma vez que é nesse dia que todas as mensagens dispersas do recado vão ser sintetizadas, contraídas em forma de música, possibilitando que o venusiano Pê-Boi a entenda (Vênus é o regente de Touro e de Libra, signos que, na interpretação astrológica, são referentes às artes). Além disso, a briga vai ocorrer no Beco do Saturnino.
Para Eliade (1986), o tempo é dividido em dois; o tempo sagrado e o profano. O tempo sagrado está vinculado ao tempo da criação, ao mito, ou seja, todas as ações remontariam ao tempo em que elas foram criadas, não existindo nenhuma ação nova. Por isso a importância dos rituais, já que eles são a atualização da criação. Já o tempo profano está vinculado ao tempo histórico, ao fazer cotidiano. É interessante notar que foi durante a festa que Pedro Orósio descobre que querem matá-lo.

Para Eliade o tempo festivo reintegra o tempo original, o tempo mítico, e por isso as festas ocorreriam num espaço de tempo sagrado, ao contrário do trabalho, que se vincularia ao tempo profano. É durante a festa que Pedro Orósio ouve a música composta por Laudelim, e essa não lhe sai mais da cabeça. Quando vai encontrar com os companheiros, fica cantando a música. Enfim, de súbito percebe o Recado do Morro:

“Traição. Caifaz … Parecia coisa que tinha estado escutando aquilo a vida toda! Palpitava o errado. Traição? Ah, estava entendendo. num pingo dum instante. Olhou aqueles, em redor. Sete? Estarreceu, no lugar (…) (ROSA, 2001a, p.104).

A festa parece ter feito a sagração da morte e da vida em meio aos afazeres cotidianos, da viagem. Durante a festa, o Recado do Morro finalmente foi percebido, ao mesmo tempo em que se cumpria.

Referências

ARROYO, Stephen. Astrologia, Psicologia e os Quatro Elementos. 16. ed. São Paulo: Pensamento, 2000.

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o novo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

CASTAGNINO, Raul. Que és Literatura? Buenos Aires: Ed. Nova, 1954.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. Coleção Vida e Cultura, n. 62. Lisboa: Livros do Brasil, 1986.

LORENZ, Günter. Entrevista com Guimarães Rosa in: Congresso de Escritores Latino-Americanos. Gênova, 1965.

MACHADO, Ana Maria. Recado do Nome: Leitura de Guimarães Rosa à luz de seus personagens. 1a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1976.

PLATÃO. Timeu – Crítias – O Segundo Alcibíades – Hípias Menor/Platão. trad. Carlos Alberto Nunes. 3. ed. rev. Belém: EDUFPA, 2001.

ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 9.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001a.

______. Manuelzão e Miguilim. 11. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001b.

______. João Guimarães Rosa: correspondência com o tradutor italiano Edoardo Bizzarri. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

SASPORTAS, Howard. As Doze Casas: Uma interpretação dos planetas e dos signos através das casas. 6. ed. São Paulo: Pensamento, 1985.

SPERBER, Suzi Frankl. Caos e cosmos: leituras de Guimarães Rosa. São Paulo: Duas Cidades, 1976.

UTEZA, Francis. João Guimarães Rosa: Metafísica do Grande Sertão. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.

VICTORIA, Raul. Dicionário Básico de Mitologia: Grécia-Roma-Egito. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

VILHENA, Heloísa. A Raiz da Alma. São Paulo: Edusp, 1992.

 

[1] A designação de maçonaria segundo Antônio Houaiss é: que ou aquele que executa trabalho com pedra e cal: pedreiro. Guimarães Rosa procurava fazer com as palavras esse trabalho, porém ao trabalhar com o minério bruto (as palavras) procurar extrair delas a grama de metal raro.

[2] Os sete planetas que compõem a astrologia clássica (ARROYO, 2000) são:
1) O Sol rege o principio da vitalidade, do senso de individualidade e da energia criativa. A energia solar se refere ao o impulso de ser e criar por isso a necessidade de ser reconhecido e de expressar-se.
2) A lua se refere ao subconsciente, aos cultos à religiosidade, ao sentimento sobre o eu (auto imagem).
3) Mercúrio que se refere à mente consciente, isto é, à mente lógica e racional. Mercúrio se refere ao impulso de expressar as percepções e a inteligência por meio de habilidades ou da fala. Tem necessidade de entrar em contato com os outros e necessidade de aprender.
4) Vênus se refere aos valores, ao intercâmbio de energia com os outros, à partilha. Tem impulso amoroso e sexual, e impulso de exprimir o afeto; sentir e proporcionar prazer.
5) Marte se refere ao desejo, à vontade de agir, à energia física e ao vigor. Possui impulso auto-afirmativo, agressivo e sexual. Tem necessidade de concretizar os desejos e de estímulo físico e sexual.
6) Júpiter se refere à expansão e à benevolência. Possui impulso com vistas a uma ordem maior. Tem necessidade de ter fé, crença e confiança na vida e em si mesmo, além da necessidade de evoluir.
7) Saturno se refere à concentração e ao esforço. Tem impulso para defender a estrutura e vai em direção à segurança e à certeza por meio de realizações palpáveis. Tem necessidade de aprovação social e de depender de seus próprios recursos e esforços.

[3] Segundo Sasportas (1985), na astrologia o uso da Mandala representa a viagem percorrida ao longo da vida. Nela estarão as fases pelas quais se deve passar durante a trajetória. A morte e as transformações se situam, por exemplo, na casa oito, que é a casa natural de escorpião e do planeta Plutão. A tônica dessa casa é também relacionada às nossas percepções mais profundas. Estas aparecem quando entramos em contato com os valores e com as energias psíquicas de outras pessoas através de uma maior intimidade. A partir desse encontro somos obrigados a nos transformar.

[4] A morte, também conhecida como o Deus Hades – o Deus dos infernos, na astrologia é associada ao planeta Plutão. Segundo Sasportas (1985), esse planeta traz a tônica das mortes que cada um faz ao longo da vida até a morte do corpo físico propriamente dito e, também, das transformações/alquimias que o encontro com esse planeta produz.

[5] Segundo Sasportas (1985), a mandala astrológica é dividida em doze casas. A casa oito é onde se aprofundam as trocas ocorridas na casa anterior. Esse contato de maior intimidade com “o outro” nos mostra a sombra, aquele lado que não se quer ver porque parece feio e inadequado. Quando se entra nesta casa tem-se, então, de descobrir o porquê de renegar partes que não foram integradas e, a partir dessa descoberta, transformar o supostamente feio e inadequado para que ele se reintegre à personalidade. É por esse motivo que muitas pessoas têm medo se envolver mais profundamente e terminam por estabelecer somente relações e trocas superficiais.

[6] Segundo Victoria (2000), Hermes, também conhecido como o planeta Mercúrio. É filho de Júpiter e é mensageiro dos deuses. É o deus da eloqüência, do comércio e dos ladrões. Mercúrio, na astrologia, é o regente dos signos de Gêmeos, que é um signo de ar, e do signo de Virgem, que é de terra. Em Gêmeos a tônica é de movimento, e em Virgem de aprendizado prático e ligação com a natureza.

[7] Frei Sinfrão traz o desconhecido, o invisível, as questões da alma, através do pensamento.

[8] A concepção de sinfronismo é descrita por Castagnino (1954) como a coincidência espiritual entre o homem de uma época e os de todas as épocas, dos próximos aos dispersos no tempo e no espaço.

[9] Segundo Victoria (2000), o nome Crônico remete a Cronos- Deus do tempo- Cronos, conhecido também como Saturno, segundo a mitologia era filho de Urano, esposo de Cibele e pai de Júpiter, Netuno, de Plutão e de Juno. Uma promessa que fizera a Titã obrigava-o a devorar os filhos assim que nascessem. Cibele, para salvar Júpiter, pôs no seu lugar, uma pedra que Saturno engoliu logo. Mais tarde Júpiter destronou o pai e expulsou-o do céu. Cronos fugiu para o Lácio onde fez florescer a Idade do Ouro, a paz, a abundância e ensinou aos homens a agricultura. Segundo a astrologia, Saturno (ou Cronos) representa o esforço disciplinado, a aceitação de deveres e responsabilidades, paciência, organização, confiabilidade e o tempo.