A recepção crítica e a representação da homossexualidade no romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha

Leandro Henrique Aparecido Valentin

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 20, 2013. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Leandro Henrique Aparecido Valentin
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários
São José do Rio Preto-SP, Brasil
leandro.valentin@hotmail.com
http://lattes.cnpq.br/1927500373020254

RESUMO: Este artigo apresenta a recepção crítica de Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, bem como uma leitura analítico-interpretativa de base imanentista da representação da homossexualidade no romance. Desse modo, identificamos concepções, práticas e valores sociais vinculados à homossexalidade no final do século XIX, que se manifestam na linguagem literária do romance de Caminha.

PALAVRAS-CHAVE: Adolfo Caminha; Bom-Crioulo; homossexualidade; literatura brasileira; século XIX.

ABSTRACT: This article shows the critical reception of Bom-Crioulo (1895), by Adolfo Caminha, and analyses the representations of homosexuality in that novel with an immanentist approach. Thereby, showing the conceptions, practices, and social values from the late 19th century, that are expressed in the literary language of Caminha’s novel.

KEYWORDS: Adolfo Caminha; Bom-Crioulo; homosexuality; Brazilian literature; 19th century.

 

Bom-Crioulo, obra de Adolfo Caminha (1867-1897), publicada em 1895, é o primeiro grande romance brasileiro que aborda a homossexualidade como assunto central e, por esse motivo, tornou-se um marco na literatura brasileira.

A recepção crítica da obra, na época, não foi satisfatória. De modo geral, os críticos formularam opiniões contrárias ao romance fundamentando-se, basicamente, na maneira pela qual a homossexualidade foi trabalhada, rotulando o livro como uma obra obscena, além de vincularem os fatos narrados no romance à vida pessoal do autor. Entre os críticos mais contundentes, destacam-se Valentim Magalhães, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, e o renomado crítico José Veríssimo. Conforme apontado por Howes (2005), na coluna “Semana Literária”, da edição de 20-21 de novembro de 1895 do jornal A Notícia, Magalhães afirmou:

Ora o Bom Crioulo excede tudo quanto se possa imaginar de mais grosseiramente imundo. […] não é um livro travesso, alegre, patusco, contando cenas de alcova ou de bordel, ou noivados entre as hervas, à lei do bom Deus, como no Germinal… nada disso. É um livro ascoroso, porque explora – primeiro a fazê-lo, que eu saiba – um ramo de pornografia até hoje inédito por inabordável, por anti-natural, por ignóbil. Não é pois sómente um livro faisandé: é um livro podre; é o romance-vômito, o romance-poia, o romance-pus. […] Este moço é um inconsciente, por obcecação literária ou perversão moral. Só assim se pode explicar o fato de haver ele achado literário tal assunto, de ter julgado que a história dos vicios bestiais de um marinheiro negro e boçal podia ser literariamente interessante (MAGALHÃES, 1895, p. 1 apud HOWES, 2005, p. 173-174).

Segundo Howes (2005), Magalhães pensava que o livro faria defesa da reabilitação do negro brasileiro enquanto figura nacional, ressaltando as suas qualidades, mas, em vez disso: “E venho encontrar unicamente um negralhão bronco, analfabeto, completamente instintivo, e aberrantemente vicioso.” (MAGALHÃES, 1895, p. 1 apud HOWES, 2005, p. 173-174).

José Veríssimo, na edição de 27 de novembro de 1895 do Jornal do Comércio, também fez duras críticas ao romance de Caminha:

Bom-crioulo é pior do que um mau livro: é uma ação detestável, literatura à parte. […] Como quer o Sr. Adolfo Caminha que seja respeitado e estimado um homem que, sem utilidade alguma social, passou longos dias ocupado em analisar e discutir a psicologia improvável de nauseantes crimes contra a natureza e tenta depois com  isso despertar em nós o arrepio da curiosidade impura e mórbida?” (VERÍSSIMO, 1895, p. 2 apud HOWES, 2005, p. 174).

Veríssimo diria, ainda, segundo Howes, que “se fosse um professor de composição literária, fazendo abstração do tema escolhido, que era “baixamente repugnante”, aplaudiria certas partes pelo estilo vigoroso e claro, embora por vezes incorreto, e lhe daria uma nota de progresso.” (HOWES, 2005, p. 174). Note-se, portanto, que a condenação do livro feita pelos críticos apoia-se nos discursos reliogioso e moralista, os quais tratavam a homossexualidade como vício e desvio da natureza. Desse modo, percebe-se que seus comentários limitam-se a criticar a homossexualidade no romance, como se ela, por si só, tivesse valor literário (pejorativo, por sinal) em si mesma.

Com o objetivo de produzir defesa ante tais críticas, Caminha publicou o artigo “Um livro condemnado”, de autoria própria, em A Nova Revista, periódico literário fundado por ele, em edição de fevereiro de 1896. Nesse artigo, Caminha orienta sua argumentação contra Magalhães e Veríssimo apoiando-se nos exemplos de Flaubert[i] (Madame Bovary), Zola[ii] (os vinte volumes que compõem a saga dos Rougon-Macquart), Huysmans[iii] (Làbas)Maussapant[iv] (Bel-Ami) e Eça de Queiroz[v] (O crime do Padre Amaro). Sobre tais autores e obras, Caminha afirma: “enfim, todos os grandes escriptores, todos os grandes artistas da palavra, rebegaram a moral, chafurdaram na crápula, tornaram-se despresiveis e indignos da consideração publica” (CAMINHA, 1896 apud BEZERRA, 2009, p. 446). Valendo-se de tais escritores, o autor de Bom-Crioulo argumenta, ainda, contra a proposição dos referidos críticos de que haveria um vínculo direto entre os personagens de sua ficção com a sua própria vida: “A julgar como certos imbecis, – que os personagens de um romance devem reflectir o caracter do autor do romance, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz pratica­riam incestos e adulterios monstruosos.” (CAMINHA, 1896 apud BEZERRA, 2009, p. 447).

Se Caminha objetivou promover uma autodefesa nesse artigo, são, por outro lado, dois outros aspectos que nos interessam em seu texto. O primeiro deles é a maneira pela qual o escritor encarava a homossexualidade. Observemos um trecho do texto de Caminha:

Que é, afinal de contas, o BOM-CRIOULO?
Nada mais que um caso de inversão sexual estudo por Krafft-Ebbin, em Moll, em Tardie, e nos livros de medicina legal. Um marinheiro rudo, de origem escrava, sem educação, nem principio algum de sociabilidade, num momento fatal obedece ás tendências homosexuaes de seu organismo e pratíca uma acção torpe: é um dege­nerado nato, um irresponsável pelas baixezas que commete até assassinar o amigo, a victima de seus instinctos. Em torno d’elle se espraia o romance, logicamente encadeado, de accôrdo com as observações da sciencia e com a analyse provável do autor, que, no caracter de official de marinha, viu os episódios accidentaes que descreve a bordo.
[…] Procure a critica os Attents aux moeurs, de Amboise Tardieu, professor de medicinal legal na faculdade de Paris, e ahi, nessas paginas, encontrará os signaes característicos de Bom-Crioulo e de Aleixo (De la péderastie et de la sodomie); procure ainda a extraordinária obra de Moll – Les perversions de l’instint genital – e verá porque razão o autor de BOM-CRIOULO não pôde deixar de ser fiel nas suas descripções em todo o seu trabalho.
[…] Qual é mais pernicioso: o BOM-CRIOULO, em que se estuda e condemna o homosexualismo, ou essas paginas que ahi andam pregando, em tom philo­sophico, a dissolução da família, o concubinato, o amor livre e toda a especie de immoralidade social? (CAMINHA, 1896 apud BEZERRA, 2009, p. 446-447).

Note-se que o desejo é visto, nesse texto, como instinto, o que implica dizer que o homem se reduz à animalidade. Isso remete ao Naturalismo, cuja influência é palpável em Bom-Crioulo, direciona o discurso de Adolfo Caminha. Nesse sentido, percebe-se a importância que o escritor conferia à ciência e as implicações dela em seu fazer literário. Ainda nesse trecho, chama-nos atenção que o escritor cearense fosse leitor de obras contemporâneas que tratavam o fenômeno da homossexualidade pelo viés médico, como, por exemplo, Psycopathia sexualis (1886), de Richard von Krafft Ebbing, obra relevante na popularização do termo “homossexualidade”. Portanto, esse fragmento explicita a incorporação pelo Realismo-Naturalismo do século XIX daciência e da medicina, via Determinismo, na abordagem de problemas e questões sociais, culturais e  antropológicos complexos. A verdade da ciência legitimaria, pois, a ficção. O mecanismo da operação explica como os preconceitos morais, religiosos, culturais e raciais, entre outros, ganharam, via literatura, status de verdade científica, com todas as consequências que isso teve. Desse modo, ressalte-se que Caminha, apesar de trabalhar a homossexualidade como assunto central em Bom-Crioulo, condenava-a, o que pode ser verificado, inclusive, pelo uso, em seu artigo, do termo “homossexualismo”, que caracteriza o fenômeno em questão como patologia. Ou seja: também para Caminha, homem do século XIX, a visão é negativa. Não é, pois, diferente da visão dominante da época. Tal dado é importante porque, conforme apresentaremos adiante, ele é, ainda que sutilmente, observável no material narrativo do livro por meio do funcionamento do narrador.

O segundo aspecto que nos chama atenção no artigo de Caminha é a forma como ele encarava a moral no processo literário. Observemos outro trecho do texto do escritor cearense:

O naturalismo é a propria vida interpretada pela arte; e, sendo o romance o romance a fórma mais natural da arte claro está que só é immoral quando não apresenta caracteres da obra artistica. Ora, andou-se a escrever que o BOM-CRIOULO “tem paginas excellentes, vigor de expressão, estylo claro…”, mas que o thema é baixamente repugnante. Logo, trata-se de uma obra em que só o thema é mau. Em arte, porém, não há themas maus, todos os asumptos, até os mais baixamente repugnantes, como o que inspirou a Huysmans o Lásbas, são optimos, desde que o escriptor saiba revestil-os de uma fórmaesthetica. E’ o meu caso, dil-o a critica, sem o querer, elogiando a fórma do livro e condemnando o thema (CAMINHA, 1896 apud BEZERRA, 2009, p. 447 – grifos do autor).

Caminha, em suma, reivindica autonomia de escrita (posicionando-se contrariamente à subordinação da arte à moral), mas, por sua vinculação ao Naturalismo, subordina a arte à ciência – o que não deixa de ser curioso, ao produzir os resultados que produziu. Para ele, o tema da obra literária não é trabalhado sob os preceitos da moral, mas, sim, sob as leis do estético e sob a subordinação da ciência. Essa perspectiva adotada pelo escritor sobre o trabalho artístico talvez justifique, em algum nível, um dos motivos pelos quais o fizesse produzir uma obra cujo assunto era um grande tabu na época e, ainda, como apresentamos, assunto este que era condenado pelo próprio autor.

As críticas a Bom-Crioulo atravessariam o século XX. Segundo Trevisan (2011), o romance foi, durante décadas, proibido em bibliotecas e escolas públicas. Além disso, como também aponta Trevisan (2011) a partir de Azevedo (1999), muitos oficiais da Marinha leram a obra e ficaram enfurecidos, pois os protagonistas faziam parte da Armada brasileira – motivo que originou críticas a Caminha, baseadas na relação entre a vida do autor e a obra, pois Caminha serviu à Marinha brasileira de 1880 a 1888. Essa revolta se estenderia inclusive ao período do Estado Novo (1937), com o pedido da Marinha brasileira para que fosse proibida a reedição da obra, “apreendida […] sob alegação de que se tratava de um livro comunista.” (AZEVEDO, 1999 apudTREVISAN, 2011, p. 255). Portanto, segundo Trevisan (2011), o romance foi duramente criticado por outros críticos até que, na década de 1980, houve novas reedições e traduções do livro para outros países, que foram muito bem recebidas no exterior. Destaque-se o comentário de Edward Lacey, tradutor da edição americana, que classificou Bom-Crioulo como “uma das obras mais peculiares na ficção do século XIX” (LACEY 1982 apud TREVISAN, 2011, p. 255 – tradução do autor).

Vamos, pois, à análise do romance, privilegiando as questões que tangem à representação da homossexualidade na obra.

A fábula[vi] de Bom-Crioulo consiste, em suma, na relação homossexual do escravo fugido, Amaro, também chamado de Bom-Crioulo, e do grumete Aleixo. Ambos se conhecem numa corveta da Marinha e passam a ter um relacionamento, chegando a viver juntos em um quarto alugado em um sobrado no Rio de Janeiro. Após Bom-Crioulo passar a servir a outro navio, o que fez com que ele raramente frequentasse sua moradia, Aleixo inicia uma relação com D. Carolina, a dona do sobrado em que viviam. Por fim, após fugir do hospital da Marinha no qual se encontrava em recuperação por causa dos ferimentos causados por um castigo no navio, Bom-Crioulo descobre o relacionamento entre Aleixo e D. Carolina e, tomado por ciúmes, assassina o grumete.

Um dado importante, ocorrido antes mesmo da primeira aparição de Amaro no livro, é o modo como o narrador descreve o flagrante que o personagem Herculano sofre ao se masturbar, que o leva a uma briga com o seu delator e a uma consequente punição de chibatadas a ambos pela confusão. Observemos o trecho:

Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados.
[…] No convés brilhava a nódoa de um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não previsto nos códigos, um crime de lesa-natureza, derramando inutilmente, no convés seco e estéril, a seiva geradora do homem.
Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela grotesca situação (CAMINHA, s/d, p. 05 – grifos nossos).

Destaque-se que o narrador de Bom-Crioulo, em relação ao nível da diegese, pode ser definido como narrador heterodiegético, o que causa certo grau de distanciamento entre ele e o material narrado. Por esse motivo, conforme se observa em nossos grifos no excerto acima, os quais privilegiam o modo pelo qual são caracterizadas pejorativamente as ações do personagem, percebe-se, no narrador, um alto grau de moralismo. Esse elemento é importante, uma vez que se abre a possibilidade de haver, na narrativa, uma perspectiva moralizante do narrador contra práticas sexuais consideradas aberrantes na época. Percebe-se que tal olhar moralista permite, nas relações da obra com o autor, com a sociedade e com a época, inferir, ainda que de maneira imprecisa, o modo como as práticas desviantes e, por extensão, a homossexualidade, eram encaradas no meio social retratado.

Observa-se, pois, a descrição inicial de Amaro: “um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada” (CAMINHA, s/d, p. 06). Ressalte-se, nessa descrição, o vigor físico do personagem, característica, essa, ressaltada várias vezes ao longo do romance. Assim sendo, destaque-se que essa descrição foi realizada para referir-se ao momento em que ele estava a caminho de receber uma punição por ter agredido um marinheiro que havia maltratado o grumete Aleixo. Observa-se, então, a primeira descrição sobre Aleixo: “um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se “coisas”” (CAMINHA, s/d, p. 07 – grifos nossos).

Note-se que, enquanto o narrador descreve as características físicas de Amaro de maneira a ressaltar seu vigor, Aleixo é descrito com certo traço de delicadeza, exemplificado pelo uso do diminutivo “marinheirito”. O término da descrição é muito sugestivo: percebe-se que o marinheiro devia ser motivo de murmúrios entre os marinheiros e, muito possivelmente, por causa das aspas empregadas na palavra “coisas”, de maneira pejorativa. Em outra descrição, Aleixo é tido com “um arzinho ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, e os lábios grossos extremamente vermelhos.” (CAMINHA, s/d, p. 13). Note-se, novamente, o diminutivo em “arzinho” conferindo delicadeza à descrição e o adjetivo “obediente”, que sugere a submissão do personagem. Ressalte-se, ainda, que a maneira como os lábios são descritos remetem à figura da mulher, destacando ainda mais a feminilidade do grumete.

Vejamos, agora, um momento que mostra a satisfação de Amaro, apesar do castigo iminente:

Estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem… Depois estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro… Estava satisfeitíssimo! (CAMINHA, s/d, p. 07 – grifos nossos).

Note-se que, conforme já havia sido sugerido pelas descrições iniciais, há uma clara diferença entre Amaro e Aleixo: o primeiro, um indivíduo forte e másculo, ao passo que o segundo é frágil, com características físicas que remetem a uma mulher. Essa distinção se materializa na narrativa, conferindo um papel de masculinidade a Bom-Crioulo e um papel de feminilidade a Aleixo.

Desse modo, Amaro é, ao longo do romance, caracterizado de modo animalesco: são destacadas sua “flexibilidade e destreza felinas”; marinheiros de todos os navios diriam “um animal inteiro é o que ele era!”; apanharia no castigo como um “animal teimoso”; teria ele “ímpetos de touro”, ou, ainda, seria um “animal com formas de homem”. Esses são exemplos de zoomorfização, um procedimento recorrente no romance.

Considerando-se essa informação, observemos o trecho que descreve o modo como a amizade entre os protagonistas nasceu:

Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempoduas naturezas de sexo contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante coisa, nunca homem algum ou mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia! Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a força magnética de um imã (CAMINHA, s/d, p. 12 – grifos nossos).

Nota-se que o narrador salienta a natureza fisiológica do desejo de Amaro. As palavras utilizadas (“sexos contrários”, “desejo fisiológico”, “animal”, “macho” e “fêmea”), nesse trecho, caracterizam com um caráter animalesco o desejo que Bom-Crioulo nutre por Aleixo, o que nos permite dizer que, em vez de se caracterizar como “amor à primeira vista”, o sentimento é, praticamente, uma reação instintiva. É desse modo, portanto, que se dá a relação entre os protagonistas: Bom-Crioulo não apenas como um homem, mas, também, como representação de masculinidade, ou, ainda, de um animal macho bruto, enquanto Aleixo se caracterizaria por sua feminilidade. Nesse aspecto, há, inclusive, diferença de poder: Aleixo submete-se aos caprichos de Bom-Crioulo. Para as convenções sociais da época, a mulher (e, por extensão, a passividade) exercia um papel submisso no relacionamento. No romance, Aleixo não é apenas um indivíduo passivo no relacionamento, mas, também, porta características femininas, conforme já apontamos anteriormente. Tal caracterização necessariamente feminina do personagem ratifica sua submissão ante o parceiro viril.

Outro dado interessante é a decadência moral pela qual passa Amaro, sobretudo por causa dos efeitos de seu desejo por Aleixo. Quando ainda nem estava a bordo, durante um ano inicial na Marinha, o narrador afirma que “seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a tratá-lo por Bom-Crioulo.” (CAMINHA, s/d, p. 9). No entanto, com o passar do tempo, seu comportamento mudou. Observemos:

Diziam uns que a cachaça estava deitando a perder “o negro”; outros, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, dês que “se metera” com o Aleixo, o tal grumete, o belo marinheiro de olhos azuis, que embarcara no sul. ladrão do negro estava mesmo ficando sem-vergonha! E não lhe fossem fazer recriminações, dar conselhos… Era muito homem para esmagar um!
O próprio comandante já sabia daquela amizade escandalosa com o pequeno. Fingia-se indiferente, como se nada soubesse, mas conhecia-se-lhe no olhar certa prevenção de quem deseja surpreender em flagrante
Os oficiais comentavam baixinho o fato e muita vez riam maliciosamente na praça d’armas entre copos de limonada (CAMINHA, s/d, p. 12 – grifos nossos).

A forma como é qualificada a relação entre Amaro e Aleixo é de uma “amizade escandalosa”. O objetivo de flagrante que o comandante nutria evidencia que a prática homossexual seria, portanto, um delito. Além disso, percebe-se que o relacionamento dos protagonistas, que, nesse ponto da narrativa, ainda não estava definido, já era motivo de risos entre os marinheiros, o que reflete o olhar pejorativo que se tinha da homossexualidade no contexto da época.

Aos poucos, é introduzido na narrativa o componente erótico. Vejamos:

E vinha-lhe à imaginação o pequeno com os seus olhinhos azuis, com o seu cabelo alourado, com as suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador.
Nas horas de folga, no serviço, chovesse ou caísse fogo em brasa do céu, ninguém lhe tirava da imaginação o petiz: era uma perseguição de todos os instantes, uma idéia fixa e tenaz, um relaxamento da vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!…
Ao pensar nisso Bom-Crioulo transfigurava-se de um modo incrível, sentindo ferroar-lhe a carne, como a ponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava, esse desejo veemente — uma sede tantálica de gozo proibido, que parecia queimar-lhe por dentro as vísceras e os nervos… (CAMINHA, s/d, p. 14 – grifos nossos).

Percebe-se que o erotismo é introduzido, ainda que no nível do imaginário de Amaro, sob a forma de desejo proibido. Tal proibição, evidentemente, refere-se à homossexualidade e é, no início, razão para um conflito interno de Bom-Crioulo, uma vez que ele já havia passado por experiências heterossexuais frustradas anteriormente. A primeira delas foi quando ele fora “obrigado a dormir com uma rapariga” (CAMINHA, s/d, p. 14) e a segunda quando, embriagado, relacionou-se com uma prostituta[vii]. Em ambas as oportunidades, o narrador, eufemisticamente, afirma que Amaro não teve desempenho sexual satisfatório, fato que o deixou muito envergonhado e, de certo modo, traumatizado. Por esse motivo, a referência às mulheres é negativa: “sempre fora indiferente a certas coisas, preferindo antes a sua pândega entre rapazes a bordo mesmo, longe de intriguinhas e fingimentos de mulher” (CAMINHA, s/d, p. 14). Não obstante, as relações ruins com mulheres, o desejo homoerótico é, além de animalesco, conflituoso, pois transgrede a natureza: “E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue? Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens? (CAMINHA, s/d, p. 14, grifos nossos). Portanto, o amor, em Amaro, é uma obsessão instintiva de posse, o que remete à animalização do personagem. Vejamos outro conflito interno do personagem a respeito de seu desejo:

Tudo isto fazia-lhe confusão no espírito, baralhando idéias, repugnando os sentidos, revivendo escrúpulos. É certo que ele não seria o primeiro a dar exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir… Mas — instinto ou falta de hábito — alguma coisa de si revoltava-se contra semelhante imoralidade que outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre convés… Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo! Não valia a pena sacrificar o grumete, uma criança… Quando sentisse “a necessidade”, aí estavam mulheres de todas as nações, francesas, inglesas, espanholas …… a escolher! (CAMINHA, s/d, p. 15 – grifos nossos).

Nesse trecho, as opiniões são formuladas mais precisamente pelo próprio personagem, por meio do discurso indireto livre, e, por isso, nos parece que não só a homossexualidade é tratada por ele como imoralidade, mas também o fato de Aleixo ser muito jovem. Seja como for, há, aí, a presença de interdições sexuais vinculadas a regras sociais.

Se o romance afirma que Bom-Crioulo passa por uma decadência moral por causa de Aleixo, como apresentamos anteriormente, pode-se afirmar que o grumete, gradualmente, passa por um processo de perda de timidez por causa de conselhos de Amaro. A influência de Bom-Crioulo fez com que surgisse em sua “alma ingênua de criançola o desejo de conquistar simpatias, de atrair sobre a sua pessoa a atenção de todos.” (CAMINHA, s/d, p.15). A partir da maneira de se vestir, com a camisa mais aberta, por exemplo, Aleixo passa a conferir atenção à força que a sua beleza poderia atrair e, por causa dessa transformação, o desejo de Bom-Crioulo aumentava ainda mais: “seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo. — Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje.” (CAMINHA, s/d, p. 16 – grifos nossos). Note que o narrador, por meio do discurso indireto ou por meio de suas atribuições a Amaro, caracteriza o desejo de Amaro como algo que concebe Aleixo como semelhante a uma mulher. Mesmo aqui, parece que o desejo de um homem por outro homem sofre um processo de interdição. Portanto, um dos fatores do desejo de Amaro era a feminilidade de Aleixo, o grumete “com jeitos de namorada” aos estímulos de Bom-Crioulo. Essa feminilidade confirma-se na primeira experiência sexual entre ambos. Ainda no navio, após Bom-Crioulo, por algum tempo, ter lhe feito várias propostas de passeios no Rio de Janeiro e de viverem juntos em um quarto alugado, Aleixo, refletindo sobre essas propostas e no castigo pelo qual o negro havia passado por sua causa, se entrega aos pedidos de Amaro:

Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse — uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade.
— Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza (CAMINHA, s/d, p. 21 – grifos nossos).

Nessa passagem, o desejo de Aleixo é caracterizado como simples fisiologia e sua passividade se confirma no ato sexual. Além disso, observa-se, mais uma vez, o olhar moralista do narrador ao referir-se ao ato homossexual dos protagonistas como “delito contra a natureza”. Esse tratamento da homossexualidade como “crime contra natura” é uma tônica do romance.

Após o ocorrido, Bom-Crioulo tem certeza de que só poderia se satisfazer sexualmente com homens: “sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta… Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.” (CAMINHA, s/d, p. 22). O narrador afirma, ainda, que Amaro nunca havia percebido em sua vida “semelhante anomalia” e que “não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a “natureza” impunha-lhe esse castigo…” (CAMINHA, s/d, p. 22 – grifos nossos). Essa é uma curiosa operação: anatureza de Amaro é responsável pelo seu desejo, mas, aí, é concebida como manifestação de uma natureza com defeito, aberrante, anormal. Retorna, nessa concepção, a distinção entre boa natureza natureza má, com os adjetivos aí vinculados ao atendimento ou não às demandas da moral sexual dominante vazada pela ideologia religiosa e pela heteronormatividade. É, no mínimo, paradoxal, senão contraditória, a ideia de uma natureza contra natura. Além disso, é reforçada, nesse fragmento, a visão de que a homossexualidade é algo completamente negativo, uma vez que o narrador vale-se das palavras “anomalia” (nível biológico) e “castigo” (nível social) para referir-se a ela. Nota-se, ainda, a natureza enquanto entidade mais forte do que o homem, como adiante é reforçado: “a natureza pode mais que a vontade humana…” (CAMINHA, s/d, p. 22-23).

Ao chegarem ao Rio de Janeiro, Bom-Crioulo aluga um quarto de um sobrado de D. Carolina, portuguesa que ele salvara de um assalto no passado, na Rua da Misericórdia. Ali, Amaro e Aleixo vivem durante um ano, em meio a serviços na corveta que não voltara a alto-mar. Nesse quarto, Bom-Crioulo pede que Aleixo fique nu. Mesmo contrariado, o menino atende ao pedido do amante, momento em que o narrador faz longa descrição do corpo do grumete e das sensações de Bom-Crioulo. É preciso destacar, nesse episódio, a caracterização de Aleixo como uma mulher e, mais uma vez, a animalização de Bom-Crioulo, ratificando o relacionamento entre dois homens, no qual um era másculo e, o outro, afeminado: “Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher! […] Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea…” (CAMINHA, s/d, p. 29).

Após o período de um ano, Amaro passou a ter de servir a outro navio, o que fez com que ele fosse ao sobrado muito raramente. Com tal separação, é curioso o sentimento do grumete ainda no primeiro dia de ausência do amante: “o negro não lhe fazia muita falta: estimava-o, é verdade, mas aquilo não era sangria desatada que não acabasse nunca…” (CAMINHA, s/d, p. 33). Logo em seguida, surpreende o pensamento do jovem marinheiro:

Podia encontrar algum homem de posição, de dinheiro: já agora estava acostumado “àquilo”… O próprio Bom-Crioulo dissera que não se reparavam essas coisas no Rio de Janeiro. Sim, que podia ele esperar de Bom-Crioulo? Nada, e, no entanto, estava sacrificando a saúde, o corpo, a mocidade… ora, não valia a pena! (CAMINHA, s/d, p. 33).

Aleixo, portanto, já dava indícios de que não mais se interessava por Amaro. De fato, Aleixo não amava e nem tinha afeto por Amaro. Além disso, observa-se que o garoto demonstrava maior autoconfiança para que, por meio de relações homossexuais, conquistasse melhores condições de vida. Afinal, ele já estava acostumado “àquilo”, como bem diz o narrador.

É nesse contexto de ausência de Bom-Crioulo e de transformações em Aleixo que D. Carolina passa a desejar o garoto, decidindo-se a tentar conquistá-lo. A portuguesa não se importava que o jovem tivesse um relacionamento homossexual, pois, segundo ela, “mulher sempre é mulher e homem sempre é homem.” (CAMINHA, s/d, p. 34). Enfim, ela alcança seu objetivo: o grumete passa a desejá-la e ambos têm relações sexuais – note que, novamente, o desejo é concebido como algo apenas fisiológico. Na primeira experiência sexual com a portuguesa, o narrador animaliza D. Carolina “Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote…” (CAMINHA, s/d, p. 36). Nesse trecho, Aleixo ocupa o lugar do “macho”. O narrador passa, então, a construir frases que também o caracterizam como animal macho, ao contrário do que se via anteriormente: “O efebo teve um arranco de novilho excitado” (CAMINHA, s/d, p. 36) e “grande ímpeto selvagem de novilho insaciável” (CAMINHA, s/d, p. 48). De fato, a masculinidade de Aleixo começa a manifestar-se no desejo pela portuguesa: “Com efeito, a portuguesa estava irresistível para um adolescente nas condições de Aleixo, bisonho em aventuras dessa ordem, e cuja virilidade apenas começava a destoucar-se.” (CAMINHA, s/d, p.46).

Carolina, juntamente com a ausência de Bom-Crioulo, é a responsável pela transformação de Aleixo. Ela, que até então mantinha um relacionamento de muita proximidade com os dois marinheiros e, como afirma o narrador, “eram como uma pequena família, não tinham segredos entre si, estimavam-se mutuamente” (CAMINHA, s/d, p. 30), estava entregue ao relacionamento com o grumete. Aleixo também estava entregue, exigindo inclusive que ela não recebesse mais o açougueiro com quem tinha um relacionamento, pois ele a queria só para si. Aleixo chegou até mesmo a afirmar que “estimava-a do fundo do coração e tornou a jurar que havia de morrer junto dela, na mesma cama — juntinho, lado a lado…” (CAMINHA, s/d, p. 48), o que mostra o grau de envolvimento do jovem com a portuguesa. Desse modo, como bem apontado por Thomé (2009):

A essa altura, a trama, para o leitor, já está clara: um inusitado triângulo amoroso, no qual o vértice é ocupado por Aleixo, tendo o negro em uma das faces, e a portuguesa na outra. Mais do que uma disputa amorosa, são duas forças poderosas que se enfrentam: o desejo consentido, de um lado, o desejo desviante, de outro; o stablishment versus o marginal.
[…] Assim, a despeito da presença de uma mulher, não é a ela que se disputa nesse triângulo amoroso, mas ao rapaz, objeto do desejo tanto dela quanto do negro. Nesse sentido, pode-se dizer que, contraditoriamente, Bom-crioulo e d. Carolina estão num mesmo plano, de um mesmo lado, em oposição àquele ocupado por Aleixo. […] Aleixo é desejado, não apenas por seus atrativos físicos, mas pelo que simboliza no inconsciente dos outros dois. (THOMÉ, 2009, p. 88-89)

Enquanto Aleixo e D. Carolina mantinham uma relação, Bom-Crioulo trabalhava muito mais no outro navio, fato que somado à ausência de Aleixo, lhe impôs grande sofrimento, o que o levou a cometer grande desordem e, por essa razão, ser condenado a castigo com chibatadas no navio. Destaca-se, no momento da acusação, a fala do comandante: “Não se iluda a guarnição deste navio! perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam!…” (CAMINHA, s/d, p. 45 – grifos nossos). Assim como a embriaguez, a homossexualidade é tratada como um vício e, por conseguinte, como um delito. Embora Amaro não tenha sido condenado por causa de sua prática homossexual, mas, sim, por causa de embriaguez, percebe-se, mais uma vez, a perspectiva negativa que se tinha da homossexualidade.

Por causa dos ferimentos do castigo, Bom-Crioulo é levado ao hospital da Marinha e ali fica durante certo período. No longo período em que lá permaneceu, o marinheiro preocupava-se com a fidelidade de Aleixo durante sua ausência. Nesse temor, Amaro se preocupava com a possibilidade de Aleixo se envolver com outro homem. Ele nem sequer pensava na possibilidade de que Aleixo pudesse se interessar por uma mulher, o que evidencia que, para Bom-Crioulo, o grumete era, definitivamente, homossexual. Observemos: “não podia esquecer, não podia apagar do espírito aquela idéia-pesadelo: o grumete nos braços doutro homem…” (CAMINHA, s/d, p. 50).

Durante o período no hospital, Bom-Crioulo descobre a relacionamento de Aleixo com D. Carolina por meio de um marinheiro. Amaro fica surpreso pelo fato de Aleixo se envolver com uma mulher, o que não diminui o ódio que ele sente pela traição:

Agora é que tinha um desejo enorme, uma sofreguidão louca de vê-lo, rendido, a seus pés, como um animalzinho; agora é que lhe renasciam ímpetos vorazes de novilho solto, incongruências de macho em cio, nostalgias de libertino fogoso… As palavras de Herculano (aquela história do grumete com uma rapariga) tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma espécie de urtiga brava arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia questão! E não era somente questão de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora, lá cima, no quartinho da rua da Misericórdia: — era questão de gozá-lo, maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer… Não, não era somente o gozo comum, a sensação ordinária, o que ele queria depois das palavras de Herculano: era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas… E havia de tê-lo, custasse o que custasse! (CAMINHA, s/d, p. 62).

Além do ódio, Bom-Crioulo também possui desejo sádico ao pensar na traição de Aleixo. No entanto, tal desejo não se concretiza, pois ele acaba por assassinar o grumete no desfecho da narrativa sem se valer de quaisquer práticas sádicas e sem sentir prazer por seu sofrimento ao morrer.

Em suma, em Bom-Crioulo, parece-nos interessante a exploração da natureza do desejo de Amaro. Mesmo sob um prisma Naturalista e afeito às avaliações morais da época, o procedimento de descrição-caracterização do desejo homossexual de Amaro apresenta certa complexidade. O que há de, também, muito interessante no romance, é a exploração do plano afetivo de Amaro. Talvez esta seja a primeira exploração, na literatura brasileira, do plano erótico-amoroso de uma personagem homossexual. Obviamente, isto não se dá sem contradições e sem a presença dos valores morais da época. Portanto, ainda que possua certa carga de moralismo, Bom-Crioulo é um romance muito significativo por representar a homossexualidade abertamente num contexto muito conservador, o que levaria Trevisan a afirmar que “ali onde a ficção se deixa expandir, Caminha coloca-se a quilômetros à frente do seu tempo.” (TREVISAN, 2011, p. 254). Logo, trata-se do romance precursor, na literatura brasileira, de obras que tratam a homossexualidade de maneira mais direta.

Referências

BEZERRA, C. E. O. Adolfo Caminha: um polígrafo na literatura brasileira do Século XIX (1885-1897). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009.

CAMINHA, A. Bom-Crioulo. [S.l.]: Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/bom_crioulo2.pdf>. Acesso em: 29 Nov. 2012.

FRANCO JUNIOR, A. Operadores de leitura da narrativa. In: BONNICI, T.; ZOLIN, L.O. (Orgs.). Teoria Literária – Abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: EDUEM, 2003, p. 33-56.

HOWES, R. Raça e sexualdiade transgressiva em Bom-Crioulo de Adolfo Caminha. Graphos, Revista da Pós-Graduação em Letras – UFPB, João Pessoa, v. 7. n. 2/1, 2005. p. 171-190.

THOMÉ, R. Eros proibido: as ideologias em torno da questão homoerótica na literatura. Rio de Janeiro: Nova Razão Cultural, 2009.

TREVISAN, J. S. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 8a ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.

 

[i] “Flaubert o tão citado o tão pouco lido Flaubert, esteve á porta dos tribunaes porque escreveu Madame Bovary, um attentado á moral, um livro dissolvente, e estudou a Luxuria num santo!” (CAMINHA, 1896 apud BEZERRA, 2009, p. 446).

[ii] “Zola, esse monstro de genio, não freqüenta a aristocracia porque teve a loucura genial de levar ao cabo os Rougon – vinte volumes immoraes – descarnando uma sociedade inteira!” (Ibidem).

[iii] “Huysmans, fazendo o Là bas, historiando os vicios incríveis da Idade Média, resuscitando a missa negra, commetteu uma acção indigna…” (Ibidem).

[iv] “Maupassant, reproduzindo amores adúlteros nesse livro magistral de Bel-Ami, offendeu a moral cristã” (Ibidem).

[v] “Eça de Queiroz, confundindo ironicamente uma relíquia santa com um objecto asqueroso, ao mesmo tempo que descreve a Paixão do Senhor, e trazendo a publico o crime de um sacerdote da Igreja, profanou como um judeu…” (Ibidem).

[vi] Valemo-nos deste termo para expressar o conceito de “história narrada”, segundo a acepção de Tomachevski (1976, p. 173apud FRANCO JUNIOR, 2003, p. 36).

[vii] No romance, esse evento é descrito do seguinte modo: “[…] completamente embriagado, batera em casa de uma francesa no largo do Rocio […]” (CAMINHA, s/d, p. 14). Na época, o termo “francesa” poderia indicar prostituta. Além disso, o Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro) era conhecido por ser um local de prostituição. Logo, depreende-se que, de origem francesa ou não, o texto sugere a ideia de prostituta.