A obra de Cacaso: aberta a militar?

Nelson Martinelli Filho

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 12, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade Federal do Espírito Santo
Vitória, Espírito Santo
nelsonmfilho@gmail.com

RESUMO: Análise do poema “Obra aberta”, do livro Na corda bamba (1978), de Cacaso, atentando para a relação tensa entre história (do Brasil, em particular) e forma, ideologia e estética, e destacando a presença simultânea da dor como tema e do humor como recurso.

PALAVRAS-CHAVE: Cacaso. Humor. Dor.

ABSTRACT: Analysis of the poem “Obra aberta”, from the book Na corda bamba (1978), by Cacaso, looking at the tense relationship among history (of Brazil, in matter) and form, ideology and esthetics, and detaching the simultaneous presence of the pain as theme and of the humor as resource.

KEYWORDS: Cacaso. Humor. Pain.

 

Não há como negar que Cacaso tenha sido um dos grandes nomes da Geração Mimeógrafo: aquela vasta gama de poetas que, principalmente na década de setenta, caminhava em vias contrárias às do mercado editorial, produzindo livros artesanalmente – daí “mimeógrafo” – e que geralmente recebe a alcunha de Poesia Marginal. Nas palavras do próprio poeta:

O mais comum é chamar de “marginal” o autor que, barrado nas editoras, acaba editando e até distribuindo por conta própria, com recursos próprios (…). Para se entender essa literatura, (…) acho conveniente aprofundar o que significou pra vida cultural brasileira o período posterior a fins de 68, 69 (…).  (CACASO, 1997, p. 12-13).

Cacaso viveu essa situação, e, valendo-se de seus conhecimentos como professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira da PUC-RJ, em diversos ensaios e entrevistas pensou de forma crítica o momento cultural por que passava Brasil, sendo um dos primeiros intelectuais a teorizar sobre este movimento. Como freqüentemente faz Heloisa Buarque de Hollanda, fico também tentado a citar as palavras de Roberto Schwarz, talvez o que melhor descreveu Cacaso e sua aparência:

A estampa de Cacaso era rigorosamente 68: cabeludo, óculos John Lennon, sandálias, paletó vestido em cima de camisa de meia, sacola de couro. Na pessoa dele, entretanto, esses apetrechos da rebeldia vinham impregnados de outra conotação mais remota. Sendo um cavalheiro de masculinidade ostensiva, Cacaso usava a sandália com meia soquete branca, exatamente como era obrigatório no jardim-de-infância. A sua bolsa a tiracolo fazia pensar numa lancheira, o cabelo comprido lembrava a idade dos cachinhos, os óculos de vovó pareciam de brinquedo, e o paletó, que emprestava um decoro meio duvidoso ao conjunto, também (SCHWARZ apud CACASO, 1997, p. 307).

Contudo, nem sempre foi o poeta do poema-piada, do verso ácido, da crítica à política, do desbunde, enfim, poeta marginal: antes de ser Cacaso, era Antônio Carlos de Brito, estudante de Filosofia da UFRJ. Assim, como veio ao mundo, lança o primeiro livro, A palavra cerzida, em 1967: um tanto quanto grave para os que estão habituados aos seus livros, literalmente, marginais.

Tamanho foi o fracasso que pôs em xeque a confiança de Cacaso em sua própria poesia. Justificou-se, afirmando que o livro tinha uma pretensão um pouco filosófica, que era – e ele utiliza essas palavras – um livro de estudante de Filosofia. Tal abatimento ante a produção poética resultou em um intervalo de sete anos entre A palavra cerzida e o segundo livro, Grupo escolar, de 1974. E, numa nota, Cacaso se explicou:

Depois de cinco anos sem escrever um só verso, desconfiado mesmo da poesia, voltei a arriscar encorajado pela Ana Luisa, que me chamou para trabalharmos juntos em sua tese para a Escola Superior de Desenho Industrial (CACASO, 2002, p. 139).

Grupo escolar foi o primeiro livro produzido artesanalmente pelo autor, onde se sente muito mais à vontade com sua própria poesia. Entre as quatro “lições” que o compõem – “Os extrumentos técnicos”, “Rachados e perdidos”, “Dever de caça” e “A vida passada a limbo” –, pode-se perceber uma verve crítica que se desenvolve em versos com humor, muito mais atento aos acontecimentos diários e que lhe será tão comum daqui pra frente. Esses fatos cotidianos incluem, obviamente, a política. Começa a se destacar, então, a naturalidade com que Cacaso lida com a situação em que se encontrava o Brasil: a ditadura militar. Chamam a atenção o humor e a ironia ao tratar de assuntos tão sérios, e, em maior grau, a dor da repressão. Sua poética agora era mais livre: ganhava o matiz marginal que lhe faltava em A palavra cerzida:

Uma poesia alegre, que troca o mofo e o esquecimento das estantes por uma participação mais viva na cena cultural, uma poesia que sai para as ruas, que se vale das formas de sobrevivência as mais variadas e sugestivas (CACASO, 1997, p. 19).

Nesse clima, de vez aos moldes marginais, lança em 1975, um ano após o anterior, Beijo na boca. Agora, com maior freqüência, Cacaso registra os acontecimentos do cotidiano em flashes através de poemas-piada, demonstrando a forte influência de Oswald de Andrade sobre a poesia dessa época:

HAPPY END

o meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente[1]

Ainda em 1975, o poeta, em parceria com Luis Olavo Fontes, escreve o livro Segunda Classe, fruto de uma viagem que fizeram pelo rio São Francisco de Pirapora a Juazeiro. Apesar de haver na edição mais recente uma marcação para os poemas de cada autor, no original prevalecia a indistinção de autoria, sendo, mesmo, um livro a quatro mãos – possivelmente um ato seminal para a tese do “poemão” que Cacaso defenderia mais tarde e sobre a qual discorreremos adiante. Sobre Segunda Classe, diz Raimundo Carvalho:

Os poemas de Segunda Classe, no seu aparente descompromisso, dão-nos o testemunho da tragédia que se abateu sobre o rio e o povo das margens e também revela o compromisso ético daquela geração de poetas (CARVALHO, 2007).

Pois então é numa viagem de vapor que se chega à quinta produção de Cacaso, “revista e diminuída”: Na corda bamba, de 1978. Com seu formato reduzido, os poemas desse livrinho têm, em sua grande maioria, de um a três versos, chegando ao máximo de seis. É importante destacar que este é o primeiro livro que Antônio Carlos de Brito assina como Cacaso, representando uma nova marca em sua obra. O poeta está mais maduro e já se consagra como um grande estudioso da Poesia Marginal. Sua poesia agora era definitivamente parte do “poemão”, tese em que ele defendia a total desindividualização da produção, em que todos faziam parte de um grande projeto coletivo. É nesse livro que se encontra o talvez poema-chave de sua obra, e o que melhor representa a forma de conceber a poesia:

NA CORDA BAMBA

Poesia
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo

E viva nós![2]

Sobre essa corda bamba, diz Flora Süssekind:

Entre arte e vida: aí se equilibra a poesia brasileira nos anos 70 e 80. (…) São as vivências cotidianas do poeta, os fatos mais corriqueiros que constituirão a matéria da poesia (SÜSSEKIND, 2004, p. 114-5).

O projeto inicial desse livro continha ilustrações do cineasta José Joaquim Salles, com quem Cacaso esteve em Paris no ano de 1975, que assim registra o encontro:

Cacaso passa em minha casa e pela primeira vez vê alguns de meus desenhos. Para minha surpresa me convida para ilustrar o novo livro que estava escrevendo. Traz um envelope pardo contendo várias páginas soltas dos poemas. (SALLES apud CACASO, 2004, p. 87).

O projeto não ficou pronto a tempo, e em 1978 foi lançado o livro apenas com ilustrações de seu filho Pedro, então com sete anos. Por iniciativa do próprio José Joaquim Salles e em parceria com seu filho Tomás Salles, o projeto foi lançado em 2004, 26 anos depois do original. Em 1982, chega o último livro de Cacaso: Mar de mineiro, vindo à sombra de Na corda bamba, que confirma a solidez de sua obra em meio a tantos poetas da Geração Mimeógrafo, agora ainda mais experiente.

Poderíamos, portanto, dizer que Cacaso militou? Sabemos que a palavra “militar” pode vir carregada de conotações pejorativas, especialmente quando aplicada à década de setenta – refiro-me ao verbo, pois não é necessário comentar sobre as implicâncias do substantivo naquele período. Numa época em que se convivia com “os novos condicionamentos, o massacre e a desorganização do movimento estudantil, o controle de informações, a despolitização gradativa e segura das paixões e das ambições, as novas formas de rebeldia” (CACASO, 1997, p. 13), e, claro, as rixas e rachas que ocorriam no meio intelectual, dizer que alguém militava poderia ter más associações. No entanto, Cacaso militava: com seus, por vezes quase imperceptíveis, ataques à ditadura, com os dribles na censura e com sua argúcia como teórico e crítico. Mas é o primeiro elemento que nos interessa agora:

OBRA ABERTA

Quando eu era criancinha
O anjo bom me protegia
Contra os golpes de ar.
Como conviver agora com
Os golpes? Militar?[3]

Percebemos que quase todos os cinco versos do poema são metrificados em redondilha maior – sete sílabas métricas –, exceto os dois últimos versos, com nove e seis sílabas, respectivamente. Podemos pensar da seguinte maneira: seria talvez mais natural que a preposição “com” do penúltimo verso fizesse parte do último, obtendo a seguinte configuração: “Como conviver agora / com os golpes? Militar?”. Seguindo essa estrutura, os dois versos também se tornariam redondilha maior e deixariam o poema metricamente uniforme.

Ora, devemos lembrar que o rigor formal não fazia parte da estética da geração marginal. Dessa maneira, parece que Cacaso quebra a seqüência métrica propositadamente, deixando de pé quebrado o poema para fugir dos padrões ideais no que toca à produção poética.

Quanto ao título, podemos ligá-lo sem maiores dificuldades à Obra aberta (1971) de Umberto Eco, recordando que o poeta também era professor de Teoria Literária. Entretanto, é viável relacionar o título e livro Obra aberta à estética não só de Cacaso, mas da Poesia Marginal como um todo. Entende-se uma obra como “aberta” a uma nova maneira relacional entre autor e intérprete, muito peculiar nesse tipo de literatura – jovem, alternativa, independente, contracultural.

O caráter artesanal das obras e o modo direto de comercialização permitiam um maior contato entre o leitor e o autor, sugerindo intimidade e cumplicidade, pois o livro era comprado com quem o fez: de mãos em mãos. Tornava-se um jogo: ler e ser lido, registrar os acontecimentos da vida e observar o que outro também registrara. E isso pode ser ligado diretamente à tese do “poemão” de Cacaso: uma grande obra coletiva, “aberta”, em progresso: a total desindividualização do autor.

Existe uma continuidade profunda de experiências entre os poetas, que de alguma forma se manifestará na produção de cada um, com os poemas se interpenetrando, se confundindo uns com os outros, como se fossem partes complementares de um mesmo poemão que todos, sem qualquer combinação prévia, estivessem compondo juntos (CACASO, 1997, p. 81-2).

No entanto, é importante também considerar que o poema “Obra aberta” é dedicado a José Joffily Filho, grande amigo de Cacaso e cineasta que lançara o seu primeiro curta-metragem em 1978, ano da publicação de Na corda bamba. Assim, pode-se ver o título sob uma nova ótica: uma homenagem ao amigo que acabara de iniciar sua obra cinematográfica: a obra estava aberta, inaugurada.

Ainda é possível destacar uma terceira interpretação para o título – e não é nisso que se apóia a Obra aberta de Eco? Através da mudança semântica da palavra “golpes” da primeira – “golpes de ar” – para a segunda ocorrência – “golpes? Militar?”, que adquire uma pesada conotação principalmente quando ligada aos acontecimentos políticos a partir de 1964, Cacaso faz-nos refletir, de forma bem-humorada, sobre como um intelectual em oposição ao regime ditatorial sobreviveria ou, no mínimo, conviveria com aquilo. A pergunta é respondida pelo poeta com uma outra pergunta: “Militar?”. Para além da ambigüidade gerada por pertencer a duas classes gramaticais – verbo e substantivo –, a pergunta retórica de Cacaso parece não ter uma resposta correta ou ao menos alguma que lhe caiba. Militar de que forma? Militar: um verbo tão caro aos movimentos esquerdistas, pode soar, muitas vezes, como símbolo de rebeldia, e, inegavelmente, de luta.

Cacaso militava. Não era necessário que saísse às ruas: sua militância era mais velada, mais literária. Como crítico literário, estava atento aos acontecimentos de sua época:

A polêmica é tanta, que até setores tradicionalmente coesos e solidários começam a explodir. A poesia, tanto a dita marginal como a dita de vanguarda, sofre rachas (CACASO, 1997, p. 103).

O poeta também teve algumas divergências mais acentuadas com o grupo dos concretistas. Com uma agudeza incomum, seus ensaios ainda são indispensáveis para uma compreensão mais completa do que foi a década de setenta no meio intelectual, cultural e, principalmente, literário.

Não deixemos escapar o ponto principal: a militância política. Como foi dito, a partir de Grupo escolar as críticas à ditadura passaram a ser constantes, ora diretas, ora mais ocultas. Percebe-se que esta se trata de uma temática recorrente na poesia dos anos setenta, como podemos perceber nas palavras de Ítalo Moriconi:

(…) Vemos constantes referências críticas à situação política do Brasil na época (regime militar), muitas vezes a partir da vontade de desconstruir os mitos e estilemas nacionalistas da esquerda tradicional brasileira (MORICONI, 1998, p. 14).

Observemos, então, mais um poema de Cacaso:

LOGIA E MITOLOGIA

Meu coração
de mil e novecentos e setenta e dois
já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras
que há cabras malignas que há
cardumes de hienas infiltradas
no vão da unha na alma
um porco belicoso de radar
e que sangra e ri
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória
centuriões sentinelas
do Oiapoque ao Chuí.[4]

Comparando o poema acima com “Obra aberta”, percebemos que este refere-se ao momento político brasileiro com muito menos cautela. Mesmo assim, circulava de mãos em mãos a partir de 1978. Essa era uma capacidade excepcional de Cacaso: a de se livrar habilmente da censura. Então a obra de Cacaso era aberta a militar? A pergunta é ambígua e a resposta também. Sim e não. Cacaso disse:

Daqui a algum tempo, quando forem estudar a literatura feita aqui e nos dias de hoje, vai se ver que boa porção do que interessa sobreviveu à margem e muitas vezes apesar das instituições (CACASO, 1997, p. 13).

A obra de Cacaso sobreviveu, apesar das instituições, apesar dos militares. Recorro às palavras de Heloisa Buarque de Hollanda para tentar compreender a sobrevivência de sua obra:

A lembrança de Cacaso, poeta tempo integral, letrista prolífico, parceiro de Edu Lobo, Francis Hime, Sueli Costa & Nelson Angelo, exímio desenhista, professor universitário, ensaísta e principal articulador e teórico da poesia marginal, aquela produzida semi-clandestinamente em mimeógrafo e craque em driblar a censura, pode talvez ajudar na compreensão de sua permanência em nossa cena cultural (HOLLANDA apud CACASO, 2004, 09-10).

Sobreviveu, mas não se sabe se pelo fino e irônico humor, se pela crítica, se pela teoria, se pela militância, se por ter tirado de letra, e de letras, a dor da repressão nos militares anos de chumbo e de generais: tudo isso em conjunto com generosas doses de riso, poesia e vida: eis Cacaso e sua obra.

Referências

CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7 Letras; São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

________. Na corda bamba. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2004.

________. Não quero prosa. Org: Vilma Arêas. Campinas: Editora da UNICAMP; Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.

CARVALHO, Raimundo. Dois marginais às margens do Velho Chico. Disponível em: <www.abralic.org.br/enc2007/anais/50/875.pdf>. Acesso em: 08 de outubro de 2008.

ECO, Umberto. Obra aberta. Tradução: Pérola de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1971.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Sobre Na corda bamba & outros livrinhos. In: CACASO. Na corda bamba. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2004.

MORICONI, Ítalo. Pós-modernismo e volta do sublime na poesia brasileira. In: Poesia hoje. Organização: Célia Pedrosa, Cláudia Matos, Evando Nascimento. Niterói: EDUFF, 1998.

SALLES, José Joaquim. Papo furado. In: CACASO. Na corda bamba. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2004.

SCHWARZ, Roberto. O poeta dos outros. In: CACASO. Não quero prosa. Org: Vilma Arêas. Campinas: Editora da UNICAMP; Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.

SÜSSEKIND, Flora. A literatura do eu. In: ________. Literatura e vida literária – polêmicas, diários & retratos. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

 

[1] CACASO. Beijo na boca. In: _____. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7 Letras, São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 114. [1975]

[2] CACASO. Na corda bamba. In: _____. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7 Letras, São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 55. [1978]

[3] CACASO. Na corda bamba. In: _____. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7 Letras, São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 54. [1978]

[4] CACASO. Grupo escolar. In: _____. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7 Letras, São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 163. [1974]

 

Artigo submetido em 03/08/2009 e aprovado em 22/09/09.