Identidade transtornada: um duplo chamado Inácio

Ozéias Pereira da Conceição Filho

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 17, 2011. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este artigo?

Sobre os autor(es):

Ozéias Pereira da Conceição Filho
Universidade Federal de Sergipe, UFS
Aracaju, Sergipe
oziest7@yahoo.com.br
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484550A7

RESUMO: Esse trabalho consiste em investigar as representações do duplo (BERND, 2007; FERREIRA, 2009; KALINA e KOVADLOFF, 1989) em obra do escritor brasileiro, Lúcio Cardoso, Inácio (CARDOSO, 1984). Na referida obra, perceber-se-á que a construção da identidade (HALL, 2006) é perpassada pelo transtorno, pela inquietação, pela loucura, vivida pelo personagem principal do romance. Para a análise foi feito um estudo comparativo entre a novela de Lúcio Cardoso e a obra de ficção de Robert Louis Stevenson, O médico e o monstro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde (STEVENSON, 2010), devido à importância que essa narrativa tem com relação ao tema do duplo na literatura ocidental. Observar-se-á que a escuridão e a busca são caminhos inerentes ao dualismo, e que a identidade do ser duplo é circunscrita exatamente num espaço onde a uniformidade já não tem significância, onde a dicotomia é edificante e destruidora, pois à medida que se constrói uma nova identidade, também mais perto do fim o ser se aproxima.

PALAVRAS-CHAVE: Lúcio Cardoso. Inácio. Duplo. Identidade. O médico e o monstro.

ABSTRACT: The goal of this essay is to investigate the representation of Double (BERNARD, 2007; FERREIRA, 2009; KALINA e KOVADLOFF, 1989) in the work of Brazilian writer Lúcio Cardoso in his book Inácio (CARDOSO, 1984) which is possible to see the concept of identity (HALL, 2006) based on craziness that the main character went through. To analyze it was done a comparative between Lúcio Cardoso novel and Robert Louis Stevenson fiction work called Dr. Jekyll and Mr. Hyde (STEVENSON, 2010) since it was important to occidental narrative when we talk about Double. It is worthy to say that the darkness and search are ways inherent to dualism, and the identity of the Double human being is situated in a place where the uniformity doesn’t have mean, where the dichotomy can build and destroy, as while build a new identity the human being get close to the end.

KEYWORDS: Lúcio Cardoso. Inácio. Double. Identity. Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

 

Introdução

Em uma crônica publicada na Revista Psique, n° 49, ano V, Rubem Alves, escritor brasileiro, afirma que os seres humanos possuem duas perspectivas: uma delas é a de ver aquilo que é real e a outra é a de enxergar aquilo que não existe. Dessa forma, os indivíduos possuem dois olhos que enxergam dois mundos distintos. O primeiro tem a percepção das coisas no mundo como elas são e o outro está circunscrito no espaço da transcendência das coisas, essas coisas que, em realidade, “não são, existem não existindo, como sonhos e só podem ser vistas com o ‘segundo olho'” (FONSECA, 2011, p. 66). Embora Fonseca não esteja falando propriamente do tipo de duplicação tratado nesse trabalho, o fenômeno do duplo aqui abordado passa por um desses caminhos da alma onde a realidade se torna dual, onde o indivíduo percebe o mundo através de “dois olhos”, vivendo com mesma intensidade cada um desses mundos e, na maioria das vezes, chocando-os, fazendo fluir do cruzamento de duas percepções uma realidade transtornada da psique, levando a um nível máximo o questionamento sobre a existência, que se mantém constante na história do homem. Assim sendo, a literatura, por meio de personagens marcantes, atualiza sempre a cena do duplo, e torna instigante o entendimento da natureza ambivalente do ser humano.

O objetivo, portanto, desse artigo é investigar em que espaço é introduzido a figura do duplo na obra de Lúcio Cardoso, Inácio (1944), e como essa duplicação passa pelo transtorno da alma. Também será observada como é construída a identidade do personagem protagonista da novela, Rogério Palma. Observar-se-á a que caminhos levam a dualidade e como este fenômeno está ligado à morte. Para tal análise foi feito um estudo comparativo com a obra de Robert Louis Stevenson, O médico e o monstro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

Lúcio Cardoso nasceu em 1913, numa cidade do interior de Minas Gerais, chamada Curvelo. Sua estreia na literatura foi aos 20 anos de idade com o romance Maleita (1933). Depois seguem outras publicações: Salgueiro (1935), A luz no subsolo (1936), Inácio (1944), O enfeitiçado (1954), Crônica da casa assassinada (1959), que faz parte de uma trilogia inacabada. Seguem a estas obra: O Viajante (edição póstuma) e Réquiem (não publicado). Cardoso é considerado um escritor de sondagem interior, preocupado com questões que envolvem as páginas íntimas do ser humano. Além de romancista, foi poeta, cronista, e no final de sua vida também foi pintor. Afrânio Coutinho (1976) insere o autor de Inácio no quadro dos escritores da subjetividade:

Denotando acentuada impregnação esteticista, herança evidente do Simbolismo e Impressionismo, desenvolve-se a tendência na direção da indagação interior, em torno dos problemas da alma, do destino, da consciência, em que a personalidade humana é colocada em face de si mesma ou analisada nas suas reações aos outros homens.(COUTINHO, 1076, p. 302)

O tema do duplo perpassa exatamente por essa via da sondagem, em que o que é sondado é a própria existência do homem, o seu estar no mundo: se de fato a uniformidade é uma raiz primeira da alma humana, ou se esta é atravessada por uma fenda que divide o homem em dois pólos antagônicos, porém, complementares. Ainda a respeito de Lúcio Cardoso, Alfredo Bosi descreve-o como um escritor que “revelava pendor para a criação de atmosferas de pesadelo” (BOSI, 1994, p. 413).

Já aí se pode perceber sua semelhança com o escritor escocês Robert Louis Stevenson, que através de seu clássico O médico e o monstro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde cria uma atmosfera tenebrosa para construir seus personagens, marca os espaços narrativos com uma sensação de mau sonho, deixa predominar a angústia de não saber o que é real e o que é onírico, ou se essas duas sensações verdadeiramente fazem parte da mesma realidade. Também em Inácio, Cardoso transforma o Rio de Janeiro num espaço sombrio, criando uma atmosfera de tensão, suspense, propícia para o surgimento de personagens duplos. O próprio Lúcio já afirmara que “Inácio é um velho pesadelo de infância” (CARDOSO, 1984, p. 05), e como pesadelo, Inácio é desconcertante, é desafiador, é sufocante.

Robert Louis Balfour Stevenson nasceu em 1850, na cidade de Edimburgo. Foi novelista, poeta e escritor de roteiros de viagem, inclusive suas primeiras obras são baseadas em viagens que ele mesmo fez: An Inland Voyage (1878) e Travels with a Donkey in the Cévennes(1879). Seu primeiro livro de ficção é A Ilha do Tesouro (1883), um clássico da literatura que lhe rendeu reconhecimento. Outras obras seguem-se: O Médico e o Monstro (1886), Raptado (1886), As Aventuras de David Balfour (1888), Weir of Hermiston (1894), esta última uma obra inacabada. Stevenson morreu de hemorragia cerebral, em Samoa, em 1894, justamente enquanto escrevia seu último romance.

Caminhos abissais

Inácio conta a história de Rogério Palma, um jovem abandonado que vive numa pensão no Rio de Janeiro. Doente e atormentado, ele busca encontrar na figura do pai, Inácio, aquilo que o mundo e o seu corpo frágil lhe renegaram: a liberdade. Inácio é o retrato transcendental dos desejos de Rogério, é aquilo que está fora dele, mas que deseja para si. Inácio é o espelho invertido de Palma. Embora a relação deles esteja situada no avesso, há algo forte que os une e os torna uma mesma moeda: o sangue, o laço de paternidade.

Em O médico e o monstro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde é narrada a história de Henry Jekyll, um médico respeitado de Londres que ao se cansar de passar a vida reprimindo seus impulsos mais primitivos, propensos à maldade, resolve criar uma fórmula que desperta nele outra personalidade, Hyde, que deixa vir a superfície todos os seus desejos. Jekyll, então, passa a dividir o seu corpo com a figura enigmática de Hyde, mais jovem, mais forte e mais desafiador.

Interessante notar que, nas duas narrativas, já no primeiro capítulo, são introduzidos elementos que metaforizam a transformação pela qual irão passar os personagens. Em Inácio, na primeira parte do livro, a fala de Rogério Palma é: “Anuncio-lhe os tempos novos!” (CARDOSO, 1984, p. 11). Enquanto em O médico e o monstro o capítulo que abre a narrativa tem como título “A história da Porta” (STEVENSON, 2010, p. 13). Os dois exemplos simbolizam uma passagem. Quando Rogério anuncia os “tempos novos” ele sugere uma transformação pela qual vai sofrer, ou seja, um rito de passagem. Em Stevenson, o narrador começa a contar a história de uma porta, que dá acesso ao abrigo de Hyde, o elemento transformador da natureza de Jekyll. Hyde representa para Henry uma transição, de corpo e de alma, considerando o final trágico do médico. O duplo está circunscrito nesse “novo”, nessa passagem. Neste sentido, ele também é um monstro, aquele que revela, que mostra (o novo) ao mundo, é o arauto das mudanças, o anunciador de uma transformação (SANTOS, 2007).

Em Inácio, 2ª edição (1984) da editora Salamandra, o tema do duplo já fica ilustrado na capa do livro. O nome Inácio é exatamente dividido ao meio por uma fenda preta, bem representativo da atmosfera do romance.

Sobre o espaço em que é introduzido o duplo, é fácil perceber nas narrativas em que o tema é recorrente que a configuração dos ambientes se dá pela obscuridade, por espaços noturnos, principalmente; a descrição dos lugares é perpassada pela ideia de ambientes que causam sempre uma certa estranheza, espaços labirínticos, bem a combinar com a alma transtornada dos que se perdem dentro de si mesmos. O próprio Rogério mora numa pensão onde a presença de corredores mal iluminados é marcante. Nota-se que os labirintos são feitos exatamente de uma série de corredores, que apresentam mais espaços cerrados do que saídas, para simbolizar a vida em que Rogério está mergulhado. Os espaços também se mostram com pouca ou nenhuma luz, como se isso representasse de alguma forma a impossibilidade de orientação que os personagens têm quando vivem o fenômeno da duplicação, assim é o quarto penumbroso de Rogério; os espaços são circulados por seres pálidos, de vultosa aparência.

De maneira quase cinematográfica, em torno de uma névoa de suspense, é assim que Cardoso apresenta Inácio, quando aparece diretamente pela primeira vez:

Talvez tenha nascido daí a coincidência; o certo é que, voltando a cabeça para ver quem caminhava atrás de mim, pois evidentemente alguém caminhava atrás de mim desde que eu atingira as primeiras árvores, vislumbrei um vulto alto, magro e que se aproximava assoviando […] Senti uma pancada sobre o coração e não tive dúvida; desta vez era ele. No silêncio, ouvia nitidamente os seus passos soando sobre as pedras. E de repente, talvez por sugestão do sinistro lugar que atravessava, não pude me conter e senti um medo horrível […] Olhei para trás de novo, e mais uma vez convenci-me de que era realmente ele. Então não me contive e, sob a pressão da névoa, da sombra projetada pelos grandes edifícios e do meu próprio terror, desabalei numa corrida até o Mercado. (CARDOSO, 1984, p. 60-61).

O espaço aqui não é apenas sombrio, mas também uma representação física do impacto angustiante que a figura de Inácio causa em Rogério, o clima de perseguição é coincidente com sua busca por um referente paterno. Inácio persegue Rogério que, por sua vez, procura um pai. Essa cena ilustra bem o clima persecutório que o duplo instaura em seu objeto, e vice-versa, pois a aproximação de Inácio com Rogério Palma é posterior ao desejo de encontro que este tinha quando pensava em seu pai, embora em seus sonhos não o chamasse assim. Inácio é quase uma fantasia antes de aparecer efetivamente.

Para Kalina e Kovadloff (1989), o duplo se origina de um processo de dissociação, nesse caso, de um processo dissociativo esquizóide, em que o sujeito não utiliza a ferramenta da dualidade psíquica de maneira discriminatória. Em outras palavras, o duplo é fruto de um ego frágil que não encontrou bases onde se apoiar para resistir a situações dolorosas:

É evidente […] que muitas vezes o contexto obriga a estruturar dados dissociativos que são aconselhados pela boa capacidade de discriminação do ego e cuja duração se acha em relação direta com as circunstâncias que induzem ao seu emprego. Portanto, uma coisa é a alienação sofrida, vale dizer, a dissociação que nos converte em seu objeto, e outra é a alienação funcionalizada, mediante a qual o sujeito preserva, ao menor custo emocional e intelectual possível, sua própria integridade. Tal é, afinal, a diferença entre dissociação esquizóide e dissociação instrumental. (KALINA e KOVADLOFF, 1989, p. 19).

Nos dois romances, os personagens estudados são seres que criaram um mecanismo de duplicação para enfrentar sua maior debilidade: a liberdade não alcançada. Jekyll criou Hyde para suportar seu corpo já cansado de sentir as mesmas emoções, direcionando sua mudança para um corpo jovem, com algum tipo de deformidade, como acentua um dos personagens: “Ele deve ter uma deformidade em algum lugar do corpo, embora não consiga especificar em que ponto” (STEVENSON, 2010, p. 20). Decerto um corpo em deformidade, mas, mesmo assim um corpo jovem, pronto para sentir novas emoções (ou velhas, mas reprimidas), para sentir a liberdade de ser, de não ter que suportar a sua consciência quando quiser cometer algo que é considerado mau, contudo, prazerosamente maléfico.

A dissociação em Henry fez dele um prisioneiro de seu desejo por liberdade, por juventude. A dificuldade de aceitar a finitude do corpo é um ponto crucial na definição do duplo, que pretende perpetuar-se. A respeito disso Kalina e Kovadloff afirmam: “Todo aquele que tem capacidade expressiva, se duplica no que cria, e essa criação lhe permite transcender, em certo sentido, a sua finitude” (KALINA e KOVADLOFF, 1989, p. 25). Destarte, a juventude de Hyde simboliza a extensão da vida de Henry; pois, que é a juventude senão o vencimento sobre a morte? Criar um duplo que represente a vitalidade necessária para experimentar a liberdade é quase uma premissa de seu criador, que tem em sua existência um reverso da juventude, da força. É nesse sentido que o fenômeno da duplicação tem uma relação estreita com a morte, pois ao criar um Outro que não aceite os limites impostos pela existência o criador tem a ilusão de vencer a morte. “Para nós, como já dissemos, a duplicação de si mesmo é uma expressão regressiva da luta do ego com a angústia de morte” (KALINA e KOVADLOFF, 1989, p. 25), afirmam os autores.

O problema, contudo, é que quanto mais o criador se aproxima de seu duplo, e consequentemente da juventude, mais ele também se acerca de seu fim, mais irreversível se torna o quadro:

A parte que eu tinha a capacidade de projetar vinha ultimamente sendo tão exercitada e alimentada que me pareceu que, nos últimos tempos, o corpo Edward Hyde havia crescido em estatura, como se (quando revestia-me eu daquela forma) o sangue me corresse mais forte pelas veias. Comecei, então, a discernir o perigo de, a se prolongar tal estado, o equilíbrio de minha natureza poder vir a ser permanentemente destruída, o controle da mudança voluntária ser-me confiscado, e a pessoa de Edward Hyde torna-se irrevogavelmente a minha.(STEVENSON, 2010, p. 96)

O preço que Henry sofre é se apagar diante de seu duplo, a vitalidade de Hyde em detrimento a sua decrepitude. Observe que o encontro das duas partes – Jekyll e Hyde, representando a juventude – significa exatamente a morte. O duplo é quem vence, mas uma vitória ao avesso, pois vencer Henry significa vencer a si mesmo. O abismo é mergulhar em si mesmo, é encontrar na esperança da vida o próprio fim.

Será que Hyde morre no cadafalso? Ou será que ele encontra coragem para libertar-se no último momento? Só Deus sabe; para mim, é indiferente: esta é a minha real hora da morte, e o que está por vir diz respeito a um outro que não eu. Agora, ao largar da pena e selar minha confissão, ponho um fim à vida desse infeliz Henry Jekyll.(STEVENSON, 2010, p. 108)

A morte aqui representa não somente a falência do organismo, mas também a incapacidade de se pensar no homem como um ser de identidade uniforme (HALL, 2006), atento apenas para a parte de sua alma que situa as virtudes, que fomenta a ordem, a estabilidade.

Em Inácio o abismo que encara Rogério o levará a outro destino que não o da morte, mas não menos dramático. A relação que o caso do duplo (Rogério-Inácio) tem com a juventude e o desejo de ser “melhor”, renovado, é a mesma na obra cardosiana. Rogério é um jovem que, embora tenha idade para ser considerado como tal, não tem a mesma vida vigorosa que qualquer pessoa de sua idade teria devido aos seus problemas constantes de saúde, que o enfraquecem e o debilitam. Daí, talvez, que Inácio tem muita significância referencial em sua vida atormentada, pois ele simboliza justamente o seu contrário: um homem que mantém uma vida de jovem, aproveitando sem pudores os prazeres da vida, rindo como se o mundo fosse seu. “Sorria, sorria sempre, sorria sem descanso” (CARDOSO, 1984, p. 42). Ironicamente o seu sorriso era considerado de boneca, pois parece emblemática a relação entre o riso de descaso para com o mundo e as coisas dele e a comparação jovial, quase infantil, com uma boneca. Inácio vestia-se de forma inadequada para sua época, quebrando valores e reconstruindo as coisas ao seu modo.

Rogério, num certo momento, seguindo a risca os caminhos do pai, imita-o, quer rir como Inácio, quer ser descontraído como ele. A relação é ambivalente com o seu duplo, porque ao mesmo tempo em que se sente atraído também sente angústia, incerteza, estranheza. Sigmund Freud, em seu texto O Estranho (1976), afirma que aquilo que é estranho ao ser humano assim o é porque também lhe é familiar.

Para perceber essa relação é só observar o fato de que Rogério afirmava que o mais estranho na figura de Inácio era sua roupa, porém, num dado momento, uma das primeiras coisas que vem a sua cabeça é o desejo de mudar suas vestimentas:

[…] Eu me sentia arrastado por duas forças contrárias, duas forças extremas, que naquele momento eu ainda não sabia caracterizar perfeitamente. A primeira levou-me logo de início a uma chapelaria. Lá, indaguei quais eram os últimos modelos e, depois de uma meia hora gasta em experimentar diversas formas, comprei um modelo elegantíssimo, de feltro cinza, que me ficava, julgo eu, admiravelmente bem. Em seguida, dirigi-me para um magazine de roupas feitas e indaguei do rapaz que veio me atender quais eram os modelos mais em dia. Ele aconselhou-me um caso esporte de xadrez […] Comprei sapatos novos e, assim transformado, tendo gasto todas as economias que me sobravam, comecei a passear pela Avenida […].(CARDOSO, 1984, p. 65)

Essa obsessão de Rogério Palma por Inácio, que transcende uma relação sadia pai-filho, leva aquele a desenvolver sua dualidade de maneira doentia, desmedida. Até os momentos finais Inácio se apresenta para Rogério como solução para os seus “tempos novos”, como uma saída para as suas debilidades, como a sua insígnia de repúdio ao mundo, às pessoas, ao ser humano.

No último capítulo, quando Inácio se mostra sem máscaras, sem falsos risos e fecha a história cometendo um assassinato na frente de Rogério, este vê um de seus mundos desabar: o mundo, como diria Rubem Fonseca, que é enxergado pelo primeiro olho, aquele que só consegue captar as coisas como elas são, e o fato é que Inácio era um crápula desmedido e essa realidade de morte Rogério não pôde suportar. Inácio, além de causar a morte a outro, proporcionou também o falecimento de sua própria imagem perante Rogério, que viu suas expectativas serem impactadas pelo temor. O que restou a Rogério Palma foi outra realidade: a loucura, talvez também ligada àquele segundo olho explicitado por Fonseca.

O seu duplo o venceu pela insanidade, que marca uma morte simbólica de seu controle pela vida, já mergulhada nas profundezas de suas dores. Seu caminho abissal o levou ao riso insano, longe do equilíbrio dos dois “olhos”, dos dois mundos:

[…] Não me contive mais e, relaxando os nervos tão longamente tensos, comecei a rir, a rir nervosa e descontroladamente, um riso que me libertava. Um senhor idoso, no banco defronte, voltou-se para trás:
— Mas este rapaz está completamente louco! — disse.
E tinha razão. Levaram-me do carro e, se bem que já me ache agora em convalescença, desde há três anos que estou num sanatório.(CARDOSO, 1984, p. 136)

Apreciações conclusivas

O que se pôde observar foi que tanto em O médico e o monstro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde quanto em Inácio as narrativas constroem identidades que figuram a não uniformidade do ser humano. Nas duas obras, os personagens passam pelo transtorno em suas almas doentes, mais do que simplesmente nos corpos. A dualidade se configura na incapacidade de compreender a finitude do corpo, e os personagens são vencidos pelos seus duplos, mais cruéis, mais propensos ao risco.

Dessa maneira, a convivência entre o criador e seu duplo se torna insuportável para a parte que cria o duplo. Sobre a dificuldade de aceitação da finitude do homem, Kalina e Kovadloff concluem:

A dualidade se destaca, em consequência, como um intento mágico de superá-la. As partes em conflito, longe de se entenderem como elementos de uma mesma totalidade, constituem para a percepção doentia do homem, totalidades autônomas sem possibilidade de coexistência.(KALINA e KOVADLOFF, 1989, p. 32)

Desse modo, o encontro das partes também significa, como foi possível observar, o desencontro, e como numa soma de um número positivo com o mesmo número negativo, o resultado é sempre o nada, é sempre a morte, seja ela propriamente dita ou simplesmente, mas não menos terrível, a morte do controle, da sanidade. O que resta é um “segundo olho” doente, inapto para o mundo das coisas, porém, tenebroso demais para o mundo dos sonhos.

Enfim, resta dizer, assim como afirma Carlos Nejar (2011) que a criação cardosiana, leva a um abismo, e que “cada ser mergulha no abismo de seu destino, entre paixões e obsessões, a insanidade” (NEJAR, 2011, p. 589).

Referências

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Editora Cultrix, 1994. p. 413-415.

CARDOSO, L. Inácio. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984.

COUTINHO, A. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1976. p. 263-304.

FONSECA, A. Dois olhos, dois mundos. In: Revista Psique: ciência e vida. São Paulo, v. 48, p. 66, ano V.

HALL, S. A identidade cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006.

KALINA, E; KOVADLOFF, S. O dualismo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.

NEJAR, C. História da literatura brasileira: Da carta de Caminha aos contemporâneos. São Paulo: Leya, 2011.

SANTOS, J. Monstros e duplos em “A menina morta”. In: JEHA, J. (org.). Monstros e Monstruosidades na Literatura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. p. 125-145.

SIGMUND, F. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume XVII. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976. p. 275-314.

STEVENSON, R. O médico e monstro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Porto Alegre: L &PM, 2010.