A Lua vista da Terra e vice-versa: tradução de carta escrita por Adrien Auzout, publicada pela Royal Society em 1666

Gustavo H. S. S. Sartin

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 18, 2012. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Gustavo H. S. S. Sartin
Mestre em História (área de concentração História e Espaços) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2011), além de bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007). Atualmente cursa a graduação em Língua Italiana e Literaturas de Língua Italiana na Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC
Florianópolis, Santa Catarina.
ghsartin@gmail.com

PALAVRAS-CHAVE: Ciência; astronomia; vida extraterrestre; século XVII; Inglês Moderno ‘Inicial’.

KEYWORDS: Science; astronomy, extraterrestrial life; 17th century; Early Modern English.

 

Apresentação

Adrien Auzout (1622 – 1691), que dá nome a uma cratera lunar no chamado “Mare Crisium“, foi um conhecido astrônomo francês, membro da Royal Society de Londres, do Observatoire Royale de Paris, além da Académie Royale des Sciences (então instalada no museu do Louvre). No presente texto, uma carta enviada a um correspondente em Londres, Auzout especula acerca do que existe na superfície da Lua e sobre como seus supostos habitantes enxergariam a Terra.

Embora à primeira vista possa nos parecer inusitado que, três séculos antes da chegada do homem à Lua, alguém pudesse tecer conjeturas não somente acerca do que existiria em sua superfície como também pressupor a existência de seres extraterrestres, o fato é que tais especulações são bem mais antigas. Nicolau de Cusa (1401 – 1464), em seu De Docta Ignorantia (1440), por exemplo, não somente discute a natureza da Lua como também afirma que (II.12):

Non enim animal unius speciei conceptum alterius, quem per signa exprimit vocalia, apprehendere potest nisi in paucissimis signis extrinsecus, et tunc per longum usum et solum opinative. Minus autem de habitatoribus alterius regionis improportionabiliter scire poterimus, suspicantes in regione solis magis esse solares, claros et illuminatos intellectuales habitatores, spiritualiores etiam quam in luna, ubi magis lunatici, et in terra magis materiales et grossi.

Não é possível a um animal de uma espécie formar conceitos acerca de outro da sua, mesmo que possam se exprimir através da fala, a não ser por pouquíssimos sinais externos, por uma longa convivência e o resultado será somente opinativo. Muito menos ainda podemos saber dos habitantes de outras regiões, além de suspeitar que os da região do Sol sejam mais solares, claros e iluminados intelectualmente; mais espirituais do que aqueles da Lua, que talvez sejam mais lunáticos; e, na Terra, mais materiais e corpulentos.

Linguagem

Escrito naquilo que se convencionou chamar “Early Modern English”, a carta traz dezessete palavras com grafia arcaica: followes (por follows), forrests (porforests), reflexions (por reflections), bredth (por breadth), marishes (por marshes), vulcans (por volcanoes), ecclipse (por eclipse), mapps (por maps), ballanced(por balanced), crepuscle (por crepuscule), equaly (por equally), selfe (por self), tryed (por tried), enlightned (por enlightened), shaddows (por shadows); além das formas verbais distinguish’t (por distinguished) e discerne (por discern). O único termo realmente em desuso entre os empregados no texto é betwixt, sinônimo antigo de between.

Talvez por tratar-se de uma carta, o texto apresenta uma pontuação que, comparada aos padrões atuais, causa alguma estranheza. Ainda assim, os longos períodos compostos, nos quais orações coordenadas aparecem por vezes separadas por ponto-e-vírgula sugerem o fluxo de consciência de um autor que, afinal, narrava suas especulações.

 


 

Tradução

As especulações do Senhor Auzout sobre as mudanças, prováveis de serem descobertas na Terra e na Lua, por seus respectivos habitantes.

Esse filósofo inquisitivo, em uma carta recentemente escrita para o seu correspondente em Londres, aproveita a oportunidade para discorrer sobre suas considerações acerca daquelas mudanças mencionadas no título, da seguinte forma:

Eu tenho – disse ele – algumas vezes pensado sobre as mudanças, prováveis de serem vistas, que os supostos habitantes da Lua poderiam descobrir em nossa Terra; enquanto eu, reciprocamente, poderia observar quaisquer mudanças desse tipo na Lua. Por exemplo, eu penso que a Terra, para as pessoas da Lua, pareceria ter um diferente aspecto nas muitas épocas do ano: ter uma aparência no inverno, quando não há quase nada verde em uma grande parte da Terra, quando existem países inteiramente cobertos por neve, outros inteiramente cobertos por água, outros inteiramente escondidos por nuvens – e isso por muitas semanas seguidas. Outro [aspecto] na primavera, quando as florestas e os campos estão verdes. Outro no verão, quando campos inteiros estão amarelos, etc. Eu penso e digo que essas mudanças são consideráveis o bastante para, devido à força dos reflexos de luz, serem observadas, uma vez que observamos muitas diferenças de luz na Lua. Temos rios consideráveis o bastante para serem vistos, que adentram as terras o bastante e têm larguras passíveis de serem observadas. Em alguns locais existem marés que atingem grandes países, [de modo] suficiente para lá realizarem alguma mudança aparente; e, em alguns de nossos mares, algumas vezes flutuam massas de gelo de tal imensidão que são muito maiores do que os objetos os quais, estamos seguros, podemos ver na Lua. Ademais, nós cortamos florestas inteiras e drenamos pântanos em uma extensão grande o bastante para causar uma notável alteração; e foram os homens que fizeram tais trabalhos, os quais produziram mudanças grandes o bastante para serem percebidas. Em muitos locais também existem vulcões, que parecem ser grandes o bastante para serem distinguidos, especialmente na ausência de luz; e quando o fogo ilumina florestas de grande extensão ou cidades é muito provável que esses objetos luminosos apareçam ou em um eclipse da Terra ou quando tais partes da Terra não estão iluminadas pelo Sol. Ainda assim, eu não conheço qualquer homem que tenha observado tais coisas na Lua; e pode-se racionalmente garantir que não existem vulcões lá, ou que nenhum deles arde no presente momento. É nisso que – assim ele continua – todos os homens curiosos que têm bons telescópios devem bem se concentrar; e não duvido que, se tivéssemos um mapa da lua bem detalhado, como o que eu pretendia fazer, com uma topografia que incluísse todos os locais, nós ou nossos descendentes iriam encontrar algumas mudanças nela. Se os mapas da Lua feitos por Hevelius, Divini e Riccioli são exatos, posso dizer que neles vi alguns locais bastante consideráveis, onde eles colocam áreas que são claras, enquanto eu vejo somente áreas escuras. É verdade que se existem mares na Lua, dificilmente poderia ocorrer diferente do que do que na nossa Terra, na qual as aluviões são formadas em alguns locais, enquanto o mar invade as terras em outros. Digo que se, como a maioria acredita, essas manchas que vemos na lua são mares, tenho minhas razões para duvidar que o sejam; delas falarei alhures. E eu algumas vezes pensei se não poderia ser que os mares da Lua, se é que devam existir mares, estivessem no lado do outro hemisfério e que pode ser por esse motivo que a Lua não gira sobre seu eixo, como nossa Terra, na qual as terras e o mar estão equilibrados; daí poderia resultar a não-aparição de quaisquer nuvens que tenham se elevado lá e tampouco de quaisquer vapores consideráveis o bastante para serem vistos; e também que essa ausência de vapores seja também a causa de que não há qualquer crepúsculo lá, pois parece não haver um (ao menos eu mesmo não consegui ver até agora qualquer sinal de um). Portanto, penso eu, não se deve duvidar de que os supostos cidadãos da lua possam ver o nosso crepúsculo, uma vez que vemos que o mesmo é incomparavelmente mais forte do que a luz que a lua nos dá, mesmo quando cheia; pois, pouco após o pôr-do-sol, quando não recebemos mais luz direta do sol, o céu fica muito mais claro do que na mais bela noite de lua cheia. Enquanto isso, uma vez que vemos na Lua, quando ela está aumentando e diminuindo, a luz que ela recebe da Terra, não podemos duvidar que o povo da Lua deva do mesmo modo ver na Terra essa luz a qual a ilumina, com talvez a diferença que existe entre suas grandezas. Muito possivelmente, portanto, eles devam ver a luz do crepúsculo sendo, como dissemos, comparativamente maior. Enquanto isso, não vemos qualquer luz fraca além do setor sob luz, a qual é em todo os lugares quase igualmente forte, e lá não distinguimos coisa alguma; nem mesmo nas partes mais claras, as quais são chamadas Aristarchus ou Porphyrites, como frequentemente tentei. Apesar de podermos ver a luz que a Terra envia para lá, a qual é algumas vezes tão forte que, quando a Lua diminui, eu muitas vezes vi de forma distinta todas as suas partes não iluminadas pelo Sol, além das manchas, a ponto de poder distingui-las todas. As sombras de todas as cavidades da Lua parecem ser mais fortes do que seriam se houvesse uma segunda luz. Pois apesar de estarem distantes, as sombras de nossos corpos, cercadas por luz, parecem-nos quase escuras. Contudo elas não parecem tanto quanto as sombras da Lua; e aquelas que estão na beirada de um setor não deveriam aparecer dessa maneira. Mas não concluirei coisa alguma dessas coisas. Quando eu, doravante, tiver feito mais observações frequentes da Lua com meus grandes telescópios, oportunamente talvez venha a aprender mais sobre ela do que presentemente sei; ao menos para instigar os curiosos para que tentem fazer semelhantes observações, ou mesmo outras sobre as quais não pensei.

Original

Monsieur Auzout’s Speculations of the Changes, likely to be discovered in the Earth and Moon, by their respective Inhabitants.

This Inquisitive Philosopher in a letter of his, lately written to his correspondent in London, takes occasion to discourse of his considerations concerning those Changes, mentioned in the Title, as followes;

I have (said he) sometimes thought upon the Changes, which ‘tis likely, the supposed Inhabitants of the Moon might discover in our Earth, to see, whiter reciprocally I could observe any such in the Moon. For example, me thinks, that the Earth would to the people of the Moon appear to have a different face in the several seasons of the year; and to have another appearance in Winter, when there is almost nothing green in a very great part of the Earth; when there are Countries all covered with snow, others, all covered with water, others, all obscured with Clouds, and that for many weeks together: Another in Spring, when the Forrests and Fields are green. Another in Summer, when whole Fields are yellow &tc. Me thinks, I say, that these changes are considerable enough in the force of the reflexions of Light to be observed, since we see so many differences of Light in the Moon. We have Rivers considerable enough to be seen, and they enter far enough into the Land, and have a bredth capable to be observed. There are Fluxes in certain places, that reach into large Countries, enough to make there some apparent change; & in some of our Seas there float sometimes such bulky masses of Ice, that are far greater, than the Objects, which we are assured, we can see in the Moon. Again, we cut down whole Forrests, and drain Marishes, of an extent large enough to cause a notable alteration: And men have made such works, as have produced Changes great enough to be perceived. In many places also are Vulcans, that seen to be big enough to be distinguish’t, especially in the shadow: And when Fire lights upon Forrests of great extent, or upon Towns, it can hardly be doubted, but these Luminous Objects would appear either in an Ecclipse of the Earth, or when such parts of the Earth are not illuminated by the Sun. But yet, I know no man, who hath observed such things in the Moon; and one may be rationally assured that no Vulcans are there, or that none of them burn at this time. This is (so he goes on) which all Curious men, that have good Telescopes, ought well to attend; and I doubt not; but, if we had a very particular Map of the Moon, as I had designed to make one with a Topography, as it were, of all the considerable places therein, that We or our Posterity would find some changes in Her. And if the Mapps of the Moon of Hevelius, Divini, and Riccioli, are exact, I can say, that I have seen there some places considerable enough, where they put parts that are clear, whereas I there see dark ones. ‘Tis true that if there be Seas in the Moon, it can hardly fall out otherwise, that it doth upon our Earth, where Alluvium’s are mad in some places, and the Sea gains upon the Land in others. I say, if those Spots we see in the Moon, are Seas, as most believe them to be; whereas I have many reasons, that make me doubt, whether they be so; of which I shall speak elsewhere. And I have sometimes thought, whether it might not be, that all the Seas of the Moon, if there must be Seas, were on the side of the other Hemisphere, and that for this cause it might be that the Moon turns not upon its Axis, as our Earth, wherein the Lands and Seas are, as it were ballanced: That thence also may proceed the non-appearance of any Clouds raised there, or of any Vapors considerable enough to be seen, as there are raised upon this Earth; and that this absence of Vapors is perhaps the cause, that no Crepuscle is there, as it seems there is none, my selfe at least not having hitherto been able to discerne any mark thereof: For, me thinks, it is not to be doubted, but that the reputed Citizens of the Moon might see our Crepuscle, since we see, that the same is without comparison stronger, than the Light afforded us by the Moon, even when she is full; for, a little after the Sun-set, when we receive no more the first Light of the Sun, the sky is far clearer, than it is in the fairest night of the full Moon. Mean while, since we see in the Moon, when she is increasing or decreasing, the Light she receives from the Earth, we cannot doubt, but that the People of the Moon should likewise see in the Earth that Light, wherewith illuminates it, with perhaps the difference, there is betwixt their bigness. Much rather therefore should they see the Light of the Crepuscle, being, as we have said, incomparably greater. In the mean time we see not any faint Light beyond the Section of the Light, which is every where almost equaly strong, and we there distinguish no thing at all, not so much that cleerest part, which is called Aristarchus, or Porphyrites, as I have often tryed; although on may there see the Light, which the Earth sends thither, which is sometimes so strong, that in the Moon’s decrease I have often distinctly seen all the parts of the Moon, that were not enlightned by the Sun, together with the difference of clear parts, and the Spots, so far as to be able to discern them all. The Shaddows also of all the Cavities of the Moon seem to be stronger, than they would bee, if there were a Second Light. For, although a far off, the shaddows of our Bodies, environed with Light, seem to Us almost dark; yet they doe not so appear so much as the Shaddows of the Moon doe; and those that are upon the Edge of the Section, should not appear in the like manner. But, I will determine nothing of any of these things. When I shall hereafter have made more frequent Observations of the Moon with my great Telescopes, in convenient time, I shall then perhaps learn more of it, than I know at present, at least it will excite the Curious to endeavor to make the like Observations; and it may be, others, that I have not thought of.

Referências

AUZOUT, Monsieur. Monsieur Auzout’s Speculations of the Changes, Likely to be Discovered in the Earth and Moon, by Their Respective Inhabitants.Philosophical Transactions (1665-1678), vol. 1 (1665 – 1666), pp. 120-123. The Royal Society. http://www.jstor.org/stable/101451

HOFFMANN, E., KLIBANSKY, R. (ed.). Nicolai de Cusa Opera Omnia. Vol. I: De docta ignorantia. Lipsiae: in aedibus Felix Meiner, 1932. http://www.hs-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lspost15/Cusa/cus_d000.html