Como o 7 enlouqueceu, de Bram Stoker

Camila Paula Camilotti, Iliane Tecchio

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 19, 2013. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Camila Paula Camilotti (camilapc5@gmail.com) é mestre em literatura e língua inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutoranda em Estudos da Tradução (PGET),também pela UFSC. Trabalha com tradução de artigos científicos e literários em inglês e em italiano. Iliane Tecchio (Iliane.tecchio@gmail.com) é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutoranda também em Estudos da Tradução pela mesma universidade. Seu projeto de pesquisa de doutorado intitulado Intertextualidade e Tradução: Análise de alusões Bíblicas na temática da morte em Bram Stoker envolve um estudo tradutório e interpretativo sobre a obra Drácula, de Stoker.

Escritor irlandês, Bram Stoker (1847-1912) se tornou mundialmente conhecido pela sua obra Dracula, escrita em 1897 e que se tornou, mais tarde, seu best seller, sendo levado para às telas do cinema em várias versões.  Antes de Dracula, porém, Stoker publicou The Watter’s Mou and croken sands, em 1894 e The shoulder of Shasta, em 1895. Além disso, escreveu uma série de contos fantásticos e infantis (publicou, em 1882, Under the sunset, no qual reúne vários contos para o público infanto-juvenil). O escritor também trabalhou como jornalista, biógrafo e crítico teatral. Em 1876 conheceu o ator Henry Irving com quem trabalhou por um tempo no teatro Royal Lyceum, em Londres. O conto traduzido How 7  went mad é o quinto da coletânea de contos de Under the Sunset.

 

COMO O 7 ENLOUQUECEU

Na margem do rio que corre por essa região, existe um lindo palácio onde mora um grande homem. A margem é elevada pela agitação das águas e as árvores que crescem na ribanceira do rio são tão altas que seus galhos agitam-se na altura da torre do palácio. É um lugar fascinante, onde a grama é fresca, baixa e tenaz como um veludo, e tão verde quanto uma esmeralda. Ali, as margaridas brilham como estrelas que caem e subitamente espalham-se por sobre a relva. Muitas crianças viveram e cresceram para serem homens e mulheres em um velho palácio e tiveram muitos animais de estimação. Entre eles muitas aves, pois aves de todas as espécies amam e adaptam-se facialmente ao lugar. Uma das esquinas é chamada Cemitério dos pássaros. Ali, todos os animais são levados e postos sobre o gramado quando morrem e nesse lugar, muitas flores nascem entre os monumentos e a grama cresce mais verde e mais bonita.

Um dos meninos que ali vivia tinha um corvo como animal de estimação. Ele encontrou o pássaro com as pernas feridas e levou-o para casa para cuidá-lo até que melhorasse. Mas o pobre pássaro ficou aleijado. O menino chamava-se Tineboy e o corvo chamava-se Senhor Daw. Como você pode imaginar, o corvo amava muito o menino e nunca o abandonava. Havia uma gaiola para ele no quarto do menino para onde ia todas as noites para cantar quando o sol se punha.

As aves costumam ir para a cama conforme sua vontade e se você desejasse castigar uma ave, teria que fazê-la acordar. Aves não são como meninos e meninas. Para castigar meninos e meninas, basta proibi-los de ir para cama no pôr do sol ou não deixá-los acordar muito cedo pela manhã.

Pois Bem, quando amanheceu, o corvo acordou, espreguiçou-se, abriu os olhos,  sacudiu o corpo inteiro e então sentiu-se animado e pronto para começar o dia. Uma ave acorda com mais facilidade que um menino ou uma menina. O sabão não entra em seus olhos, o pente não se enrola nos cabelos e os cadarços do tênis nunca enozam. Isso acontece, porque as aves não usam sabonete, ou pentes ou cadarços. Se usassem, talvez, também sofreriam.

Quando Senhor Daw terminou de se arrumar, pulou na cama para tentar acordar seu mestre e fazê-lo levantar-se, mas das duas tarefas, acordá-lo foi a mais fácil de todas. Quando o menino ia para a escola, o pássaro acompanhava-o e sentava-se em uma árvore perto da escola e esperava até que a aula acabasse. Então, seguia-o até em casa novamente. Tineboy gostava muito do Senhor Daw e tentava fazê-lo entrar na sala durante as horas da aula. Mas a ave era muito sábia e não entrava.

Um dia, Tineboy estava fazendo suas contas e, ao invés de prestar atenção no que fazia, tentava convencer o senhor Daw de entrar. A conta era “multiplique 117,649 por 7”. Tineboy e senhor Daw ficaram se olhando. Tineboy fez sinal para o pássaro entrar, porém ele não se moveu. Sentou-se ao lado de fora, na sombra, pois estava muito quente. Virou sua cabeça para o lado e observou as redondezas com ar conhecedor. “Entre, Senhor Daw”, disse Tineboy, “e ajude-me com essa conta”. Senhor Daw simplesmente coaxou (resmungou). “Sete vezes nove é setenta e sete, sete vezes nove é setenta e nove- não, é setenta e sete. Ai, eu não sei. Na verdade, eu queria que o número 7 nunca fosse inventado”, disse Tineboy.

“Crok’, disse o Senhor Daw.

O dia estava muito quente e Tineboy sentia-se sonolento. Ele pensou que conseguiria raciocinar melhor se descansasse um pouco.  Então, baixou sua cabeça sobre a mesa. Não era muito confortável, pois sua testa estava sobre o número 7, ou pelo menos, ele pensou que estava. Então, o menino mudou de posição até ficar no canto da mesa. Após um momento, coisas muito estranhas começaram acontecer. O professor estava contando a eles uma história. Os alunos estavam prontos para ouvir e o corvo sentou-se na soleira da janela aberta, colocou sua cabeça para um lado, fechou um olho- o mais próximo da sala de aula- para que os alunos pensassem que ele dormia e ouviu a história (mas, claro, ouviu menos que todo mundo). Os alunos estavam todos felizes- exceto três deles. O primeiro, porque sua perna havia adormecido; O segundo, porque estava com seus bolsos cheios de doces e queria comê-los, mas não podia e o terceiro, porque estava com muito sono e muito ansioso para ouvir a história, mas não podia porque os outros dois lhe tiravam a atenção.

O professor, então, começou a contar a história:

COMO O POBRE 7 ENLOUQUECEU?

“O doutor Alfabeto ________”

Nesse momento, o professor foi interrompido pelo Tineboy, que lhe perguntou:

“O que é um Doutor Alfabeto”?

“O doutor alfabeto”, disse o professor, “é o médico que cuida das doenças das letras do alfabeto”.

“As letras do alfabeto adoecem?” Perguntou Tineboy.

“Ah, sim, elas têm muitas doenças. Você nunca fez um O torto ou um A maiúsculo com a mesma perna, ou um T sem força nas costas?”

Houve um coro na sala:

“Ele faz, sim, professor. Ele faz com frequência”.

Ruffin, o menino mais velho e briguento, disse depois dos outros:

“Com muita frequência. Na verdade, sempre”.

“Muito bem! Então é necessário que alguém o faça ficar forte novamente, não é?”

Ninguém podia dizer que não. Tineboy resmungou para si mesmo: “Não acredito nisso”.  O professor começou a contar a história novamente:

“O doutor alfabeto estava sentado para tomar seu chá. Estava muito cansado, pois havia atendido muitos casos ao longo do dia”

Tineboy interrompeu novamente:

“ Que casos?”

“Vou lhe contar. Ele teve que adicionar um I que estava ausente e mudar a perna do R que estava transformada em B”. Pois bem. Quando ele estava começando tomar seu chá, alguém bateu na porta desesperadamente. Ele foi até a porta, abriu-a e um criado entrou correndo na sala, todo esbaforido, e disse:

“Doutor, venha logo, Aconteceu uma coisa terrível em nossa casa”.

“Qual casa?” – perguntou o médico.

“O senhor sabe, os estábulos dos números”.

“O que são estábulos dos números”? Perguntou Tineboy, interrompendo o professor novamente.

“Estábulos dos números”, disse o professor, “são lugares onde os números são guardados”.

“E por que eles são guardados em estábulos?” Perguntou Tineboy

“Porque eles andam muito rápido”

“E por que eles andam muito rápido?”

“Faça uma conta de adição. Trabalhe nela e você verá. Ou olhe para a tabela de multiplicação; começa com duas vezes um é dois e antes de chegar ao final da página, a conta já está em doze vezes doze. Isso não é rápido? Bem, os números devem ser guardados em estábulos, pois, ao contrário, eles fugiriam e nunca mais seriam encontrados . Como são mantidos em estábulos, no final do dia, todos voltam para casa, trocam os sapatos e se preparam  para o jantar.

O criado dos estábulos dos Números estava impaciente.

“O que há de errado?”  indagou o médico.

“Ai, coitado do número 7”, senhor.

“O que aconteceu com ele?”

“Ele está muito mal. Nós acreditamos que ele não sobreviverá”.

“Mas, por que?” Perguntou o médico.

“Venha e veja” disse o criado.

O médico apressou-se. Levou a lanterna consigo, pois a noite estava escura e logo chegou às estrebarias. Ao se aproximar, ouviu um som muito curioso- um som de suspiro, tosse, riso e um grito diferente, selvagem, como se fosse de outro mundo.

“Venha logo”, disse o criado.

Quando o médico entrou nas estrebarias, o pobre número 7 estava cercado pelos vizinhos e passava muito mal. Sua boca espumava e ele estava aparentemente louco. A enfermeira da Vila da Gramática segurava-o pela mão, tentando fazê-lo sangrar. Todos os vizinhos ajudavam a enfermeira a segurá-lo. O Footsmith- pé de ferro- “o homem”, explicou o professor, percebendo pelo rosto de Tineboy que ele faria uma pergunta, “o homem que coloca os pés nas letras e nos números para que eles sejam capazes de ficar em pé sem se cansar, estava segurando o pobre e louco número 7”. A enfermeira, tentando acalmá-lo, disse:

“Calma, calma, querido. Não faça barulho. Aí vem o doutor Alfabeto que te curará dessa loucura”.

“Eu não vou ser curado da loucura”, disse 7, desesperadamente.

“Mas, meu bom senhor”, disse o médico, “isso não pode continuar. Você certamente não está louco o bastante para insistir que está louco”.

“Sim, eu estou”, disse 7, desesperadamente.

“Então”, disse o médico, ironicamente, “se você está suficientemente louco para insistir que está louco, nós temos que curar sua loucura e então você não será mais louco o bastante para desejar não ser louco e nós curaremos isso também”.

“Eu não entendi”, disse Tineboy.

“Silêncio”, disseram os alunos.

O médico pegou seu estetoscópio, seu telescópio, seu microscópio e seu horóscopo e começou a usá-los no número 7, que estava louco. Primeiro, ele colocou o estetoscópio na sola do pé do paciente e começou a auscultá-lo.

“Essa não é a maneira correta de usar o estetoscópio”, disse a enfermeira, “o senhor deve colocá-lo no peito do número 7 e auscultar seu coração”.

“Nada disso, minha querida”, disse calmamente o médico, “essa é a maneira correta para pacientes sensatos. Quando o paciente é louco, ele necessita um método diferente de tratamento”. Então, o médico pegou o telescópio e olhou para o número 7 para ver o quão perto ele estava e usou o microscópio para ver o quão pequeno ele era. Então, desenhou seu horóscopo.

“Por que ele desenhou isso?”, perguntou Tineboy.

“Porque, menino”, disse o professor,  “o certo seria que o horóscopo fosse lançado, mas, como o pobre número 7 é louco, seu horóscopo precisava ser desenhado”.

“O que é um horroscopo?”, perguntou Tineboy.

“Não é horroscopo, menino. É horóscopo: algo bem diferente.”

“Então, o que é horóscopo?”

“Procure em seu dicionário, meu querido”, disse o professor.

Bem, então, depois de usar todos os instrumentos, o médico disse: “eu uso todos esses instrumentos para encontrar a doença. Devo proceder agora para encontrar a causa. Em primeiro lugar, devo interrogar o paciente”:

“Então, meu bom senhor, por que insiste que está louco?”

“Porque essa é minha escolha”.

“Meu bom senhor, isso não é uma resposta educada. Por que essa é sua escolha?”

“Eu não posso dizer o porquê”, disse 7, “a não ser que eu faça um discurso”.

“Bem, então faça um discurso”.

“Eu não posso falar enquanto não estiver livre. Como posso fazer um discurso com todas essas pessoas me segurando?”

“Nós estamos com medo que você fuja”, disse a enfermeira.  “você vai fugir”.

“Eu não vou fugir”.

“Promete?”, perguntou-lhe o médico.

“Prometo”, disse 7.

“Soltem-no”, disse o médico. E em seguida colocaram o número 7 sobre um pedaço de tapete e Footsmith (pé de ferro) sentou em sua cabeça, da mesma forma que faz quando cavalos caem na rua. Então, todos se afastaram e após um intenso esforço, 7 conseguiu ficar em pé.

“Agora, faça seu discurso”, disse o médico.

“Eu não posso começar”, disse 7,  “até que eu tenha um copo d’ água na mesa. Onde já se viu alguém fazer discurso sem água?”

Então, trouxeram-no um copo d’ água.

“Senhoras e senhores”, começou 7, e então parou.

“O que você está esperando”?,  perguntou-lhe o médico.

“Estou esperando pelos aplausos, é claro”, disse 7. “Onde já se viu um discurso sem aplausos?”

E então, todos aplaudiram.

“Eu sou louco”, disse 7, “porque eu escolhi ser louco; e eu não devo, não deveria, não poderia e não poderei ser outra coisa que não louco. O modo como sou tratado é o suficiente para me deixar louco.

“ Meu caro, meu caro”, disse o médico, “que forma de tratamento é essa?”

“Manhã, tarde e noite, me tratam como um escravo. Não há nada no mundo pior do que as coisas que eu tenho suportado. Eu trabalho pesado o tempo todo. Eu nunca me queixo. Na maioria das vezes, sou múltiplo e multiplicador. Eu estou disposto a aguentar o fardo de ser um resultado, mas eu não posso aceitar o tratamento que eu recebo. Adicionam-me de forma errada, dividem-me de forma errada, subtraem-me de forma errada e multiplicam-me de forma errada. Os outros números não são tratados como eu sou e, além disso, eles não são órfãos como eu.

“Órfãos?”, perguntou o médico, “o que você quer dizer com isso?”

“Eu quero dizer que todos os outros números têm muitos parentes. Mas eu não tenho amigos e nem primos- exceto o velho numero 1. Mas com ele não posso contar, pois sou seu único tatara- tatara-tatara neto.

“Como?”, perguntou o médico.

“Ele é um senhor que está lá o tempo todo. Ele tem todas as crianças ao seu redor e eu estou há seis gerações posteriores”.

“Hummm”, disse o médico.

“Numero 2”, continuou 7, “nunca se envolve em problemas, e o 4, o 6 e o 8 são primos. O número 3 está próximo do 6 e do 9. O número 5 é metade de um décimo e nunca se envolve em problemas. Quanto a mim, eu sou um miserável, maltratado e sozinho”.

Então, número 7 começou a chorar e, inclinando lentamente sua cabeça, começou a soluçar. Quando o professor estava para continuar a história, houve uma interrupção, porque o pequeno Tineboy começou a chorar também.

“Por que você está chorando?”, perguntou  Ruffin, o menino briguento.

“Eu não estou chorando”, disse Tineboy.

O professor continuou com a história.

“O doutor alfabeto tentou animar o pobre 7”. “Ouça, ouça”, disse ele. 7 parou de chorar e olhou para ele. “não”, disse ele, “você deve dizer, ‘fale, fale’. Sou eu que devo lhe dizer: “ouça, ouça”.

“Certamente”, disse o médico, “você diria se estivesse são, mas você não está são e na loucura você acaba dizendo o que não deveria dizer”

“Isso é falso”, disse 7.

“Eu entendo”, disse o médico, “mas não pare para discutir a questão. Se você estivesse são você diria ‘ é verdade’, mas você diz ‘é falso’. Isso significa que você concorda comigo”.

7 sentiu-se contente em ser compreendido.

“não”, disse ele, querendo dizer “sim”.

“Então”, continuou o médico, “se você diz ‘fala, fala’, quando um homem são diria ‘ouça, ouça’, claro que eu digo ‘ouça, ouça’, quando eu quero dizer ‘fale, fale’, pois  estou falando com um louco.

“não, não”, disse 7, querendo dizer, “sim, sim”.

“Prossiga com seu discurso”, disse o médico.

Numero 7 pegou seu lenço e chorou.

“Senhoras e senhores”, continuou ele, “mais uma vez eu devo declarar a causa do pobre e mal amado número- que sou eu- esse número órfão- esse numero que não tem nem parentes……

Então, Tineboy interrompeu o professor:

“Como ele sobrevive sem dentes”?

“Parentes, menino, parentes e não ‘dentes’”, disse o professor.

“Qual é a diferença entre parentes e dentes?”, perguntou o menino.

“Tem uma pequena diferença”, disse o professor,  “entre minha chibatada e seu dente se você interromper novamente”. Então, Tineboy aquietou-se.

“Então”, disse o professor, “pobre 7 continuou: ‘eu imploro compaixão para esse número perdido e sem esperança. Vocês, meninos e meninas, pensem em um pobre número isolado, perdido, que não tem casa, não tem amigos, nem pai, nem mãe, nem irmãos, nem irmãs, nem tios, nem tias, nem sobrinhos, nem sobrinhas, nem filhos, nem filhas, nem primos e é perdido e solitário”.Tineboy interrompeu com um terrível gemido.

“Por que você está chorando”, disse o professor.

“Eu quero que o pobre 7 seja mais feliz. Eu darei a ele um pouco do meu almoço e dividirei com ele minha cama”.

O professor voltou-se para o líder da turma:

“Tineboy é um bom menino”, disse Ruffin, “deixe que ele aprenda toda a tabuada do 7 na próxima semana e talvez isso o confortará”.

O corvo, sentado na janela, piscou, deu um salto acompanhado de um divertido coaxar e bateu as asas. Parecia que estava abraçando a si mesmo e rindo. Então, ele voou e escondeu-se sobre a estante dos livros.

O professor continuou com sua história.

“Bem, crianças, depois de um tempo, o pobre 7 melhorou e prometeu que ficaria bom. Antes que o médico chegasse em casa, todas as crianças alfabeto e as crianças número vieram e apertaram a mão do 7 e prometeram que seriam melhores com ele no futuro.

“Agora, crianças, o que vocês acharam dessa história?”

Todos disseram que gostaram,  que era uma história bonita e que eles também tentariam ser legais com o pobre número 7 no futuro. Por fim, Ruffin, o menino briguento, disse:

“Eu não acredito nisso. E se é verdade, eu queria que ele morresse. Nós estaríamos melhores sem ele”

“Estaríamos?”, perguntou o professor, “por que?

“Porque não teríamos mais problemas com ele”, disse Ruffin.

Após dizer essas palavras, Ruffin e as outras crianças ouviram um coaxo estranho feito pelo corvo, mas ninguém se importou, exceto Tineboy, que disse:

“Senhor Daw, nós dois amamos o pobre número 7 de todas as formas”

O corvo não gostava de Ruffin porque ele sempre lhe atirava pedras. O menino até já tentou tirar as penas do seu rabo e quando Ruffin falou, o coaxar do corvo parecia dizer “espere e verás”.

Quando ninguém estava olhando, Senhor Daw encolheu-se e escondeu-se no teto. Dentro de poucos minutos, a aula havia acabado e Tineboy foi para casa, mas não encontrou Senhor Daw. Ele pensou que o corvo estivesse se perdido pelo caminho e sentia-se muito triste. Foi para a cama chorando. Enquanto isso, a escola ficou vazia e Senhor Daw desceu do teto silenciosamente. Voou para cima da mesa e, abaixando sua cabeça, parou para ouvir os ruídos. Então, ele voou para a porta, agarrou a maçaneta e espiou pelo buraco da fechadura. Não havia nada para ver e nada para ouvir. Então, ele subiu na mesa do professor e, batendo as asas, começou a coaxar como um galo, porém suavemente para que ninguém o ouvisse. De repente, ele começou a percorrer toda a sala. Voou sobre os grandes cartazes das tabelas de multiplicação, virou todas as páginas com suas patas e pegou ALGUMA COISA com seu fino bico.

Ninguém acreditaria, mas ele estava roubando todos os números 7s do lugar. Ele tirou o 7 do relógio e apagou o 7 da lousa com suas asas. Senhor Daw sabia que se roubasse todos os números 7s da sala de aula, ninguém poderia usá-los sem pedir sua permissão. Enquanto recolhia todos os 7s, ele crescia e quando ele pegou todos, já estava sete vezes maior do que seu tamanho natural. Certamente, ele não conseguiu fazer tudo isso de uma só vez. Levou a noite toda e, quando ele voltou para seu lugar no teto, já era hora de começar a aula. O corvo estava tão grande que nem conseguia mover-se de um lugar para outro.

A hora da aula chegou, mas nem o professor e nem os alunos estavam presentes. Uma hora passou-se e então o professor, os zeladores e os alunos chegaram. Quando estavam todos na sala, o professor disse:

“Vocês estão todos atrasados!”

“Por favor, senhor, nós não conseguimos evitar”, responderam todos juntos.

“Por que?”

Todos responderam de uma só vez:

“Não me acordaram na hora”

“Que horas vocês são acordados todas as manhãs”?

Todos os alunos estavam para dizer algo, mas ficaram em silêncio.

“Por que vocês não respondem”? Perguntou o professor.

Eles fizeram gestos com a boca como se estivessem falando alguma coisa, mas ninguém disse nada. O corvo fez um coaxar como se estivesse rindo de todos.

“Por que vocês não respondem”? Perguntou novamente o professor.

“Se vocês não me responderem imediatamente, ficarão trancados aqui na sala”.

“Por favor, senhor, não podemos”, disse um dos alunos.

“por que não?”

“Porque _______

Então, Tineboy interrompeu: “Por que o senhor está atrasado, professor?”

“Bem, menino, sinto muito em dizer que estou atrasado, mas a verdade é que meu empregado não bateu em minha porta no horário habitual”

“Que horas, senhor”? Perguntou Tineboy.

O professor ia dizer alguma coisa, mas ficou em silêncio. Após uma longa pausa, disse: “isso é muito estranho”.

Então, Ruffin disse em um tom arrogante:

“Bem, nós não estamos atrasados. Você está aqui e nós estamos aqui. Pronto. Isso basta!”

“Não, isso não basta”, disse o professor. “10 é a hora correta de começar e agora são 11 horas. Todos nós perdemos a hora”.

“Como assim, perdemos a hora”? Perguntou um dos alunos.

“Bem, é exatamente isso que me deixa confuso. Vamos esperar um pouco para descobrir”

Então, Tineboy disse: “Talvez alguém roubou…..”!

“Roubou o que?” perguntaram os alunos.

“Eu não sei”, disse Tineboy.

Todos riram.

“Vocês não devem rir. Algo foi roubado, sim. Olhem para minha tarefa”, disse Tineboy, segurando seu livro. E isso foi o que viram:

___ x  1 são ___
___ x  2 =     14
___ x  3 =     21
___ x  4 =     28
___ x   5 =    35
___ x   6=     42
___ x  ___ = 49
___ x    8 = 56
___ x    9 = 63
___ x   10 = ___0

Todos os alunos se reuniram envolta de Tineboy para olhar seu livro. Ruffin não quis ver, porque estava olhando para o relógio.

“O relógio perdeu alguma coisa”, disse ele, percebendo que algo estava errado.

O professor olhou rapidamente, pois estava com a cabeça inclinada em sua mesa, resmungando.

“O que tem de errado com o relógio”? perguntou o professor.

“Algo está faltando”.

“Um número está faltando. Tem somente onze números”, disse o professor.

“Não, não”, disseram os alunos.

“Conte, Ruffin”, disse o professor.

“1,2,3,4,5,6,8,9,10,11,12”

“Está certo”, disse o professor, “tem doze números. Não, não tem- sim, tem- não, não tem, sim, não, sim, não. O que está acontecendo?” E olhou ao redor da sala e então voltou a inclinar sua cabeça na mesa e a resmungar.

Enquanto isso, o corvo rastejava pelo teto até ficar sobre a mesa do professor. Então, ele pegou um 7 pesado e jogou na cabeça do professor. O número saltou em sua cabeça e caiu na mesa. Quando o professor viu o número, percebeu o que estava acontecendo. Ele embrulhou o 7 em um papel escuro e chamou Ruffin.

“Ruffin, você disse que algo estava faltando. Você tem certeza”?

“Sim, claro”

“Muito bem. Você se lembra do que disse ontem? De que você gostaria que certo número morresse em um hospício?

“Sim, eu me lembro e ainda desejo que isso aconteça”.

“Bem, esse número foi roubado por alguém durante a noite”.

“Urraahh..”,  disse Ruffin e lançou seu livro em direção ao teto o qual bateu no pobre Senhor Daw que, por sua vez,  segurava outro número 7 em seu bico e deixou-o cair acidentalmente. O 7, então, caiu dentro do boné de Tineboy, que, ao sentir algo em sua cabeça, passou a mão e pegou-o. Quando viu que estava segurando o pobre 7, Tineboy abraçou-o e acariciou-o

“Coitado do 7”, disse ele.

“Devolva-me esse número”, disse Ruffin.

“Eu não devolverei. Ele é meu”.

“Então, eu terei que forçá-lo a me devolver”, disse Ruffin, segurando Tineboy- pelos braços, não se importando com a presença do professor na sala.

“Solte-me. Eu não lhe darei meu pobre 7”, disse Tineboy e começou a chorar e a gritar.

“Ruffin, pare com isso”, disse o professor.

Ruffin largou Tineboy.

“Quanto é sete vezes sete”? Perguntou o professor

Ruffin não respondeu. Ele não conseguia, porque não havia pegado o número 7.

“Eu sei”, disse Tineboy.

“Ah, sim”, disse Ruffin com ar zombador, “ele sabe, porque tem o número”.

“Quarenta e nove”, disse Tineboy.

“Certo”, disse o professor;. “Va para frente, Tineboy”.

Então, Tineboy ficou no lugar do professor, de frente para seus colegas e Ruffin sentou-se.

“Quanto é sete vezes 49″? Perguntou o professor.

Todos ficaram em silêncio.

“Vamos, responda”! Ordenou o professor.

“Quanto é, professor? Responda-me o senhor”, desafiou-o Tineboy.

“Bem, menino, eu sinto muito, mas não sei a resposta. Nossa! Tudo isso é muito estranho!”. E baixou novamente sua cabeça, queixando-se.

Então, senhor Daw pegou o outro 7 e jogou-o no chão, diante de Tineboy.

“O resultado é 349”, disse Tineboy rapidamente. Ele soube responder, pois tinha outro número 7 em suas mãos. O professor olhou e soltou uma alta e estrondosa gargalhada. “Huraa, Hurra”, disse ele.

Quando o terceiro 7 caiu, o corvo começou a crescer. Ficou 7 vezes maior do que era e, então, começou a levantar as telhas do teto. Os alunos olharam para cima. Ruffin estava com sua boca aberta e Senhor Daw, ansioso por se livrar dos 7s, lançou um deles dentro de sua boca.

“2401”, Ruffin balbuciou.

Senhor Daw lançou outro 7 dentro de sua boca e ele balbuciou novamente, “16807”

O corvo começou a sobrevoar ao redor dos 7s o mais rápido que podia e cada vez que lançava um numero 7, ele ficava menor, até voltar ao seu tamanho normal. Ruffin continuou balbuciando e respirando os números até seu rosto ficar roxo. Então, caiu no chão após dizer: “setenta e nove mil e setecentos; noventa e dois bilhões, duzentos e sessenta e seis mil; noventa e sete milhões, seiscentos e doze mil e um”.

De repente, Tineboy acordou e, com a cabeça ainda baixa, viu que tudo o que tinha acontecido não passava de um sonho.

REFERÊNCIAS

STOKER, Bram. How 7 went mad? Disponível em: <http://www.bramstoker.org/stories/01sunset/05mad.html>.