Celso da Cunha Magalhães, escritor, dramaturgo, romancista, promotor público e principalmente poeta, nasceu no ano de 1849 na cidade de Viana, localizada no estado do Maranhão. Cresceu em uma fazenda de escravos, “rodeada de quilombos e do contato com insurreições de cativos”, controlada por seu avô materno, com quem passou a morar junto desde cedo, sendo também o responsável pelo financiamento de seus estudos e viagens. Aos 17 anos de idade, presenciou uma enorme insurreição de escravos ocorrida em Viana, naqual visitou a delegacia local e registrou informações sobre o conflito entre tropas oficiais e quilombos, algo que propiciaria mais tarde a criação de um de seus grandes poemas: Os Calhambolas. “Embora observasse todos esses fatos a partir da casa-grande, Celso optou desde cedo pelo questionamento do regime servil” (Costa, 2017, p. 226).
Em 1868, viajou para o estado de Recife, cuja faculdade de direito foi palco para sua formação intelectual, onde passou a publicar textos em jornais como O Trabalho e Semanário Maranhense, além de refinar seu trabalho poético iniciado desde o início de seus estudos no estado do Maranhão. Participou do grupo histórico-literário conhecido como Escola de Recife, ao lado de Tobias Barreto, Silvio Romero e muitos outros escritores proeminentes do século XIX. Encontrou na vivência em Recife “todo um caldo de teorias cientificistas capaz de realçar convicções germinadas antes de sua formação acadêmica” (Costa, 2017, p. 223), principalmente o evolucionismo e o positivismo.
No campo político, absorveu as críticas ao regime monárquico, refletidas principalmente em seu ousado poema Osório, que não só carregava umdiscurso explicitamente abolicionista, como também anunciava a queda do Império. Foi recitado em 1870, numa cerimônia formal para o general Manuel Luís Osório, conhecido como Marquês do Herval, grande figura na Guerra do Paraguai (1864-1870), o qual tomou a fala do poeta antes que a situação se agravasse.
Celso concluiu sua formação e retornou a seu estado em 1873, sendo nomeado como promotor público de São Luís a partir do ano seguinte. Em 1876, o promotor se esforçou em tudo que havia ao seu alcance para levar ao banco dos réus a importante dama Ana Rosa, que anos depois se tornaria a Baronesa de Grajaú, acusada do homicídio de um menino escravizado em sua casa. Lamentavelmente, Ana Rosa obteve absolvição, e Celso sofreu as consequências de sua atuação no processo em 1878, sendo destituído de sua função e inviabilizado de continuar atuando no direito. O escritor viria falecer um ano depois, em 1879, acometido por um mal súbito.
Celso Magalhães foi um escritor ligado às causas abolicionistas, pois além do exposto, seus principais poemas de onde teve relativa projeção nacional, “O Escravo”, “Os Calhambolas” e “Osório”, publicados em seu acervo de poemas Versos (1870), são de caráter abolicionista, mesmo que de formas distintas. Sua crítica ao cativeiro nasce desde sua infância e recebe respaldo nas teorias que absorveu. Seu sacrifício como promotor para resolver a injustiça que observou também reforça isso, além das histórias narradas sobre si. Não obstante, foi nomeado patrono da Cadeira 05 da Academia Maranhense de Letras.
No entanto, suas visões cientificistas soam certamente contraditórias às suas ações, que tiveram espaço quando Celso Magalhães produziu uma de suas, se não, maior contribuição literária de sua carreira: A Poesia Popular Brasileira, de 1873, escrita e publicada pelo referido poeta maranhense.
Originalmente, foi uma série de dez artigos publicados no jornal acadêmico supracitado O Trabalho, em Recife, de abril a setembro daquele ano. Celso teria deixado mais estudos em vida, ampliados em livro e lamentavelmente entregues ao seu amigo e romancista Inglês de Souza para publicação em 1878, o qual acabou perdendo o texto, que se extraviou (Lopes, 1967). Os artigos permaneceram quase que exclusivos às folhas do jornal durante quase 100 anos, passando por alguns entraves conforme descrito no prefácio deste livro. Foi apenas em 1973 de fato que a Biblioteca Nacional forjou uma nova edição da obra, fazendo algumas atualizações ortográficas e tipográficas para a época, além de melhorias na organização das fontes citadas por Celso e da inserção de notas esclarecedoras de Braulio do Nascimento, especialista em romances e contos populares. Traz também dois textos de apoio: uma apresentação escrita por Wilson Lousada e um longo prefácio por Nascimento, que enriquecem o conjunto.
A importância do livro em voga se deve ao seu caráter desbravador, dotado de incontestável pioneirismo nos estudos da cultura popular no Brasil, pois devemos à Celso Magalhães o início da pesquisa em literatura oral no país (Nascimento, 1973, 2004; Costa, 2015). Como se deve imaginar, Magalhães não foi impecável em sua produção, e por ter se imiscuído demais das teorias que adotou em Recife, ele perdeu valor em algumas de suas análises, principalmente no que diz respeito aos elementos africanos e indígenas, os quais negou terem contribuições para nossa cultura.
Conforme explicou Sílvio Romero, conterrâneo da Escola de Recife, o poeta teria sido vítima de um exagero reacionário de época, excedendo-se em seus textos, pois o autor dava toda a importância ao princípio da raça no estudo das criações literárias, mas que “desdenhando duramente o caboclo e o negro, ficou desconhecendo o mestiço, e perdeu assim a melhor base que poderia encontrar para o desenvolvimento de sua teoria” (Romero, 1888, p. 48-51). De modo semelhante, Jean Yves-Mérian afirmou que Celso não fez essas considerações por racismo, mas por convicção filosófica, e que mesmo “convencido da inferioridade dos negros, lutou por sua emancipação, libertação e educação até sua morte em 1879” (Mérian, 1974, p. 15-17).
Os erros de Celso Magalhães quanto à questão seriam tirados a limpo por outros estudiosos posteriores, como o próprio Romero, que não tirariam seu valor nem seu esforço hercúleo, pois seu trabalho com os dez artigos não se resume a isso. Foi o primeiro grande trabalho de sistematização dos conhecimentos que se tinha na época do romanceiro tradicional brasileiro, das lendas, de alguns costumes e das poesias populares, e dado o contexto em que fora produzida, existe mérito igualmente exigente no trabalho. Quanto às dificuldades, afirma Magalhães nos parágrafos iniciais:
A extensão deste nosso império, os dispendiosos e difíceis meios de transporte de uma à outra província, a falta completa de documentos em nossas bibliotecas e arquivos, a má vontade dos guardas desses pacíficos remansos de traças, tudo isso mete medo a quem quiser se dar ao trabalho de estudar, colecionar e beber na tradição oral do povo os fragmentos de todos esses romances, xácaras, profecias e cantigas que formam o corpo do Romanceiro Brasileiro (Magalhães, 1973, p. 31).
Tal qual foi a sua ousadia e coragem ao recitar textos abolicionistas e levar aos réus uma assassina de escravo, Celso Magalhães arregaçou as mangas e trabalhou duro em suas pesquisas da literatura oral brasileira há mais de dois séculos, ao mesmo tempo em que continuava sua formação e produção literária.
Recomenda-se a leitura deste texto, tanto pelo seu pioneiro trabalho a respeito do folclore brasileiro quanto pela figura do grande escritor, cuja obra tão subestimada merece mais atenção do público.
REFERÊNCIAS
Costa, Yuri Michael Pereira. Celso Magalhães e a justiça infame: crime, escravidão e poder no Brasil Império. Orientador: Paulo Roberto Staudt Moreira. 2017. Tese (Doutorado em História) – Universidade do Vale dos Sinos, São Leopoldo, 2017.
ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a poesia popular do Brasil. Rio de Janeiro, Typ. Laemmert, 1888.
NASCIMENTO, Braulio do. Celso de Magalhães: Pioneiro dos Estudos de Cultura Popular no Brasil. In.: Comissão Nacional de Folclore; Comissão Maranhense de Folclore. Anais do X Congresso Brasileiro de Folclore. São Luís, 2002.
MÉRIAN, Jean-Yves. Celso Magalhães, poète abolitionniste. In.: Cahiers du monde hispanique et luso-brésilien, n°22, 1974. Numéro consacré au Brésil. pp. 7-39.
Magalhães, Celso. A poesia popular brasileira. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1973.