As vozes que ecoaram do porão: o feminino negro em Becos da Memória (2017), de Conceição Evaristo

Marcelo de Jesus de Oliveira

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 32, 2019. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Marcelo de Jesus de Oliveira
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Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão
Açailândia - Maranhão, Brasil

RESUMO: Esta pesquisa apresenta uma discussão da obra Becos da Memória (2017), da escritora afro-brasileira Conceição Evaristo, sob o viés de raça e gênero, a priorizar, sobretudo, a apresentação das personagens Maria-Nova, Dora e Cidinha-Cidoca. Para o que se propõe, define-se como elementos alicerçantes da análise o espaço social e cultural, bem como as histórias e memórias individuais e coletivas em que são submersas tais personagens. A fundamentação teórica é enveredada pela crítica feminista e estudos culturais, portanto, norteada por Scott (1995); Santos (2008); Quijano (2000); Pacheco (2013); Said (1995); Mignolo (2003), dentre outros. Diante disso, observa-se que em Becos da Memória (2017), por meio de uma linguagem literária des/confortante e acessível, Conceição Evaristo revisa criticamente a lógica do patriarcalismo capitalista por meio de temas e personagens historicamente perseguidas por esse sistema. Além disso, no processo de composição das personagens, a autora atribui ofícios e características específicas a cada uma delas, logo, Maria-Nova, Dora e Cidinha-Cidoca representam, respectivamente: a construção e aceitação da identidade do negro a partir da experiência do outro; a desconstrução dos estigmas sexuais do corpo feminino negro como aquele provido tão-somente de desejos sexuais; a emancipação e empoderamento da mulher negra numa sociedade que a marginaliza.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura afro-brasileira; escrevivência; negritude; consciência de classe.

ABSTRACT: This research presents a discussion of the work Becos da Memoria (2017), by Afro-Brazilian writer Conceição Evaristo from the perspective of race and gender, prioritizing, above all, the presentation of the characters Maria-Nova, Dora and Cidinha-Cidoca. To this end, the social and cultural space are defined as the guiding elements of the analysis, as well as the individual and collective stories and memories in which such characters are submerged. The theoretical foundation is guided by feminist criticism and cultural studies, therefore, guided by Scott (1995); Santos (2008); Quijano (2000); Pacheco (2013); Said (1995); Mignolo (2003), among others. Given this, it is observed that in Becos da Memoria (2017), through an uncomfortable and accessible literary language, Conceição Evaristo reviews the logic of capitalist patriarchalism critically, proposing themes and characters historically pursued by this system. Moreover, in the process of composing the characters, the author attributes crafts and specific characteristics to each one of them, so Maria-Nova, Dora and Cidinha-Cidoca represent, respectively: the construction and acceptance of identity in the black from the experience of the other; the deconstruction of the sexual stigmas of the black female body as that which is provided only with sexual desires; and the emancipation and empowerment of the black woman in a society that marginalizes her.

KEYWORDS: Afro-Brazilian literature; Writability; Blackness; Class consciousness.

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A obra Becos da Memória (2017), da escritora afro-brasileira Conceição Evaristo, é metodologicamente estruturada em seções as quais não recebem títulos. Dedica-se a discutir reflexivamente a vida, as memórias individuais e coletivas, os traumas, e as relações pessoais e interpessoais das personagens que vivem vulneráveis socialmente em uma favela à mercê da demolição. Nesse sentido, pode-se dizer que em termos de contexto da escrita, em Becos da Memória (2017), Conceição Evaristo “remonta ao mundo íntimo dos humilhados e ofendidos, tomados no livro como pessoas sensíveis, marcadas, portanto, não apenas pelos traumas da exclusão, mas também por desejos, sonhos e lembranças” (OLIVEIRA, 2009).

No enredo da narrativa é possível identificar um quantitativo de noventa e cinco personagens, todas com suas vidas apresentadas pela narradora-personagem Maria-Nova. Este trabalho, por sua vez, limita-se a analisar somente as personagens femininas e negras: Maria-Nova, Dora e Cidinha-Cidoca. Ambiciona-se a promoção de uma discussão sob o viés de raça e gênero a partir da apresentação das personagens acima mencionadas, assim como identificar e compreender as características e desafios impostos a cada uma delas durante o desenvolvimento do romance. Por conseguinte, caracterizam-se como objetivos específicos a identificação da relação existente entre literatura, história e sociedade – com base nos aspectos pautados no romance – e o reconhecimento do lugar de fala das personagens subalternadas, bem como o canal pelas quais tais falas são propagadas.

Neste contexto, é imprescindível ressaltar que para se atingir contundentemente o objetivo traçado para este trabalho, analisou-se também, ainda que minimamente, apresentações de personagens masculinas no romance, como nota-se com o caso de Tio Totó que, por sua vez, estabelece vínculos diretos com as personagens Maria-Nova e Dora. Para tanto, utilizou-se técnicas e artifícios bibliográficos os quais possibilitaram analisar as histórias das personagens que compõem a narrativa, essencialmente as femininas, em conformidade com a dita história oficial do Brasil, embebida em padrões patriarcais impostos pela sociedade contemporânea.

 ITINERÁRIO DE CONSTRUÇÃO E PUBLICAÇÃO DE BECOS DA MEMÓRIA (2017)

A obra Becos da Memória (2017) tem datado como período de publicação original o ano de 2006. Em decorrência de uma série de fatores, dentre eles as imposições patriarcais enraizadas no cânone literário brasileiro, o romance foi sujeito a uma série de exclusões, a começar pelas constantes negações por parte das editoras. No entanto, uma vez publicada, a literatura de Conceição Evaristo, essa que  “enfatiza a abordagem dos dilemas identitários dos afro-descendentes em busca de afirmação numa sociedade que os exclui e, ao mesmo tempo, camufla o preconceito de cor” (DUARTE & LOPES, 2018), ganhou significativa notoriedade, como se pode observar, com a indicação ao “Prêmio Jabuti”, em 2015 e 2019; com a inserção como literatura obrigatória para importantes vestibulares brasileiros; ter tido obras traduzidas em outros idiomas e publicadas no exterior.

No que se refere à laboração de construção do original, Evaristo (2017, p. 09) pontua que “o processo de escrita do livro foi rápido, muito rápido. Em poucos meses minha memória ficcionalizou lembranças e esquecimentos de experiência que minha família e eu tínhamos vivido, um dia”. No entanto, o tempo ágil de escrita foi sucedido por vinte longos anos de engavetamento dos manuscritos que antecederam a publicação efetiva da obra, como bem afirma a autora no texto de agradecimentos da terceira edição: “relembro os vinte anos de espera, depois de frustradas busca por publicação, em que os originais do livro ficaram engavetados na “gaveta do esquecimento” (EVARISTO, 2017, p. 07, grifo da autora).

A narrativa Becos da Memória (2017) foi tecida primariamente em 1987/88, prévio, portanto, à escrita dos contos e do romance Ponciá Vicêncio (2003) que, por sua vez, fora escrito em 2003. Além do mais, esta obra configura-se como dispositivo primordial para os alçares dos voos na carreira literária da autora, quem dedica seu ofício à literatura de denúncia. A assertiva anterior pode ser facilmente verificada na fala de Conceição Evaristo (2017, p. 09) que, ao discorrer sobre a confecção de Becos da Memória (2017), revela que foi esse seu primeiro contato com escrituras em que se confunde vida e escrita, subsidiando, desse modo, a escrevivência a qual, segundo ela, foi buscada quase inconscientemente durante a  composição da obra em questão.

Ainda nessa perspectiva, é cabível considerar que a origem de Becos da Memória (2017) pode estar diretamente relacionada a textos produzidos vinte anos antes da publicação do original, visto que a autora arrisca dizer que “a origem da narrativa de Becos da Memória poderia estar localizada em uma espécie de crônica, que escrevi, ainda em 1968” (EVARISTO, 2017, p. 09, grifo nosso).  A crônica a qual a autora faz referência fora nomeada de Samba-favela, texto cuja descrição lírica revela a ambiência nas dependências da periferia, assim como em Becos da Memória (2017). Posteriormente, esse texto tomou dimensões que extrapolaram a sala de aula e o interior da escola em que autora estudava, publicado meses depois no Diário Católico de Belo Horizonte.

O itinerário de publicação de Becos da Memória (2017), por algum motivo, é marcado por tentativas falhas. A primeira proposta de publicação desse original aconteceu em 1988 pela Fundação Palmares/Minc, em que a obra seria publicada como parte das comemorações do centenário de abolição, entretanto, o projeto não obteve sucesso. Assim, essa e outras tantas tentativas não sucedidas de publicação contribuíram significativamente para que os originais de Becos da Memória (2017) permanecessem muito tempo esquecidos. No entanto, “anos depois, preciso ressaltar, em outra gestão, a mesma instituição se colocou à disposição para retomar o projeto de publicação da obra” (EVARISTO, 2017, p. 10). Mas, o livro já estava acostumado com o espaço que lhe foi dado: o esquecimento. Desse modo, somente em 2006 a obra finalmente é publicada, ganhando, consequentemente, espaço no cenário literário. Logo, “se, nas primeiras buscas por publicação, muitos caminhos foram incertos, ao longo dos anos, passagens mais seguras foram se apresentando” (EVARISTO, 2017, p.10).

Assim, observa-se que nas linhas, entrelinhas, contexto e texto de Becos da Memória (2017), Conceição Evaristo traduz liricamente, por intermédio de seus numerosos personagens, a complexidade da condição humana, a profundeza dos sentimentos de quem é submetido, cotidianamente, à fome, miséria, preconceito e desamparo. Além do mais, nesta obra misturam-se ficção e realidade, que deslizam simultaneamente entre si. Desse modo, sobre esta perspectiva, a autora pontua que “[…] Becos da Memória é uma criação que pode ser lida como ficções da memória. E, como a memória esquece, surge a necessidade de invenção” (EVARISTO, 2017, p. 12).

Dessa maneira, para além da materialização das memórias e vivências de Conceição Evaristo, as quais podem ser diretamente relacionadas à personagem Maria-Nova, aproximação referenciada pela própria autora, tal percebe-se com seu dito que “quanto à parecença de Maria-Nova comigo, no tempo do meu eu-menina, deixo a charada para quem nos ler […] esta confusão não me constrange” (2017, p. 12, grifo da autora). Nota-se, ainda, que várias são as motivações que subsidiaram Conceição Evaristo na confecção sensível de Becos da Memória (2017), fatores como o reconhecimento e consciência do ser negro; a participação efetiva em movimentos unificados; a oportunidade de potencializar a voz dos subalternizados na literatura e, também, a opinião política e militância aguçada em defesa às minorias  – aspectos que devem ser levados em consideração como fonte perene de criatividade e motivação para o surgimento da literatura evaristiana.

A (DES)CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO

As memórias ficcionalizadas por Conceição Evaristo em Becos da Memória (2017) são marcadas por uma miscelânea de traumas que percorrem as histórias dos personagens eternizados por Maria-Nova: a história da formação cultural, social, geográfica e política da população brasileira; a retirada forçada dos negros da África; a chegada ao Brasil e o sistema escravocrata ao qual foram submetidos; o desamparo e abandono após a quimérica abolição.

Além disso, ressalva-se que o espaço em que a história é narrada é passivo de muita significação, haja vista que faz referência e evoca um lugar de subordinação histórica para a formação dos povos negros no Brasil. Desse modo, o ambiente periférico, no qual é passado o enredo da narrativa, é utilizado, estrategicamente, para originalizar os discursos dos personagens, pois é um espaço convidativo a discussões referentes à violência praticada contra os afrodescendentes que, segundo Said (1995) é representada como “a síntese que supera a reificação do homem branco como sujeito e o do homem negro como objeto” (p. 334).

Todas as personagens apresentadas no decorrer da narrativa residem em uma favela que, consequentemente, é localizada ao lado de um bairro nobre, o que pode ser interpretado como uma alusão a senzala e a casa-grande. Esses povos, à margem da sociedade, subalternizados, sedentos e esperançosos de melhores condições de vida, são surpreendidos com a proposta de desfavelamento, uma vez que senhores endinheirados haviam comprado o terreno e ofereceram-lhes uma quantidade irrisória de dinheiro ou um apunhado de madeira para construir um barraco em outro lugar.

Desse modo, quando os moradores da favela se deparam com a realidade devastadora da desapropriação do local, a ter que escolher, como indenização aos danos que o opressor lhes causaria, entre uma quantia monetária irrisória ou algumas tábuas para construir um barraco em qualquer outro lugar, revela-se, naquele momento, o quanto uniam-se pelo afeto àquelas pessoas, todos a dar amparo uns aos outros, “cada um sentindo a dor do outro e Maria-Nova sentindo a dor de todos” (EVARISTO, 2017, p. 30). Afinal, “havia sonhos que não cabiam em barracos, que não se realizavam jamais, havia ilusão para se aguentar a viver” (EVARISTO, 2017, p. 08).

Ademais, os moradores da favela descrita na narrativa eram conscientes tanto da necessidade de sonhar quanto da força que precisariam para alcançar o que fora sonhado. Maria-Nova, Ditinha, Vó-Rita, Maria-Velha, Bondade e Negro Alírio travavam, cotidianamente, uma guerra contra as amarras das desigualdades sociais, sempre com o desejo de se emanciparem. Nesta perspectiva, Mignolo (2003, p.178) elucida que “a emancipação como libertação significa não só o reconhecimento dos subalternos, mas, também, a erradicação da estrutura de poder que mantém a hegemonia e a subalternidade”.

Outrossim, o sentimento de lar para com a favela sentido pelos personagens e descrito na narrativa forma-se, potencialmente, pela rede de compartilhamento de experiências que foram por eles criados e, também, pelo apego afetivo por aquele ambiente que comportava os seus sonhos, além das expectativas de melhorias de vida nutridas, principalmente, por Maria-Nova e Negro Alírio, os quais sentiam o cansaço e desgaste da violência racial.

Dessa forma, a notícia do desfavelamento causa medo e desconforto para os moradores: a cada família desfeita do local a dor era sentida e compartilhada por todos. Alguns, mesmo com a notícia antecipada, mostravam-se despreparados para a retirada no momento em que fosse necessária, como aconteceu com Tio Totó que não se conformava com o acontecido (EVARISTO, 2017, p. 18) e, por isso, “andava inconsolável: já velho, mudar de novo, no momento que meu corpo pedia terra. Ele não sairia da favela, ali seria sua última morada” (EVARISTO, 2017, p. 18). Assim, pode-se perceber, pela fala de Maria-Nova referente ao posicionamento de Tio Totó, que a negação da retirada do espaço da favela narrada no romance analisado é um fator que contribui significativamente para a compreensão da formação da identidade das personagens.

É interessante pensar que quando o plano de desfavelamento é, de fato, posto em prática, há, consequentemente, uma quebra de sentido no que os personagens compreendem como rotina e segurança, considerando que quando é ofertada a quantidade irrisória em dinheiro ou algumas tábuas para construir um barraco sem lugar definido, oferta-se, também, a possibilidade de serem removidos para lugares que os farão se sentir ainda mais vulneráveis ou invisíveis socialmente.

Neste contexto, as mazelas sociais escancaradas com a desapropriação do terreno da favela e, consequentemente, a expulsão desumana dos que lá habitavam contribuem para este espaço ser apresentado no romance, por vezes, como materialização da condição de inferioridade, o que reforça a equivalência existente entre favela e senzala na contemporaneidade. Desse modo, esta assertiva é firmada quando a personagem Maria-Nova se põe a pensar de maneira crítica sobre a condição de vida dos seus povos nas aulas de história, pois “percebia a estreita relação de sentido entre favela e senzala, mas mais entristecia ao perceber que nos últimos tempos ali vivia de pouco amor e muito ódio” (EVARISTO, 2017, p. 09).

Desse modo, a favela surge como cenário ideal para propor reflexões que tematizem a condição social em diferentes esferas dos indivíduos marginalizados e excluídos, não apenas pautando-se economicamente, mas também atentando-se às questões que dizem respeito à colonialidade do poder enquanto aspecto classificador racial e étnico, bem como suas consequências para a formação social dos países da américa latina (QUIJANO, 2000).

Além do mais, ao analisar a favela narrada por Conceição Evaristo em Becos da Memória (2017), percebe-se que o espaço é, antes de tudo, tomado como um lugar onde se torna possível o refúgio da memória. No entanto, debruça-se diante um problema quando é constatado que essa favela, representada como um lugar de memória, desvinculada de qualquer realidade referencial, não é mais nada além de “memórias”, pois, “a favela descrita em Becos da Memória acabou e acabou. Hoje as favelas produzem outras narrativas, provocam outros testemunhos e inspiram outras narrativas” (EVARISTO, 2017, p. 09, grifo da autora).

MARIA-NOVA: HISTÓRIA, MEMÓRIA E IDENTIDADE

Maria-Nova é, sem dúvidas, a principal personagem de Becos da Memória (2017), afinal, é por intermédio de suas escritas que as histórias que um dia já foram ouvidas por ela foram materializadas. A vida de Maria-Nova, assim como a dos demais moradores daquela favela, oscila entre felicidades efêmeras e caos sociais, culturais e políticos. Quando se dá início à narrativa Maria-Nova tem apenas nove anos de idade, no entanto, já era submersa em uma realidade na qual precisava, obrigatoriamente, dividir-se entre prazeres provenientes da infância e os afazeres laborais, como o trabalho na lavanderia com a mãe, onde de lá observava “as torneiras, a água, as lavadeiras, os barracões de zinco, papelões, madeiras e lixo. Roupas das patroas que quaravam ao sol. Molambos nossos lavados com sabão restantes” (EVARISTO, 2017, p. 29).

Após a efetividade dos discursos daqueles que decretaram o desfavelamento e o avanço da notícia pelos becos, bem como as várias histórias de assombro que Maria-Nova ouvia, a personagem, agora aos quinze anos – “Tio Totó não entendia que seus noventa e tantos anos eram necessários aos quinze de Maria-Nova” (EVARISTO, 2017, p. 72) –, avançava ainda mais na construção de sua própria identidade, porque, passiva de adjetivos como “atenta” e “observadora”, é através da escuta que Maria-Nova compreende o que se passa no interior da periferia; o que desperta o medo incontrolável nos moradores; a sensação de desconforto provocada pela remoção. Afinal, “fatos estavam acontecendo, muita coisa ela percebia, mas só conseguia um melhor entendimento por meio das narrações que ouvia. Ela precisava ouvir o outro para poder entender” (EVARISTO, 2017, p. 32).

Neste fragmento da narrativa é possível observar a forma astuta e empática que Maria-Nova se apropria para construir uma cadeia de entendimento de si e do outro. Enfatiza-se, neste contexto, que em todos os contos narrados por Maria-Nova em Becos da Memória (2017) a personagem busca, de forma proposital e sensível, analisar os demais moradores da favela de modo a conseguir entendê-los e jamais subjugá-los. Ademais, é também pela escuta que Maria-Nova encontra marcas de sua ancestralidade africana estampada violentamente na dita história oficial do Brasil, sobretudo, em relatos acerca da formação da população negra brasileira.

No contexto identitário, salienta-se que todos os personagens apresentados na narrativa são partes influentes da construção identitária-social de Maria-Nova. Dois deles assumem posições importantíssimas, pois são personagens que permitem que Maria-Nova acesse profundamente suas memórias do passado através das histórias que são contadas por eles pelos becos da favela: tio Totó e Maria-Velha, tios maternos da personagem analisada.

A percepção de Maria-Nova no que diz respeito às disparidades que se faziam presentes no cotidiano dela e dos demais moradores da favela é despertada por intermédio de convenções sociais dos próprios locais que frequenta ainda enquanto criança: a favela e a escola. Desse modo, é cabível afirmar que as interferências de outros personagens auxiliam Maria-Nova a reconhecer que não está sozinha, ou, ainda, que o mecanismo de silenciamento social instaurado forçadamente na favela não é exclusivo de sua vida pessoal.

Por outro lado, o que difere a existência de Maria-Nova das demais personagens é a expectativa ávida de melhores condições de vida que é alimentada tanto por ela quanto por outros personagens externos pautados no romance, que depositam em Maria-Nova a incumbência de alcançar o que eles não alcançaram, pois roubaram-lhes as oportunidades: “lembrou de Tio Totó e Maria-Velha. Pensou que seria velha um dia. O que seria quando crescesse? Mãe Joana, Maria-Velha, Tião Tantão, todos diziam que a vida para ela seria diferente. Seria?! Afinal ela estava estudando” (EVARISTO, 2017, p. 155).

Sendo assim, compreende-se que a escola é tomada pelos personagens como um espaço de possível ascensão social, o qual oferta a oportunidade de construir caminhos que os levem a rumos diferentes, direções que não seriam as mesmas as quais os moradores da favela foram obrigados a seguir e que, consequentemente, haviam lhes causados tantos traumas. Desse modo, as histórias que eram contadas a Maria-Nova moldavam de forma significativa a identidade da personagem, enquanto parte das memórias e experiências sentimentais e físicas de seus antepassados negros que foram trazidos forçadamente – e por que não de maneira desumana? – para o Brasil, relatos que a desinquietavam.

A menina crescia. Crescia violentamente por dentro. Era magra e esguia. Seus ossinhos do ombro ameaçavam furar o vestidinho tão gasto. Maria-Nova estava sendo forjada a ferro e fogo. A vida não brincava com ela, ela não brincava com a vida. Ela tão nova e já viva mesmo. Muita coisa, nada ainda, talvez ela já tivesse definido. Sabia, porém, que aquela dor não era só sua. Era impossível carregar anos e anos tudo aquilo nos ombros (EVARISTO, 2017, p. 108).

Desse modo, a história da personagem Maria-Nova se entrelaça diretamente com a história da formação dos povos negros no Brasil e, por ser assim, aparece representada como a renovação desse episódio. Logo, seus familiares, amigos e vizinhos desejam que ela não viva, de fato, o que viveram seus antepassados, e esperam que a menina aprenda e tenha consciência crítica das vivências de suas origens.

Além do mais, ainda que Maria-Nova representasse uma adolescente em fase de construção, por meio de sua identidade e consciência de classe e raça, a personagem acredita que algum dia mudaria, por meio da escrita, a história daqueles moradores com quem conviveu na favela. Desse modo, “Maria-Nova, um dia, não sabia como, ela haveria de contar tudo aquilo ali. Contar as histórias dela e dos outros. Por isso ela ouvia tudo atentamente. Não perdia nada” (EVARISTO, 2017, p. 31). Assim, as histórias narradas por Maria-Nova, tratando-se dos demais personagens e do espaço em que se passa a narração – as quais oscilam simultaneamente entre esperança e dor/realidade e ficção – são tecidas como homenagem aos sujeitos lembrados, pois a obra é escrita:

[…] Em homenagem póstuma à Vó Rita […], aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos de minha memória. Homenagem póstuma às lavadeiras que madrugavam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negra, aloiradas de poeiras do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela. Homenagem póstuma ao Bondade, ao Tão Puxa-Faca, à velha Isolina, à D. Anália, ao Tio Totó, ao Pedro Cândido, ao Catarino, à Velha Lia, à Terezinha da Oscarlinda, à Mariinha, à Donana do Padin (EVARISTO, 2017, p. 17, grifo nosso).

Diante disso, percebe-se que a identidade de Maria Nova é constituída através das histórias que ela houve na favela e, para além da identidade, constitui-se, também, o entendimento de si enquanto mulher negra. Além do mais, elucida-se, ainda, que todos os personagens elencados na narrativa são apresentados como peça de importante valor para a construção da identidade social de Maria-Nova, visto que é por meios de suas histórias de vida que a personagem acessa as memórias coletivas e individuais de seus conterrâneos, entrelaçando-as e atribuindo-lhes significados ao passado e presente.

Além disso, é também na periferia, diante de eventos tão hostis, que Maria-Nova constrói mecanismos que a possibilita entender a lógica patriarcal no sentido das relações de gênero. Para Fróz & Santos (2017) “as estruturas de poder do patriarcado, como o sexismo e machismo, permitem que o homem cometa violência de gênero”. É nesse sentido que, ainda muito jovem e sem entender amplamente a complexidade do problema apresentado – pois as discussões sobre relação de poder entre gênero no Brasil começaram a ser difundidas tardiamente no final de 1980, com a tradução do texto da historiadora marxista Joan Scott -, a personagem Maria-Nova começa a perceber o quanto este sistema marcava negativamente as vidas daquelas mulheres e, portanto, a sua própria.

Ao narrar a história de Fuinha, por exemplo, Maria-Nova revela profundas feridas deixadas pela violência de gênero, isso é, de um “elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre sexo” (SCOTT, 1995, p. 21), evidenciando-se, com isso, traumas provenientes de constantes espancamentos que Fuinha praticava contra a mãe e a filha, pois ele “vivia espancando as duas, espancava por tudo e por nada. Os vizinhos mais próximos acordavam altas horas da noite com grito das duas” (EVARISTO, 2017, p. 111). As ocorrências das violências praticadas por Fuinha eram tantas que logo sua mulher fora silenciada: “um dia a mãe de Fuizinha amanheceu adormecida, morta. Os vizinhos tinham escutado a pancadaria na noite anterior. […] A mulher do Fuinha silenciou de vez’” (EVARISTO, 2017, p. 112).

Além disso, observa-se que a conduta agressiva e opressora da personagem em questão – Fuinha – acaba por influenciar o comportamento e, de certa forma, impedir o bem-estar de Maria-Nova enquanto moradora daquele ambiente, em virtude dos horrores que eram contados sobre o que Fuinha fazia com a esposa e a filha, pois Maria-Nova passa a se sentir insegura e desconfortável em sua presença, a ponto de arquitetar estratégias para evitar possíveis encontros, como pode ser percebido no trecho a seguir: “Maria-Nova tinha muito medo de Fuinha. Sempre que passava em frente ao barraco dele apertava os passos. Uns diziam que ele era louco, outros que era maldoso, perverso, e que nada tinha de louco” (EVARISTO, 2017, p.111).

Este episódio, bem como outros apontados nas dependências do romance, mostram de maneira clara como funcionam os mecanismos de poder entre gênero, em específico das relações íntimas que, consoante à Soares (2012, p. 92), são “vastamente diferenciadas, tanto na forma, intensidade, frequência, quanto nos contextos, nos significados e nos impactos que produzem”. Diante disso, considera-se que a ambiência de Maria-Nova na periferia é marcada tanto por questões sociais, étnicas-raciais e de gênero, ressaltando, portanto, como tais mecanismos ainda modelam as convenções sociais na contemporaneidade.

CIDINHA-CIDOCA: RABO-DE-OURO

Durante a narrativa são apresentadas as personagens Dora e Cidinha-Cidoca, ambas igualmente descritas sob características estigmatizadas, relacionadas, na maioria das vezes, aos seus atributos sexuais. Além do mais, no delinear do romance, pode-se perceber a construção de relações no seio de uma sociedade abertamente patriarcal, em que o corpo feminino negro é tomado como propriedade, objeto de posse em razão de sua condição.

A personagem Cidinha-Cidoca é inicialmente apresentada em um ambiente que, por alguma razão, condiciona seu bem-estar pessoal, podendo essa máxima ser percebida quando Maria-Nova, narradora-personagem, produz seus primeiros comentários sobre ela:

Cidinha-Cidoca andava muito quieta ultimamente. Quem te viu quem te vê!… Alheia pelos encantos do botequim, nem cachaça exigia mais. Suja, descabelada, olhar parado no vazio. Se lhe dessem um trago, bebia. Se não lhe dessem, nem da secura da boca reclamava mais (EVARISTO, 2017, p. 21, grifo nosso).

No trecho inicial do discurso referente à Cidinha-Cidoca, percebe-se, principalmente, pela expressão “andava muito quieta ultimamente”, que a personagem ora analisada possuía, anteriormente, comportamentos diferentes dos que eram naquele instante percebidos. No entanto, na afirmativa sucessiva, a qual Maria-Nova pontua que “bons tempos já houve, hein, […]” (EVARISTO, 2017, p. 21), compreende-se que o atual estado da personagem se tornou estável e duradouro. Entretanto, Cidinha-Cidoca, ainda assim, mantinha o perfil de mulata “mesmo com aqueles olhos parados e com aquela carapinha de doida! […] doida mansa, muito mansa” (EVARISTO, p. 21).

Cidinha-Cidoca, além de ser percebida por sua profissão – prostituta –, era disparadamente percebida pela sua nudez negra, corpo bonito e tentador. As mulheres da favela, em sua maioria, temiam a existência de Cicidinha-Cidoca que também é evocada nos becos da favela por rabo-de-ouro, afinal, “diziam as más línguas e as boas também que Cidinha-Cidoca tinha o ‘rabo de ouro’. Não havia quem o provasse e não se tornasse freguês. Todos iam e voltavam. Velhos, moços e até crianças” (EVARISTO, 2017, p. 21, grifo da autora).

Neste sentido, destaca-se que a história de Cidinha-Cidoca, bem como das demais personagens igualmente femininas, evocam questões para além da objetificação e sexualização dos corpos negros. As vivências dessas mulheres, em especial a rabo-de-ouro, colocam em discussão, também, a liberdade e estigmatização sexual da mulher, uma vez que ela “vive abafando a vontade, os desejos, principalmente se moça virgem” (EVARISTO, 2017, p. 22). Percebe-se nesse trecho, em específico, que o discurso da autora se alarga, a contemplar a situação da mulher brasileira, sem restrições de raça e classe social, frente à sua liberdade sexual que, desde os primórdios, sofre constantes e severos ataques. No entanto, salienta-se que embora a mulher branca também seja vitimada pelas amarras do patriarcado, para a mulher negra o sistema é muito mais sagaz, principalmente se ela for de baixa classe social (FRAZÃO, 2015).

Além disso, observa-se que há períodos na favela em que o corpo de Cidinha-Cidoca é abertamente objetificado, tomado como troféu e diversão dos homens que povoam aqueles becos. São nesses eventos, por exemplo, em que a objetificação e sexualização desses corpos assumem maior dimensão, pois nos festivais de bola no campo que aconteciam anualmente em “uma área livre, enorme, que ficava entre a favela e o bairro rico” (EVARISTO, 2017, p. 23), com intuito de  promover a distração e entretenimento dos homens, mulheres, crianças, animais e idosos que ali residem, é representado como um dos principais momentos em que o corpo de Cidinha é igualmente festejado, tão quanto o referido campeonato.

Havia homem que nem bola direito chutava, só pensando em Cidinha-Cidoca. A fama da mulher corria. Era conhecida de corpo e de nome naquela e em outras favelas. Às vezes, um ou outro jogador arriscava à Cidinha-Cidoca que mudasse de pouso, que fosse com ele. Cidinha tinha mesmo vontade de conhecer outros lugares. […] O aventureiro sentia-se feliz, vitorioso, afinal levaria consigo o melhor troféu, “Cidinha-Cidoca-rabo-de-ouro” (EVARISTO, 2017, p. 26, grifo nosso).

Assim, o ápice da demonstração de posse por parte dos moradores da favela para com o corpo de Cidinha-Cidoca-rabo-de-ouro é representado, principalmente, no período de realização do “Festival de bola. Festival do corpo de Cidinha-Cidoca” (EVARISTO, 2017, p. 25, grifo nosso), visto que a chegada de novos homens na favela,  aqueles que não fossem os que comumente a frequentavam e que, vez ou outra, arriscavam convidar Cidinha a deixar os becos e acompanhá-los, passa a incomodar “os antigos homens, pretensos donos de Cidinha” (EVARISTO, 2017, p. 26).

Além do mais, a objetificação do corpo negro de Cidinha-Cidoca é tanta que, quando Conceição Evaristo, por meio dos fios soltos da memória da personagem Maria-Nova, busca nas lembranças do passado menções para evidenciar a importância de Cidinha para os homens que moram ou visitam frequentemente a favela, utiliza-se de uma denominação sensível e simples para a masturbação: “autocarrinho” (FRAZÃO, 2015 & EVARISTO, 2017, p. 22).

Desse modo, a representação da personagem Cidinha-Cidoca abre margem a discussões referentes à hipersexualização do corpo feminino. Afinal, existem pouquíssimas passagens, no interior da obra analisada, em que os demais personagens envolvidos se põem a discutir qualificações de Cidinha-Cidoca para além de sua nudez negra. Nesse contexto, alusivo a representação da mulher negra na sociedade brasileira, Pacheco (2013) considera que:

A mulher negra é vista pelo restante da (sic) sociedade a partir de dois tipos de qualificação ‘profissional’: doméstica e mulata. A profissão de mulata é uma das mais recentes criações do sistema hegemônico no sentido de um tipo especial de ‘mercado de trabalho’ […] produto de exportação. Além disso, representações sociais passaram a fazer parte das produções discursivas do saber ocidental sobretudo do século XIX. Os negros e as mulheres foram associados ao mundo da natureza, devido suas características físicas e biológicas “animalescas”; às mulheres foram atribuídas as funções de “reproduzir a espécie e raça” (PACHECO, 2013, p. 25-26, grifo do autor).

Dessa maneira, faz-se necessário assimilar o gênero como um elemento constitutivo de relações em que se baseiam diferenças e predomínio de poder entre sexos (SCOTT, 1995). Nesse ambiente, por exemplo, é possível perceber a clara relação de poder estabelecida entre os personagens masculinos para com Cidinha-Cidoca. Ademais, verifica-se, ainda, a objetificação e o desejo lascivo com o corpo da respectiva personagem, uma vez que se pode depreender que o interesse pelo rabo-de-ouro de Cidinha é tão latente que, por diversas vezes, dificultou distribuições de função ou utilidade social a Cidinha-Cidoca que não fosse o sexo. Assim, pontua-se que a personagem é tomada por aqueles homens como somente um corpo desprovido de qualquer habilidade que não fosse sexual.

DORA: MEMÓRIA E TRAUMAS COLETIVOS

Dona de um corpo enlouquecedor e dos mais diversos encantos, a personagem Dora, assim como Cidinha-Cidoca, é amplamente conhecida entre moradores da favela, afinal, “tinha uma voz alta e melodiosa. O corpo era melodioso também” (EVARISTO, 2017, p. 90). Na narrativa, incipientemente, Dora é apresentada de maneira sensual, pois trata-se de uma mulher mulata demasiadamente bonita e, portanto, admirada pela sua nudez negra e corpo tentador (EVARISTO, 2017, p. 90), no entanto, no avançar do romance a respectiva personagem “sinaliza a desconstrução de estereótipos negativos da mulher negra e aponta para a elaboração de uma nova história, afinal Dora é a única personagem que se mostra independente e emancipada” (SANTOS, 2016, p. 134).

A morada de Dora é, porventura, um dos locais mais visitados da favela, haja vista que “seu barracão era bem na esquina de um beco que se bifurcava em três becos que originavam outras ruelas. Passar na porta de Dora era um caminho obrigatório para quase todos” (EVARISTO, 2017, p. 90). Assim, justifica-se, pois, a popularidade da personagem que se dá, essencialmente, pelos seguintes motivos: mulher negra e sensual, passagem quase obrigatória pelo barraco de Dora e, também, por ser “uma das rezadeiras, das tiradeiras oficiais do terço” (EVARISTO, 2017, p. 90), uma vez que também é descrita no referido romance como “uma mulher que rezava e debulhava o terço, a mesma externaliza suas dores e angústias da sua condição de mulher negra e pobre, e vai deixando seus rastros nas contas do rosário, ou seja, expurgando as dores do passado” (FRÓZ & SANTOS, 2017).

Além do mais, ao analisar a personagem Dora enquanto uma das mulheres mais independentes, emancipadas e desconstruídas dos estigmas sociais nos quais são envoltas as mulheres negras na atual conjuntura da sociedade, percebe-se que se entrelaçam outros personagens, simultaneamente, com a história de Dora, em especial Negro Alírio, pois considera-se que ele participa ativamente do processo de desconstrução pessoal de Dora, bem como se deixa ser igualmente desconstruído por meio das histórias e memórias do presente e passado da referida personagem.

Nesse sentido, Evaristo (2017, p. 92) assinala que o amor e a amizade rápida renasceu entre os dois, uma vez que “entre goles de café e mordidas de biscoitos, a vida, a história dos dois foi sendo colocada. Cada qual tomava a vida do outro, que já não era do outro, e sim também sua” (EVARISTO, 2017, p. 92). Além disso, é evidente o encanto que Dora nutre por Negro Alírio e suas respectivas qualidades evidenciadas nas dependências do romance, desse modo, observa-se que dentre muitas particularidades atribuídas ao Negro Alírio, a que mais lhe cativa e a faz sentir-se boquiaberta é o fato do negro saber ler e escrever, afinal, “imagine só, um homem tão pobre quanto ela, tão simples e que sabia ler, conhecia poucas pessoas negras que soubessem ler” (EVARISTO, 2017, p.133).

Ademais, depreende-se que os relatos pertinentes a Dora, bem como Maria-Nova, Cidinha-Cidona, Maria-Velha e Tio Totó (dentre outros personagens pautados em Becos da Memória) são marcados por situações catastróficas em relação ao seu passado, que moldam de forma negativa o presente desses moradores. Nesse sentido, constata-se que os traumas da vida do sujeito negro (a), naquele momento compartilhados por todos os habitantes da favela, compactuam diretamente para o espanto que a existência de Negro Alírio lhes causava, afinal, em um sistema de opressão disparada, o que o opressor menos espera é que o oprimido se volte contra a máquina opressora e, Negro Alírio, por sua vez, se opusera às situações que lesavam daqueles indivíduos aquilo que eram deles por direito, momentos que feriam, consequentemente, suas identidades negras.

Nesse contexto, consciente de seus direitos e deveres, Negro Alírio falava orgulhosamente de sua negritude pelos becos da favela, a cativar ainda mais a personagem Dora, quem gostava de ouvir da boca de um homem preto a própria palavra n-e-g-r-o ser pronunciada, já que estava acostumada e conhecera o termo sendo empregado geralmente em contextos pejorativos, como “negro safado, negro filho da puta, negro baderneiro e tantos defeitos mais” (EVARISTO, 2017, p. 133).

Além de tudo, ressalta-se que a relação de Dora e Negro Alírio é representada no romance como a conservação da memória coletiva. A história dos dois enquanto casal é, na maioria das vezes, um resgate do que ambos vivenciaram no passado. Desse modo, em umas das frequentes conversas entre Dora e Negro Alírio, a personagem relembra sua adolescência, especificamente suas experiências, por vezes nefasta, com a maternidade:

Dora relembrou com lágrimas nos olhos, as brincadeiras de roda, a mão fazendo quitutes das patroas. O pai que sairá pelo mundo afora. O menino que ela tivera e entregara ao homem com quem deitara uma vez só e criara barriga (EVARISTO, 2017, p. 92).

Assim, é pertinente considerar que Becos da Memória  (2017) é um romance cujos fios soltos da memória de Conceição Evaristo vão se entrelaçando de forma a problematizar questões referentes ao que é ser negro Brasil. Neste contexto, a história da personagem Dora abre margens para discussões que abarcam a dinâmica feminina em torno da maternidade, em especial para mulheres negras e de baixa classe social, afinal, “filhos quase sempre vem sem querer. E a mulher sempre carrega tudo. Carrega a barriga e as dificuldades” (EVARISTO, 2017, p. 132). Abrange também discussões referentes à passividade feminina em relação ao sexo, afinal, desde nova, quando os seios ainda não lhe enfeitavam o corpo, a mulher “já se permitia com os moleques de sua idade. Aprendeu cedo a deixar a passividade da mulher que só recebe a mão do homem sobre si e começou a vasculhar o corpo dos homens” (EVARISTO, 2017, p. 93).

Para Vasconcelos (2017), “na narrativa e na poética de Conceição Evaristo, a diversidade das situações que envolvem a maternidade demonstram a reflexão e a observação da complexidade desse papel na sociedade brasileira”, o que significa dizer que na literatura evaristiana são expostas as dificuldades que a maternidade apresenta para a mulher, sobretudo quando se pensada no contexto do problema de classe social e raça. As reflexões de Dora, por exemplo, em torno da maternidade para mulheres negras de baixo poder aquisitivo, evidenciam o fato desse fenômeno não ser tratado por Conceição Evaristo, nas dependências de Becos da Memória (2017), sob a ótica romantizada que assume na literatura mais tradicional (VASCONCELOS, 2017), pois são reflexões que expõem o medo do abandono, da fome, da violência, da escassez de oportunidades e de um futuro incerto.

Além disso, nota-se que os demais personagens da obra, em muitos diálogos, reforçam o fato de que quando a maternidade não é desejada torna-se uma incumbência tão somente da mulher, afinal, ela que terá que oportunizar condições dignas à criança. Ademais, observa-se os traumas de uma vida de miseráveis oportunidades; racismo, discriminação, xenofobia, machismo, opressão e restrição sexual da mulher e outras mazelas sofridas pelos moradores da favela são sentidos em coletividade. No entanto, verifica-se que Dora apropria-se de determinadas situações para viver e pregar a independência aos demais personagens, de modo que a realidade em que são submersos não as fadem ao fracasso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Becos da Memória (2017) é um romance cujo enredo pode ser vislumbrado sob diferentes óticas. A princípio, pode-se perceber a construção da obra ser tecida a partir do princípio da formação dos povos negros do Brasil, bem como do período escravocrata e momentos póstumos ao abolicionismo. Além do mais, a vida cotidiana de mulheres negras que vivem em situação de subalternidade é paulatinamente explorada por Conceição Evaristo no corpus debruçado, a levar-se em consideração o fato de que, ao longo da história, mulheres de cor negra foram passivas de uma série de conflitos relativos à sua imersão efetiva na sociedade, na literatura e na dita história oficial. Em Becos da Memória (2017), Conceição Evaristo encontra-as em posição de subalternidade e transforma-as em mulheres ativas, críticas, conscientes de si e dos outros. Afinal, é inegável que as mulheres negras foram – e ainda são – severamente vítimas de uma série de violências no decorrer da história, no entanto, a escrita dessa autora na literatura brasileira atesta que essas mulheres foram e são símbolo de resistências.

Além disso, pode se considerar, também, por se tratar de uma escrevivência em que parte da narração é ficção e a outra realidade, que Conceição Evaristo é tomada, neste sentido, como subsídio para potencializar vozes de mulheres negras que vivem subalternizadas, julgadas, à margem da sociedade. Sendo assim, a autora se dedica, em seus escritos, a idealizar ao mundo uma imagem positiva da mulher negra, consequentemente uma desconstrução dos estereótipos que lhes foram impostos.

Outro ponto a ser considerado é a forma com que as mulheres de Becos da Memória (2017) foram observadas e descritas. Embora muitas dessas mulheres não mais tivessem melhores expectativas de vida, fossem entregues aos desejos ilícitos, coisificadas em virtude de sua nudez negra, entre outros fatos, em nenhum fragmento do romance tais personagens foram julgadas ou vislumbradas como passivas de comportamentos imprudentes, pelo contrário: Conceição Evaristo materializa-as de forma a conseguir entendê-las.

Além do mais, salienta-se que a favela onde residem essas mulheres influencia diretamente na maneira em que elas se autocompreendem enquanto mulheres negras. Por diversas vezes percebe-se, no romance analisado, personagens femininas da favela em regime de comparação em relação às mulheres do bairro nobre, situado ao lado da periferia em questão, o que reforça a equivalência entre favela e senzala, casa-grande e bairro nobre. Nesse sentido, é no ato da comparação que as mulheres de Becos da Memória (2017) percebem as discrepâncias de oportunidades, privilégios e diferenças sociais e culturais que existiam entre mulheres negras e periféricas em relação às mulheres brancas não marginalizadas.

Diante disso, nota-se que o contexto de escrita de Conceição Evaristo em Becos da Memória (2017) é marcado por um período de repreensão da liberdade do sujeito negro no seu mais amplo aspecto, desde a formação cultural do Brasil. Assim, é por meio da história e memória que a autora revisita o passado, promovendo, então, reflexões que possibilitam uma compreensão vasta do presente: das desaprovações que ainda violentam, estigmatizam e excluem o corpo negro, com isso, tornando possível afirmar que a linguagem empregada na literatura evaristiana legitima uma identidade aos grupos minoritários e excluídos, esses que a sociedade tanto tenta invisibilizar.

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