Intertextos onde o mar acabou e a terra espera: os desdobramentos da guerra colonial e da revolução dos cravos em As naus

Rodrigo Corrêa Martins Machado

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 14, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Universidade Federal de Viçosa
Viçosa, Minas Gerais.
rodcorrear@hotmail.com

RESUMO: Nos romances de António Lobo Antunes há a reflexão acerca dos problemas sociais, além da revisitação crítica à História de Portugal e dentre outras coisas, o apontamento de importantes possibilidades de reflexão acerca da vida na contemporaneidade. Em As Naus (1988), encontramos uma releitura do processo histórico, mediante a qual a experiência do ser humano com a temporalidade é recriada/ reinventada, afim de que haja novas possibilidades de repensar Portugal pós-colonial. Para a elaboração desta pesquisa, partimos da leitura e compreensão de textos críticos a respeito do diálogo entre Literatura e História. Nosso estudo objetivou analisar o romance As Naus de Lobo Antunes, como obra exemplar para a reflexão acerca das relações interdisciplinares entre a Literatura e a História. Dessa forma observamos que As Naus revisita o passado português, a fim de lançar um novo olhar, que vise, principalmente, fazer com que os portugueses em geral tomem consciência de sua condição como Império fracassado e falido, para que dessa maneira, possam repensar suas ações.

PALAVRAS-CHAVE: António Lobo Antunes; As Naus; Romance Português Contemporâneo.

ABSTRACT: In Antonio Lobo Antunes’ novels, there’s a reflection on social problems, and a critic revisitation to the history of Portugal and among other things, the noticing of important possibilities of reflexions concerning the life in contemporaneity. In The Return of the Caravels (2003), we find a rereading of the historical process through which the experience of human been with temporality is recreated / reinvented, aiming to rethink Portugal’s post-colonial history. In order to elaborate this research, we started from the reading and comprehension of critical texts on the dialog between Literature and History. Our study aimed to analyze the novel As Naus by Lobo Antunes, as a great work to the reflexion concerning the interdisciplinary relationships between Literature and History. In such way we observed that As Naus revisits the Portuguese past, aiming to create a new look, that aims, mainly, to give the Portuguese people in general the consciousness of its condition as a failed and broken Empire, to rethink their own actions.

KEYWORDS: António Lobo Antunes; The Return of the Caravels; Contemporaneous Portuguese Novel.

 

1 A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS, O ROMANCE PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO E ANTÓNIO LOBO ANTUNES.

Quando se começa a escrever um livro (…) o que interessa é a vida e como chegar às emoções através das palavras.
António Lobo Antunes

A Revolução dos Cravos foi um grande momento histórico-cultural para Portugal, na medida em que este país se libertou de um regime opressor – o salazarista -, que obrigava a todos a se submeterem a uma política subversiva, principalmente, porque no período em que o Salazarismo era vigente, o Estado e a Igreja – duas entidades caracteristicamente dominadoras – se uniram para controlar todas as esferas da vida portuguesa, através da repressão e da censura. No que diz respeito aos pensadores, filósofos e escritores, não era tolerado nenhum tipo de oposição em relação ao novo governo estabelecido no poder.

A literatura, juntamente com os meios artísticos em geral, sofreu represálias durante o período relacionado ao governo ditador em Portugal, o historiador Lincoln Secco (2004, p. 95) nos aponta ações relacionadas à censura:

As manifestações de descontentamento, na área da cultura e da política, existiram e exerceram seu impacto na opinião pública. Mas era, essa crítica urbana e diminuta e quase sem nenhum poder de pressão. Quando algum intelectual levantava a voz contra o regime, era severamente punido.(…) É verdade que [o governo] controlava a Universidade  e usava o instrumento da censura.

A única saída vista pelos intelectuais para expressarem seu descontentamento com o governo era escrever de forma metafórica, como ocorria. É importante ressaltarmos que mesmo antes da rebelião popular, os autores lusitanos já manifestavam, de forma plurissignificativa e metafórica, seu descontentamento em relação ao regime em seus escritos, para obterem a concessão de circulação de seus livros (e idéias).

Outro motivo que alimentou o desprazer da população em relação ao regime ditatorial foi a luta contra as colônias africanas, uma vez que os interesses que cerceavam tal guerra não pertenciam ao povo português e sim ao governo totalitário. Para muitos portugueses ficou claro que, por um lado, o governo salazarista lutava pela manutenção das colônias e, por outro lado, os africanos buscavam a independência de seus países. Esses fatos geraram questionamentos acerca da guerra em parte da nação portuguesa, possibilitaram que muitos refletissem sobre a prostração a que se submeteram durante os 41 anos de vigência do regime político autoritário.

O descontentamento da população em relação ao Salazarismo desencadeou um movimento rebelde e contrário a esse regime, que alcançou seu clímax no dia 25 de Abril de 1974. Nesse dia houve uma Revolução, nascida inicialmente entre os militares descontentes com o regime em vigor. Nesta perturbação moral dos portugueses em relação ao poder político, buscava-se a libertação do regime, com a possibilidade de mudança político-econômica, além do fim da guerra inútil empreendida contra as colônias africanas e a extinção da censura, o principal órgão a impedir a livre circulação de idéias pelo país.

Após a Revolução dos Cravos e a queda das amarras antes impostas pelo sistema opressor, os escritores portugueses se empenharam em busca de uma revolução na escrita, que proporcionasse aos artistas demonstrar e discutir todos os erros e acertos da sociedade portuguesa pós-revolução.

A revolta em Portugal implicou na independência das colônias da África. Esse fato também ecoou na mente dos portugueses, na medida em que o país deixara de ser aquele Império amado, a pátria que antes era caracterizada por sua riqueza e vastidão territorial ficou reduzida a uma pequena porção de terra na Europa. A terra lusitana e seus moradores perderam o prestígio, a centralidade a qual eram vinculados anteriormente, isto é, o país deixara realmente de se vincular à ideia de um local de central importância para o mundo, lugar de onde antes vinham inovações e sucessos, os quais tentavam ser copiados pelos demais povos. Portugal se (re) analisava, como nos apresenta Eduardo Lourenço (2002, p. 349):

Como se nesse momento (…) entre 75 e 80, Portugal, a consciência portuguesa, a imaginação portuguesa, o imaginário português quisessem desenhar um outro mapa, quisessem saber quem eram, em que país estávamos, que país nos tínhamos tornado com a perda desse Império que nós pensávamos que fazia parte integrante da História portuguesa há séculos. Um Império que não era apenas uma excrescência da realidade portuguesa, mas que os portugueses pensavam que era o centro da realidade portuguesa. Pelo menos centro simbólico, porque, quando esse Império realmente desaparece, Portugal, durante algum momento, pensou que não tinha só voltado metaforicamente ao século XV, donde tinham partido as caravelas, mas que nós estávamos perdidos no tempo sem saber exactamente quem éramos e, talvez mesmo, quem tínhamos sido.

A partir desse fato, ficou visivelmente abalada a questão da identidade do país e daqueles que nele viviam, que se perguntavam acerca do que seriam a partir daquele momento. Dessa forma observamos que outro grande problema surgido na pós-modernidade, que abrange o romance contemporâneo em Portugal, é o problema da identidade, tanto coletiva quanto individual, uma vez que os romances contemporâneos ora representam uma desmistificação do passado, trazendo ao presente verdades escamoteadas, ora apresentam a procura de si feita pelos homens de maneira mais profunda, no interior da alma. O que é proposto em As Naus nada mais é que a construção de uma nova identidade no presente.

Lincoln Secco (2004) postula uma questão de grande importância, a Revolução dos Cravos em Portugal, não se iniciou em Lisboa de forma alguma, e sim na África Esta afirmação se justifica, porque caso os rebeldes africanos não tivessem insurgido com armas e lutado por independência, que conseguiram após derrotarem os portugueses, os soldados colonialistas não enxergariam problemas nas colônias.

Exatamente o elo mais fraco no Império desencadeou a crise, além do mais, tal colapso foi responsável por apagar da História do país os elementos até então mais prezados pelos portugueses o Império e o mar. A crise que se instalou em terras lusitanas após a independência de suas últimas colônias se estende até os dias atuais, com reflexos inapagáveis não só na História, como também na economia do país (SECCO, 2004).

Provavelmente, pela grande fragilidade político-econômica a qual o país enfrentava no momento, não houve muita resistência na queda do governo. Dessa maneira, a Revolução dos Cravos insurgiu como uma forma de reabilitar Portugal, de tratar as saídas necessárias para depois do fim do Império, que antes mesmo de cair oficialmente já agonizava.

Por outro lado, a euforia da reconstrução e mudança trazidas pelo contexto pós-revolução teve uma efêmera duração, pois alguns anos após o acontecimento revolucionário, o governo português voltou às mãos da camada social conservadora. Houve, dessa maneira, certa estagnação populacional no que diz respeito ao contínuo processo de mudança e encontro de uma nova identidade.

A nova escrita que surgiu na sequência à Revolução de Abril, não é mais velada, nem com a carga metafórica e temática anterior, surgiu uma literatura libertadora, com a possibilidade de questionar tudo que se relacionasse à História e ao caminho percorrido por Portugal durante séculos, inclusive a questão da identidade que teria que ser (re) pensada. As discussões acerca da identificação portuguesa criaram um importante foco de discussões fomentado pelos grandes escritores lusos, como António Lobo Antunes e José Saramago.

A narrativa buscou se opor aos fatos históricos, aos acontecimentos e fez isso na medida em que desmentia o que a História antes havia postulado como o correto e definitivo. E nos perguntamos por que é que a ficção buscou desmentir a História? Uma resposta plausível e aceitável, a qual António Apolinário Lourenço (1991) se refere, consiste no fato de que as pessoas principiaram a perceber que a História oficial disseminada pela ditadura era passível de uma dura desconstrução. Após abril de 1974 houve necessidade de se buscar uma verdade mais condizente com a realidade daquele país e que explicasse, de certa forma, todo aquele tempo ao qual os portugueses se subordinaram ao regime salazarista.

Surge após a Revolução de abril, a escrita de Metaficções Historiográficas – uma definição criada por Linda Hutcheon (1991) para caracterizar as narrativas de tema histórico nascidas no contexto pós-contemporâneo. A metaficcção nasce da junção da literatura e da História, consistindo no ato de repensar o fato histórico e buscar um novo sentido à História anteriormente conhecida.

Hutcheon (1991, p. 144) afirma que:

A interação do historiográfico com o metaficcional coloca igualmente em evidência a rejeição das pretensões de representação “autêntica” e cópia “inautêntica”, e o próprio sentido da originalidade artística é contestado com tanto vigor quanto a transparência da referencialidade histórica.

Nos romances de António Lobo Antunes, “História e ficção acabam por se situar num mesmo plano, já que a verdade daquela pode ser tão ilusória quanto verdadeira poderá ser a ilusão desta” (REBELO 1993, p. 33). A presença de elementos como a ironia, a paródia e o sarcasmo são relevantes para reinterpretar as figuras e os episódios de um passado nunca antes questionado e de realidades e situações também não expostas anteriormente, talvez por motivo da repressão ou ainda porque as pessoas já se acostumaram com certas situações que até hoje são vistas como normais, como a exploração dos mais pobres. O romancista mostra a sua versão da História, critica as repressões, explorações, questiona o autoritarismo de instituições como a Igreja, o Estado, a Nobreza, e, além disso, questiona a capacidade humana de ignorar o real que desagrada, que sai dos trilhos que dizem respeito ao desejado.

Como nos é dito pelo próprio Lobo Antunes em entrevista a José Jorge Letria, em seus romances ele desejou tratar e retratar os problemas da Guerra Colonial abrangendo muito mais que somente os percursos e dificuldades concernentes a ela, mas as conseqüências morais sofridas por toda população envolvida no conflito, inclusive, senão mais importante, o sentimento de perda de identidade e a percepção de se não pertencer mais a lugar algum que perpassaram por todos que obrigatoriamente volveram a Portugal, como observamos na seguinte passagem:

[…] Existem já muitos romances que afloram o problema da guerra. E esse problema não é só da guerra em si, dos mortos e dos feridos. É também o problema das nossas vidas ao voltar. No regresso não t[í]nhamos [sic] lugar, não pertencíamos a nada. Trazíamos connosco uma grande insegurança interior. Daí toda onda de divórcios, de nevroses da guerra. Tudo devido ao facto de não se ter raízes em parte alguma. Eu quis, no que já escrevi, dar o drama do regresso, esse terrível flutuar entre duas águas sem pertencer a nenhuma delas. Se se conseguir dar isto com suficiente força as gerações novas poderão ser tocadas para que isso não volte a acontecer. (LETRIA,2008, p. 32).

A preocupação que perpassou o escritor em seus primeiros romances – inclusive As Naus – foi, além de registrar os horrores da guerra, como ele mesmo disse, mas, primordialmente, fazer a população portuguesa despertar para os problemas que ela causou a si mesma, com intuito maior de fazer com que situações de horror como esta não tornem nunca a acontecer em solo português. Seus romances de caráter de Metaficção Historiográfica constituem uma espécie de retorno ao passado, um regresso que traz consigo a desmistificação de vários fatos históricos relacionados à guerra Colonial e até mesmo à toda História Portuguesa.

O pós-colonialismo é retratado pelo autor como algo que aconteceu, foi importante. É paradoxal pensarmos que a perda da guerra para as colônias africanas, significou uma vitória aos portugueses, uma vez que conseguiram se desprender das amarras impostas pelo período salazarista, mas o que Lobo Antunes apresenta é um país que vive essa euforia causada pela perspectiva da mudança e que depois se prostra perante o poder político.

 2 AS NAUS : EXPLANAÇÃO

O que nós temos procurado é a eficácia da escrita, é a possibilidade de como ver e tocar o leitor em relação às questões fundamentais como facismo e a guerra de África.
António Lobo Antunes

Existem três mecanismos responsáveis por essa obra literária discutir com os textos e a História de Portugal, que são Intertexto, Paródia e Carnavalização. O engenho da obra é proporcionado pela intersecção existente entre fatos históricos e engenho literário, por isso, devemos ressaltar a existência desses elementos, na medida em que são os responsáveis pela intersecção entre dados históricos, literários e pela criação de uma obra ímpar dentro da ficção portuguesa contemporânea.

No que diz respeito à intertextualidade, é senso comum falarmos que todos os textos produzidos hoje têm algum diálogo com outros criados anteriormente, “uma obra literária já não pode ser considerada original; se o fosse, não poderia ter sentido para seu leitor.é apenas como parte de discursos anteriores que qualquer texto obtém sentido e importância” (HUTCHEON, 1991, p. 169).

Um autor, ao escrever, acaba por imprimir em sua obra pontos-de-vista e idéias retiradas de textos estudados anteriormente, Linda Hutcheon (1991) ao tratar deste assunto explicita que “esse vínculo formal por intermédio dos denominadores comuns da intertextualidade e da narratividade costuma ser apresentado não como uma redução ou como encurtamento do âmbito e do valor da ficção, mas sim como uma ampliação” (HUTCHEON, 1991, p. 166).

Dessa maneira, não é correto afirmarmos que Lobo Antunes foi o primeiro a pensar e a escrever uma Metaficção Historiográfica, provavelmente ele já havia lido romances históricos, até mesmo outra Metaficção Historiográfica e a partir das leituras por ele percorridas, resolveu então questionar a História oficial portuguesa e lançar um olhar pessoal e crítico sobre o período pós-colonial.

Ao tocarmos nesse ponto, queremos apontar que, ao escrever o autor transpõe para o texto suas ideologias, suas idéias, suas preferências, suas leituras e seus intertextos literários. Mas, o mais importante nesse momento é ressaltarmos os textos e figuras históricas com as quais o autor dialoga na obra As Naus.

A partir da intertextualidade, podemos afirmar que o romance em questão possui elementos da epopéia (através da utilização de figuras que se tornaram lendárias na História portuguesa, que são relembradas devido a sua importância e a seus feitos heróicos) e de outros elementos da História de Portugal, como a Revolução dos Cravos e o retorno dos Portugueses que estavam na África, porém, é considerado como uma antiepopéia, ou melhor, uma epopéia as avessas, na medida em que reconstrói parte da História Lusitana relatando-a como uma espécie de decréscimo, no qual são contados fatos humilhantes pelos quais passaram grande parte dos lusitanos . A passagem a seguir, parte de uma entrevista dada por Lobo Antunes e que se transformou em uma matéria jornalística, corrobora com nossa afirmação acerca do caráter antiepopéico da narrativa em questão:

É uma antiepopéia, o que não subentende embirração para com a apopéia propriamente dita, mas antes <<uma tentativa de dar, sob forma onírica, o retrato deste país, em que o passado e o presente se misturam>>. É assim: partindo do tema dos retornados, desse regresso em massa a Portugal que quase fez adornar, há uns anos, esta nau de pedra e areia, Lobo Antunes conta a sequência lógica do Canto X de <<Os Lusíadas>>, ou seja, o necessário decrescendo que, desglorificando, nos reconcilia e aproxima dos vultos que povoam a nossa memória escolar. Camões, Diogo Cão, Vasco da Gama, Francisco Xavier, Vieira, Pedro Álvares Cabral e muitos mais cruzam-se nas ruas desse modo nas ruas de Lixboa, a capital do reyno, com os seus habitantes naturais da década de 70 do século XX, produzindo {a}o [sic] todo uma sensação de sonho, << a meio caminho entre o real e o fantástico, que é o que este país foi, pois nunca se saberia se aquilo que um dia aconteceu foi mesmo verdade se a gente não vi{}sse [sic] ali os Jerónimos e a Torre de Belém…>>(MARTINS, 1988, p. 21).

O autor de As Naus, também revela que a intenção primeira ao escrever esta narrativa era realmente fazê-la dialogar, talvez dar continuidade à épica camoniana: “depois é que me começou a surgir a ideia de que podia fazer a segunda parte d’ Os Lusíadas: enquanto Os Lusíadas é um crescendo, eu faria o decrescendo”(ANTUNES, 1988, p.1).

A partir desse diálogo com a História e a literatura portuguesas, António Lobo Antunes empreendeu uma ousada meta: rediscutir um país que se mostrava apático, que se comportava como se tivesse perdido seu caráter cultural e social perante o mundo, para redescobri-lo juntamente com busca e criação de uma nova identidade que surgira após a independência dos países africanos e a Revolução dos Cravos.A idéia central do autor é colocar em discussão a volta dos portugueses e o que eles encontraram ao regressar: um país destroçado e destruído por interesses políticos.

O outro elemento de destaque no romance As Naus é a paródia, a qual é relevante para o desenvolvimento da narrativa de Lobo Antunes, uma vez que ao parodiar os textos e elementos da História, ele rediscute a realidade presente.

Através do recurso paródico, o autor faz com que os intertextos históricos e literários sejam vistos como algo que está sendo reelaborado, para que nasça uma nova visão do “mundo” de maneira mais distanciada, e talvez por isso, mais crítica. O autor, ao parodiar, não deseja destruir os vestígios ou o que se conhece sobre o tempo pretérito, “na verdade, parodiar é sacralizar o passado e questioná-lo ao mesmo tempo” (HUTCHEON, 1991, p. 165).

Segundo Carlos Reis (2002, p.24):

O que vem a seguir, desde Explicação dos Pássaros, em 1981, até o romance As Naus, em 1988 (o tal <<ciclo das epopéias>>), desenvolve e aprofunda a indagação de um Portugal afectado por um profundíssimo mal-estar social e civilizacional, mundo e sociedade em desagregação e em ruptura com mitos revisitados em tom de irrisão. Uma irrisão que não dispensa o impulso e o discurso da paródia, em relação a textos e a autores tornados canônicos por uma doxa cultural também visada pelo olhar subversivo do escritor.

O autor de As Naus, ao parodiar os textos históricos e literários (principalmente, a epopéia camoniana Os Lusíadas), não desejou minimizar os textos dos quais retira suas referências. Como disse Linda Hutcheon e concordamos com tal definição, no caso desta obra Lobo Antunes, ele selecionou um período dentro da história para deixá-lo marcado como importante – o sacralizou e o questionou ao mesmo tempo. Discutiu e discute as possíveis verdades suprimidas do discurso históriográfico, que fazem parte da realidade portuguesa e são necessárias para que se reflita acerca de questões referentes à África, à guerra e a Portugal.

Uma discussão que deve ser inegavelmente levada em consideração, diz respeito ao fato de que a paródia funciona também como uma forma de se proporcionar à História e fatos uma nova possibilidade de discussão. Algo que estava esquecido é relembrado pelo autor, de forma que ele não deixa elementos como a miséria e a Guerra na África serem deixados de lado por pessoas que preocupam-se apenas com seu próprio bem estar.

Não menos importante é fomentarmos uma discussão acerca da carnavalização na obra em questão. Primeiramente, é necessário ressaltarmos que o carnaval é importante pois, de acordo com Mikhail Bakhtin:

O carnaval ignora toda a distinção entre atores e espectadores. Também ignora o palco, mesmo na sua forma embrionária. Pois o palco teria destruído o carnaval (e, inversamente, a destruição do palco teria destruído o espetáculo teatral). Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval não se conhece outra vida senão a do carnaval (BAKHTIN, 1987, p. 6).

Podemos relacionar a definição de carnaval bakhtiniana com o texto d’As Naus, na medida em que observamos que, neste romance, nenhum personagem é privilegiado como principal ou mais importante – nem mesmo as personagens históricas – Lobo Antunes abre seu texto a todos e não deixa nenhuma personagem de fora da discussão, todas têm voz e exprimem o que sentem – de acordo com Bakhtin temos um exemplo de discurso dialógico, polifônico. Para Eunice Cabral (2002) a polifonia no romance em análise insere-se em um contexto sociocultural e artístico marcado pelo pós-modernismo, o que acentua as coordenadas de proliferação e multiplicidade. Dessa maneira “As posições tradicionais do centro e das margens alteram-se, sendo que as margens passam frequentemente a ocupar a posição central, visto que o centro perdeu sua importância, a sua legitimidade na economia de representação de mundo” (CABRAL, 2002, p.357).

Nos romances Lobo-Antunianos, os procedimentos narrativos criam uma pluralidade amontoada de visões, há uma espécie de acumulação de experiências e visões, o que impossibilita choques de idéias. A polifonia imprime às obras uma espécie de possibilidade de manifestação de grupos diferenciados, de épocas distintas, cada um vislumbrando a descolonização de uma maneira particular e ao mesmo tempo universal.

Se fundamentando no princípio dialógico/polifônico presente no carnaval, observamos que as figuras que retornam a Portugal no romance Lobo-Antuniano, não apenas são coadjuvantes da História, todos participam ativamente dela, todos têm o momento de contar a sua História e se apresentar.

A carnavalização é responsável pela derrogação das fronteiras temporais, espaciais, genealógicas e sociais, uma vez que, no romance em questão, epopéia e anti-epopéia se cruzam de maneira incessante, nem mesmo as figuras, acontecimentos e outros elementos pertencentes à História deixam de ser atingidos (REIS, 2002).

António Lobo Antunes utiliza-se da carnavalização em seu romance para mostrar que não há figuras privilegiadas em relação ao retorno e à busca identitária. Para isso, ele destrói as barreiras existentes entre as diferentes camadas sociais e até mesmo históricas, para mostrar, de forma um tanto quanto igualitária, a volta dos pobres, ricos, negros, brancos e das grandes figuras históricas. Estas têm um papel paradoxal na História lusitana e no romance em questão, uma vez que da mesma forma que foram exaltados por descobrirem terras novas e proporcionarem a Portugal um domínio imperial, de certa maneira, são também as responsáveis pela queda deste império, já que se não houvessem desbravado os mares atrás de riquezas, de maneira egoísta e descontrolada, talvez, nunca haveria o problema de seu país se apresentar economicamente instável, com altas taxas de desemprego, sem condições de receber de volta aqueles que foram desbravar as colônias na África. O ser português que era comumente relacionado à ideia de Império, de desbravamento, crescimento econômico, riqueza material, domínio sobre outros povos, centralidade na Europa, se perdeu no contexto pós-colonial, como consequencia nenhum português reconhecia os significados que outrora foram relacionados a esta expressão.

As Naus é um romance, no qual o autor buscou e conseguiu recriar uma história a partir do próprio ponto de vista sobre ela, ele conseguiu trazer à tona problemas e personagens que haviam sido excluídos da História, através de uma narrativa onde o passado/ presente, o Histórico/ ficcional se intersectam para questionar e, de certa forma, modificar a visão do português em geral, sobre o processo de formação da História de seu país e as conseqüências deste processo no presente.

3 AS NAUS : ANÁLISE.

As Naus, ao contrário do que pregava Camões, não ressalta a grandeza de Portugal, ao contrário, marca regresso em relação às conquistas de antes.  O retorno significou desapego, impotência e a perda de valores sociais e morais. Com a conservação de nomes e fatos da História portuguesa e (re) elaboração de passagens históricas no romance em questão, Lobo Antunes, transparece, por meio da carnavalização, uma perspectiva negativa, sofrida acerca do pós-colonial destruído. Surgiu, com esta obra, um novo olhar sobre o passado glorioso dos Descobrimentos, que culminou com uma história digna de uma epopéia as avessas, que é o retorno humilhante dos portugueses que um dia foram grandes exploradores das terras pelo mundo afora.

Para representar os que voltam para Portugal, não vemos somente soldados, enfermeiros, médicos e pessoas que haviam se deslocado para a África com intuito de trabalhar, enriquecer, explorar a terra, há a presença marcante e irônica de personagens que fazem parte do imaginário de grandeza português, personagens como: Pedro Álvares Cabral, Luis Vaz de Camões, Francisco Xavier, Manoel de Souza Sepúlveda, Vasco Gama, Diogo Cão, Fernão Mendes Pinto, Dom Manuel, Garcia da Orta, Dom Sebastião, D. João de Castro[1].

Devemos ressaltar a confluência de tempos históricos diferentes em Lisboa do século XX, representados pelas personagens históricas, além de ser relevante apresentar o fato de que, na obra Lobo-Antuniana em análise, estas conviviam a todo o momento com pessoas comuns, que com eles retornavam como A esposa de Pedro Álvares Cabral: a Mulata, a prostituta de Luanda, o Casal da Guiné, dentre tantas outras personagens não apresentadas diretamente, mas representadas pelas supracitadas. É de grande importância destacar que, no romance, a narrativa é apresentada dentro de um período marcante para a História de Portugal: o período pós-Colonial e pós- Revolução dos Cravos.

Algumas das personagens citadas anteriormente têm destaque na narrativa, enquanto outras ficam relegadas a segundo plano. Analisaremos a obra de acordo com o caminho percorrido pelas personagens mais relevantes (Pedro Álvares Cabral, o Homem de Nome Luís, Francisco Xavier, O Casal da Guiné, Manuel de Souza Sepúlveda, Vasco da Gama e Diogo Cão), a partir destas discutiremos os limites e intersecções apresentados entre a História e a Literatura.

A primeira personagem histórica que surge na obra é Pedro Álvares Cabral, figura de grande importância para a História de Portugal, foi um grande navegador, que dentre outras coisas comandou a viagem marítima responsável pela descoberta do Brasil. Em As Naus,este exaltado navegador aparece não mais com tamanha grandiosidade, sua personagem é apresentada como outra pessoa comum dentre os retornados, que vive miséria e desolação ao regressar a terras lusitanas.

No primeiro Capítulo deste romance Lobo-Antuniano, inicialmente nos é apresentada a História da viagem de Pedro Álvares Cabral em direção à África, com intuito de ascensão social, de desbravar e colonizar as colônias africanas. Tal História é narrada paródica e ironicamente, de maneira a resgatar e interpretar episódios e cenários históricos, como notamos na seguinte passagem: “Passando por uma placa que designava o edifício incompleto e que dizia Jerónimos esbarrámos com a torre ao fundo, ao meio do rio, cercada de petroleiros iraquianos, defendendo a pátria das invasões castelhanas”(ANTUNES, 2000. p.10 – 11). Ou seja, há um certo tom humorístico, no qual o autor brinca com o medo e a insegurança dos portugueses, sentimentos que perpassam a obra e História portuguesas, nesta passagem podemos entrever resquícios de guerras passadas – Castelhanos – e conflitos futuros – petroleiros iraquianos.

Cabral é uma figura de confronto explícito entre passado e presente, pois, com o retorno para Portugal, deixou de ser uma personagem histórica amada e idolatrada e se tornou mais um dentre os que retornaram à terra natal, alguém que perdeu o prestígio histórico e compartilha dos medos, inseguranças e péssimas condições de vida com os demais regressados. Ele representa uma perda individual, a qual ele vivencia na nova realidade, é uma perda que envolve também o coletivo, no que se refere à sociedade portuguesa e os problemas causados pela privação das colônias. Como observamos no excerto que a ele se refere:

Tinha demorado uma semana com a mulata e o miúdo na sala de embarque do aeroporto de Loanda, estendidos no chão, enrolados em mantas, roídos de fome e de vontade de urinar, numa confusão de malas, sacos, crianças, soluços e odores, na esperança de vaga para fugir de Angola e das metralhadoras que todos os dias cantavam nas ruas brandidas por negros de camuflado, bêbados de cálices de after-shave e autoridade (ANTUNES, 2000. p. 12).

Durante o romance, não encontraremos referências positivas em relação ao ato de receber de volta os retornados, o próprio Cabral ao falar sobre o modo como foi recebido diz:

Em vez do labiríntico mercado da manhã da partida, a seguir aos palácios das condessas maníacas e aos bares de sombras lúgubres dos estrangeiros anêmicos, em vez da praia do Tejo onde erguiam o mosteiro (…) enxotaram-me para um miserável edifício de cimento com painéis de vôos nacionais e internacionais a pulsarem ampolas coloridas ao lado do free-shop dos uísques (ANTUNES, 2000. p. 12- 13).

Perante a realidade encontrada em Portugal, a personagem em questão e sua família não mais percebiam Angola como um lugar marcado pela guerra, tristeza e humilhação e relembravam com saudosismo o tempo em que lá viveram grande parte de suas vidas, pois os que voltavam não tinham nenhuma riqueza, retornavam ainda mais miseráveis do que quando partiram: “Os que retornavam consigo (…) formavam uma serpente de lamentações e miséria aeroporto adiante, empurrando a bagagem com os pés “( ANTUNES, 2000. p. 13).

Cabral e Família trouxeram apenas lembranças de um passado glorioso e objetos imprestáveis: “Nós três cá fora, no passeio, (…) à espera das mesinhas vindas de Angola como se as caravelas atravessassem as avenidas para nos depositarem aos pés um caixote bolorento de limos baixos (…) com um resto de colchão e uma maçaneta dentro” (ANTUNES, 2000. p. 17 -18).

À procura de estadia, foram todos para o Residencial Apóstolo das Índias, local onde esperavam ser bem recebidos, já que se tratava de um lugar que acolhia os retornados. Porém, tiveram que pagar para se estabelecerem neste lugar de péssimas condições: “Era uma casa arruinada no meio de casas arruinadas”, o que fez com que Pedro Álvares Cabral fizesse alusão à guerra “como se houvesse também guerra aqui” (ANTUNES, 2000. p. 31- 32).

Como estas personagens não tinham dinheiro para pagar pela estadia, houve uma permuta entre comida e estadia para os que chegavam, em troca de serviços sexuais que seriam prestados pela esposa do navegador. Francisco Xavier, administrador do Residencial, somente anuncia: “- A tua esposa vai trabalhar lá em baixo num bar até a contazinha da pensão ficar paga,(…). Se as coisas correrem bem, rapaz, daqui a nada é melhor do que três cinemas em Lourenço Marques” (ANTUNES, 2000. p. 39).

Outra reflexão que Lobo Antunes trás à tona, se refere às maneiras pelas quais os retornados foram explorados. Muitas dentre pessoas que voltaram da África, foram submetidas a condições subumanas de trabalho para sobreviverem, enquanto outras se aproveitaram da situação de desespero destas para se enriquecerem.

No decorrer do romance, mais especificamente no capitulo seis, Cabral, cuida de seu filho e procura por trabalho (uma busca incessante e inútil de emprego), enquanto espera o retorno de sua mulher – que trabalhava como prostituta para garantir comida e moradia ao marido e ao filho.

A exploração dos mais pobres por aqueles que tinham condições de vida um pouco melhores é marcante na relação de Cabral e família com Francisco Xavier. Na medida em que este último utilizava de sua “bondade” para dar morada e a partir daí fazer com que os hospedes sempre estejam em dividas com ele, o que caracteriza quase uma relação de servidão escrava, como observamos na seguinte passagem na qual Pedro Álvares Cabral faz um comentário a respeito de sua condição:

O gordo me obrigava a pagar para aumentar a dívida e manter eternamente ligada aos seus impiedosos compromissos de chulo, de forma que meu débito crescia sem cessar com a força dos pêlos do nariz e das plantas sem nome dos telhados (ANTUNES, 2000, p. 68).

Provavelmente, esta é a representação mais fiel no que diz respeito àqueles que volviam de África e que em terras portuguesas necessitavam de ajuda de terceiros. Estes, falsamente caridosos, ajudavam com a intenção de crescer a partir da desgraça alheia.

Apesar de, no trecho anterior, ser interessante ressaltar novamente a intersecção entre presente e passado, O que queremos destacar é a forma miserável pela qual todos os relacionados ao mar e à expansão passam em Portugal. O desemprego é traço marcante e a miséria consequência de uma expansão desenfreada que culminou na completa desestabilidade e desventura de um país que um dia foi o principal pólo de expansão e progresso no mundo.

Além desse fato, a própria identidade dos que retornaram já não era a mesma, na verdade sequer eles sabiam qual era. A certeza que Lobo Antunes explora é a de que a liberdade em Portugal era utópica e que a vida na África ainda conseguia ser melhor:

Pensou Pedro Álvares Cabral, raios partam a liberdade se a liberdade é isto, quero mais é os meus cabarés de Loanda e as minhas auroras sarnosas de cacimbo, quero os meus musseques de desgraça, quero os meus cheiros de esterqueira de África quando não tinha fome nem vergonha (ANTUNES, 2000, p. 69 – 70).

A ignomínia a qual Cabral se refere, pode dizer respeito ao sentimento vergonhoso daqueles que voltaram para as terras pátrias e nelas se depararam com cenas e condições vergonhosas. Um estado que antes havia sido soberano, passou a ser o local de exploração dos mais pobres e de desleixo com o país.

O navegador, no decorrer da narrativa, foi abandonado pela mulher, que conseguiu encontrar um homem que a sustentasse e lhe desse uma vida luxuosa. Ele, aturdido pela idéia de melhores condições de vida em Paris, conseguiu que ela lhe desse o dinheiro para a viagem e foi clandestinamente para a França, por mãos de atravessadores (Garcia Lorca e Luís Buñel). Pedro Álvares Cabral preferiu ser um imigrante em um país estrangeiro desconhecido, a viver miseramente em sua própria pátria.

Outra figura histórica portuguesa que é relacionada diretamente aos descobrimentos portugueses, ao produzir uma epopéia que cantasse os feitos heróicos daqueles que expandiam suas fronteiras em busca de colônias que lhes possibilitassem acesso a riquezas e crescimento do comercio é Luís de Camões. Além de ser considerado, na contemporaneidade, como um dos maiores poetas portugueses e de toda humanidade, Camões participou e viveu no período de expansão marítima portuguesa, também viajou por algumas colônias e cantou os feitos históricos de seu povo n’Os Lusíadas.

Este poeta de tão grande importância surge como uma personagem neste romance Lobo-Antuniano, exatamente no capítulo 2 como “um homem de nome Luís” (ANTUNES, 2000. p. 19). A História deste em As Naus ocorre como uma paródia, na medida em que ele vive em uma grande anti-epopéia, pois ao retornar não havia elementos dos quais se vangloriar em relação a Portugal ou em relação às condições de vida pelas quais os grandes heróis foram submetidos. Ele passou por uma série de dificuldades, confrontos e incertezas, como nos é apontado na narração do percurso da viagem: “Os balanços do barco derramavam na sua direção o vomitado dos vizinhos, que adquirira um palmo de altura e os obrigava, de meias ensopadas, a agarrarem-se às pegas”( ANTUNES, 2000. p. 20).

O autor de Os Lusíadas, ao invés de viajar com a pompa, luxo que sua fama lhe daria caso voltasse a sua terra nos dias de hoje, traz consigo somente uns rabiscos e o cadáver de seu pai.

A perspectiva da volta de Camões não é totalmente distinta da de Cabral, ele, muitas vezes se apresenta como alguém que aceita o que o destino lhe impôs: volta à pátria fugido da guerra; e também vê seu país como algo destruído a ser redescoberto, como é apresentado por Lobo Antunes na passagem a seguir:

Em África, a contrário daqui, o meu nariz palpava os odores e alegrava-se, as pernas conheciam os lugares de caminhar, as mãos aprendiam com facilidade os objectos, respirava-se ar mais limpo do que panos de igreja, até a guerra civil dar um tiro no velho, me encafuar com o reformado e o maneta dos moinhos num porão de navio, e os perfumes e os rumores das trevas se me tornarem estrangeiros porque ignoro esta cidade, porque ignoro estas travessas e suas sombras ilusórias, porque apenas soletro o porto e as traineiras, presentes de dia e ausentes de noite, sem contar os corvos e as gaivotas excitadas pelo relento do defunto, debicando o crucifixo à procura da carne podre oculta no túmulo de verniz ( ANTUNES, 2000.p. 28).

Nessa comparação que “o homem de nome Luís” faz entre Portugal e África, notamos certo descontentamento do retornado em relação a seu país, nos parece que, para ele, a África, se não estivesse em guerra, seria um lugar mais agradável de passar os dias e as noites. Portugal já não se fazia reconhecível, transmudou não somente a aparência, mas a essência do povo, do governo, já não era como dantes.

A situação na qual o poeta se encontra, chega a ser ridícula, exatamente pela nova perspectiva que a volta não só da África, assim como seu ressurgimento na História apresentam. Ele ressurge para viver todas as misérias e restrições pelas quais os demais retornados vivenciaram, ao ponto de ter o caixão, no qual carregava o defunto pai, revistado por policiais, que procuravam por alguma espécie de riqueza. Estes nada encontram e o escritor na sua humilde e humilhante condição diz: “-Se os senhores pregassem o caixão agradecia: é que não há nada para me sentar no cais enquanto o barco não chega” (ANTUNES, 2000. p. 30).

A visão do homem de nome Luís, a respeito do novo Portugal que encontrara, se contrastava com o que ele imaginava sobre a pátria. Sob a perspectiva dessa personagem – desgostosa com o país, porém mais conformada com a nova realidade do que Cabral – o país estava imundo, a miséria era encontrada a cada canto e a prostituição florescia em cada esquina. A passagem seguinte apresenta Lisboa pelo olhar camoniano:

[…] nunca pensei que Lixboa fosse esse dédalo de janelas de sacada comidas pelos ácidos do Tejo, as vacas sagradas destes rebanhos elétricos, estas mercearias de saquinhos de amêndoas e de garrafas de licor, palavra que imaginava obeliscos, padrões, mártires de pedra, largos corridos pela brisa sem destino da aventura, em vez de travessas gostosas, de becos de reformados e de armazéns nauseabundos (ANTUNES, 2000, p. 92).

A pátria com fartura de riquezas e prosperidade, que Luís de Camões retratou em sua epopéia, ruíra, e levara consigo todos os rastros de beleza e encanto, de força e coragem, de bravura e alegria de viver. Portugal nos lembra mais uma cidade sem moradores, uma vila fantasma, mas tudo isso é resultado da perda das colônias, que não somente tirou terras que “pertenciam” ao país (ao menos hipoteticamente), mas também o sentimento de grandeza que os que ali viviam alimentavam.

Camões, arrastando os restos mortais do pai, em busca de um cemitério para o enterrar, vaga pela cidade até o momento em que vê um funcionário, do local onde ele se encontrava, a esplanada, esquecer a esferográfica e um bloco de somas, dos quais se apropria para iniciar a escrita de seu poema heróico.

Neste ponto, vale ressaltar a paródia que Lobo Antunes faz em relação aos dados históricos sabidos a respeito de Luís de Camões, pois como aponta Maria Alzira Seixo (2002):

[…] neste caso, consistindo a paródia em movimentos hiperbólicos dos dados factuais transmitidos (a pobreza extrema do ultimo período de vida do poeta, a vocação da escrita, a excentricidade botanista, a falta de senso do rei) e em derivados fantasiados; e, no plano da grandeza e do tratamento da figura como modelo (SEIXO, 2002, p.175).

Sabe-se também que durante o tempo de escrita de Os Lusíadas, o país cantado e exaltado não vivia um bom momento economicamente, o autor, então, desejava deixar grafada uma história de conquistas e grandeza, além de alguma forma incitar o povo a expandir as fronteiras da pátria. Talvez, levando em conta os fatores históricos, essa escrita do poema épico n’As Naus pode representar uma forma de deixar grafada a História gloriosa de uma pátria, História essa que se perdeu, mas que de alguma forma pode lembrar aos remanescentes o que eles já foram no passado, e, dessa forma, contribuir para pensar o futuro.

Devemos tomar nota da forma como Lobo Antunes parodia o fato de Camões escrever seu poema, apresentando este escritor como alguém que vive uma vida ultra miserável, sem ao menos um pedaço de papel para escrever, como se observa no trecho seguinte: “O homem de nome Luís emendava, na toalha de oleado do almoço, amores desastrosos de aias e de reis” (ANTUNES, 2000, p. 163).

O poeta, em As Naus, fez permuta dos restos mortais de seu pai por um local para dormir e passar os dias, já que não tinha dinheiro para pagar um hotel, muito menos para comer. Porém, sendo a casa de Garcia da Orta, na qual vivia o homem de nome Luís, invadida por plantas, este retorna novamente às ruas. Como observa-se nas palavras da personagem:

De modo que fui moendo episódios heróicos, parando a tomar notas nas retrosarias iluminadas, até desembocar na praça da minha estátua mãe, com centenas de pombos adormecidos nas varandas em atitudes de loiça e cães que alçavam a pata no pedestal da minha glória, (…) consegui alcançar um troço de escadas entre dois becos (ANTUNES, 2000, p. 166).

O desprestigio dessa figura histórica perante a nova condição pós-colonial portuguesa é altamente demarcado na passagem anterior, na qual a sua estátua, antes tida como símbolo da altivez de um país, apenas é lembrada e visitada por pombas e cães.

Para afirmar ainda mais essa falta de prestigio e a vida miserável a que o escritor estava fadado, ele foi levado a um hospício, juntamente com muitos “que tornavam de África, aqueles cujos corpos conservavam ainda o cheiro e o murmúrio de larvas dos campos de algodão adormecido. Ele ainda “foi presenteado com uma cama em pedaços num pavilhão cercado de macieiras e ervas ruins”(ANTUNES, 2000, p. 235).

No sanatório, o homem de nome Luís, foi abordado por um louco que o convidava para fugirem dali e irem para Eiriceira ao encontro de D. Sebastião. Ele aceitou o convite, convite incerto, porém responsável por uma nova esperança a brotar em sua vida. O que se segue a este episódio relata a maneira como um bando de loucos chegou à praia e ficou a espera do rei. Porém, como nos narra o escritor:

Tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até a linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes das hélices, aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível (ANTUNES, 2000, p. 247).

Dessa maneira termina não só o desenrolar da personagem de nome Luís, assim como a obra Lobo-Antuniana. Este término reflete a atitude que muitos portugueses tinham desde a antiguidade, que é esperar um rei que foi para a guerra de Alcácer-Quibir, que, no imaginário português, não havia morrido e que um dia voltaria para salvar seu país das mãos, inicialmente dos Espanhóis, mas neste caso do desenrolar de um cruel destino, que apagara a História de expansão responsável por um status de grandeza e opulência até então não alcançados por outros países. Como afirma Maria Alzira Seixo (2002, p. 193):

Uma finalização antes de mais opressiva (<<sob>>) mais dubiamente libertadora (porque o significado que traz consigo pode ser entendido como uma espécie de estandarte), e onde o sentido central é o do fogo (<<labareda>>), não em princípio consumidor, mas que alimenta, ou constrói, embora de uma construção maiusculada, como um empório ou outro tipo de império (<<siderurgia>>);”

O retorno de D. Sebastião seria responsável por resgatar não somente um passado grandioso, mas também a identidade de todo um povo. Entretanto, na obra, esse retorno (ou o não retorno) representa uma inútil espera que não ajudará em nada aos que ficaram e que, ao invés esperar alguém trazer uma identidade perdida, deveriam desistir de esperar por ajudas um tanto quanto utópicas, refletirem acerca dos problemas reais presentes e serem responsáveis pela construção de uma nova identificação, que seja condizente com o novo período histórico pelo qual o país passou e pela superação de passados problemas, pensando em um futuro que traga melhores conquistas.

No terceiro capítulo nos é apresentado Francisco Xavier, uma personagem criada parodicamente a partir da figura de um santo católico, São Francisco Xavier, que foi um missionário cristão do padroado português, pioneiro e co-fundador da Companhia de Jesus e considerado pela Igreja Católica como o santo que mais pessoas converteu ao catolicismo desde São Paulo.

Em As Naus, este santo aparece irônica e parodicamente como um “indiano gordo de sandálias” dono do Residencial Apóstolo das Índias, um local destinado a receber os retornados (ANTUNES, 2000. p. 32). Neste local, as mulheres pagavam por suas estadias e de seus familiares se prostituindo e repassando o dinheiro a Francisco Xavier. Outra ação apresentada pelo narrador, que diz respeito a este “santo” é a de abuso, não somente do poder que tinha sobre os que para ele trabalhavam, mas também abuso sexual em relação às mulheres com as quais ele agia como um “cafetão”:

[…] aguardo que as mulheres trepem, encosta acima, das discotecas de vodka marado do Bairro das Colônias e da Luciano Cordeiro, que entrem na pensão tontas de vinho falso, que passem por mim sem me notarem sequer, a fim de estender o braço para a última, para  a mais bêbada e sonolenta e desprevenida de todas, a espalmar contra relevos do balcão, lhe levantar as lantejoilas da saia e lhe lavrar as coxas, à força, numa energia de arado, à medida que a cadeira oscila no soalho, para trás e para frente, a palhinha do assento, até os meus arrancos terminarem ao mesmo tempo que os suspiros do pau, ela alisar o vestido num som de cravos de papel que se mistura com o das asas dos pombos, e eu me afastar, compondo a braguilha, para enxotar o focinho do primeiro cão vadio, surgido da noite a espiar da soleira, no jazigo da Residencial, as múmias adormecidas dos hóspedes. (ANTUNES, 2000. p. 42 – 43).

A respeito dessa personagem, Maria Alzira Seixo (2002) menciona:

Há uma inegável perversão em conferir a S. Francisco Xavier o papel de negociante lúbrico na gerência de uma pensão miserável onde se alojam retornados e onde as respectivas mulheres são exploradas pela mãe indiana, em actuações de prostituição nos bares que vão enriquecer o filho e acentuar a miséria dos (ex) colonos (SEIXO, 2002, p. 173).

A partir desse ponto, vale apontar que a descolonização portuguesa inverteu os papéis da representação histórica vigentes até então, isso fez com que Portugal perdesse sua componente mítica e a seus habitantes foi restituída toda a fragilidade humana, como percebemos em relação à personagem de Francisco Xavier. O retorno histórico deste, o apresentou como um ser humano dotado de aspirações de riqueza e que para isso explora os tão pobres ou menos pobres que ele.

Como vimos anteriormente, Francisco Xavier é, na narrativa, um homem ambicioso que usa os mais pobres e fracos do que ele como ponte para enriquecer. No segundo capítulo dedicado a esta personagem,essa ambição se torna mais visível, principalmente no tocante à sua esposa.

De forma chocante, a primeira informação que ele apresenta sobre a sua mulher diz o seguinte: “A minha mulher, trinta e um anos mais nova do que eu, trocada ao meu compadre por um bilhete de avião para Lisboa” (ANTUNES, 2000, p. 43).

No terceiro capítulo dedicado ao Goês (como é também chamado no livro), conhecemos um pouco mais sobre sua História. Foi parar em Moçambique quando era criado de um marquês, por ter adormecido durante um descanso em terra, perdeu o ancorar do barco deste marquês e neste país teve que ficar.  Depois se tornou sócio em um negócio (comércio de evangelhos) com o Fernão Mendes Pinto e o convenceu a dar sua filha adolescente ao santo, para que se unissem em matrimônio. Como sabemos, mais tarde ele a trocou pela passagem para Lisboa.

Nesta cidade, o padroeiro de Setúbal passou por muitas dificuldades até encontrar novamente Fernão Mendes Pinto, que “à oitava bebida convidou o padroeiro de Setúbal a dirigir uma das sucursais do seu negócio, um edifício destroçado”. Juntamente com sua mãe e com “os descendentes que tivera com barregãs inumeráveis, e isto por luxúria e ignorância, caríssimos irmãos, de que Deus a muito me designa ser eleito” ele se transfere para o prédio e rapidamente cria o Residencial Apóstolo das Índias. Sendo este local destinado a acolher famílias pobres (principalmente as mulheres) e explorá-las no que diz respeito à prostituição (ANTUNES, 2000, p. 104).

Ele ainda profere: “Graças à bênção do pai, um desmesurado rebanho de convertidas à Fé ocupava todos os bairros de Lixboa” (ANTUNES, 2000, p. 106). E depois de bem estabelecido e endinheirado, Francisco Xavier vai atrás da esposa que deixara em Moçambique. Lá chegando vê uma mulher feia, acabada, muito diferente da que deixara, mas mesmo assim diz a ela que a levará para Lisboa junto dele: “-Trabalhar de puta em Lixboa, informou ele a escorrer água suja das abas do casaco. Pode ser que a minha mãe faça alguma coisa de ti (ANTUNES, 2000, p. 110)”.

É paradoxal (e um tanto irônico por parte do autor) pensarmos em uma personagem que a todo momento evoca o nome de Deus  (que se relaciona ao ato de ajudar as pessoas, fazer caridade) e que tem atitudes extremamente egoístas, mesquinhas. O nome escolhido para o local que receberá os retornados remete a ideia de acolhimento, ajuda, mas não passa de uma máscara para o sentido real a que o estabelecimento é utilizado.

Observamos que Lobo Antunes parodia esta figura marcante, não só para a História de Portugal, mas também para a História de Igreja portuguesa. Ao mesmo tempo pensamos que esse fato pode soar como crítica à Igreja, que muitas vezes em sua história, se preocupou em arrecadar dinheiro e ter cada vez mais bens, e para isso não se importou em explorar os que a ela seguiam, além de a religião ter sido utilizada pelos colonizadores portugueses como meio de alienar os povos colonizados, fazer com que não se rebelassem. Na obra de António Lobo Antunes, a crença e a honra são apresentadas como valores coloniais que se perderam, juntamente com a perda das ultimas colônias.

Ao tratar da personagem Lobo-Antuniana Francisco Xavier, Adriana Martins (2002, p. 118) postula:

A condição periférica do império é ainda mais acentuada por essa personagem, quando se considera o facto de ele ser indiano, o que indica que a aventura em Moçambique fora uma tentativa frustrada de sucesso num império cujas fronteiras se estendiam à Ásia. A imaginação do país que se construía após a Revolução de Abril como periferia é mais sinuosa, já que o novo momento políctico, ao contrário do que seria esperado, não representa a rejeição total do modelo imperial no que diz respeito às relações sociais. (…) na exploração a que estão sujeitos os que voltam na sequência do processo de descolonização, e também naqueles que retornam para se converterem em pessoas bem sucedidas e bem integradas na sociedade portuguesa, através da utilização dos mesmos expedientes de corrupção que eram utilizados nas colônias e que promoviam o seu enriquecimento e ascensão social.

No momento em que a estudiosa menciona a palavra corrupção, ela nos remete a algo notável em todo o romance, que são as maneiras que os retornados bem sucedidos, após o retorno, fazem para ascender socialmente em um país abalado pela perda das ultimas colônias e também pela Revolução dos Cravos que ali se deu. Observamos,assim como ela, que o modelo colonial não é totalmente deixado de lado, na medida em que muitos dos retornados utilizam os mesmos mecanismos que antes eram empregados nas colônias para enriquecer, no Portugal pós-colonial – Francisco Xavier representa muito bem essa parte populacional corrupta. Essa personagem aponta, de maneira irrisória e paródica, o fato de que no contexto do retorno a sobrevivência só foi possível através da exploração humana e da marginalidade.

Outras duas personagens principais e estruturadoras do romance em questão são o Casal da Guiné. Antes de iniciarmos diretamente a narrar a passagem destas personagens na anti-epopéia elaborada por Lobo Antunes, é importante apontarmos que a dupla de desconhecidos é criada e mantida na história com intuito de se referir diretamente à descolonização Portuguesa na África. Uma vez que são dois colonos, que trazem consigo todas as dificuldades de abandono da terra ao retorno impactante.

Este casal, como nos é narrado no quarto capitulo do livro, viveu na Guiné tempo suficiente para ver e vivenciar momentos iniciais de colonização, com a dificuldade encontrada para se viver em um lugar desabitado, além de doenças desconhecidas, até mesmo presenciaram a guerra colonial e o pós-revolução enquanto estavam na África e, por causa de tais conflitos, foram obrigados a retornar a sua terra natal.

A mulher foi quem deu o primeiro passo para irem embora da Guiné, ela fez isso quando proferiu: “Já não pertenço aqui” e de maneira um tanto quanto indignada o marido respondeu “Já não pertencemos nem sequer a nós, este país comeu-nos as gorduras e a carne sem piedade nem proveito uma vez que se achavam tão pobres como haviam chegado” (ANTUNES, 2000, p. 54).

Sentimento que perpassou o casal não foi somente o de certo pesar em relação a nada terem recebido em troca de colonizarem um lugar estranho, mas até mesmo de não pertencerem mais a lugar algum, eles nem eram mais eles próprios. Perderam também suas características, suas ideologias e seus sonhos se desfizeram no momento em que foram obrigados a partir e deixar anos de história de vida para trás.

Pouco levaram da Guiné, os objetos marcantes se restringem à fotografia do casamento e à maquina de costuras da esposa. Portugal representava para eles uma esperança de melhora e de mudança de vida. Inicialmente foram instalados em um hotel de ricos onde a vida era fácil e repleta de conforto, que todos admiravam de forma incessante. Durou muito pouco o conforto e bem-estar trazidos pela volta a Portugal, rapidamente o Casal da Guiné foi transferido para uma pensão em Colares, depois para outra que “pareceu ao marido que habitavam uma espécie de ruínas de cataclismo ou de cemitério abandonado” e por fim para uma casa desabitada na Eiriceira. Os dois nem mesmo uma palavra trocavam, se dialogavam através de um alfabeto esquemático de gestos evasivos (ANTUNES, 2000, p. 135).

O marido, em uma esperança de fugir daquele ambiente desolador identificado com o pós-revolução e perda das colônias da África, ainda convidou sua companheira para irem a qualquer lugar do mundo passarem a vida a limpo, porém ela não suportara todo o sofrimento e humilhação pelos quais passara e aos poucos foi enlouquecendo “- Vá o senhor que eu tenho de ensaiar uma tocata” (ANTUNES,2000, p. 138).

Como nos é apresentado na narrativa, o marido não suportou a loucura da esposa, muito menos a regressão a que ela se submeteu mentalmente, ele a deixou e partiu em busca de algo, que ainda não sabia o que, até o momento em que conseguiu o emprego de desempregado – trocadilho irônico que remetia à condição de muitos retornados e da miséria de pensão que era paga a eles, e ainda há outra passagem que Lobo Antunes ironiza a burocracia pela qual passavam os que dependiam do governo para sobreviver em terras lusitanas:

[…] Agora, nos intervalos de sua dificultosa profissão de desempregado, que o obrigava a preencher constantemente formulários em cinco cópias, todos com a assinatura reconhecida, a levar e trazer impressos inúteis de repartição e repartição e de ministério em ministério, a sofrer intermináveis interrogatórios de psicólogos que lhe propunham que desenhasse árvores e decifrasse manchas de tinta, ao sujeitar-se aos estetoscópios, aos eletrocardiógrafos e aos aparelhos de medir a tensão de médicos inúteis com escalas de optometria na parede, a entregar fotocópias de bom comportamento moral e cívico destinados ao cesto de papéis de funcionários de caspa zelosa, e a receber por fim o papelinho do seu salário ao termo de catorze horas de espera ininterrupta (ANTUNES, 2000, p. 142).

Parte do que recebia, o homem enviava a sua esposa para que ela pagasse as aulas de música, que recebia de uma professora invisível.

A aventura única vivida por ele foi se mudar para um quartinho da Cruz Quebrada e durante esse tempo recebeu uma carta da esposa, na qual ela lhe dizia que as aulas de música haviam se acabado “em consequência da partida da professora solteira, convidada pelo próprio Mozart a ajudá-lo na orquestração do seu Réquiem”, a discípula por sua vez resolveu partir para Nova Iorque, para nesta cidade iniciar uma carreira de concertista (ANTUNES, 2000, p. 142 – 143). O marido acompanhou a partida de sua ex-companheira sem nenhuma mágoa, já que, para ele, ela não passava de “uma anciã desconhecida” (ANTUNES, 2000, p. 143). Ele ficou só, como estava antes, a pensar em nada, sem um pingo de desejo ou esperança, a observar o mundo.

Fazemo-nos uma importante pergunta em relação a este casal: o que o retorno a Portugal trouxe que os complementasse, e os fizesse ter vontade de viver? E a resposta é imediata, pobreza, tristeza, loucura e a separação, a ponto de nem se reconhecerem e de virem mortas todas as esperanças de uma vida melhor – salvo o caso da esposa que tinha expectativas de ser uma concertista em Nova Iorque, mas ao mesmo tempo essa expectativa surgiu da loucura infundada que a fizera retornar mentalmente há anos em que vivera feliz.

Para Maria Alzira Seixo (2002), o humor negro que envolve o Casal da Guiné revela a atuação das personagens colaterais. Os efeitos da insanidade mental que agrava progressivamente na mulher, juntamente, com o sentimento de não pertencimento a lugar algum e nem mesmo a si, indicam a relação do sujeito com o lugar centralizado presente na problemática da pós-colonização, que é uma relação marcada por carência de localização e perda de identidade.

Eles haviam sido acolhidos por um lugar, se afeiçoado de alguma maneira a ele, viviam em uma colônia com sistema político implantado, perderam o que tinham. A mulher, no fim do romance, desapareceu e o homem foi privado de seu passado, sem expectativa alguma de futuro, vivendo simplesmente.

Nessa obra, na qual Lobo Antunes dá certa continuidade à epopéia Os Lusíadas de Camões, notamos Manuel de Souza Sepúlveda como uma personagem construída através da paródia e ironia. Ao invés de figurar como um grande fidalgo e navegador que naufragou com sua família a bordo do galeão São João, próximo ao Cabo da Boa Esperança, e que é relembrado por Camões no Canto V de Os Lusíadas, no qual o poeta põe o Adamastor a profetizar tal acontecimento, esta personagem histórica surge na obra Lobo-Antuniana como um endinheirado contrabandista de diamantes, possuidor de três imóveis (duas casas em Angola e outra em Portugal) e que passa o resto de seu tempo livre a observar maliciosamente as alunas do liceu próximo à sua casa.

O tráfico de diamantes era feito por Manuel de Souza Sepúlveda juntamente com um “amigo inspetor da Pide, manganão de bigode”, tal empreendimento nos é exposto como mais uma forma obscura, pela qual os colonizadores, e principalmente as autoridades, obtinham dinheiro, além do fato de, esta transação envolvia também um processo exploratório em relação aos negros colonizados na África, como notamos no trecho que segue:

Os tropas retiravam papéis dobrados da carteira e espalhavam no feltro brilhos de pedras minúsculas, trocadas por bisnagas de repelente ou quinino aos negros que mergulhavam no rio Cambo em busca de cristais adormecidos nas areias do fundo (ANTUNES, 2000, p. 74).

Esta personagem, por meio de um engraxador de sapatos, é informado acerca dos acontecimentos em Lisboa, que destituem do poder o regime salazarista, e por este motivo, vende seus bens na África e parte em retorno a sua pátria.

O retorno, para Manuel de Souza Sepúlveda, bem como para muitos regressos, não foi um momento de reencontro e acolhimento com os seus e com sua pátria. No momento em que desembarcou em Lisboa, esta personagem procurou imediatamente o irmão e constatou que quase nada havia mudado na casa antiga de seus pais, nem mesmo o irmão que “recebeu-o sem sorrisos, de guardanapo ao pescoço” e nenhum entusiasmo. Este comportamento do irmão, pode ser estendido à grande parte daqueles que recebiam de volta os retornados das colônias Africanas, uma vez que estes traziam consigo, não somente a si e seus pertences, mas também a perda da altivez relacionada à pátria portuguesa.

Dessa forma, a saída encontrada por Sepúlveda não foi outra, a não ser procurar por abrigo em seu apartamento na capital portuguesa, no entanto, ao chegar à sua residência, ele a encontrou abrigando outras pessoas, que se apossaram e justificaram seus direitos a propriedade da casa devido às conquistas trazidas pela democracia e pelo socialismo. Estes ocupantes, ao descobrirem que falavam com um retornado, de maneira irônica, proferem palavras provocatórias e depreciativas, como se observa nas passagens a seguir: “- Traz a escritura, caralho? Traz a escritura? Eu quero lá saber de escritura, a escritura que se foda: estamos em democracia, seu camelo, os prédios pertencem a quem mora neles, a época da Pide acabou” (ANTUNES, 2000, p. 85).

Após viver algum tempo na rua, como um verdadeiro mendigo, esta personagem encontrou um cheque que guardara por distração em outra algibeira, com o qual alugou uma casa e também um bar, o qual recebia muitos portugueses decadentes, além de servir como ponto de prostituição das negras que para Francisco Xavier trabalhavam.

Com esse comércio, “a sua prosperidade aumentou no ritmo inconcebível das epidemias”, passou a comandar não só bares e prostitutas, como também pensões, lojas de industriais, além disso, ainda se tornou agiota emprestando dinheiro a outras pessoas, inclusive foi quem financiou uma edição de bolso de Os Lusíadas. No fim das contas, “Manuel de Souza Sepúlveda, que presidia ao conselho fiscal de uma companhia de seguros, empilhava dólares na Suíça” (ANTUNES, 2000, p. 128 – 129).

Conforme apontamentos feitos por Adriana Martins (2002), esta personagem representa diretamente a queda de alguns valores coloniais muito prezados em Portugal: a crença e a honra. Uma vez que sua locupletação se dá através de negócios ardis, ele figura como um português corrupto que consegue ascensão social e respeito, o que revigora ainda mais a crítica de Lobo Antunes à sociedade portuguesa (e porque não mundial?) vigente, na qual políticos e pessoas com alto poder aquisitivo são protegidos e beneficiados – pessoas que sobrevivem ao naufrágio colonial devido a negócios escusos e ilícitos.

Outra figura histórica que a paródia de Lobo Antunes revive na ficção é Vasco da Gama. Este, nesta anti-epopeia, deixa de ser o navegador português que se destacou no inicio da expansão marítima portuguesa por descobrir o caminho e velejar diretamente da Europa à Índia, fato que o levou a ser homenageado por Camões que o tornou herói da epopéia Os Lusíadas, e se torna um retornado da África e que só no meio do narrativa é apresentado em retorno a sua terra natal, Vila Franca de Xira, após mais de quarenta anos de ausência.

Ao chegar a sua terra, Vasco da Gama a encontra submergida sob as águas paradas do Tejo, após as águas baixarem ele procurou por sua família, pelos imóveis (dentre eles uma sapataria) que deixou antes de partir para as Índias. Ao caminhar ele se imaginava recebido pelo sobrinho que “surgiria à varanda a cumprimentá-lo com os cerimoniosos habituais, pálidos olhos de pônei convalescente” (ANTUNES, 2000, p. 112). Ao contrário do que esperava, ao chegar à loja de sapatos, Vasco encontra a sapataria, que abandonara ao emigrar, totalmente modificada e aumentada (pelo sobrinho que dela cuidara) e o sobrinho que “a contragosto que tangeu diante de si aquele rupestre bisavô de espada para lhe mostrar um quarto das traseiras do estabelecimento” (ANTUNES,2000,p. 115).

Para passar o tempo em sua terra natal, Vasco da Gama saiu pela cidade a jogar cartas, “a depenar à sueca a imprevidência dos campinos” (ANTUNES,2000,p. 115). Através do jogo, esta personagem se enriqueceu em um ritmo acelerado, ganhando em pouco tempo, além de cavalos, uma manada de galinhas chocas, uma gramática, também uma fábrica de gás butano, um hospital, dentre outras.

Os valores que eram atribuídos até então à personagem histórica, e de certa maneira mítica para a nação portuguesa, como desbravador, guerreiro, não temeroso e responsável pelo crescimento econômico do país, são de certa maneira subvertidos, uma vez que ele passa a ser um viciado em jogos de baralho, que enriquece de maneira ilícita, através do jogo.

Vasco da Gama só partiu de Vila Franca de Xira, quando o rei D. Manuel o chamou a Lisboa, inicialmente o rei lhe disse que o chamara para ser “comandante de uma expedição de biólogos sudaneses enviados de submarino ao Pólo Norte a fim de estudarem as leis genéticas da reprodução dos pingüins” (ANTUNES, 2000, p. 117). No entanto, como confessa o próprio rei D. Manuel, na verdade o rei sentira falta de seu súdito e o queria por perto.

As descrições acerca da figura D. Manuel o caracterizam como: “Um príncipe envelhecido afastando as moscas com o ceptro, de coroa de lata com rubis de vidro na cabeça e hálito de purê de maçã de diabético, acocorado no banco de uma janela gótica aberta para os galeões de sua esquadra” (ANTUNES, 2000, p. 117). O rei perdera também seu lugar histórico, de O venturoso, o bem-aventurado, pelos eventos que o levaram ao trono e outros que ocorreram durante seu reinado, como a descoberta do caminho para as Índias, e passou a ser na obra Lobo-Antuniana, “uma figura caricata e decrépita” (SEIXO, 2008, p. 403).

As duas personagens restabeleceram uma condição de amizade, Vasco foi morar em um apartamento que lhe é oferecido pelo rei. Juntos, os dois passam a relembrar o passado e falar dos bons tempos que se foram, perderam realmente sua grandeza:

Tinham envelhecido tanto que a gente da cidade, que não os reconhecia, seguia estupefacta aquele casal de anciões mascarados com as roupas bizarras de um carnaval acabado, de punhal de folha à cinta, mocassins bicudos de veludo, gibões de riscas e longas madeixas cheirando a orégão de copa, em que proliferavam parasitas de outros séculos (ANTUNES, 2000, p. 119).

Em um dos passeios efetuados pela dupla de heróis destituídos de sua grandeza histórica, como notável durante o transcorrer da narrativa, eles foram parados por um policial da brigada de trânsito que pediu a D. Manuel a certeira de habilitação – que não possuía -, por sua vez, este disse que era dono de todo Portugal. Por este motivo, D. Manuel e Vasco da Gama foram presos, e levados a um manicômio, uma vez que foram tidos como alienados mentais devido às afirmações que faziam acerca de sua grandeza, de ser rei e navegador – o que foi verdade um dia, mas que agora não passava de loucura, já que o país a todos pertencia e todos deveriam juntos zelar por ele.

No fim das contas, rei e vassalo se igualam um ao outro e ao próprio mundo, a história não pesa-lhes mais aos ombros, o que deixaram, para trás ficou, sem que reconhecimento fosse-lhes garantido. O país não necessitava mais deles, até porque se não fosse pelos projetos e descobertas mundo a fora, muitos portugueses não teriam que retornar cabisbaixos de países que realmente nunca deles fora.

A última personagem analisada é Diogo Cão, que fora um grande navegador do século XV, que enviado por D. João II fez variadas viagens de descobrimento pela costa africana. Ele aparece em As Naus como um descobridor de tágides – nota-se a ironia com que tal figura é retratada – que por ordem real tenta repovoar os rios dessas figuras lendárias.

Na narrativa, por exagerar no consumo de bebidas alcoólicas, Diogo Cão é enviado à África e lá deixa de ser descobridor para ser Fiscal da Companhia das Águas, para Maria Alzira Seixo (2002) essa atribuição dada ao navegador seria uma “metonímia <<imperialista>> de um grande navegador convertido ao <<funcionalismo>> de vulto da história dos descobrimentos” (SEIXO, 2002, p. 175). Na África, esta personagem nada mais fez que passar as noites nos cabarés e os dias na praia em busca das ninfas do Tejo, era sempre amparado por uma velha Prostituta africana que dele cuidava.

Após o embarque para Portugal da maioria das prostitutas que viviam no mesmo local que ele, Diogo Cão regressou a seu país. Lá chegando, se tornou um pouco mais descrente em relação ao encontro e povoamento do Tejo pelas Tágides, “continuava a interessar-se pelas tágides mas de uma forma intermitente e vaga, nos intervalos do delírio do vinho, que gastava vasculhando os tanques, chafarizes e lagos da cidade”, o resto que possuía dedicava-se a acomodar-se nos bancos de jardim “com suas insígnias de capitão dos oceanos pregadas com alfinetes de ama a punho do sobretudo” (ANTUNES, 2000, p. 207).

As demais descrições que nos são apresentadas em relação a Diogo Cão retornado nos trazem muito mais do que uma impressão negativa tida por este em relação às modificações sofridas por sua pátria ao longo dos séculos, além disso, Lisboa e Portugal proporcionaram a ele e a muitos outros retornados, nada mais do que um puro sentimento de abando e descaso, ele, após ter regressado estava desta maneira:

O seu corpo de neptuno apeado deteriorara-se nesses meses de abandono e desde o regresso de Angola: possuía furúnculos e grandes peladas na cabeça, emagrecera nove quilos e seiscentas, era incapaz, a cem metros, de destrinçar a tonelagem dos navios, conservava dois únicos dentes na gengiva inferior, e respirava de leve, como os pintos, em assopros dolorosos e velozes (ANTUNES, 2000, p. 207).

Ao cabo de sua passagem em As Naus, Diogo Cão foi de certa maneira conquistado e sustentado pela Prostituta que atrás dele veio de Angola, ela foi a única a lhe dar o valor merecido e a dele cuidar. A Prostituta menciona que na procura incessante que fez por este navegador pelas ruas de Lisboa, o encontrou “nos manuais de História do liceu, com enfeites de óculos e chifres desenhados a tinta por alunos cruéis” (ANTUNES, 2000,p. 198).

Por fim, a desilusão tomou conta de Diogo Cão personagem, que de alguma maneira aponta o futuro dos demais portugueses, caso apenas se encubram no passado glorioso e longínquo desta pátria em reconstrução:

Acabou por jogar o corpo na mesinha-de-cabeceira, por apagar a luz do quarto, por recusar as carícias preocupadas da mulher, e por continuar fitando, até de madrugada, roendo a pedra-pomes das mandíbulas, a Terra que se transforma num deserto seco de ondas e de tágides, onde mesmo o vento de búzios tinha por fim desaparecido (ANTUNES, 2000, p. 233).

Segundo Daiane Morim (2008), até mesmo as ninfas que ecoam durante esta narrativa Lobo-Antuniana trazem consigo certos elementos de decadência das imaginações portuguesas. Ainda segundo esta autora, o redimensionamento realizado em torno das mudanças de concepções é evidenciado no discurso de uma das ninfas idealizadas pelo herói, que corresponde a Prostituta que de certa maneira acolhe Diogo Cão, uma mulher velha e sábia.

Essa antítese entre ninfa e Prostituta, gorda e velha, enfoca diretamente o contraste entre sonho e realidade apresentados na obra, uma vez que esta mulher real não aparece, na obra, contaminada pelos mitos históricos portugueses.

No ultimo capítulo d’As Naus os retornados reaparecem como um bando de loucos, a fim de fugirem de onde estavam internados e de darem vazão a talvez a última e maior esperança deles e de toda a nação portuguesa, que seria reencontrar de D. Sebastião, que na concepção destas personagens viria para de alguma forma acalentar seus desejos, trazer a ordem novamente ao país e restabelecê-lo como uma grande nação de destaque entre as demais.

Porém, como explanamos anteriormente, D. Sebastião não vai ao encontro desses moribundos, que aguardavam “ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível”, o cavalo do rei desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir (ANTUNES, 2000, p. 247).

O historiador Lincoln Secco (2004) aponta em sua obra o fato de que desde o domínio de Portugal pela Espanha, juntamente com o fim do Império que se deu durante essa possesão, há no imaginário português a exaltação das idéias que povoaram os séculos XV e XVI, dentre elas o sebastianismo, a historiografia de Alcobaça e as inúmeras reedições de Os Lusíadas (sendo onze durante o predomínio de Felipe de Espanha). Esse apontamento corrobora para afirmarmos que os mitos foram e são maneiras pelas quais os portugueses se agarram à sua identidade, foram elementos responsáveis pela não dominação total de Portugal por Espanha, pois traziam consigo uma carga importante de História, de luta, de superação, elementos identitários em relação à população de Portugal.

Lobo Antunes foi extremamente sagaz e desafiador ao iniciar um processo de desmistificação em sua obra, o grande propósito dessa ação provavelmente está relacionado à idéia de impulsionar o povo à mudança, de fazer com que surja uma verdadeira união em torno do real, esta modificação que só será possível se todos trabalharem juntos. Na visão Lobo-Antuniana as pessoas não deveriam se prender mais a mitos e lendas, que de forma alguma poderiam salvar um país em crise, e sim dar a estes mitos seu lugar enquanto elementos folclóricos e irreais.

No fim desta obra de António Lobo Antunes, encontramos nada mais do que o auge da desmistificação, pois nos é apresentada a esperança inútil de retornados de reencontrarem, através da figura de D. Sebastião, não somente a grandeza que Portugal havia deixado de presenciar, juntamente com suas colônias, com seu imaginário de Império, de centro do mundo, de nação destaque dentre as demais. Ao mesmo tempo Lobo Antunes aponta o que essa espera inútil encobria: nada mais que um Portugal doente, sujo, abandonado e preso a um passado remoto que não mais retornaria.

Para Maria Alzira Seixo (2002) este final romanesco de alguma maneira toca no que se diria um “Mar fechado” em contraposição da idéia de “Mar aberto” difundido durante o renascimento. O mar que não trouxe mais aos que em frente dele esperavam, o que desejavam, realmente, se mostra como fechado, como se o olhar, o refletir dos portugueses em geral devesse de alguma forma se esquecer da abertura proporcionada por viagens e conquistas, mas se feche sobre si mesmo em busca de uma reflexão mais aprofundada, de um balanço necessário para a reconstrução que deveria surgir. Há uma carência, a qual o preenchimento é colocado em questão na narrativa.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O romance analisado não tem compromisso com a História e vale-se da criatividade, imaginação e subjetividade em sua elaboração, porém, sabemos que a História de alguma maneira o cerceia e faz com que haja efetivamente o ato de se repensar o passado, ajuizando na História futura que se constrói ainda hoje em Portugal.

Dessa forma, não há como observarmos que a intersecção entre o presente e o passado é constante nesta obra Lobo-Antuniana, não só em relação às figuras que retornam no presente, que discutem o passado, mas também em relação à cronologia, ao espaço geográfico e à grafia de algumas palavras, como reyno e Lixboa, que aparecem escritas na contemporaneidade de maneira arcaica, remetendo de maneira direta ao tempo remoto da civilização portuguesa.

Sendo assim, a importância deste romance para a História portuguesa é inegável, pois relata as memórias de um autor que viveu em meio à guerra e pode vislumbrar o sofrimento dos retornados ao desembarcarem em sua terra pátria. Tal fato nos permite afirmar que a leitura desta obra é importante e será ainda mais no futuro para aqueles que queiram estudar e conhecer este período trágico pelo qual Portugal e sua população passaram.

Em As Naus, praticamente o mar não possui tanta visibilidade como se espera até mesmo pelo próprio título da obra, mas são confrontadas duas terras, a história passada e a contemporânea também são acareadas, o presente desolador recebe reflexões sobre o passado que é responsável por seu acontecer.

Viagem talvez não seja a palavra que diretamente possa ser relacionada a esta narrativa de viagem, e sim naufrágio. Naufrágio de um país que caiu em decadência, naufrágio de uma História de conquistas. Portugal necessitava de se repensar de revisitar seu momento de colonialismo para se reconstruir em meio a entulhos e desolação.

Lobo Antunes apresenta, nesta obra, uma percepção cômica e humorística da situação de Portugal no contexto de independência das colônias africanas e de pós-Revolução dos Cravos, figuras historicamente conhecidas por sua trajetória de grandeza retornam como mais um dentre os demais. A História não foi suficiente para livrar tais figuras da decadência que a todos atinge. Essa carnavalização discursiva n’As Naus vem de certa forma brincar com uma História triste, e ao mesmo tempo essa brincadeira, aparentemente inocente, consegue atingir o ponto fraco dos portugueses, que seria a identidade imperial perdida.

A paródia é também responsável não por destruir o passado, mas por evocá-lo e interpretá-lo. Há sim um enfoque irônico, dessacralizador com intuito de permitir que se vislumbre todos os erros e acertos contidos durante todo o percurso português na História. O autor, devido à evidência de forte ligação de Portugal com sua História, resgata personagens marcantes na vida e imaginário portugueses.

As próprias personagens históricas são capazes de, nesta obra, refletir acerca de seu papel no passado e sobre o que se tornaram nesse presente tenebroso.

A paródia é responsável por destituir as grandes figuras históricas da onipotência que conquistaram, descrevendo-as como mais um entre a multidão de retornados. Segundo Daiane Morim (2008), na narrativa Lobo-Antuniana os heróis são desprestigiados e até mesmo não reconhecidos pela sociedade. Esse ato pode sobrevir, por um lado, pela desmistificação do herói na medida em que o aproxima do contexto atual, não trazendo a História como um inatingível venerado, e, por outro lado, o autor se reporta aos retornados como verdadeiros heróis do Portugal contemporâneo, levando em consideração todas as dificuldades que encontraram ao regressar à sua terra natal, à sua pátria portuguesa.

A paródia de Lobo Antunes é dotada de ironia e humor, mas é ao mesmo tempo reflexiva e crítica em relação a Portugal.

As Naus é um romance no qual o autor conseguiu refletir sobre a nova condição portuguesa pós-colonial, para dessa forma, dentre outras coisas, ajudar na busca de uma nova identidade portuguesa que deveria ser construída, sem esquecer o passado, porém o tendo como maneira de se refletir acerca dos erros e acertos para a construção de um presente ainda melhor. O autor não contemplou nenhum personagem como única voz a se manifestar durante a narrativa, mas, pelo contrário, ele fez com que visões variadas, pontos de vista distintos fossem contemplados, pois, somente através da discussão e reflexão acerca de distintas formas de ver o mundo haveria como reabilitar um país em crise

Ao término desta pesquisa, podemos afirmar que As Naus, além de ser uma obra instigante dentro da ficção portuguesa contemporânea, é também um romance que quebra convenções sociais – artísticas – em relação à História de um país e esse fato é que o torna ainda mais relevante para a história da literatura contemporânea portuguesa. Após analisarmos esta narrativa como um texto significativo para o exame da intersecção do passado/ presente, do histórico e do ficcional, e como representativa das novas tendências do romance português contemporâneo, esperamos que nossa pesquisa tenha contribuído com um estudo teórico- crítico satisfatório a respeito do romance Lobo-Antuniano. Objetivo esse que cerceou toda a construção dessa gratificante pesquisa.

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[1] Cf. SEIXO, Maria Alzira et all. Dicionário da Obra de António Lobo Antunes. Vol I. 1ª ed.Lisboa: Editora: Imprensa Nacional-Casa Da Moeda., 2008.

[i] Este texto é parte do resultado final do projeto de Iniciação Científica intitulado: “Intertextos onde o mar acabou e a terra espera: A ficção de António Lobo Antunes”, orientado pelo Professor Doutor Gerson Luiz Roani.

[ii] Aluno de graduação em Letras na Universidade Federal de Viçosa/UFV.