Intertextualidade como motivação para a leitura dos clássicos: de Percy Jackson e os Olimpianos para As Metamorfoses de Ovídio

Meiry Peruchi Mezari

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 15, 2011. ISSNe: 1806-2555.

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Sobre os autor(es):

meiry.peruchi@gmail.com
Universidade Federal de Santa Catarina

RESUMO: Neste trabalho, pretende-se fazer uma proposta de uso do Best Seller O Ladrão de Raios, primeiro de cinco volumes da série Percy Jackson e os Olimpianos, do escritor Rick Riordan, para a leitura de clássicos como As Metamorfoses, de Ovídio. Para tanto, partiu-se do conceito de intertextualidade.

PALAVRAS-CHAVE: literatura clássica, Best Seller, intertextualidade.

ABSTRACT: In this paper, we propose the use of the Best Seller The Lightening Thief, the first of five volumes of the series Percy Jackson and the Olympians, by Rick Riordan, to read classics like The Metamorphoses, by Ovidio. For this, we were based in the concept of intertextuality.

KEYWORDS: classical literature, Best Seller, intertextuality.

 

“As religiões da Grécia e da Roma antigas desapareceram. As chamadas divindades do Olimpo não têm mais um só homem que as cultue, entre os vivos. Já não pertencem à teologia, mas à literatura e ao bom gosto. Ainda persistem, e persistirão, pois estão demasiadamente vinculadas às mais notáveis produções da poesia e das belas artes, antigas e modernas, para caírem no esquecimento.” É a partir dessa afirmação de Bulfinch (2002, p.6) que o presente trabalho será desenvolvido. Partindo da intertextualidade, serão mostradas relações entre o clássico do poeta latino Publius Ovidius Naso – Ovídio –, As Metamorfoses, e o primeiro livro da série atual Percy Jackson e os Olimpianos – O Ladrão de Raios –, do americano Rick Riordan, cujo último dos cinco volumes ainda não foi traduzido para a língua portuguesa. O intuito é mostrar que, a partir dessa intertextualidade, é possível despertar leitores jovens – e, por que não, leitores não tão jovens assim –, que não têm contato com os clássicos, para a leitura desses livros, a partir dos Best Sellers.

O “Clássico”

Ovídio viveu na época de Augusto, surgindo no cenário literário romano entre 20 e 15 a.C. O poeta escreveu, entre polêmicas, obras como Amores e Heróides – de caráter erótico –, A Arte de Amar, Os remédios do amor e Produtos de beleza para o rosto da mulher. De acordo com Cardoso (1989), sua obra tomou um novo rumo com As Metamorfoses, que consistem num longo poema, “subdividido em quinze livros, nos quais encadeia cerca de duzentas e cinquenta lendas etiológicas que mostram a origem dos mais diversos seres (mares, astros, fontes, plantas, animais) como produtos de metamorfoses” (CARDOSO, 1989, p.81).

N’As Metamorfoses encontram-se referências a inúmeros personagens da mitologia grega e romana, desde deuses olimpianos a ninfas e muitos outros seres mitológicos. Cardoso (1989) atenta para a o talento descritivo de Ovídio, que é inegável. Há um ensaio no famoso livro de Italo Calvino, Por que ler os clássicos, dedicado a essa obra de Ovídio, chamado Ovídio e a contiguidade universal (2002 [1979]). Nesse ensaio, Calvino afirma que o mito é campo de tensão em que as forças dos homens, dos deuses e da natureza se defrontam e se equilibram (p.34), e que As Metamorfoses,

pretendem representar o conjunto do que é passível de ser narrado transmitido pela literatura com toda a força de imagens e de significados que ele comporta , sem decidir […] entre as chaves de leitura possíveis. Só reunindo no poema todos os contos e as intenções de conto que fluem em todas as direções, que se acumulam e pressionam para canalizar-se na extensão ordenada de seus hexâmetros, o autor das Metamorfoses terá a certeza de não corresponder a um desenho parcial mas à multiplicidade vivente, que não exclui nenhum deus conhecido ou desconhecido. (CALVINO, 2002 [1979], p.35)

Se, de alguma maneira, a opinião do leitor “comum” não permitisse considerar essa obra de Ovídio um “clássico”, as considerações de Calvino permitem. No ensaio que abre o livro Por que ler os clássicos, com o mesmo nome, o escritor e crítico, tentando definir o que é um “clássico”, afirma que “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”, da mesma maneira que “Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura” (CALVINO, 2002 [1981], p.11). Assim, não faz diferença usar ou não o prefixo. O fato é que “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes)” (CALVINO, 2002 [1981], p.11).

O Best Seller

A ideia de Best Seller remonta ao século XVIII. “Até então, os artistas viviam às expensas do mecenato.” (CORTINA; SILVA, 2008, p.5) Em muitas ocasiões, o termo ‘Best Seller’ tem uma conotação pejorativa, e isso pode ter relação com a “perda da aura” da obra de arte, que se atrofia com sua reprodutibilidade. (BENJAMIN, 1994, p.168) A reprodutibilidade técnica da obra foi um dos fatores que possibilitou o surgimento do romance, trazendo como consequência essa perda da aura que era vinculada à obra. Isso ocorre porque a reprodutibilidade retira o valor único de autenticidade do objeto, “sua capacidade de testemunho histórico” (KOTHE, 1978, p.13) e a distância que existia entre a obra e seu público. Ao perder a aura, a obra perde também seu valor de culto e, por esse motivo, fica mais próxima das massas. Infere-se, assim, que, dessa forma, a obra poderia ser mais facilmente experimentada.

Essa conotação pejorativa dos Best Sellers ocorre principalmente no âmbito acadêmico. O simples fato de um livro estar no topo das listas de mais vendidos ou mais prestigiados, muitas vezes, é motivo para que se diga que se trata de uma obra ruim. Cortina e Silva (2008), trazendo uma citação de Habermas (apud REIMÃO, 1996), afirmam que

o sucesso do best seller se deve: (i) à facilitação econômica, proporcionada pelo barateamento dos produtos culturais tornando-os acessíveis; (ii) à facilitação psicológica, cuja essência se baseia na simplificação de tais produtos a fim de torná-los mais palatáveis e de fácil assimilação pelo público leitor. Neste derradeiro item, pode haver um paradoxo. Ao mesmo tempo em que a aculturação concede positivamente aos mais humildes, e aos mais numerosos o acesso à cultura, a simplificação da cultura, ou seja, sua dessacralização, contém um aspecto negativo. Para o sucesso fácil há uma massificação do banal. O resultado é a alienação e a ignorância no que diz respeito à boa arte. (p.7)

Esse posicionamento parece ser adorniano, no sentido de que esse autor afirma que, para a indústria cultural, o homem foi “genericizado”: “Cada um é apenas aquilo que qualquer outro pode substituir: coisa fungível, um exemplar.” (ADORNO; HORKHEIMER, 2002 [1947], p.75) Neste trabalho, porém, deixou-se à parte esse tipo de discussão, por se tratar de uma tentativa de aproximação com o clássico a partir da leitura do Best Seller O Ladrão de Raios (RIORDAN, 2009 [2005]).

A série, escrita pelo norte-americano Rick Riordan, conta a história de Percy Jackson, um garoto de 12 anos que um dia descobre que os mitos que conhecia não são mitos, e que é um semideus – “meio-sangue” –, filho do deus Poseidon1. Na obra aparecem vários deuses famosos da mitologia greco-romana, menção a obras literárias como a Ilíada de Homero, “seres mitológicos” e conhecidas histórias que aparecem integralmente ou em menções n’As Metamorfoses. O sucesso da série pode ser confirmada com uma simples consulta a sites de ranking de livros mais vendidos, como o da revista Veja2. Entre os dez livros de ficção mais vendidos, estão os quatro já traduzidos para o português da série Percy Jackson e os Olimpianos: O Ladrão de Raios (vol.1) em décima posição, O Mar de Monstros (vol.2) em sexta posição, A Batalha do Labirinto (vol.3) em sétima posição e A Maldição do Titã (vol.4) em oitava posição.

A discussão acerca dos Best Sellers é longa, e aqui não é possível abordá-la dos diversos âmbitos. Pode-se, porém, justificar o trabalho e a leitura a partir desses livros através do que afirma Beth Brait (apud MURANO, 2009): “Se as crianças amam [os Best Sellers], podemos, com inteligência, levá-las a ler outras coisas também”.

Ler?

É comum ouvir-se dizer que as crianças e os jovens não leem, mas a popularidade de livros como a saga Crepúsculo – que tem vampiros como temática principal –, de Stephenie Meyer3, e Harry Potter – o bruxinho mais famoso da atualidade –, de J. K. Rowling, além os números de exemplares vendidos provam o contrário. Então, a questão não é a ausência de leitura, e, sim, que os jovens e as crianças não gostam, em geral, de ler os clássicos, a literatura canônica. Isso, porém, remonta outro problema: o ensino de literatura na escola.

A literatura pode ser ensinada? O famoso “dever da leitura” provoca a repulsa dos jovens estudantes. A infância é uma fase lúdica, de exploração de territórios, por isso não é se faz necessário que a criança extraia do texto todas as informações e os valores que ele possivelmente pode (ou não) trazer. Por outro lado, também, não se deve subestimar a potencialidade da criança (MACHADO, 2002).

Para Barthes, a literatura é assimilada à história da literatura, e essa é um “objeto essencialmente escolar, que precisamente só existe por seu ensino” (1988 [1969], p.53). Para o teórico francês, o estudo cronológico das “Escolas Literárias”, apenas ressaltando suas principais características, autores e obras mais representativos, os gêneros e séculos, podem ser chamados “monemas da língua metaliterária ou da língua da história da literatura” (p.54). A crítica no ensaio Reflexões a respeito de um manual é, em geral, ao fato de os livros didáticos – os manuais – serem quase que uma gramática da literatura.

Todorov (2009) também pensa no estudo/ensino da literatura, questionando qual é o objeto das/nas aulas de literatura, e conclui que o ensino da disciplina e o ensino das obras devem encontrar os lugares que lhes convém. “No ensino superior, é legítimo ensinar (também) as abordagens, os conceitos postos em prática e as técnicas.” Já a escola, “que não se dirige aos especialistas em literatura, mas a todos, não pode ter o mesmo alvo; o que se destina a todos é a literatura, não os estudos literários; é preciso então ensinar aquela e não estes últimos.” (p.41)

Partindo do conceito de intertextualidade, Barthes afirma que um texto pode fazer referência a diversos outros textos, estabelecendo uma conexão com o leitor a partir do relacionamento que ele faz com os outros textos que já leu. Para o francês, a leitura de um texto é “inteiramente tecida de citações, de referências, de ecos: linguagens culturais, antecedentes ou contemporâneas, que o atravessam de fora a fora numa vasta estereofonia. O intertextual em que é tomado todo texto, pois ele próprio é o entretexto de outro texto, não pode confundir-se com alguma origem do texto” (BARTHES, 1988 [1971], p.75). Assim, pensando-se no objetivo do presente trabalho, é importante ressaltar que serão apresentadas apenas algumas das muitas relações intertextuais existentes entre as duas obras e, também, que cada leitor perceberá relações diferentes na ocasião de sua leitura.

Entre textos

Pensando-se que “um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação” (BARTHES, 1988[1968], p.70), partimos para a ilustração objetiva de algumas das relações intertextuais possíveis entre o clássico As Metamorfoses, de Ovídio, e o primeiro livro da série Percy Jackson e os Olimpianos, de Rick Riordan – O Ladrão de Raios.

Argos, o personagem de muitos olhos, surge n’As Metamorfoses na história de Io, Argos e Siringe, ainda no livro I da obra de Ovídio: “Argos tinha a cabeça cingida de cem olhos; dois deles, de cada vez, sucessivamente descansavam, enquanto os outros se mantinham ativos.” (OVÍDIO, 1984, p.25).

Em O Ladrão de Raios, o personagem aparece também como uma espécie de “vigia”, com uma pitada de humor: “Um sujeito loiro e forte, como um surfista, estava no canto do quarto me vigiando. Tinha olhos azuis – pelo menos uma dúzia deles – nas bochechas, na testa, nas costas das mãos.” (RIORDAN, 2009 [2005], p.66). Mais à frente, na narrativa, o personagem reaparece:

Ao lado dele estava o surfista que eu tinha visto quando me recuperava no quarto de doente. De acordo com Grover, o cara era chefe de segurança do acampamento. Supostamente, tinha olhos espalhados pelo corpo inteiro para jamais ser pego de surpresa. Naquele dia, no entanto, usava uniforme de chofer, então só pude ver os olhos extras das mãos, do rosto e do pescoço.
– Esse é Argos, – disse Quíron. – Vai levar vocês de carro até a cidade e, ahn, bem, ficar de olho em tudo.” (p.158)

Dioniso, ou Baco, como é conhecido na literatura latina, aparece n’As Metamorfoses na história de Penteu e Acetes, no livro III, em meio a referências icônicas relacionadas ao seu nome – vinho, uvas, tigres…: “O menino, cheio de vinho e de sono, parecia cambalear e ter dificuldade de segui-lo. Examino seu trajo, seu semblante, seu aspecto; nada vi que parecesse pertencer a um mortal. […] O próprio Baco, coroado de ramos cheios de uvas, agita a lança enfeitada com pâmpano. Em torno dele, acham-se deitados tigres, falsas imagens de linces e de panteras de corpo sarapintado” (OVÍDIO, 1983, p.64-65)

Na obra de Riordan (2009 [2005]), Dioniso é um personagem muito importante: chefe do acampamento meio-sangue. Como Percy viveu até os 12 anos de idade ignorante de sua condição de “semideus”, não sabia quando estava na frente de uma divindade, como pode ser percebido no fragmento em que descobre quem é o sr. D.:

Ele acenou e uma taça apareceu sobre a mesa, como se a luz do sol tivesse momentaneamente se encurvado e transformado o ar em vidro. A taça se encheu de vinho tinto. Meu queixo caiu, mas Quíron mal ergueu os olhos.
– Senhor D. – advertiu –, as suas restrições. O sr. D olhou para o vinho e fingiu surpresa.
– Ora vejam. Ele olhou para o céu e gritou: – Velhos hábitos! Desculpe!
Mais trovões. O sr. D acenou outra vez e a taça se transformou em uma nova lata de Diet Coke. Ele suspirou, infeliz, abriu a lata e voltou ao seu jogo de cartas. Quíron piscou para mim.
– O sr. D irritou o pai dele tempos atrás, sentiu-se atraído por uma ninfa dos bosques que tinha sido declarada inacessível.
– Uma ninfa dos bosques – repeti, ainda olhando para a Diet Coke como se tivesse vindo do cosmos.
– Sim, confessou o sr. D. – O pai adora me castigar. (RIORDAN, 2009 [2005], p.77)

A narrativa continua:

O Sr. D parecia ter seis anos de idade, como uma criancinha fazendo pirraça.
– E… – gaguejei – o seu pai é…
– Di immortales, Quíron – disse o sr. D. – Pensei que você tinha ensinado o básico a este menino. Meu pai é Zeus, é claro.
Repassei os nomes começados com D da mitologia grega. Vinho. A pele de um trigre. […] – Você é Dioniso – disse eu. – O deus do vinho.
O sr. D revirou os olhos. – Como eles dizem hoje em dia, Grover? As crianças dizem, “fala sério”?
– S-sim, sr. D.
– Então fala sério, Percy Jackson. Achou o quê, que eu fosse Afrodite?
– Você é um deus.
– Sim, criança.
– Um deus, você. (p.78)

Íris, a mensageira do arco colorido, surge n’As Metamorfoses em dois livros: no livro I – na história d’O Dilúvio: “Íris, a mensageira de Juno, trajada de cores variegadas, ajunta e recolhe as águas que leva às nuvens”. (OVÍDIO, 1983, p.17); e também no livro XVI – na história de Rômulo e Hersília: “A rainha Juno ordena, então, a Íris descer, até junto de Hersília, pelo arco que é o seu caminho, e transmitir à viúva a seguinte mensagem […]. Íris obedece, e, descendo à Terra pelo arco colorido, transmite as palavras […]” (p.273).

Na saga de Percy, Íris é chamada para enviar uma mensagem ao acampamento meio-sangue durante a missão em busca de sua mãe. Para tanto, Percy e seus amigos usam um esguicho de água:

– Excelente – disse Grover. Poderíamos fazer isso com qualquer spray, é claro, mas a conexão não fica boa, e meus braços cansam de tanto bombear.
– Do que está falando?
Ele depositou as moedas e ajustou o botão para ESGUICHO FINO.
– M.I.
– Mensagem instantânea?
– Mensagem de Íris – corrigiu Annabeth. – A deusa do arco-íris transmite mensagens aos deuses. Se a gente souber como pedir, e ela não estiver atarefada demais, fará o mesmo para meio-sangues. […]
A luminosidade do fim de tarde se filtrou através da névoa e se decompôs em cores. […] Ela ergueu a moeda acima da cabeça.
– Ó deusa, aceite nossa oferenda. Jogou o dracma no arco-íris. Por um momento, nada aconteceu. E então eu estava olhando através da névoa […] Era como se estivéssemos na varanda da Casa Grande. (RIORDAN, 2009[2005], p.228-229)

Além de personagens em particular, também são citadas histórias inteiras d’As Metamorfoses no Best Seller. Uma delas é a história que aparece no livro IV, de Vênus e Marte, Leucotoé, Clítia: a história do adultério de Vênus (Afrodite) com Marte (Ares) e a vingança de Vulcano (Hefesto): o deus Sol foi o primeiro a ver o adultério de Vênus com Marte. Denunciou o fato a Vulcano, que, então,

lima finas correntes de bronze, uma rede e laços invisíveis. Os fios mais finos não sobrepujariam sua obra, nem a teia de aranha suspensa de uma trave do teto; torna-os sensíveis ao mais leve contato, ao menor movimento, e os dispõe habilmente em torno da cama. Quando se encontraram no mesmo leito a esposa e o adúltero, graças à arte de Vulcano são retidos por vínculos de um novo tipo; ambos se viram aprisionados no meio de seus amplexos. Vulcano, imediatamente, escancarou a porta de marfim e fez entrarem os deuses. Os dois continuaram deitados, ignominiosamente ligados. (OVÍDIO, 1983, p.72)

Embora, nas duas obras, os autores vacilem nos nomes e nas descrições das divindades, ora optando pelos nomes gregos, ora optando pelos nomes latinos, vemos claramente a história ser contada em O Ladrão de Raios:

– Se Ares traz a namorada aqui para um encontro – falei, olhando para o arame farpado –, não ia gostar de ver como é a aparência dela.
– Percy – advertiu Annabeth –, tenha mais respeito.
– Por quê? Pensei que você detestasse Ares.
– Ainda assim, ele é um deus. E a namorada dele é muito temperamental.
– Não queremos ofendê-la – acrescentou Grover.
¬– Quem é? Equidna?
– Não, Afrodite – disse Grover um pouco sonhador. – A deusa do amor.
– Pensei que ela fosse casada com alguém – disse eu. – Hefesto. (RIORDAN, 2009 [2005], p.238-239) […]
– Então Ares e Afrodite – falei, só para afastar os pensamentos da escuridão que aumentava – estão tendo um caso?
– É uma fofoca velha, Percy – disse Annabeth. – Uma fofoca de mais de três mil anos.
– E o marido de Afrodite?
– Bem, você sabe – disse ela. – Hefesto. O ferreiro. Ele ficou aleijado quando bebê, atirado de cima do Monte Olimpo por Zeus. Então não é exatamente lindo. Habilidoso com as mãos e tudo, mas Afrodite não curte inteligência e talento, entende? […]
– Hefesto sabe?
– Ah, com certeza – disse Annabeth. – Uma vez ele os pegou juntos. Quer dizer, pegou mesmo, em uma rede de ouro, e chamou todos os deuses para ver e rir da cara deles. Hefesto está sempre tentando constrangê-los. (RIORDAN, 2009[2005], p.240)

Outra história d’As Metamorfoses remetida no livro de Rick Riordan é a de Palas e Aracne. Aracne, uma tecelã, não admitia superioridade de outra pessoa no tear.

Via-se bem que fora instruída por Palas. Nega tal coisa, no entanto, e, ofendida à ideia de tal mestra, diz: “Que ela entre em uma competição comigo; vencida, não deixarei de reconhecer”. Palas disfarça-se em uma velha […] Depois, assim fala: “A velhice não acarreta apenas os percalços de que desejaríamos escapar. A experiência é fruto dos anos. Não desprezes meu conselho. Podes disputar entre os mortais a fama de ser a primeira nos trabalhos de lã; curva-te ante a deusa e pede-lhe, temerária, com voz contrita, perdão pelo que disseste; ela te perdoará, se suplicares (OVÍDIO, 1983, p.104).

Aracne replica: “Não tens juízo, a grande velhice te arrasou. […] Eu mesma sei o que me convém. Não penses que conseguiste algo com as tuas advertências; a minha intenção é a mesma. Por que a própria deusa não vem? Por que evita a competição?” Então, a deusa exclama: ““Veio!” Põe de lado o aspecto de velha, e surge como Palas.” (p.104)

Aracne “persiste em seu intento, e a vontade de alcançar um prêmio desarrazoado a arrasta à perdição. A filha de Júpiter não recusa o desafio, e não perde mais tempo com advertências, nem adia a competição. […]” (p.105)

“Palas ou a Inveja não podiam censurar o trabalho” de Aracne. Assim, Palas rasgou os panos e, “com, a lançadeira de madeira […], deu três ou quatro pancadas na testa de Aracne” (p.107), que enforcou-se. “Palas, apiedada, aliviou-lhe o peso e disse”:

Pode viver atrevida, mas pendurada. E, para que não acalentes esperanças no futuro, determino que o mesmo castigo seja aplicado contra tua estirpe e teus mais afastados descendentes. Depois disso, ao partir, espargiu o suco de uma planta infernal, e, mal Aracne foi tocada pelo filtro maldito, caíram-lhe os cabelo, o nariz e as orelhas; a cabeça tornou-se minúscula e o corpo se encolheu proporcionalmente; nas ilhargas se prendem dedos em lugar de pernas; o resto é ventre, de onde, no entanto, deixa escapar o fio, e, tornada aranha, continua a tecer, como antigamente. (p.107)

Na história de Percy Jackson, após se ver, com seus amigos, livre de uma invasão de aranhas, a filha de Palas Atena, Annabeth, conversa com o semideus:

Ei – disse Annabeth. – Sinto muito por ter me apavorado no parque aquático, Percy.
– Tudo bem.
– É só que… – Ela estremeceu. – Aranhas.
– Por causa da história de Aracne – adivinhei. – Ela foi transformada em aranha por desafiar sua mãe para uma competição de tecelagem, certo?
Annabeth assentiu.
– Os filhos de Aracne têm se vingado nos filhos de Atena desde então. Se houver uma aranha a um quilômetro de distância de mim, ela me encontrará. Eu odeio aquelas coisinhas rastejantes. […] (RIORDAN, 2009 [2005], p.255)

A górgona Medusa, que, de acordo com Bulfinch (2002, p.142), representou um papel destacado na mitologia, pode ser encontrada, também, nas duas obras. Na história de Perseu, Atlas, Andrômeda, do livro IV d’As Metamorfoses, podemos conferir:

Belíssima, ela [Medusa] despertara a esperança e o ciúme de muitos pretendentes, e nada tinha mais belo que os cabelos. Conheci um homem que contou tê-la visto. O senhor do pélago a violentou, dizem, no templo de Minerva. A filha de Júpiter afastou os olhos e cobriu com a égide o casto rosto. E, para que o fato não ficasse impune, transformou os cabelos de Górgona em horríveis serpentes. (OVÍDIO, 1983, p.81-85)

A górgona é um dos “monstros” que Percy enfrenta, a princípio sem saber de quem se tratava:

– Que pena ter de destruir um jovem rosto tão bonito – disse-me em tom confortador. – Fique comigo, Percy. Tudo o que tem a fazer é olhar para cima.
Combati o ímpeto de obedecer. Em vez disso, olhei para o lado e vi uma daquelas bolas de vidro que as pessoas pões nos jardins – uma esfera espelhada. Pude ver o reflexo de tia EME no vidro alaranjado; seu véu se fora, revelando o rosto como um círculo pálido tremeluzente. Os cabelos se mexiam, se contorcendo como sementes.
Tia EME. Tia “M”. Como pude ser tão estúpido? Pense, disse a mim mesmo. Como foi que a Medusa morreu no mito? Mas eu não conseguia pensar. Algo me dizia que a Medusa do mito estava dormindo quando foi atacada for meu xará, Perseu. (RIORDAN, 2009 [2005], p.187)

Medusa explica como virou um monstro: “A dos olhos cinzentos fez isso comigo, Percy – disse a Medusa, ela não soava como um monstro. Sua voz me convidava a olhar para cima […] – A mãe de Annabeth, a maldita Atena, transformou a bela mulher que eu era nisto aqui.” (p.188) Depois de saber disso e acabar com a górgona, Percy pergunta a Annabeth, que se irrita: “Então devemos agradecer a Atena por esse monstro?” A menina responde:

A seu pai, na verdade. Medusa era namorada de Poseidon. Eles combinaram um encontro no templo de minha mãe. Foi por isso que Atena a transformou em um monstro. […] É por isso que ela queria me picar em pedacinhos, mas ia conservar você como uma bela estátua. Ainda gosta de seu pai. Deve tê-la feito se lembrar dele.
Meu rosto estava ardendo. – Ah, então a culpa de termos encontrado a Medusa é minha? (p.188)

Seria possível mostrar muitas outras relações de intertextualidade entre As Metamorfoses e O Ladrão de Raios, bem como, por exemplo, entre o clássico e o segundo livro da série – O Mar de Monstros. Nesse, há situações muito claramente inspiradas nos clássicos, como a narrada por Macaréu – colega de Ulisses – na história de Macareu, Ulisses e Circe, do livro XVI d’As Metamorfoses – episódio em que eles encontram Circe e são transformados em porcos (porquinhos da índia, no caso de Percy).

No livro O Mar de Monstros, em busca do velocino de ouro, Percy e seus amigos enfrentam Polifemo – personagem que, na narrativa, faz uma clara alusão ao episódio em que foi enganado por Ulisses –, passam por Sila e Caríbdis e têm que resistir ao canto das sereias. Assim, percebe-se que o segundo livro da série estabelece um maior número de relações com A Odisséia, de Homero, outro clássico universal.

E então?

Conjugando lendas da mitologia greco-romana com aventuras e estilo de vida do século XXI, Rick Riordan consegue capturar o leitor jovem até o fim de cada história. Na internet pode-se perceber o fenômeno que é essa série4. O fascínio é tanto que há comunidades online5 onde os fãs se reúnem para criar suas “fanfics” – fan fictions. Eles escrevem como se estivessem no “universo” dos personagens, inclusive seguindo o estilo do autor dos livros, as gírias de Percy, a maneira de narrar os acontecimentos e os “dramas psicológicos” que se passam nos pensamentos dos personagens, algo que é muito surpreendente pois, em geral, tem-se a impressão de que os jovens não gostam de produzir textos.

Isso mostra que, quando têm interesse, os leitores se dedicam ao livro, leem, releem, criticam, escrevem… Por isso defende-se, aqui, que o O Ladrão de Raios, “apesar” de ser um Best Seller pode, sim, ser uma maneira de aproximação muito útil com os clássicos, pois, ao mesmo tempo que traz elementos da mitologia greco-romana, tão distantes, se aproxima dos leitores com elementos modernos. A entrada para o “mundo inferior” fica em Hollywood, a entrada para o Monte Olimpo fica no alto do edifício Empire States Building, o personagem tem dificuldades com leitura, problemas na escola… Isso permite a identificação, inclusive pelo fato de que a história é narrada em primeira pessoa, ou seja, é o próprio Percy que conta suas aventuras.

É claro que não se pode esperar que, apenas com a leitura desses livros, todos os leitores, inclusive os mais jovens, sozinhos, se interessem, pesquisem e leiam os clássicos, especialmente em se tratando de clássicos que têm uma linguagem rebuscada, realmente difícil, principalmente quando se apresentam em forma de verso. Calvino (2002[1981], p.13) afirma que, na escola, deve-se “fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois escolher os “seus” clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção”.

Assim, se não se partir para uma leitura direta do clássico – algo que é realmente difícil –, pode-se pensar em, pelo menos, (boas) adaptações. O importante é que o aluno saiba que essa literatura também existe, que antecede a literatura contemporânea não apenas cronologicamente, mas que, como afirma Calvino, deixa a atualidade como “rumor do lado de fora da janela”, e ao mesmo tempo é “aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível” (2002[1981], p.15). Essa literatura está no background da nossa cultura. Sendo um background, ao conhecê-la, cada sujeito fará suas associações, a partir do que já conhece, pois “todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, com formas mais ou menos reconhecíveis; […] todo texto é um tecido novo de citações passadas” (BARTHES, 2004, p.275-276). E, para uma última justificativa, mais uma vez, cita-se Calvino (2002[1981], p.16): “ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.”

 

Referências

BARTHES, Roland. A morte do autor. In: _____. O Rumor da Língua. São Paulo: Brasiliense, 1988 [1968].

_____. Da Leitura. In: _____. O Rumor da Língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Brasiliense, 1988 [1976]. p.43-52

_____. Da Obra ao Texto. In: _____. O Rumor da Língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Brasiliense, 1988 [1971]. p.71-78

_____. Reflexões a respeito de um manual. In: _____. O Rumor da Língua. São Paulo S/P: Brasiliense, 1988 [1969]. p.53-59

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1. Nesse primeiro livro da série, Percy, muda-se para o acampamento dos meio-sangue com seu amigo e protetor Grover, um sátiro, e conhece Annabeth, filha da deusa Atena. Há uma guerra iminente, pois o raio de Zeus fora roubado, e todos acham que foi Percy quem o roubara. Sua mãe é levada ao mundo inferior, pois Hades é um dos que acreditam que Percy seja o ladrão – seu elmo também fora roubado, mas ele não contara a ninguém. Com Annabeth e Grover, Percy vai atrás de sua mãe. No caminho, encontra Ares, que o mete numa enrascada. Ao chegar ao mundo inferior, eles quase são arrastados ao Tártaro, onde está Crono. Percy descobre que fora o deus da guerra, Ares, colocara o raio de Zeus em sua mochila e acaba voltando sem sua mãe. Ao voltar, luta com Ares. Vai ao Olimpo e conta a verdade. Quando retorna ao acampamento dos meio-sangue, descobre que seu amigo Luke o traíra, fora ele quem roubara o raio de Zeus, antes de Ares tomá-lo para mandá-lo, através de Percy, a Crono, que, das profundezas do Tártaro, intenta causar uma guerra. No meio disso tudo, Percy enfrenta o Minotauro, a Medusa, as Fúrias e o Rottweiler Cérbero, entre outras criaturas.

2. Ranking referente ao dia 25 de junho de 2010, disponível em: <http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos>. Acesso em: 30 jun. 2010.

3. Dois dos quatro livros da saga também apareceram, na data referida, no ranking dos livros de ficção mais vendidos.

4. Ver, por exemplo, os sites: <http://percyjacksonbr.com>, <http://anaklusmos.com>, <http://acampamentobr.forumbrasil.net/portal.htm>, assim como o fórum que segue a votação em <http://votorama.mtv.uol.com.br/15-series-literarias>.

5. Ver em: Percy Jackson – Fanfics. Disponível em: <http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=97305732 >. Acesso em: 28 jun. 2010.