cacos de vidro; a vênus da mensagem

Marcos Siscar

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 12, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Poemas do livro Interior via Satélite (a ser lançado pela Ateliê Editorial).

 


 

cacos de vidro

recolho de manhã cacos de copos quebrados.
recolho minuciosamente com atenção de relojoeiro.
primeiro os cacos grandes ainda manchados por algum líquido notívago.
depois os menores e os mais dispersos até que restem
no piso frio apenas fiapos de vidro translúcidos.
fios de uma transparência insustentável e que me diz respeito.
recolho-os a mão um a um alheio a pás e vassouras.
recolho-os atentamente. preciso chegar muito perto
para vê-los pressionados contra a ponta dos dedos.
tão sutis e temerários que preciso esfregar-me com cuidado
as mãos. sem notar que de sua delgada argúcia já penetraram
na carne. como pensamentos indesejados cravaram-se entre as fibras
entre as veias seixos brilhantes de onde o sangue jorra
com o qual não se mistura. infensos à aflição ou à cólera. fortalecidos
pela força que pretenderia estancar sua abrupta
relação com a vida

 


 

a vênus da mensagem

a caminho de mercúrio a espaçonave messenger
sobrevoa a superfície venusiana. que mensagem
levará às margens da consumação pelo sol? o sol
é o que está distante. miramos o distante o sol
exterior a pira cinerária da distância. e nesse trajeto
em que a mensagem se perde. ei-las as galáxias
chave do adiamento em que nos vemos. o aqui e agora
obsoletos há milhares de anos-luz em túmulo cósmico.
o que não está lá é o que aqui nos mantém unidos.
é sua imagem que nos relaciona e aproxima. vácuo
partilhado nosso sol mais próximo essa terra interior.