A relação entre Emilie e o espaço ficcional em Relato de um certo Oriente

Tassia Kleine

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 15, 2011. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade Federal do Paraná
Curitiba, Paraná
tassiak@gmail.com

RESUMO: Realizou-se, neste ensaio, uma leitura de Emilie, de Relato de um certo Oriente, e de sua casa como símbolos que remetem à trajetória da mulher e dos ambientes íntimos em relação à história da cidade.

PALAVRAS-CHAVE: Milton Hatoum, espaço ficcional.

ABSTRACT: This essay aims to read Emilie, from Relato de um certo Oriente, and her house as symbols that reflect the trajectory of women and of the familiar environments in relation to the city’s history.

KEYWORDS: Milton Hatoum, fictiona space.

 

“A casa. Com a árvore e o sol, o primeiro e o mais frequente desenho das crianças. É onde ficam a mesa, a cama e o fogão. As paredes externas e o teto nos resguardam, para que não nos dissolvamos na vastidão da Terra; e as paredes internas, ao passo que facultam o isolamento, estabelecem ritos, definidas relações entre lugar e ato, demarcando a sala para as refeições e evitando que engendremos os filhos sobre a toalha do almoço. Através das portas, temos acesso ao resto do Universo e dele regressamos; através das janelas, o contemplamos.” Osman Lins, em “Retábulo de Santa Joana Carolina.”

Em Relato de um certo Oriente, deparamo-nos inicialmente com uma narradora que, após voltar ao local onde viveu sua infância, inicia um discurso e cede espaço a outras vozes, organizando relatos de outros personagens. O resultado da composição é um quadro que aponta constantemente ao passado traçado ao redor de Emilie, de quem a narradora que abre o romance é filha adotiva, e de sua casa. A presença da matriarca, peça fundamental para as relações que se estabelecem entre os outros personagens, faz-se sentir mesmo quando ela não atua diretamente na cena narrada. Refletida em cada item que compõe a casa e os seus arredores, aproximam-se no romance a sua atuação e a do próprio espaço, característica que remete à atuação das mulheres no desenvolvimento das dinâmicas de ocupação do espaço.

Em A cidade na história, Lewis Mumford indica vestígios de que indivíduos do sexo feminino teriam sido os primeiros, já no período mesolítico, a tomar a iniciativa de retornar com frequência aos locais em que permaneciam os corpos dos mortos de seus grupos, realizando cerimônias e ritos em homenagem a estes. Este tratamento, vinculado à ordem do sagrado, teria sido fundamental para as transformações nos modos de vida de povos, até então nômades, que passaram a se fixar em áreas próximas aos túmulos de seus entes (MUMFORD, 1991, p.18). É como símbolo dos agentes centrais à formação dos primeiros núcleos urbanos que leremos, neste ensaio, Emilie e sua casa, focando-nos na intensidade e nos efeitos da relação que se estabelece entre ambas.

É nítida, em Relato de um certo Oriente, a força que a imagem da matriarca exerce sobre todos os personagens da trama. Por destacar-se dos outros elementos que constituem cada cena em que aparece, decifrá-la aproxima-se para os demais personagens do romance do movimento de desvelar suas próprias individualidades e confunde-se com o exercício de desvendar sua casa. Sua força, com a qual é capaz de “eleger os caminhos por onde passa o afeto: o olhar, o gesto e a fala” (HATOUM, 2004, p. 103), faz com que sua presença e suas memórias impregnem de sentidos os espaços que habita. A casa torna-se um registro de sua presença e as descrições da Parisiense, loja e moradia ao mesmo tempo, e do sobrado para onde sua família posteriormente se muda, ocorrem no sentido de personificá-la. Logo no primeiro capítulo, por exemplo, a origem familiar da matriarca é sinalizada ao encontrarmos, na caracterização da sala de sua antiga casa, o certo oriente a que o título possivelmente se refere:

Antes de entrar na copa, decidi dar uma olhada nos aposentos do andar térreo. Duas salas contíguas se isolavam do resto da casa. Além de sombrias, estavam entulhadas de móveis e poltronas, decoradas com tapetes de Kasher e de Isfahan (…). A única parede onde não havia reproduções de ideogramas chineses e pagodes aquarelados estava coberta por um espelho que reproduzia todos os objetos, criando uma perspectiva caótica de volumes espanados e lustrados todos os dias, como se aquele ambiente desconhecesse a permanência ou até mesmo a passagem de alguém. (HATOUM, 2004, p. 10)

Não apenas elemento que guia à permanência em um mesmo ambiente e ao estabelecimento de determinadas relações, mas também imagem constituinte dos espaços que habita com seu grupo: assim como identificamos, no Relato, características particulares de Emilie na configuração dos ambientes íntimos, Mumford nos indica formas mais gerais de manifestações arquitetônicas do feminino. Para tanto, o historiador evoca as formas através das quais funções atribuídas à mulher, como segurança, receptividade, proteção e nutrição, tomam dimensão estrutural em diversas partes das aldeias: na casa e no forno, no estábulo e no celeiro e, dali, à cidade, “refletindo-se no fosso e em todos os espaços internos, desde o átrio até o claustro.” (MUMFORD, 1991, p. 19).

Ao aproximarmos a atuação de Emilie no romance à da imagem materna no desenvolvimento das cidades, ressaltando-as como sustentáculos das relações humanas, evidenciamos os processos através dos quais a personagem torna-se o elemento mais significativo ao paradigma estabelecido nos ambientes em que vive. Sua imagem personifica tempo e espaço e, com sua morte, as relações que se estabelecem através dela encaminham-se para um fim, o que é indicado através de descrições da casa:

Quando cruzei o portão de ferro da casa de Emilie, também estranhei a ausência dos sons confusos e estridentes de símios e pássaros, e o berreiro das ovelhas. A porta da entrada estava trancada e, através do muro vazado, vi o corredor deserto que terminava no patiozinho coberto pelas folhas ressecadas da parreira e uma parte do pátio dos fundos. A casa toda parecia dormir, e foi em vão que bati à porta e gritei várias vezes por Emilie. (HATOUM, 2004, p. 122)

Antes da menção direta a seu falecimento, a caracterização citada é um prenúncio do que será revelado. A vida que se agitava ao redor do ambiente familiar silencia-se sem a presença de Emilie, e mesmo a casa, em sua estrutura física inorgânica, adquire dimensões de organismo vivo na percepção da narradora e parece dormir. A certeza da morte da matriarca, por sua vez, traz à tona visões referentes ao fim de uma época, de silêncio e abandono:

A casa está fechada e deserta, o limo logo cobrirá a ardósia do pátio, um dia as trepadeiras vão tapar as venezianas, os gradis, as gelosias e todas as frestas por onde o olhar contemplou o percurso solar e percebeu a invasão da noite, precipitada e densa. (HATOUM, 2004, p. 155)

A partir dos trechos indicados, e considerando-se a informação, encontrada ainda em Mumford, de que os hieróglifos egípcios “casa” ou “cidade” podem surgir como símbolos de “mãe”, podemos pensar em que medida Emilie desempenha, mais do que a função de esteio afetivo, o papel de espaço propriamente dito. Considerando a força da imagem da matriarca em todos os episódios mais significativos da vida dos narradores e personagens, ao ponto de ser impossível desvencilhar-se de sua figura, impregnada no espaço da infância, é interessante tomarmos a seguinte sentença de Giulio Carlo Argan para compreendermos os processos através dos quais a personagem pode admitir a função de espaço:

E dizendo “de fato”, diz-se “imaginário”, porque a dimensão em que se projeta e se faz não é certamente o local em que ocasionalmente nos encontramos, mas a imagem mental que cada um faz do espaço da vida e que, dado o mesmo fundo de experiência, é a mesma, com exceção de pequenas diferenças específicas, para todos os indivíduos do mesmo grupo. (ARGAN, 2005, p. 44)

Não necessariamente formas e objetos, mas a imagem mental que cada um faz do espaço em que atua e atuou. No texto ficcional torna-se mais nítida a conceituação de Argan, afinal, conforme afirma Paulo Soethe em seu artigo “Espaço literário, percepção e perspectiva[1], é apenas através de recursos verbais que explicitem a percepção do entorno pelas personagens que se delineará o espaço no romance. Retomando Merleau-Ponty, o artigo ressalta as obras literárias como formas privilegiadas de refletir sobre a percepção e o sentido de percepção do espaço, afinal, com seu “caráter imaginário e mimético, elas se mostram capazes de evocar a ‘contribuição perpétua’ da corporeidade do sujeito sob formas plásticas e sensoriais, mais do que com argumentos e abstrações” (SOETHE, 2007, p. 222).

Há, no entanto, na imagem da matriarca, não apenas o potencial do espaço familiar, sua atuação pode se estender à de cidade. O trânsito intenso de personagens de diferentes origens e culturas evidenciam a posição de Emilie (e de sua residência) como centro para o qual convergem culturas diversificadas. O constante contato com o outro que se assiste na casa, ponto de encontro marcado pela permanência dos elementos que remetem ao oriente, fazem com que a narradora que abre o romance pense o ambiente familiar, e, por extensão, em Emilie, como uma cidade:

Antes de sair para encontrar Emilie, imaginei como estarias em Barcelona, entre a Sagrada Família e o Mediterrâneo, talvez sentado em algum banco da praça do Diamante, quem sabe se pensando em mim, na minha passagem pelo espaço da nossa infância: cidade imaginária, fundada numa manhã de 1954… (HATOUM, 2004, p. 12)

As características da matriarca, cuja força atrai para si personagens de diversificadas origens e culturas, somadas à sua origem libanesa e aos caminhos que percorreu antes de chegar a Manaus fazem com que, mais do que atuar como microcosmo de um ambiente urbano, o círculo que se forma ao redor de sua casa remeta com alguma especificidade à capital do Amazonas, onde o enredo se situa. O estado, afinal, conta com uma comunidade significativa de descendentes de imigrantes do Oriente Médio, da Europa e da África, proveniências a que nos remetem as origens dos personagens e, também, alguns elementos do espaço. Cabe, diante desta perspectiva, pensarmos que a representação da cidade em Relato de um certo Oriente não ocorre significativamente apenas à medida que o discurso se direciona a ambientes públicos. Afinal, como afirma o historiador e teórico da arte Giulio Carlo Argan:

Tanto quanto o espaço arquitetônico, com o qual de resto de identifica, o espaço urbano tem seus interiores. São espaço urbano o pórtico da basílica, o pátio e as galerias do palácio público, o interior da igreja. Também são espaço urbano os ambientes das casas particulares; e o retábulo sobre o altar da igreja, a decoração do quarto de dormir ou da sala de jantar, até o tipo de roupa e de adornos com que as pessoas andam, representam seu papel na dimensão cênica da cidade. (ARGAN, 2005, p. 43)

Ou seja, “por cidade não se deve entender apenas um traçado regular dentro de um espaço, uma distribuição ordenada de funções públicas e privadas, um conjunto de edifícios representativos e utilitários” (ARGAN, 2005, p. 43). Retomando reflexões do sociólogo Pierre Francastel, Argan pensa a cidade, o seu espaço figurativo, como instância majoritariamente constituída por aquilo que se sabe e de que se lembra, e não por aquilo que de imediato se vê (ARGAN, 2005, p. 43). Esse raciocínio vai ao encontro da citação abaixo, retirada de Relato de um certo Oriente. Vivenciar a cidade é mais do que mero exercício de observação, é embrenhar-se em suas estruturas e em seus discursos:

Uma cidade não é a mesma cidade se vista de longe, da água: não é sequer cidade: falta-lhe perspectiva, profundidade, traçado, esobretudo presença humana, o espaço vivo da cidade. Talvez seja um plano, uma rampa, ou vários planos e rampas que formam ângulos imprecisos com a superfície aquática. (HATOUM, 2004, p. 124)

Pontos de coesão da memória, dimensões em que figuram acontecimentos relevantes a todos os personagens que atuam no romance, Emilie, sua casa e a cidade em que estes se situam podem ser apontados como a mesma instância que exerce o papel de espaço na trama. Inicialmente ancorada no panorama apresentado por Lewis Mumford em A cidade na história, a leitura mostrou sustentar-se também de maneira independente a partir de elementos narrativos do Relato.

A significação dos elementos que compõem a casa, redutos da memória de Emilie, intensifica a relação que fará com que as descrições do ambiente íntimo constituam, ao mesmo tempo, personificações da matriarca. Neste processo, em torno do qual se desenvolve a trama, o espaço será empregado como elemento plenamente articulado à narrativa, acionado a fim de desvelar os sentidos desta sem possuir primazia sobre os outros fios que tecem a trama ficcional, característica corrente da obra de Milton Hatoum. Plural, admitindo imagens diversas ao permear o discurso de cada um dos narradores, Emilie, vinculada ao espaço, identifica-se com tudo que construíra e é imagem acionada com força a partir do momento em que, com sua morte e com a dissolução dos laços até então existentes, apenas a memória surge como meio de obter sentido e salvação diante do vazio que se instaura.

 

Referências

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

FREIRE, José Alonso Tôrres. Entre construções e ruínas: O espaço em romances de Dalcídio Jurandir e Milton Hatoum. São Paulo: Editora USP, 2008.

HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

 

[1] SOETHE, Paulo. “Espaço literário, percepção e perspectiva”. Aletria, Belo Horizonte, v. 15, jan.-jun. 2007 p. 222.