Subhro

Wilson Bueno

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 11, 2009. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Wilson Bueno, um dos mais expressivos escritores brasileiros contemporâneos, é autor de inúmeros títulos, em várias vertentes e gêneros literários. Autor da novela Mar Paraguayo (editora Iluminuras, São Paulo), publicada na Argentina, Chile, México, Cuba, Estados Unidos, e objeto de teses e seminários num arco que vai da USP à Universidade do Cabo, passando por Berkeley e Sorbonne, é considerada, por sua inventiva construção (portunhol e guarani) um clássico contemporâneo. Prodigioso fabulista, estrito senso, é igualmente notável e dona de extensa fortuna crítica, o que chama de sua “trilogia zoofílica” constituída por Manual de Zoofilia (Noa Noa), Jardim Zoológico (Iluminuras) e Cachorros do Céu ( editora Planeta, finalista do Prêmio Portugal Telecom/2006). É autor também dos romances Amar-te a ti nem sei se com carícias (Planeta), Meu Tio Roseno, A Cavalo (editora 34), Cristal (Siciliano) e de A Copista de Kafka (Planeta), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura/2008 e Prêmio APCA de Literatura – Associação Paulista dos Críticos de Arte –, também em 2008. Criador e editor, por oito anos, do várias vezes premiado jornal Nicolau (1987-1994), considerado um dos mais importantes tablóides culturais brasileiros. É colaborador regular do Trópico (www.uol.com.br/tropico), site de arte e cultura do UOL, e do suplemento “Cultura” do jornal O Estado de São Paulo.

A ilha de Subhro, no inevitável Índico, é toda branca. Não só, o que seria comum, o pico de suas montanhas, a areia e a prodigiosa franja de suas praias. Também as gramíneas, sim, as gramíneas, as árvores, os pássaros, as escarpas, os rochedos, a insolente fímbria de corais que como a estancam em múltiplas lagunas de um esmaecido verde, tão claro, mas tão claro, que também ele sugere que já foi, ou será, inteiramente branco, mal se lhe misture a água das chuvas, ali profusas e pontuais, toda vez que o entardecer acontece.

Narra a crônica que inúmeras foram as vezes que os  navegadores de Hérida passaram por Subhro. Mas sempre à hora do dia-ao-meio, assinalam, quando o Sol a pino, por claro em demasia, torna Subhro essencialmente invisível.

Isto até que a primeira galé da flotilha de Hérida, por não divisar de Subhro a insolente alvura, espatifou-se ao gume dos traiçoeiros corais, num naufrágio até hoje descrito como, além de imprevisto e surpreendente, trágico em vários sentidos, sobretudo pelo que tingiu de sangue marinheiro, praias e lagunas da branca ilha. Talvez a primeira cor, além do branco, comentam, a ser vista um dia naquelas paragens.

Só então Subhro foi descoberta!

Pacientes, esperaram os heróicos nautas de Hérida se fizesse a noite, o que ocorreu depois das chuvas que, como o costume, misturaram a ilha às águas do céu. E tudo foi, ao entardecer, uma só brancura a desmanchar ilha, chuva e nuvem num único ajuntamento de névoa e neblina.

Depois disso, aí sim, sobreveio a noite, a espessa noite do inenarrável Índico, e, mesmo ao largo de sua alvura, aos navegadores de Hérida foi dado ver a ilha. E, enfim, acreditar no que sempre constituíra apenas uma hipótese ou lenda transmitida gerações sobre gerações; vaga utopia de marinheiros bêbados nos portos de Antuérpia. Subhro, até então, nunca passara de uma miragem.

Cessada a chuva, contra o azul da noite, baixo imensa lua, a ilha recortou-se no insólito Índico – escarpas e montanhas, rochedos e promontórios, pássaros, árvores e gramíneas – alvos como os ossos dos mortos eternos que, às centenas, as brancas ondas recolhiam e tornavam a lançar à areia da praia: nítidas tíbias, lisas costelas, de cal as omoplatas, compridos fêmures e os lavados crânios, visíveis, extremamente visíveis ao lampejo do luar em Subrho.

De sal e céu, mais que branca, Subrho revelou-se, sob o azul profundo, uma ilha esculpida a giz em meio às dobras da noite do impensável Índico.

 


 

Texto integrante do livro “Ilhas”, do escritor Wilson Bueno, a sair ainda este ano.