Uma faceta de gênero em Mar Morto: a personagem Dulce

Tcharly Magalhães Briglia

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 13, 2010. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade Estadual de Santa Cruz
Ilhéus, Bahia
tcharlybriglia@gmail.com

RESUMO: Este trabalho intenta analisar a personagem Dulce, do romance Mar morto (1936), utilizando-a como suporte para a discussão acerca do gênero feminino na obra em estudo. Para isso, faz-se necessário conhecer alguns antecedentes históricos que permitiram às mulheres uma relativa possibilidade de elevação social e profissional. Parte-se, em seguida, para a exposição de características do percurso da mulher professora, ao longo da História, papel social que, em muitos aspectos, está ligado também aos papéis de mãe e esposa, tendo em vista que a docência é não raro identificada como uma extensão da maternidade. Ao objetivar uma desconstrução das visões essencialistas de gênero, é eleita a professora Dulce – confiante no milagre que mudará a vida dos homens do cais -, figura emblemática desta narrativa de Jorge Amado. A obra, que pode ser caracterizada como um texto contra-hegemônico, é marcada por apresentar variadas facetas do feminino. A teoria utilizada ancora-se em estudiosos que tratam das relações de gênero, entre eles: ALMEIDA (2007), LOURO (2001), OLIVEIRA (2004) e PERROT (2005).

PALAVRAS-CHAVE: Representação feminina; Gênero; Literatura contra-hegemônica

ABSTRACT: This article aims to analyze the character Dulce, from the book Mar morto, by Jorge Amado in order to discuss about the women in this novel. For this, it is necessary to know some historic records that allow to woman a relative social and professional growth. Following this, there is an approach about the teacher, throughout the history, social role that, in a lot of aspects, is associated with the mother and wife functions and, sometimes, this profession be dealt as a motherhood continuation. With the goal of making a “deconstruction” of essencialism about the female gender, is chosen the character Dulce –teacher from this story who believes in a miracle that will change the life of the fishermen who live in Bahia de Todos os Santos. This is a book that can be considerate a counter-hegemonic text, has very special aspects about the woman that are against the ethnocentric vision. The theory studied is from researches by ALMEIDA (2007), LOURO (2001), OLIVEIRA (2004) and PERROT (2005).

KEYWORDS: Women representation; Gender; Counter-hegemonic literature

 

A mulher e os seus percursos

Utilizar o feminino como objeto de pesquisa pode representar, para alguns, um estudo já desgastado, do ponto de vista científico, por já ter abordado uma série de problemáticas. A ilusória noção de que tanto no campo profissional, quanto no político, já se faz presente a tão intentada igualdade de gêneros é questionada a cada dia. Entretanto, o pós-feminismo sinaliza para questões mais amplas, que vão além da relação de gênero entre mulheres e homens, quando pensa que esta “[…] não deve limitar-se às mulheres, sendo que deve ampliar o horizonte mesmo das significações para mostrar a violência de todo o processo de exclusão” (FEMENÍAS, 2003, p.92).

O constante diálogo entre as áreas do conhecimento, que tem se realizado de modo cada vez mais surpreendente, sinaliza as múltiplas possibilidades de abordagem do tema, em questão. A literatura contra-hegemônica, isto é, o conjunto de textos literários que vai de encontro às visões discriminatórias do imaginário europeu e que refuta a dominação etnocêntrica por meio de narrativas as quais dão voz ao colonizado, ao negro, à mulher, enfim, a todos aqueles excluídos e escolhidos para o confronto com os ditames patriarcais, é, por seu turno, uma das muitas vertentes do saber humano que se abre à complexa tarefa de perscrutar o ser feminino em suas inerentes prerrogativas e problemáticas.

Não são poucos os exemplos de discursos, nos quais a pretensa inferioridade da mulher em relação ao homem é tida como se fosse real, à luz de um imaginário discriminatório. Michelle Perrot, por exemplo, em As mulheres ou o silêncio da história (2005), tece comentários acerca dos efeitos da guerra, no século XX, na configuração dos papéis sociais atribuídos à mulher:

Diante do velho Adão, rabugento na contemplação melancólica de sua decadência, e do aumento das multidões bestiais e femininas, é uma nova Eva que avança. O vivo sentimento desta mutação reanima, de resto, uma misoginia latente, mas um tanto adormecida, e que se expressa até o delírio, em uma literatura antifeminista que prolifera, em que se encontram Zola e Barrés, Merbeau e Darrien e muitos outros epígonos. Ela culmina no Manifesto futurista de 1909, onde Marinetti ataca com violência e brio, os museus, as bibliotecas, o feminismo e as mulheres […] ‘Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias que matam e o desprezo pela mulher’ (PERROT, 2005, p. 445-6).

Pode-se inferir, a partir do fragmento transcrito, que o século XX já se inicia um tanto quanto polêmico, no que concerne ao lugar ocupado pela mulher na sociedade. A condição de segundo sexo é uma constante irradiadora de inúmeros conflitos, seja no âmbito familiar, seja no profissional. É evidente no discurso de Marinetti a ênfase recaída sobre a posição de superioridade masculina, à qual tudo se subordina. Às mulheres estava reservada a esfera privada, pois a elas cabiam as funções femininas mais dignas e gratificantes: mãe, esposa e rainha do lar. O próprio gênio natural feminino (dócil, emotivo e superficial) defendido pelos adeptos do discurso da supremacia falocêntrica, era utilizado como justificativa para que o homem, indiscutivelmente mais racional, ocupasse os espaços públicos e ascendesse social e profissionalmente. O lar é visto, nessa concepção, como o reduto sagrado conduzido por uma discípula da Virgem Maria, isto é, a mulher meiga e inocente totalmente sujeita às imposições do seu marido quase-deus.

Se no século XIX, o modelo familiar perfeito assentava-se no tripé marido, esposa e filhos – legitimado pela doutrina burguesa, que muito se esforçava para criar uma imagem social possível de traduzir a estabilidade intentada pelas classes dominantes – as duas guerras da centena seguinte deram margem a uma relativa revisão de papéis. O combate era o destino certo para os homens, o que permitiu às esposas desses heróis uma efêmera, mas já significativa elevação social. A ausência masculina sinalizou a oportunidade histórica para a mulher administrar o lar e os negócios da família. Seu trabalho, de inútil, desnecessário e infame, emerge como ocupação digna, afinal, dele agora dependia o sustento da família, bem como a imagem perante a sociedade.

Quando as atrocidades da guerra ganharam um ponto final, não é difícil imaginar que o macho corajoso, que deu seu sangue nas disputas, não ia medir esforços para desfazer quaisquer construções estabelecidas pela fêmea indefesa. Recuperar o lugar parcialmente perdido, todavia, foi uma tarefa exercida de modo altamente violento, discriminatório e prejudicial às Evas de plantão. Os vestígios de suas conquistas se unem, desse modo, aos lemas das reivindicações que eclodem pelo mundo. Já é possível visualizar uma corrente de oposições aos ditames reducionistas, traduzida na forma de manifestos pelo mundo, como é o caso do feminismo e do pós-feminismo. Anos de exclusão, silêncio e invisibilidade culminam nas teorias, nos discursos e no fazer de cada agente transformador, ansioso por uma revisão de tudo aquilo que se fez de mais cruel.

Os caminhos trilhados da queima das bruxas, na Inquisição Católica, até a queima dos sutiãs, como ficou popularmente conhecido o ato simbólico protagonizado por Betty Friedan, não foram nada fáceis. As marcas de uma herança histórica se fazem presentes até hoje. Eis que surge na literatura, na mídia, nas artes e em tantos outros ramos, um antídoto parcial contra as visões essencialistas do gênero. A derrocada de tais pensamentos é proposta por muitas teorias:

O filósofo argelino Jacques Derrida denominou nossa racionalidade como “falogocêntrica”, ao indicar o acoplamento entre o falo e o logo ocidentais, caracterizando-a pelo seu enaltecimento da identidade masculina, européia, branca e heterossexual. Ao mesmo tempo, ela torna desqualificado o contratipo feminino (ou feminilizado) não-europeu, não-branco, homo-orientado, associados ao selvagem ou ao irracional. Essa formulação resultou, no entanto, num grande equívoco, ao identificar os modos de observação e formulação científica como se fossem típicos da masculinidade (OLIVEIRA, 2004, p. 58).

Desconstruir a racionalidade falogocêntrica é uma missão de etapas quase infindáveis. Propor a discussão, entretanto, já é uma tarefa mais salutar, e esta surge, entre as suas inúmeras possibilidades, por meio da literatura. É num país colonizado e em cuja composição étnico-cultural se tem forte influência do imaginário europeu (dominador e etnocêntrico) que encontramos subsídio literário para o debate acerca do feminino. Em Mar morto, Jorge Amado vai conseguir transpor para as páginas de sua narrativa situações acionadoras de um novo engendramento peculiar à mulher. Lívia e Rosa Palmeirão apresentam um novo modo de ser mãe e esposa. Iemanjá, figura mítica e religiosa que acaba por ganhar foros de personagem, torna-se a linha condutora do romance. E como se já não bastassem, surge a professora Dulce, perfeito arranjo folhetinesco do autor baiano, que desempenha, na narrativa, o papel social tido, historicamente, como o de extensão da maternidade. Mas será que a atividade docente sempre foi vista como uma inclinação feminina? Vamos à história, antes de compreender o milagre da ficção.

A mulher professora   

Dá-me que eu seja mais mãe do que as mães, para poder amar e defender como as mães, o que não é carne da minha carne (GABRIELA MISTRAL).

Imagine uma mulher inocente, bem educada, detentora de um conhecimento relevante nem sempre reconhecido, desprovida de beleza física e desvinculada do matrimônio. Em poucas palavras, era essa a imagem que se tinha das professoras há algum tempo não muito distante. Compreendida como uma extensão da maternidade, a docência configurou-se, ao longo da História, como uma prática predominantemente feminina. Alcançar esse status, no entanto, dependeu de uma série de fatores.

No Brasil oitocentista, iniciou-se a regulamentação das “escolas de primeiras letras” ou “pedagogias” nos locais mais populosos do Império. Para administrar as recentes unidades escolares, eram nomeadas senhoras de respeito, bondade e prudência que demonstrassem possuir também habilidades de costura e bordado. Obviamente que o acesso a esse tipo de educação dava-se de modo diferenciado, conforme a classe social do indivíduo. Para as filhas das classes mais privilegiadas, o ensino da leitura, escrita e matemática “[…] era geralmente complementado pelo aprendizado do piano e do francês. […] As habilidades com as agulhas, os bordados, as rendas, as habilidades culinárias, bem como as habilidades do mundo das criadas e serviçais […] faziam parte da educação das moças” (LOURO, 2001, p. 446). Logo se vê que a classe social era – e ainda é – uma variante considerável em relação ao tipo e ao nível de ensino.

A necessidade de modernização da sociedade e a higienização [1] da família impulsionou a corrida ao encontro da ordem e do progresso. Responsável por moldar e determinar a educação e o caráter dos homens, a mulher recebia uma educação apoiada em valores cristãos, com vistas a se manter como o pilar de sustentação do lar (idem, p.446).

A despeito de ter iniciado no Brasil como uma prática predominantemente masculina – religiosos e jesuítas entre os anos de 1549 e 1759 – o magistério acabou consolidando-se como trabalho de mulher. A crescente urbanização e industrialização ampliaram as oportunidades de emprego para os homens, fazendo com que as mulheres ocupassem o maior número de vagas das escolas normais, institutos de ensino que objetivavam formar educadores. Homens e mulheres estudavam em escolas separadas. Com apenas 20 anos de idade, os professores já eram efetivados no cargo. As professoras, ao atingirem 23 anos de idade, poderiam exercer a docência até mesmo em classes mistas, contanto que a faixa etária dos alunos não ultrapassasse 10 anos. O temor à sexualidade e aos desejos impuros provocados, é claro, pela mulher, geraram uma série de medidas na luta pela defesa dos bons costumes.

Características tidas como inerentemente femininas, tais como a paciência, a fragilidade e a doação, contribuíram para que a profissão fosse se configurando como um sacerdócio. “O magistério era visto como uma extensão da maternidade, o destino primordial da mulher. Cada aluno ou aluna era representado como um filho ou uma filha espiritual e a docência como uma atividade de amor e doação à qual acorreriam aquelas jovens que tivessem vocação” (op.cit., p.451). Não se pode perder de vista, no entanto, que a verdadeira carreira feminina era o casamento e a maternidade. Desse modo, o magistério e a enfermagem, por exemplo, se feminizavam, correspondendo a profissões dignas apenas antes do casamento. A humildade, submissão, fragilidade, vigilância e renúncia marcavam o destino da profissional que, para tornar-se mãe e esposa, precisaria abrir mão de suas realizações pessoais.

A possibilidade de aliar ao trabalho doméstico e à maternidade uma profissão revestida de dignidade e prestígio social fez com que ser professora se tornasse extremamente popular entre as jovens e se, a princípio temia-se a mulher instruída, agora tal instrução passava a ser desejável, desde que normatizada e dirigida no sentido de não oferecer riscos sociais (ALMEIDA, 2007, p.86).

O século XX inicia-se já demonstrando sinais do aumento da demanda e a cada vez mais latente diminuição de professores do sexo masculino. Não havia como a supremacia feminina ser impedida, pois agora, as mulheres compunham a maioria instruída, capaz de lecionar. Não sejamos, porém, tão ingênuos a ponto de achar que esse processo se deu de forma harmoniosa. A própria formação do magistério se baseava na preparação para o matrimônio. Os currículos destinados às mulheres eram construídos no sentido de prepará-las, inclusive, para gerir a economia doméstica. Mantendo laços com a religião, o preparo docente era articulado no intuito de fazer das professoras excelentes vitrines para as suas alunas. Daí apreende-se que havia uma austera censura no que diz respeito aos hábitos, leituras, vestuário e atitudes que propagassem os “bons costumes”, afastando os pensamentos impuros e os comportamentos desviantes.

As representações da mulher professora perpassam questões de igual relevância. Quase sempre associado à metáfora da mãe espiritual, o magistério era tido como incompetência para o casamento. A professora solteirona tinha a sua orientação sexual sob suspeita, assim como parecia tender para a profissão por não possuir dotes físicos admiráveis. Até mesmo algumas mulheres se conformavam com esse dom divino e, paralelamente, renunciante, segundo a ideologia patriarcal. Ao esquecerem-se de si, entretanto, as professoras não poderiam perder uma condição básica para a carreira: o controle de classe. Tais representações do feminino, no século passado – também presentes em músicas da época, as quais, muitas vezes, tinham como temática um amor proibido – são elementos que favorecem a compreensão da história das mulheres não dissociada das questões de gênero.

Gênero, entendido como uma construção social, e articulado à classe, etnia, religião, idade, determinou (e determina) algumas posições de sujeito que as mulheres professoras ocuparam (e ocupam). Discursos carregados de sentido sobre os gêneros explicaram (e explicam) como as mulheres e homens constituíram (e constituem) suas subjetividades e é também no interior e em referência a tais discursos que elas e eles constroem as suas práticas sociais, assumindo, transformando ou rejeitando as representações que lhe são propostas (LOURO, 2001, p.478).

Educadoras, normalistas, professorinhas, tias, profissionais do ensino, trabalhadoras da educação… enfim, são muitas as denominações dessa profissional, algumas delas carregadas com um sentido pejorativo, propositalmente atribuído para enaltecer o discurso dominador. O que se pode visualizar, de fato, é que o processo de afirmação da mulher professora, na sociedade brasileira, ainda está em fase de construção.

Dulce e o milagre de Mar morto

O destino dos homens do cais é o mar. Belo e terrível, é no mar que os filhos de Janaína conquistam a sua liberdade. A vida deles já está traçada desde o dia do nascimento. Essa realidade aguda não foi de fácil compreensão para Dulce, a professora do romance Mar morto.

Via coisas bem tristes aquela menina que viera da Escola Normal ensinar ali para ajudar uma mãe pobre, que já fora rica, e um senhor de bigodes e voz sonora, que morrera antes de tudo ser tão feio no mundo da sua casa. Chegara para substituir uma solteirona de palmatórias e gritos histéricos e quis fazer do seu curso a casa alegre dos meninos do cais. Mas viveu coisas tão tristes junto aos navios, nas casas toscas dos pescadores, nas proas dos saveiros, viu de tão perto a miséria que não teve coragem e perdeu a alegria, não olhou mais o mar com o  mesmo encantamento dos primeiros dias, não esperou mais um noivo, não teve mais rimas para os seus versos. E como era religiosa, ficou rezando porque Deus, que era bom, tinha que acabar com tanta miséria se não era o fim do mundo (AMADO, 2004, p.37).

Nessas poucas linhas já se conhece um pouco de uma das personagens mais curiosas de Jorge Amado. A professora Dulce talvez nunca compreendesse o porquê de uma realidade tão dura para os homens do cais. Difícil lidar com essa história de destino traçado. Como era possível que meninos tão bons passassem apenas seis meses na escola, tendo que depois entregar a vida aos riscos do mar? Guma, por exemplo, era um grande rapaz. A professora via nele um excelente caminhar, mas pouco foi o que ele aprendeu na escola, menos ainda o que Dulce quis ensinar. A cena que descreve o dia em que Guma abandona a sala de aula rumo ao seu destino de marítimo é uma das mais emocionantes da obra. Era o seu ritual de entrada numa nova vida, em sua profissão, no entanto, não havia festa. As ambições desses meninos eram bem distintas das dos homens da Academia, o que não fazia destes mais propensos à inteligência, apenas lhes garantia melhores oportunidades.

No tópico anterior deste artigo, a discussão centrou-se em aspectos que, de forma generalizada, caracterizam a docência brasileira, nos últimos dois séculos. Não se pode deixar de salientar, no entanto, as diferenças entre esses dois períodos da história do nosso país, bem como, de que modo tais fenômenos vão reverberar na caracterização de certa docente soteropolitana presente na obra de Jorge Amado.

Enquanto que no século XIX, a massa docente era composta por homens e mulheres, os anos 1900 e a conseqüente modernização do país, alteraram a configuração desse panorama. A mulher passou a ocupar um espaço cada vez mais significativo, pois os chefes de família precisavam se dedicar a profissões mais dignas da identidade máscula. A fragilidade e a entrega, ideologicamente atribuídas às professorinhas, condiziam melhor com o aquilo que se esperava de uma professora nas primeiras décadas do século XX.

O escritor Jorge Amado, ao publicar, em 1936, a narrativa dos homens do cais da Bahia de Todos os Santos, apresenta uma nova professora. Seu diferencial está no modo com que lida com os reveses daquela sociedade. Não precisa ser mãe, nem esposa, para se sentir uma professora realizada. Seu casamento é com a causa daquelas pobres criaturas que, envoltas nas misteriosas e captadoras ondas do mar, renunciam aos livros na esperança de um futuro melhor. Dulce, no entanto, não desiste de cumprir sua função de docente/mãe, ao tentar de todas as formas resgatá-las das persuasivas e necessárias redes de pesca.

Enquanto que na realidade brasileira do período, em análise, existia uma tendência à normatização da carreira docente feminina, Dulce opta por fugir à norma. Une-se, por conta própria, à causa do mar e passa a simbolizar um porto seguro e sábio para os habitantes da comunidade. Renúncia com tom altruísta, professorinha com atitude de mestra, são algumas das suas peculiaridades. Envolvida no imaginário de raízes africanas – este influenciado pelos mitos de Janaína – Dulce opta por viver nessa realidade que, embora não fosse a sua de origem, é aquela que permitirá a concretização do milagre.

Pode-se afirmar, de certa forma, que, estando envolta no ethos mitológico, a professora acaba por se adequar à essa realidade, quando passa a creditar esperança num ato milagroso. O milagre, nesse sentido, opõe-se à revolução [2], necessária, no contexto da obra, para solucionar os problemas da sociedade representada nas páginas do romance. É possível afirmar, então, que, embora demonstre um pensamento inquieto diante dos problemas, isto é, uma postura de esquerda, Dulce não interfere diretamente na ordem pública, mostrando a ruptura presente de modo mais significativo na esfera ideológica do que na prática.

Dulce vivia à espera de um milagre, milagre esse que mudasse, por completo, a vida daquelas pessoas. Só assim ela ia se sentir digna do adjetivo que lhe atribuíam. Boa? Só acreditaria quando proferisse a palavra acionadora do milagre que aquela gente tanto merecia. Enquanto continuasse vendo as mulheres perdendo os seus maridos para o mar e o mar tirando os alunos da sala de aula, a personagem não se conformaria. A cada estudante perdido, a cada marinheiro levado pelas ondas, Dulce depositava ainda mais fé no milagre.

Talvez seja esse o milagre que dona Dulce espera, o dia de que falam os versos do Dr. Rodrigo. Talvez que nesse dia os marítimos possam casar, dar vida melhor para as mulheres e garantir que não morrerão de fome após a morte deles, nem tampouco precisarão de se prostituir. Quando chegará esse dia? Guma interroga a lua e as estrelas (idem, p. 114).

A esperança quase infantil da professora despertou crenças que adormeciam dentro do Dr. Rodrigo. Todos esperavam o dia em que o médico e a professora deixassem aflorar o amor que pareciam sentir um pelo outro. Apesar de não se realizar de forma concreta na história, o relacionamento dos dois personagens ocupa outra dimensão do amor, este ligado à cumplicidade. Rodrigo confiava em Dulce – afinal, apenas ela sabia dos versos que ele escrevia para o mar – assim como também depositava um pouco de esperança em dias melhores. Ambos eram admirados, respeitados (e por que não amados?) pelos habitantes do cais da Bahia de Todos os Santos, dada à bondade e consideração por cada um daqueles seres tão batalhadores. Não eram poucos os pacientes que Dr. Rodrigo atendia sem nem pensar em dinheiro; não eram poucos os que amavam Dulce por tudo que ela representava para eles. “[…] eles amavam seu rosto seco, seu óculos, seu corpo magro e envelhecido. […] Ela procurava avidamente a palavra que lhes haveria de ensinar, a palavra que realizasse o milagre” (idem, p. 130).

A narrativa amadiana acaba por não dar espaço a um caso de amor entre Dulce e Rodrigo, talvez para não ofuscar outras problemáticas mais importantes para o desenrolar da obra. O mar é o grande centro das atenções, o que não impede aos referidos personagens demonstrarem uma extrema sensibilidade quanto aquele povo. Mesmo não sendo do cais, tinham o olhar atento para compreender as situações mais inabituais para eles. A fé de Dulce é a fé de quem acredita na força do próprio ser humano. “Tenho fé, Rodrigo, nesses homens. Uma coisa me diz que eles é que farão o milagre” (idem, p. 131).

E o milagre acontece! Na luta de Lívia, personagem que perde o marido Guma e decide adotar uma postura tipicamente masculina. Ao lado de Rosa Palmeirão – outra mulher de vanguarda – passa a conduzir o barco Paquete Voador e prepara o seu filho para o destino do mar. O capítulo final da obra se faz numa bela paisagem feminina: o olhar sensível e feliz de Dulce, a voz suave de Maria Clara e a força de Iemanjá, personificada na coragem e na garra daquelas que optaram por enfrentar, se possível desvendando-os, todos os segredos do mar. “Dona Dulce olha da escola. A noite ainda luta contra a madrugada. Os saveiros saem […] Dona Dulce olhou também da janela da escola. Via uma mulher forte que lutava. A luta era o seu milagre. Começava a se realizar” (idem, p. 256-7).

Assim, Dulce ganhava forças para que o milagre se desse por completo. Daí em diante, suas palavras poderiam ultrapassar os limites da escola, levando um novo conhecimento para homens e mulheres já tão sábios. A docência, para Dulce, não foi um sacerdócio enquanto renúncia, mas uma demonstração de amor de uma mulher que não se calou diante da realidade que a cercava. Sua luta também era um milagre.

Considerações finais

Ser mulher parece já carregar todo o estigma do gênero excluído de muitas fatias do lucro da história. Ser professora, da mesma forma, não foi sempre uma tarefa aceita por todos como a melhor missão feminina na Terra. Nesse sentido, a História está repleta de fatos significativos que trazem à tona o desafio das mulheres.  Longe de representarem tão somente o discurso dos excluídos, significam, a cada dia, novos elementos para a luta que se faz constante.

A mulher professora vem conquistando mais espaço por meio de reivindicações mais engajadas e protestos mais consistentes que visam a uma desmistificação da atividade docente, marcada ainda por visões superficiais. O discurso falogocêntrico impede que a profissão deixe de ser vista como uma extensão da maternidade, até mesmo uma atividade divina. A profissão, digna e desempenhada de modo competente, tanto por mulheres, quanto por homens, precisa falar mais alto do que qualquer preconceito.

Na narrativa de Jorge Amado, Mar morto (1936), o milagre tão aguardado vem pelas mãos da mulher. E é aí que está boa parte da adequação da obra aos estudos aqui empreendidos neste artigo. Dulce, a despeito de se enquadrar um tanto no perfil que delineia a professora ideal, faz da luta por uma realidade melhor o seu sentido de vida. Para isso, não precisa renunciar à vida, muito pelo contrário, busca nela as forças que a conduzirão pelos caminhos de novas conquistas humanas e sociais. O romance, dessa forma, apresenta inúmeras facetas do feminino, capazes de acionar o desejo de construção de uma nova história, em meio a tantas Rosas, Lívias e Dulces por aí espalhadas.

Referências

ALMEIDA, Jane Soares de. Ler as letras: por que educar meninas e mulheres? São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo: Campinas: Autores associados, 2007.

AMADO, Jorge. Mar Morto. Rio de Janeiro: Record, 2004

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1987.

FEMENÍAS, Maria Luísa. Judith Butler: introduccíon a su lectura: Buenos Aires: Catálogos,2003.

LOURO, Guacira Lopes. “Mulheres na sala de aula”. In: DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. 9. Ed. São Paulo: Contexto, 2007, p. 443-481.

OLIVEIRA, Pedro Paulo de. A construção social da masculinidade. Belo Horizonte: UFMG, Rio de Janeiro: IUPERJ, 2004, p. 13-139.

PERROT, Michele. As mulheres ou o silêncio da história. Trad. Viviane Ribeiro. São Paulo: EDUSC, 2005, p. 435-465

 

* Discente do Curso de Letras do DLA/UESC, bolsista de Iniciação Científica do programa Fapesb. Orientadora Sandra Maria Pereira do Sacramento, professora titular em Teoria da Literatura (UESC/DLA) e coordenadora do Mestrado em Linguagens e Representações. Doutora em Letras Vernáculas – Literatura Brasileira pela UFRJ

[1] Pode-se entender como higienização, o conjunto de medidas, influenciadas pelo cientificismo, no final do século XIX, voltado para a determinação de padrões de higiene pessoal e coletiva, que visavam transformar os ambientes privados e públicos em redutos de extremo asseio, rompendo, desse modo, com quaisquer vícios mantenedores de práticas arcaicas e/ou anti-higiênicas.

[2] Ainda que Jorge Amado se encontre, nesse momento, fortemente comprometido com os ideais revolucionários do materialismo dialético, Mar morto enquadra-se na fase dos depoimentos líricos, conforme aborda Alfredo Bosi na História concisa da literatura brasileira (1987, p. 459). Num período posterior, teriam início as obras de pregação partidária, com destaque para O cavaleiro da esperança (1945). Dulce (do latim dulcis, e), no entanto, encerra, em suas ações, um tom ambivalente, que não descarta a docilidade, quando também visualiza outra vida para aquela população, ainda que não pense na reversão do modo de produção capitalista, através da revolução armada, como pregava o comunismo.

 

Artigo submetido em 10/08/2009 e aprovado em 22/11/09.