Luiz Murat e Bocage

Alckmar Luiz dos Santos

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 14, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Centenário de Bocage - Discurso por Luiz Murat

Luiz Murat

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Luiz Murat nasceu em Resende, em 1861, na então província do Rio de Janeiro, onde faleceu em 1929. Nos seus 68 anos de vida acompanhou as transformações que levaram o Brasil de um país majoritariamente agrário e interiorano, para um outro, em que dominava o ambiente urbano de pelo menos duas grandes metrópoles, Rio de Janeiro e São Paulo; foi testemunha do protagonismo assumido por novas classes sociais (veja-se que faleceu às vésperas da Revolução de 30). Especificamente, acompanhou a modificação do Rio de Janeiro tímido, colonial, submetido às ameaças constantes da febre amarela, em que os elegantes da época desfilavam pela suja Rua do Ouvidor, para outro Rio de Janeiro, o da Avenida Central (atual Rio Branco), com seu Teatro Municipal, sua ambição talvez bem sucedida de imitares os bulevares parisienses.

Na literatura, Murat foi também testemunha de profundas modificações: do Realismo de influência positivista e inspiração europeia (francesa, sobretudo) ao Modernismo vanguardista do início do século XX, muito embora não tenha assimilado nem muito menos compreendido este último. Desde o início, ligou-se à geração realista, compondo o conhecido grupo de literatos, boêmios e jornalistas (quase todos eram tudo isso ao mesmo tempo) que animaram as confeitarias e restaurantes cariocas na virada do século XIX para o XX. Esse grupo contava com nomes conhecidos, como Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Emílio de Menezes, Artur de Oliveira, entre muitos outros. E foi este último, Artur de Oliveira, o disseminador da estética parnasiana entre nós, este que foi, paradoxalmente, um grande nome infértil de nossa literatura. Publicou muito pouco, mas seu apostolado literário (advindo de suas ligações com Théophile Gautier, com Victor Hugo), exercido nas conversas das rodas boêmias, nas mesas de bares, foi fundamental para a imposição da nova estética.

Esses escritores compunham, de fato, um amontoado variável de grupos, já que não viviam apenas para a literatura, mas também na política. E esta explica muitos dos dissensos e, mesmo, das brigas, às vezes fortes, entre eles. O suicídio de Raul Pompeia é um desses eventos, com desenlace lamentável. Eram, se não todos eles, majoritariamente republicanos, o que não impediu divisões entre florianistas e não-florianistas, por exemplo. Murat, de gênio forte e escrita ferina, envolveu-se em várias polêmicas, tanto políticas, quanto literárias, Chegou a acusar alguns de seus companheiros de plágio de autores franceses.

No que não discordavam quase nunca era na admiração por Olavo Bilac e por Luiz Delfino, sobretudo pelo primeiro. A estética parnasiana era, de fato, dominante, e seus cultores eram festejados nos artigos de jornais e apontados na Rua do Ouvidor. Contudo, à parte a notória e determinante influência francesa, quais outras podem ser associadas ao nosso Parnasianismo? Aí entram, é claro, predileções e tendências pessoais, mas é certo que ele não ficou imune a elementos românticos, como atestam vários poemas do próprio Bilac (a exemplo de “Nel mezzo del camin”; ou da postura de gênio incompreendido do eu-lírico de “Profissão de fé”). De outro lado, influência inequívoca é a de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Hoje, quem vai à biblioteca da Academia Brasileira de Letras (de quem foi fundador, entre outros, Murat, Bilac e Alberto de Oliveira), pode ver lá as bibliotecas pessoais de vários acadêmicos, entre os quais estes dois últimos. E nestas estão as obras completas do poeta português. Não é, portanto, coincidência alguma, que Luiz Murat dedique uma conferência a seu centenário. Bocage foi poeta de extraordinários recursos técnicos, habilíssimo na versificação (que praticava, segundo consta, também de improviso). Além disso, traz um recorte clássico que não é nada estranho à sensibilidade parnasiana. Por outro lado, em sua fase final (e não menos importante!), realiza o que se pode chamar de poesia de meios tons românticos, em que os aspectos solares e mais racionais cedem vez à soturnidade, à melancolia. Qual desses aspectos da obra de Bocage terá seduzido Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Luiz Murat — além de muitos outros daquela geração —? O domínio extremo e hábil da versificação? Certamente! Mas não é nada improvável que essa sua poesia final, de inclinação pré-romântica tenha influído ao menos em Bilac. Essa é pesquisa que se poderá fazer, com prazer, no exame da obras desses poetas. E, se não é necessário nenhum resgate do poeta português (seu valor extremo é sobejamente reconhecido dos dois lados do Atlântico), poderá, ao menos, lançar alguma luz sobre a obra desse poeta Murat, muito mal explorada, pois ainda está espremida e ensombrecida pelos nomes da Trindade Parnasiana (Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira), que nossa tradição crítica impôs, a expensas de outros nomes que, à época, gozavam de grande prestígio, como é o caso de Luiz Delfino. Este começa a ser reavaliada, sobretudo a partir da publicação recente de suas obras completas. Por que não reavaliar esse outro Luiz, o Murat?!