O caso do matrimônio

Jessé Gabriel da Silva

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 4, 2005. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Na mesmice, a novidade…

No conto “Luas-de-mel”, de Primeiras Estórias, um casal de noivos busca proteção numa fazenda – Fazenda de Santa-Cruz-da-Onça. O narrador, proprietário da fazenda, imerso no tédio e avançando em idade, ao contemplar o jovem casal, relembra sua mocidade. A continuidade da vida, ou seja, a renovação do ciclo, foi o caminho que resolvemos percorrer nesta leitura. Não esquecendo do elemento terceiro, Seo Fifino, para o qual o pai vislumbra um futuro semelhante ao dos noivos. Busca esta em que, mesmo em armas, se defende a continuação de um ciclo.

Uma travessia, ou melhor, duas travessias, e mais uma possível: a primeira, de Joaquim Norberto e Sa Maria Andreza, chegando ao fim; a segunda, do casal de noivos, iniciando ainda; a terceira, possível, de Seo Fifino, que ainda não começou. Diferente de “A Terceira Margem do Rio”, onde o narrador/filho não toma a posição do pai, quebrando dessa forma o ciclo, aqui, esse ciclo é defendido, mesmo que seja à força de armas.

Assim o narrador, inerte. Vivendo no marasmo da rotina, como o estável, o que já está feito, sem batalhas, nem travessias. Como o próprio, a perguntar-se: “eu já declinava por nãoezas?” De modo que venha figurar-se aqui a sua situação de tédio, como um mar sem ondas. Onde, adiante, afirma: “de pobre não me sujo, de rico não me esporcalho”. O meio termo apontado nesta afirmação , nos leva a um equilíbrio que, de tão equilíbrio, caminha para o monótono.

Sa-Maria Andreza, “meio passada mulher”, sua companheira já de muito tempo, vai perdendo o encanto. Apesar de recuperado mais adiante com a chegada dos noivos. O panorama de estagnação, deste primeiro parágrafo, aponta desde já para uma cisão, ou seja, uma ruptura com o marasmo, através das pistas oferecidas pelo narrador. A vinda da novidade, guarnecida por jagunços, assim como se fossem guardas de um mistério divino, traz novamente à fazenda tudo que se pode entender como encanto e vigor. Ares novos.

“No mais, nem mesmo, da mesmice, vem sempre a novidade”. Esta é a pista inicial, o primeiro período do conto, oferecido pelo narrador. Assim como um ditado popular, que inconscientemente sempre profetiza algo, o tal dito e feito. E a novidade mesma, evem no final do primeiro parágrafo. Uma carta, que anunciaria a chegada dos noivos. Estes, quando chegam, rompem com o marasmo de Santa-Cruz-da Onça. Tudo é afetado por essa chegada, inclusive a relação de Joaquim Norberto e Sa Maria Andreza. Aí, o fazendeiro recupera sua Andreza nos dois sentidos, uma vez que Andreza (de άντρας, homem + o sufixo -eza). Desta forma, o fazendeiro revigora-se, como se retornasse aos tempos de mocidade.

Interessante nisto ressaltar , que o novo vem de fora, ou seja, o elemento externo mexe com a estabilidade local e, de tal maneira, traz uma possível cura para o tédio do cotidiano de Joaquim Norberto. Algo semelhante lemos num poema de Konstantinos kaváfis, intitulado, Esperando os Bárbaros, em que a invasão dos bárbaros traria a solução: “Eram estes homens alguma solução” (Οι άνθρωποι αυτοί ήσαν μια κάποια λύσις.). Em que se espera a solução por parte do exterior, como se o interno já não se resolvesse mais. Diferentemente, porém, do conto de Rosa, os bárbaros, isto é, a solução, não chegam. De fato, a mesmice se transforma. Ou é transformada: pelo amor. Poderíamos traçar um paralelo entre a chegada dos noivos e a chegada do amor a Santa-Cruz-da-Onça. Ora, chegam os noivos enviados, por Seo Seotaziano. Como se fossem mensageiros de algo, trazendo a alegria a Joaquim Norberto e a seu lar. Como se o amor voltasse a brotar no fazendeiro, “as coisas da mocidade”.

Em um estudo sobre o Cântico dos Cânticos, Gianfranco Ravasi descreveria assim a chegada do amor na vida do homem:

Assim, de fato, é na vida do homem quando se acende o amor: o panorama é sempre o mesmo, o trabalho é sempre monótona ou alienante, as cidades anônimas e frias, os dias iguais uns aos outros; porém, o amor tudo transfigura e então se ama tudo e se vê tudo com olhos diferentes, porque o homem sabe que à tarde encontrará sua mulher.[1]

Da mesma forma, se transfigura o fazendeiro/narrador, toma armas, mais contempla a sua mulher e sente-lhe o ano da mocidade. Mas a chegada desse amor, metaforizado, se lermos desta maneira, pelo casal de noivos não se dá em paz. Apesar de o fazendeiro afirmar-se de paz, não se demora em pegar em armas e tratar de formar um pequeno exército de jagunços para defender os jovens. O amor, forte como a morte, do mesmo jeito em que é citado nos Cânticos do Cânticos, rompendo a inércia de Joaquim Norberto.

Uma imagem de amor à mulher, Sa-Maria Andreza; a guerra, a formação de um exército de jagunços para enfrentar o Major Dioclécio (que nunca vem e, quando vem, ou melhor, manda um embaixador de paz); enfim, amor a uma estância superior, talvez transcendente, na imagem de Seo Seotanazio. Estes três elementos retornam ao narrador com a chegada do casal de noivos na fazenda de Santa-Cruz-da-Onça.

Em primeiros de novembro…

Novembro. O penúltimo mês do ano, chegando no fim de um ciclo de tempo, é o mês mencionado no início do conto. É possível encontrar uma relação com este fim de ciclo, no qual o narrador se entrega a nãoezas? Como se já fosse esperado algo novo, renovador, para dar continuidade ao tempo. Ou melhor, algo que contribuísse com a regeneração do tempo, conceito que Mircea Eliade estabelece em seu livro Le Mythe de l’Eternel Retour. Para melhor esclarecer este conceito, regeneração do tempo, gostaríamos de trazer em questão o modelo teórico que Eliade utiliza para estudar a história antiga, através de arquétipos míticos celestes.

Segundo tal autor, as sociedades antigas encaram o cotidiano como um ritual: o que ele chama de repetição cosmogônica. Consiste tal em o homem imitar em seus atos o ato de criação do mundo. Daí surge este arquétipo celeste que o homem tende a imitar, de forma ritualística. Como se o projeto de vida do homem em si, ou da sociedade em que ele vive, fosse repetir em terra o que ocorreu nos céus, in illo tempore, o tempo primeiro da criação.

Esta imitação do ato divino de criação do mundo vai se repetir através de geração, tomando continuidade, como um ciclo que se renova ininterruptamente. Este ciclo se encaixa dentro de uma unidade temporal (a saber, meses, anos, dias, etc.) que, chegando ao fim, é continuamente renovada, através de ritos de passagem. Tal renovação do ciclo é denominada por Eliade de regeneração do tempo ( regenerarea timpuli).

Ora, no conto podemos estabelecer tais relações, com a chegada dos noivos. Desta maneira, eles dariam continuidade ao ciclo, ou melhor, renovariam o ciclo o qual Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza se encontram, em vias de completá-lo. Este Joaquim Norberto, por sua vez, sai, à guisa de um sacerdote ou ancião como nos tempos antigos, para defender esta continuidade. Como se fosse um emissário ou mesmo um guardador destes rituais, que preza manter tal ciclo ininterrupto.

Sua fazenda aqui é como um templo guardado por falanges de jagunços armados, para que o mistério do mesmo templo não seja violado. Em primeiros de novembro, que aqui poderíamos relacionar com o número nove (sugerido no nome do mês), simbolizando a perfeição das idéias, e que também é o número que antecede ao número dez, que simboliza o ciclo eterno. Análoga a isto é a condição do fazendeiro que já se encontra próximo a completar o ciclo, uma vez que é avançado em idade.

A novidade do conto chega através de uma carta de Seo Seotaziano. Em primeiro lugar, faz-se lembrar aqui das cartas de Paulo, que levavam a boa nova do reino de Deus. No conto, a carta de Seo Seotaziano também leva uma boa nova: a renovação do ciclo. Esse Seo Seotaziano, do qual diz o narrador: “abaixo de Deus, só o Seo Seotaziano”, nunca está presente na narrativa, senão pela carta e pelas alusões de Joaquim Norberto.

É ele que envia o casal até a fazenda em busca de proteção, sendo o casal o elemento novo que desencadeia os acontecimentos narrados na fazenda, por esses idos de novembro. Uma espécie de santo ou deus ao qual Joaquim é fiel. Pode se ler aqui, uma estrutura de culto, subjacente, que vem à tona somente na cerimônia de matrimônio. Apesar de que nesta estrutura subjacente o sacerdote passa a ser o próprio narrador, sentinela dos segredos divinos.

“As coisas que estão para a aurora, são antes à noite confiadas”. Arriscaríamos aqui a estabelecer uma relação desse conto com a tríade a qual Deus de designou no Apocalipse de João e que podemos entender aqui como uma representação da eternidade. Ora, o Senhor é aquele que é, que foi e que virá (ou que vem): os três elementos temporais num só. No conto, podemos encontrar estes três elementos, como se nele estivessem contidos.

Logo, quem é o casal primeiro, o narrador e sua mulher, Sa-Maria Andreza, senão aquilo que passa, e deixa de ser? A “noite” como na frase supracitada, que espera a aurora. Assim, temos o primeiro casa: o que passa. Os noivos que estão em casamento durante a narrativa podem ser lidos como o tempo presente: o que se dá, o que é. Pois eles acontecem no próprio tempo da narrativa, enquanto que os outros elementos (veremos o terceiro) só existem como passado ou futuro, ou seja, não existem.

Já no final do conto, o narrador vislumbra a união do seu filho, Seo Fifino (quem sabe vislumbra o que não virá? Isto é, Fifino, não seria uma alusão a fim?), fugindo também com sua noiva, então temos o outro elemento futuro. Incerto, mas existente como idéia, ou perspectiva. O que não é, mas será,virá.

Deste modo, estes acontecimentos matrimoniais podem ser lidos como passado, presente e futuro. Três elementos em um só, imitando o arquétipo celeste. “Para o milagre da coisa única”, como se lê na Tábua de Esmeralda, de Hermes Trismegisto. Talvez, nos fosse possível, de mesma forma, entender o conto como a própria cosmogonia, acontecendo, entre divindades do sertão. Ou seja, o conto, como metáfora desta cosmogonia que, em realidade, não acontece.

Nos diz, Walnice Nogueira Galvão, em seu ensaio intitulado Do Lado de Cá , que o narrador de A Terceira Margem do Rio ” partilha da descontinuidade.” Ora, se enquadramos este caso no modelo teórico de regeneração do tempo, vemos aqui este ciclo interrompido. Aqui, o narrador foge ao destino de partilhar da continuidade, assim como Jonas, na Bíblia, que segue para o lado oposto de Nínive. Então temos a fatalidade, necessidade (ανάγκη) e contrapor a este exemplo do conto Luas-de-Mel , onde a continuidade é defendida a ferro e fogo.

De tal modo que temos, por um lado, o narrador de A Terceira Margem do Rio, que desiste do ciclo no último momento e toma culpa de seu fracasso, em não dar continuidade ao ciclo. Enquanto que, de outro lado, temos o desfecho da narrativa em Luas-de-Mel, onde o ciclo é renovado.

Para fim de ilustração, Papus, em seus Tratado de Ciências Ocultas, tratando de destino, observa a questão da providência, como aquilo que é destinado ao homem e ao que o homem tem de direcionar sua vontade, para que vontade e providência se harmonizem. De modo que, em A Terceira Margem do Rio, o narrador foge a esta providência, enquanto que em Luas-de-Mel tudo colabora para que esta seja cumprida.

Referências

ELIADE, Mircea. Le mythe de l’Éternel Retour . Paris: Gallimard, 1969.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978.

RAVASI, Gianfranco. Cantico dei Cantici. Torino: Edizioni San Paolo, 1987.

ROSA, Joao Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

ENCAUSSE, Gerard (Papus). Tratado de Ciências Ocultas. Tradução de Luís Carlos Lisboa. São Paulo: Editora Três,1983.

Sítio eletrônico visitado: http://www.snhell.gr/anagnwr.html Consultado dia 28 de Junho de 2005.

 

[1] Così, infatti, è della vita dell’uomo quando s’accende l’amore: il panorama è sempre lo stesso, il lavoro è sempre monótono o alienante, le città anonime e fredde, i giorni identici l’uno all’altro; eppure l’amore tuuto trasfigura ed allora si ama tutto e tutto se vede con occhi diversi, perché l’uomo sa che alla sera incontrerá la sua donna.