A dívida indecisa: lembranças de uma esperança duvidosa em Paulo Leminski

Lucas dos Passos

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 12, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade Federal do Espírito Santo
Vitória, Espírito Santo
lucasdospassos@hotmail.com

RESUMO: Análise dos poemas “entre a dívida externa / e a dúvida interna / meu coração / comercial / alterna” e “Verdura”, ambos do livro Caprichos & relaxos (1983), de Paulo Leminski, considerando as posturas estéticas em sua intrínseca relação com a história e a política da época. Nesta observação, será necessária uma pequena exposição da maneira como, em poesia, o humor pode ser um recurso para expressar a dor.

PALAVRAS-CHAVE: Paulo Leminski. Humor. Dor. Testemunho.

ABSTRACT: This paper aims to analyze the poems “entre a dívida externa / e a dúvida interna / meu coração / comercial / alterna” and “Verdura”, both from the book Caprichos & relaxos (1983), of Paulo Leminski, considering the aesthetic postures in their intrinsic relationship with the history and politics of the time. In this observation it will be required a small exposure of the way that, in poetry, humor can be a resource to express the pain.

KEYWORDS: Paulo Leminski. Humor. Pain. Testimony.

 

O curitibano Paulo Leminski se distingue dos outros poetas a ele contemporâneos por numerosos motivos. Seus poemas, apesar de não guardarem perfeita correspondência com a chamada Poesia Marginal, são caros documentos poéticos de um momento crucial de nossa história: a ditadura militar.

Em 1983, ele publica toda sua produção poética inicial num único volume de poemas: Caprichos & relaxos. Desde os poemas desse livro – dos quais muitos foram publicados anteriormente –, percebemos um inegável testemunho do poeta Paulo Leminski em face ao momento histórico em que viveu e escreveu, sempre guardando diferenças com a prática literária mais próxima da jornalística, que repudiava[i].

Por conta disso, podemos pensar em algumas considerações articuladas às teses “Sobre o conceito da história”, de Walter Benjamin. Nesse texto, último de sua produção bibliográfica, o filósofo alemão faz suas reflexões sobre o papel do historiador. Assim, em meio a idéias marxistas em conflito com as historicistas, Benjamin toca alguns pontos que são relevantes quando analisados na esfera dos estudos literários. Em Leminski, pois, isso se torna consideravelmente profícuo, uma vez que a época em que o pensador escreveu apresentava também um alto teor de repressão estatal – diante da qual sucumbiu.

Numa passagem crucial de seu texto, Walter Benjamin diz que um historiador arraigado pelos valores do materialismo histórico observa a luta de classes como uma luta por direitos aos elementos materiais, concretos, sem os quais não se pode ter acesso às coisas mais refinadas e espirituais. Contudo, diz ele,

(…) na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos (BENJAMIN, 1983, p. 224, grifos nossos).

Fica, portanto, bem claro que a obra poética leminskiana traz à tona o que Benjamin chama de “coisas espirituais”. Ora, se houve um ponto em que Leminski foi vencedor, foi na poesia; e, podemos pensar, ela seria um dos pontos altos e mais refinados na luta de classes: “en la lucha de clases / todas las armas son buenas / piedras / noches / poemas” (LEMINSKI, 1983, p. 76).

Segundo o olhar benjaminiano, percebemos que, mesmo perdendo a batalha, o poeta ganha em matéria de arte. Há quem diga que não, que a luta foi ganha, pois a ditadura caiu e iniciou-se um período de redemocratização. No entanto, quem diz isso não leva em conta o novo regime ditatorial que se seguiu ao militar:

Minha geração (estou com 41) teve dois acidentes de percurso da maior gravidade, duas ditaduras: uma política e, depois, outra, econômica. Saímos das trevas da ditadura militar para os rigores, não menos brutais, da inflação (LEMINSKI, 1986, p. 106).

Nesse instante, a melancolia causada pelo catastrófico governo arbitrário – dos militares ou do mercado – se alia ao elemento humorístico. Relembrando, mais uma vez, o filósofo alemão, pois ele situa o humor entre as “coisas espirituais”, atentemos para a maneira como funciona a comicidade num contexto opressor:

entre a dívida externa
e a dúvida interna
meu coração
comercial
alterna

O poema, publicado na primeira seção de Caprichos & relaxos (LEMINSKI, 1983, p. 33), num ano em que uma ditadura já cedia lugar à outra, traz a inflação à poesia. O mercado, a dívida, a balança comercial constantemente desfavorável: essas seriam as causas da luta do poeta. O coração polaco fica dividido, pendulando do Brasil ao estrangeiro. Em seu ensaio, porém, não há dúvida ou qualquer alternância de pensamento. Leminski diz, no texto intitulado “Duas ditaduras”, que as conseqüências da inflação na arte chegam a ser mais graves que as causadas pela política. Os artistas, sem livre-arbítrio, tiveram de ceder às tendências do sistema mercadológico e procurar empregos rentáveis. “A ditadura dos generais foi substituída pela das bilheterias” (LEMINSKI, 1986, p. 108). Devido a isso, diz ele, o idealismo dá lugar à busca por lucros imediatos. Na literatura, evidentemente, os efeitos são perturbadores.

Apesar disso, a poesia de Paulo Leminski, ainda que aproveite essa temática, não sofre modificações estruturais e ideológicas que visem ao sucesso financeiro. Nesse poema, por exemplo, podemos observar uma série de aspectos típicos da poesia leminskiana: a melodia do ritmo e das rimas dura os cinco versos, as palavras se entrecruzam e entrecortam, com sílabas inteiras se repetindo – não há letra que sobre nesse jogo –, e criam trocadilhos extremamente significativos.

De maneira mais detalhada, notamos que a primeira palavra – “entre” – constitui um ponto chave tanto para a compreensão estrutural quanto para a semântica. “Entre” está disfarçadamente anagramatizada em “externa” e, parcialmente, em “interna” e “alterna” – sendo que essas três formam um capítulo à parte para essa análise.

A princípio, o que fica mais evidente é a oposição entre “externa” e “interna”, muito afinada com a idéia de balança comercial, que se revela favorável ou desfavorável de acordo com a alternância entre a exportação e a importação. Mas a temática do poema não é meramente a economia, a “dívida externa” não é apenas oposta à “dúvida interna”, a relação estaria mais próxima da causalidade: a dívida geraria a dúvida, e a dúvida ocasionaria a dívida[ii], seja ela financeira ou cultural. Seríamos capazes de escrever, comprometidos com a arte literária, se estivermos também preocupados com resultados monetários? Parece-nos que não, principalmente numa poesia que não é feita para agradar, ainda que soe cômica. O humor aparece, com a leitura, num primeiro momento; já o leitor mais atento vai além do efeito estudado por Freud, que diz: “as alusões feitas em um chiste devem ser óbvias e as omissões facilmente preenchíveis; um despertar do interesse intelectual consciente usualmente impossibilita o efeito do chiste” (FREUD, 1977, p. 174). O investigador literário quebra o clima humorístico forjado e encontra a real temática: a dor do testemunho.

Deixando os assuntos econômicos, por ora, à parte, percebemos também a função do vocábulo “alterna”, principalmente porque se liga a “coração” – outro elemento importante por ser, tradicionalmente, o símbolo máximo da emoção, sobretudo da recepção da dor do indivíduo. Assim o poeta falaria dele em outro poema: “quem me dera um abutre / pra devorar meu coração! / naco de carne crua / comida de pé no balcão!” (LEMINSKI, 1983, p. 40); ou em “Além alma”: “meu coração lá de longe / faz sinal que quer voltar / já no peito trago em bronze: / NÃO TEM VAGA NEM LUGAR” (LEMINSKI, 2002, p. 28).

É evidente, pois, que Leminski faz um uso incomum desse signo. Ainda mais nesse caso, em que o substantivo “coração” vem acompanhado – no verso seguinte, estrategicamente – de um adjetivo no mínimo inesperado: “comercial”. Este, aliás, tem sua última sílaba, a tônica, prolongada até o início da próxima palavra – “alterna” – que seria o arremate e o ponto de união entre as idéias e sensações de que o poema lança mão.

A poesia de Paulo Leminski praticamente não faz uso da metrificação tradicional. Até mesmo entre seus haicais – forma oriental abrasileirada num modelo métrico fechado – são raros aqueles que apresentam os tradicionais 5 / 7 / 5; e, quando apresentam, parece mais obra do acaso. A despeito disso, nesse poema em que figuram inúmeros recursos comuns aos do haikai de Bashô[iii], a métrica tem, sub-repticiamente, um papel interessante. Feitas as devidas elisões nos dois primeiros versos e um processo de ditongação no quarto, vemos sílabas poéticas sendo subtraídas verso a verso – procedimento semelhante ao que foi utilizado por Chico Buarque em “Vai passar”, de 1984:

Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações (BUARQUE, p. 359, 2006)

Ainda sob esse prisma político, histórico e ideológico, podemos retomar o pensamento de Walter Benjamin no que tange às “coisas espirituais”. Sendo assim, sobretudo a arte, que se perderia e seria eclipsada, se alia às constatações materiais criando, ironicamente, matéria de poesia, como em “Verdura”, cujo mote principal é a vida mais abastada de que desfrutam os “americanos”:

de repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que eu te vi
o dia em que me viste

de repente
vendi meus filhos
a uma família americana
eles têm carro
eles têm grana
eles têm casa
a grama é bacana
só assim eles podem voltar
e pegar um sol em copacabana (LEMINSKI, 1983, p. 84)

Antes que se faça uma breve análise de alguns aspectos deste poema, precisa ser feita uma pequena referência a respeito de sua veiculação não só em forma de livro, mas também no mundo da música. A poesia de Paulo Leminski, pela sua estrutura ágil, sonoramente movimentada – cheia de rimas e ritmos –, age muito bem sobre nossos ouvidos. Para atestar isso, muitos de seus poemas foram musicados; e, desses, alguns pelo próprio poeta – como é o caso de “Verdura”, gravado posteriormente por Caetano Veloso. Em relação ao primeiro poema estudado, percebemos que muitos recursos poéticos se repetem, restando de novidade basicamente a anáfora, com a função de “amarrar” os versos e frisar determinados elementos.

“Verdura”, pois, brota de maneira arrebatadora. De acordo com as próprias palavras do poeta, é de maneira repentina que se dá a ocasião poeticamente descrita. Isso confere uma agilidade inicial ao poema, cuja clareza só viria nos versos derradeiros – até lá resta a dúvida interna.

De início, salta aos olhos a cor verde, “a mais verde que existe”. Essa cor sempre esteve associada à esperança, e compõe boa parte da bandeira nacional. A data da publicação do poema é 1981, em Não fosse isso e era menos / não fosse tanto e era quase, período de derrocada da primeira ditadura por que passou o poeta e, portanto, época da esperança. Mas os prognósticos não são apenas de um verde alegre, pois seria esta também, no contexto do poema, “a cor mais triste” – da falsa esperança. Curiosamente, anos mais tarde, durante a campanha das Diretas Já, o amarelo seria a cor predominante. Se a esperança do verde se mostrou equivocada, a riqueza do amarelo foi pelo mesmo caminho: a dúvida parece enfraquecer os símbolos, que não se consolidam verdades.

E é nessa situação de emoções diversas, especificamente na primeira estrofe, que se encontra o casal protagonista do micro-enredo de versos. Seguido a ela, vem o começo igualmente arrebatador da segunda estrofe. Nela, aparentemente, o casal já teve filhos e teve que cedê-los “a uma família americana”, que lhes poderia propiciar condições muito melhores que as nossas. Quando da publicação do poema, já era passado o tempo do exílio imposto pela ditadura; ele se torna voluntário: os pais desejariam uma vida melhor para os filhos. Desse modo, Leminski cria uma alegoria para o sentimento geral de incerteza e de busca por um futuro melhor. O verde, o mesmo da bandeira nacional, só seria motivo de esperança se o lugar fosse outro – e não o próprio Brasil.

Sendo assim, o fim do poema, apesar de apresentar um conteúdo cômico criado, sobretudo, pelo humor negro da comparação entre a família brasileira e a americana, também traz a dor da perda inexorável dos filhos para uma vida mais abastada, em que “a grama é bacana”. A perda benjaminiana do bem espiritual para o material aparece mais uma vez. É gerado, portanto, um clima de luto que, segundo Freud, seria “a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante” (FREUD, 2000, p. 1). Precisa-se esclarecer, no entanto, que, usando o recurso humorístico, o poeta desconstrói de maneira muito própria o luto freudiano.

É interessante lembrar que nesse período, a década de 1980, o fluxo migratório para o exterior cresceu significativamente entre os brasileiros. O Brasil, “a partir dos anos 80 passou a ver cada vez mais engrossadas as fileiras de seus habitantes que deixam o país à procura de melhor sorte como estrangeiros” (SALES, 1991, p. 23). Fazendo uma análise do poema à luz dos estudos de Teresa Sales e Freud – e, principalmente, observando os recursos do próprio poeta – podemos encontrar no poema uma alegoria daquilo que vinha ocorrendo em nosso país.

Então, depois de conferirmos a sonoridade muito bem construída e sempre a serviço de propósitos interpretativos, a maneira jocosa de lidar com a dor da dúvida, da dívida ou da vida que viaja em busca de novos mundos, e, finalmente, o caráter observador essencialmente poético da obra de Paulo Leminski, chegamos a conclusões muito próximas das propostas por Wilberth Salgueiro numa análise do famoso poema “ameixas / ame-as / ou deixe-as” (LEMINSKI, 1983, p. 91):

Basicamente, pois, depreende-se que o poema de Leminski, lido na fronteira entre a psicanálise e a história, se sustenta numa rearticulação fonomorfossintática da linguagem que surpreende ao resgatar, parodicamente, uma memória imposta pela oficialidade militar de um regime violento e opressor (SALGUEIRO, 2007, p. 117).

Sendo assim, de ditadura a ditadura, perderam-se capital nacional e muitos brasileiros, para a morte ou para outras nações; mas, in memoriam, venceram os poemas.

Referências

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da história. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 222-232.

BUARQUE, Chico. Tantas Palavras: todas as letras. Reportagem biográfica e organização: Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia [1915]. Edição eletrônica das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

______. Os motivos dos chistes – chistes como um processo social. In: Os chistes e sua relação com o inconsciente. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, v. VIII. Tradução de Margarida Salomão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1977, p. 163-182.

LEMINSKI, Paulo. Anseios crípticos: peripécias de um investigador no sentido do torvelinho das formas e das idéias. Curitiba: Ed. Criar, 1986.

______. Bashô: a lágrima do peixe. São Paulo: Brasiliense, 1983.

______. Caprichos & relaxos. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.

______.Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 2002.

SALES, Teresa. Novos fluxos migratórios da população brasileira. In: Revista Brasileira de Estudos de População. Campinas, 1991, p. 21-32.

SALGUEIRO, Wilberth. Tempos de Paulo Leminski: entre estória e história. In: Lira à brasileira: erótica, poética, política. Vitória: Edufes, 2007, p. 105-122.

 

[i] Cf. LEMINSKI, Paulo. “História mal contada”. In: Anseios crípticos 2. Curitiba: Ed. Criar, 2001, p. 115-117.

[ii] A “dúvida interna” gera a “dívida externa”, indiretamente, pois cria um clima inóspito para os investimentos estrangeiros de que a nação necessita para crescer.

[iii] Entre eles o kakekotobá, que, segundo Leminski, “é a passagem de uma palavra por dentro da outra palavra, nela deixando seu perfume. Sua lembrança. Sua saudade.” Cf. LEMINSKI, Paulo. Bashô: a lágrima do peixe. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 39.

 

Artigo submetido em 03/08/2009 e aprovado em 30/08/09.