Saint-Clair of the Isles; or, the outlaws of Barra, de Elizabeth Helme

Alckmar Luiz dos Santos

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 8, 2007. ISSNe: 1806-2555.

Saint-Clair of the Isles; or, the outlaws of Barra

Elizabeth Helme

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Saint-Clair of the Isles; or, the outlaws of Barra foi um romance escrito pela inglesa Elizabeth Helme e publicado em 1803, em quatro volumes. Era ela autora de folhetins de certo sucesso, escrevendo dentro da linhagem típica dos romances aventurescos, em toada nacionalista e ritmo de galopantes emoções, como de costume na prosa de ficção dos idos românticos. Tratava-se, em suma, daquelas obras divulgadas habitualmente em leituras coletivas, reunindo a família em serões noturnos em que um leitor mais habilidoso sabia dar às frases dos escritores o tom e o sentimento adequados. O Saint-Clair foi então rapidamente traduzido: na França, por Mme de Montolieu, em 1808; no Brasil, em 1825, no Rio de Janeiro, na Tipografia de Silva Porto, a partir do original inglês; em Portugal, em 1827, por um certo A. V. de Costa e Sousa; ainda em Portugal, em 1901, em tradução de Oscar Ney da edição francesa. Marlyse Meyer e Sandra Guardini Vasconcelos dão também a tradução portuguesa de Costa e Sousa como tendo sido feita a partir da francesa e, como era comum naquela época, consagrando Mme de Montolieu como autora do romance e não quem de direito, Elizabeth Helme. Contudo, a Biblioteca Nacional de Lisboa, em seu catálogo, dá essa tradução de 1827, impressa em Lisboa, na Tipografia Rolandiana, como realizada a partir do original inglês. De toda maneira, não cabe contestação de que a tradução brasileira antecedeu a portuguesa em dois anos, o que já antecipava, talvez, o sucesso do livro em nossas terras.

De fato, Saint-Clair tornou-se até mesmo nome de alguma freqüência no Brasil, desde o século XIX; em minha infância, tive amigo por nós chamado, por economia e facilidade, de Cla-ir, mas que ostentava o nome inteiro de Saint-Clair; em rápida pesquisa na internete, encontramos Saint Clair Rocha, Saint-Clair Bahls, Gilmar Saint’Clair Ribeiro, Saint Clair Dos Santos Gomes Júnior, Ricardo Saint Clair, Francisco Saint Clair de Sousa Filho, Saint Clair Cemin, Saint-Clair Lopes, e mais uma infinidade de gente, sem contar as variações Sanclér, Sencler etc. O próprio romance é citado em várias obras, por alguns de nossos mais importantes escritores, fazendo referência à consagração que ele merecia por parte do público leitor (ou apenas ouvinte, no caso dos inúmeros analfabetos que, graças às leituras em voz alta, entraram em contato com esse tipo de romance), além de reconhecer o papel do velho relato inglês em sua formação literária, mesmo se um ou outro desdenhasse das qualidade da narrativa de Elizabeth Helme. Em Como e por que sou romancista, José de Alencar diz:

Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?

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Nosso repertório romântico era pequeno; compunha-se de uma dúzia de obras entre as quais primavam a Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e outras de que já não me recordo.

Na sua História da Literatura Brasileira, José Veríssimo comenta este trecho de Alencar:

Confessa José de Alencar, aliás em páginas bem insignificantes, que após estudos clássicos malfeitos, como foram sempre os nossos dos chamados preparatórios, os livros que leu foram maus romances franceses, Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e quejandos em ruins traduções portuguesas. Leu-os e os releu e, reconhece ele próprio, foi essa leitura que lhe influiu a imaginação, cuja herança atribui à mãe, para se fazer romancista.

Na prosa de ficção do nosso Novecentos, o Saint-Clair das Ilhas aparece várias vezes na pena de Machado de Assis. Na “Anedota Pecuniária”, conto que está em Histórias sem data, temos:

Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e moça; não seria ela quem lhe faria o chá, quem lhe traria, à noite, quando ele quisesse ler, o velho tomo ensebado do Saint-Clair das ilhas, dádiva de 1850.

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Às vezes, como a vista do tio começava a diminuir muito, lia-lhe ela mesma alguma página do Saint-Clair das ilhas.

No conto Ayres e Vergueiro, publicado originalmente no Jornal das Famílias, em 1871, aparece:

Conversava com ele longas horas, ensinava-lhe alguns jogos, lia-lhe o Saint Clair das Ilhas, aquela velha história de uns desterrados da ilha da Barra.

No romance Helena:

Na seguinte manhã, Estácio levantou-se tarde e foi direito à sala de jantar, onde encontrou D. Úrsula, pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso, ao pé de uma janela, a ler um tomo do Saint-Clair das Ilhas, enternecida pela centésima vez com as tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e mora­líssimo livro, ainda que enfadonho e maçudo, como outros de seu tempo. Com ele matavam as matronas daquela quadra muitas ho­ras compridas do inverno, com ele se encheu muito serão pacífico, com ele se desafogou o coração de muita lágrima sobressalente.

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Úrsula estava então na sala de costura, relendo algumas páginas do seu Saint-Clair, encostada a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a concluir uma obra de crochet.

Em Casa Velha, conta-se que:

Era a mesma novela que lera quando ali esteve um ano antes, e queria reler agora: era o Saint Clair das Ilhas ou os Desterrados na Ilha da Barra. Meteu a mão no bolso e tirou os óculos, depois a caixa de rapé, e pôs tudo no regaço.

No Quincas Borba, na primeira publicação, a dos folhetins d’A Estação, temos:

Logo que Rubião dobrou a esquina da rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pae, que se estendera no canapé, para reler o velho Saint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha da Barra. Foi o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte annos; era toda a bibliotheca do pae e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II [1] , que já trazia de cór. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos: “Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. Á saude dos bons e valentes opprimidos, e ao castigo dos seus oppressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saude.”

E, no século XX, no Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, o velho romance inglês é citado:

Mas o dono do sítio, que não sabia ler nem escrever, assim mesmo possuía um livro, capeado em couro, que se chamava o “Senclér das Ilhas”, e que pedi para deletrear nos meus descansos. Foi o primeiro desses que encontrei, de romance, porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. Nele achei outras verdades, muito extraordinárias.

Contudo, essa presença, já antiga, do Saint-Clair, nos subterrâneos e nas intimidades da literatura brasileira, não tem sido suficiente para tirá-lo do status de obra citada mas nunca consultada, e muito menos lida. Afora dois ensaios de Marlyse Meyer [2] e algumas outras referências esparsas, quem consulta os estudos de literatura brasileira, pouco encontra sobre esse livro tanto lido e tão influente, desde a fase primeira de nossa literatura nacional. Publicar essa edição inglesa, de 1853, é uma maneira de colocar o velho Saint-Clair das Ilhas novamente em circulação. Que venham, agora, a seguir, as edições em Português.

 

[1] Na edição inglesa que temos, esse trecho aparece no capítulo III, o que insinua que Machado tinha em mãos uma tradução em Português feita muito provavelmente a partir da traduction libre de M me de Montolieu.

[2] “Prólogo: Saintclair das ilhas ” . In: Folhetim: uma história . São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 19-52. “ Machado de Assis lê Saint-Clair das ilhas ” . In: As mil faces de um herói canalha . Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. p. 31-107.