“Purificação”: a epifania em Jane Tutikian

Tatiane de Lima Ribeiro

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 22, 2014. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Tatiane de Lima Ribeiro
Universidade de Caxias do Sul
Centro de Ciências Humanas
Caxias do Sul, Rio Grande do Sul
tlribeiro@ucs.br
http://lattes.cnpq.br/8479254263639664

RESUMO: “Purificação”, conto que está na obra Pessoas (1987), da autora sul-rio-grandense Jane Tutikian, expõe representações de sujeitos femininos num contexto contemporâneo. A personagem central narra os eventos, intercalando passado e presente, ora lembrando sua infância, ora vivendo o plano da realidade. A fragmentação de sua identidade, característica do sujeito pós-moderno, é latente, o que a leva a voltar ao passado para “buscar-se”. Esse reencontro de si ocorre por meio de um processo de epifania. A figura mítica da bruxa aparece, nesse contexto contemporâneo, subvertendo o mito bíblico da criação humana. Ao ganhar voz, a bruxa reconta o início da história da humanidade, dividindo os seres humanos em três grupos distintos e, não mais, em gêneros distintos. O presente trabalho se propõe a discutir o conto “Purificação”, observando o processo de epifania pelo qual a personagem feminina passa. Para a realização desse trabalho, foram referendados aportes teóricos baseados em Hall (2004); Moisés (2004); Sá (1979) e Sant’anna (1973).

PALAVRAS-CHAVE: Epifania; Sujeito feminino; Identidade.

ABSTRACT: “Purificação”, a tale from the book Pessoas (1987) by Jane Tutikian, a South Brazilian authoress, exposes representations of female subjects in a contemporary context. The main character narrates events going from past to present time, sometimes remembering her infancy, sometimes living in reality. The fragmentation of her identity, a characteristic of postmodern subjects, is latent, which takes her back to her past to “find herself”. This revival occurs through the process of epiphany. The mythical figure of a witch appears in this contemporary context upending the Biblical myth of human creation. By getting voice, the witch retells the beginning of human kind history, dividing the humans in three different groups and not in different gender. The current work proposal is to discuss the tale “Purificação” observing the process of epiphany which the character goes through. In order to do so, theoretical support was searched in Hall (2004); Moisés (2004); Sá (1979) and Sant’anna (1937).

KEYWORDS: Epiphany; Female subject; Identity.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

  “Purificação”, conto que está na obra Pessoas (1987), da autora porto-alegrense Jane Tutikian, tem como personagem central uma figura feminina. Essa figura que é, ao mesmo tempo, narradora e personagem, representa uma mulher inquieta diante do sentimento de incompletude de si mesma. Na busca de seu verdadeiro “eu”, a personagem passa por um momento de revelação, de epifania.

Jane Tutikian, escritora sul-rio-grandense, estreou na ficção com a coletânea de contos Batalha naval (1981), publicou, também, novelas infanto-juvenis, dentre elas A cor do azul (1984) que recebeu o prêmio Jabuti de Literatura e o Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, Geração traída (1990), Um time muito especial (1993), Alê, Marcelo, Ju e eu (2000), Aconteceu também comigo (2002); contos: Pessoas (1987), O sentido das estações (1999), A rua dos secretos amores (2002), Entre mulherescontos de amor aprendiz (2005), além dos ensaios Inquietos olhares (1999) e Velhas identidades novas (2006).  Em 2009, assumiu a cadeira número 35 da Academia Rio-Grandense de Letras e, em 2011, consagrou-se como a primeira mulher do século XXI a ser homenageada com o título de Patrona da Feira do Livro de Porto Alegre.

A personagem-narradora de “Purificação” encontra-se num momento crucial de sua vida. Já na primeira linha do conto, podemos observar a tomada de decisão da personagem, em “Definitivamente, chega!”[1]. Essa figura feminina, que não tem um nome em particular, encontra-se perturbada com o sentimento de incompletude de seu ser e decide reencontrar-se, retomando o passado através de outro sujeito feminino, dona Glória.

Apesar de não saber muito bem o porquê, a passagem “A senhora me desculpa, eu, afinal, nem sei bem porque vim” (p. 216), evidencia essa incerteza, a narradora vê-se diante da velha casa de dona Glória, a mulher que povoava a sua imaginação de criança e que representava, para ela, a figura da bruxa. Para a personagem central e para seus amigos de infância, a velha senhora suscitava sentimentos de medo e curiosidade.

Os anos passaram e a figura central do conto encontra-se, novamente, frente a frente com a misteriosa mulher. A idosa a recebe e, para a surpresa dela, mesmo depois de muito tempo, reconhece-a. A narradora entrelaça presente e passado, “realidade” e “memória” (CAMPELLO, 1998, p. 223) na busca por si, numa tentativa de encontrar-se, pois se sente incompleta como se o seu “eu” tivesse se perdido em algum lugar entre a infância e a idade adulta.

Dona Glória percebe a aflição da personagem e conta-lhe uma “estória” (p. 217). A bruxa retoma o mito bíblico da criação humana pondo a figura de Deus como um artista e a humanidade como seu objeto artístico. Através da fala da bruxa, a personagem central reencontra seu “eu” e retoma sua rotina, só que, dessa vez, a dúvida dá lugar à certeza e a sensação de incompletude já não é vista como algo ruim, pois expressa a constante busca de si e de sua própria identidade. Essa busca incessante se reflete nos acontecimentos e ações que não acontecem novamente da mesmíssima forma, pois há sempre a presença do novo, do desconhecido, que fazem de cada momento um momento único. Essa constatação é perceptível na passagem “cada ida era única, cada volta era única, não, nada se repete, é assim: nada do que se repete é exatamente como antes, pensei, é outra vez uma primeira vez. Agora: eu sou antes mais agora” (p. 217).

ELEMENTOS DA NARRATIVA EM “PURIFICAÇÃO”

O título do conto, “Purificação”, remete a um processo que, segundo Holanda (1997, p. 1419), é o “ato ou efeito de purificar-se” ou o “conjunto de ritos religiosos purificadores” que visam limpar as impurezas do ser. A personagem central da narrativa sente a necessidade de purgar questões ainda não resolvidas de seu passado, sem o que, não conseguiria levar sua vida adiante. Nesse processo recorre à figura da bruxa que representa a ligação com o tempo que passou, “de repente, aquela porta e a dona Glória eram o único elo com o meu eu de antes e o meu de antes era mais, muito mais do que planos, era mais do que sonhos, era um imenso acreditar” (p. 215).

Como a temática do conto “Purificação” gira em torno da busca incessante de si, o sentimento de perda de identidade é muito marcante e frustrante para a protagonista, o que a força a procurar, em seu passado, aspectos que possam sanar a crise pela qual passava. Bittencourt (2004, p. 3) mostra que essa temática é recorrente na obra da autora, uma vez que as personagens femininas procuram encontrar respostas para “suas dúvidas, suas inquietações sobre o ‘estar no mundo’ e sobre a construção da própria identidade”.

Em relação ao enredo, podemos perceber que a personagem central inicia o conto em um momento de crise de identidade em que parece impossível escolher um caminho, o que pode ser percebido em: “Me digo, esquecida de que há um momento, na vida, em que não se pode mais fazer escolha” (p. 214). Porém, ela, mesmo sem saber muito bem para quê, procura a figura que faz uma ponte com o seu passado, a bruxa, na ânsia de reencontrar-se: “é difícil explicar, eu acho que vim me buscar. – E eu, então, pensei que ninguém pode se buscar em lugar nenhum e que a criança da foto em preto e branco eu jamais voltaria a ser e senti todo o imenso pequeno da fantasia de ser grande”. (p. 216)

Com o auxílio da bruxa, a personagem central tem uma revelação que a faz perceber aspectos antes não percebidos por ela. Após esse breve momento de percepção de si, ela retoma sua rotina. Contudo, ao final de seu percurso, a personagem não é mais a mesma. Apesar de retornar para a vida que vivia, ela, agora, sente-se diferente. As outras pessoas não percebem a mudança, mas a protagonista tem consciência de que algo mudou, de que está diferente. A passagem final do conto explicita isso: “As pessoas me perguntam se saí para o almoço. Respondo que sim. Respondo que não. Dentro de mim, a certeza plena de que teria sido assim. Acreditar de novo” (p. 218). Sobre esse aspecto na obra de Tutikian, Bittencourt (2004, p. 4), afirma que “as personagens […] vivem instantes de perturbação, de dúvida e de perplexidade, após o que saem enriquecidas e, sobretudo, mais maduras para enfrentar os desafios da nova fase que têm pela frente”.

O espaço é elemento importante na narrativa, uma vez que expressa não só a ambientação onde as ações acontecem, mas representa, também, as questões psicológicas pelas quais passa a personagem. É possível perceber a relação do espaço com os sentimentos da figura central quando ela está no primeiro momento de crise: “Não quero ir a lugar nenhum. Quero, apenas, sair e quase corro pelo corredor estreito e frio, como se ele me levasse a uma liberdade” (p. 214).

A casa da bruxa, “Aquela casa velha” (p. 215), é ambiente crucial para o conto, é o lugar para onde a personagem vai para “se buscar”, para encontrar algo do passado que teimava em não se mostrar: “Uma casa escura, por onde o meu passado brincava de esconde-esconde. Um cheiro de defumação que me enjoava. Cadeiras velhas num corredor apertado. Poeira. Santos e velas. Santos” (p. 216). Quando a personagem fecha a porta, ao sair da casa da bruxa, é como se uma parte de sua vida -que estava trancada dentro dessa casa- fosse libertada para retornar a ela, encerrando um ciclo. O ciclo se fecha com o cerrar da porta.

Podemos perceber que há uma metáfora em relação ao ambiente casa e à personagem central e outra em relação à casa velha e dona Glória, como se a casa fosse uma representação do corpo de cada uma delas. No início do conto, a figura feminina constata que não tem escolha “Me digo, esquecida de que há um momento, na vida, em que não se pode mais fazer escolha. – Esta casa velha” (p. 214). Ao final do conto, após fechar a porta da casa da bruxa para retomar sua vida, ela repete a frase: “Esta casa velha” (p. 218). Quando a personagem encontra-se frente à casa de dona Glória, ela refere-se à casa como “Aquela casa velha. De repente estava lá. Parada em frente à porta, sem coragem da bater, de ficar, de ir embora” (p. 215). Ao final, depois de se reencontrar consigo, a personagem central volta a se referir à casa: “Fechei a porta e fiquei olhando aquele número gasto, a calçada estreita, aquela casa velha” (p. 218).

O tempo interno do conto é elemento importante, uma vez que passado e presente se fundem na narrativa. Campello (1998, p. 223), ressalta os dois planos da narrativa: o da realidade e o da memória. A personagem central precisa trazer o passado para o plano da realidade para tentar encontrar-se no presente. Sua relação com o tempo parece conturbada e as distâncias se intensificam através do tempo psicológico, o que pode ser percebido em “Foi há muito tempo, meu Deus!, como faz tempo de tudo na minha vida, como faz tempo do hoje!” (p. 215).

A fusão de passado e presente fica explícita em trechos como “ela não respondeu e só então pude perceber os dois tempos num tempo. É assim que tem sido: a cadeira de balanço: indo: vindo: indo: e” (p. 216). As passagens narradas através do fluxo de consciência da narradora permitem observar oscilação do tempo não linear do conto. Sobre isso, Campello (1998, p. 223) afirma que “nas digressões recorrentes onde a mulher se vê menina – parada no meio do pátio – e da menina, que fantasia sobre a mulher poderosa, que viria a ser, mas que não era”, formam os dois planos mais relevantes da narrativa.

O foco narrativo, como já foi explicitado anteriormente, é em primeira pessoa, e a narradora é a personagem central do conto. Essa voz narrativa conta-nos o seu percurso através da palavra e, por meio dela, faz-se ouvir. A narradora representa a mulher liberta que faz uso da palavra para expressar-se, não necessitando de intermediários para tal. O que fica evidente em trechos como:

limpo as gavetas, guardo os planos que levei anos fazendo e ainda não mostrei para ninguém, recolho todos os objetos que estão sobre a mesa e mentem que estou em casa. Minha mão pára sobre uma foto em preto e branco: um grupo de crianças, sentado em frente à Escola, sorri para mim. (p. 214)

A narradora-protagonista nos põe a par de seus sentimentos, ânsias e dúvidas e narra os acontecimentos de acordo com o seu ponto de vista. Esse viés subjetivo explicita a força da voz narrativa em narrar suas próprias vivências, o que aproxima ainda mais o leitor do texto, uma vez que pode se identificar com as questões expressas.

A linguagem utilizada possui frases inacabadas, incompletas que sugerem o sentimento de incompletude da narradora. Para Bittencourt (2004, p. 5), o uso da adversativa “mas” no final da frase, recurso que se repete várias vezes ao longo do conto, “cria um efeito de suspensão, ou de impossibilidade de conclusão”. Exemplo desse uso está em “Me fez entrar e eu não sabia se ela sabia quem eu era. Pensei o mesmo medo, mas. Entrei” (p. 216).

Ainda, para Bittencourt (2004, p. 5), a linguagem utilizada por Tutikian apesar de ser “repleta de lirismo”, é

essencialmente sintética mesmo quando expressa estados interiores e sensações; o uso de recursos gráficos, comuns nos textos poéticos, intensificam o significado das palavras e permitem materializar, visivelmente, o que elas estão dizendo. Efeito semelhante é obtido com a visualização gráfica das pausas da história, dos momentos vazios em que nada acontece, ou em que as personagens optam propositalmente em se manter caladas ou ausentes, através de trechos em branco ocupando o lugar das palavras.

O recurso gráfico da pausa é constante no conto “Purificação”, podemos observar seu uso, por exemplo, em:

paro
no meio do pátio,
não tenho nada a ver com isto, não quero ter nada a ver com isso! (p. 214)

Campello (1998, p. 223), chama atenção para a importância das pausas na construção do conto “Purificação”:

esse conto vem organizado em blocos, delimitados no texto por espaços em branco, marcas do deslocamento geográfico da narradora, que encontram correspondentes ao seu movimento em flashback, no tempo. Essa estrutura põe em relevo os dois planos da diegese: o da realidade e o da memória.

Além da metáfora, outra figura de linguagem permeia o texto: a antítese. Por meio de dualidades, os estados psicológicos e sentimentos da personagem central são revelados. Sobre esse aspecto do uso de oposições e ideias contrárias, os trechos a seguir são elucidativos: “senti todo o imenso pequeno da fantasia de ser grande” (p. 216) e “tão frágil, tão pequena e tão forte” (p. 216).

AS FIGURAS FEMININAS EM “PURIFICAÇÃO”

Os sujeitos femininos do conto- a personagem central e dona Glória- são as protagonistas da narrativa. A narradora conta-nos sua trajetória e compartilha sua inquietação diante da própria identidade. Sobre o processo de crise identitária pela qual a personagem passa, podemos lembrar o que Hall (2004, p.7) afirma:

as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.

Quanto à questão da crise de identidade feminina representada na literatura, Gotlib (2006, p. 54) pondera que podemos entendê-la como “uma experiência de índole moderna, que representa um estado de crise e que, entre tantos outros possíveis sentidos, pode significar o da situação da mulher”. A narradora é uma representação da mulher atual que vive um momento de questionamento de si e de sua situação no mundo, o que pode gerar inquietação, frustração.

A frustração é tanta que a personagem central toma a decisão de retomar o passado a fim de reencontrar aspectos de sua identidade que ela julga perdidos em algum lugar de sua infância. O que pode ser percebido em “[…] não era não, naquela hora, uma bruxa má, era uma bruxa triste e porque bruxa não tem que ser triste, tem que ser bruxa, abanei sofrendo perdas de que não tinha ainda consciência, perguntas que ainda não podia fazer” (p. 215). Contudo, a personagem, até o momento, não havia percebido que sua identidade não precisava ser estanque e que poderia ser multifacetada, daí vinha sua frustração e o sentimento de incompletude ou perda de sua essência.

A narradora, agora adulta, volta para o lugar significativo de seu passado; porém, dessa vez, observa tudo por meio de um prisma mais maduro e experiente, o que lhe permite entender acontecimentos que antes lhe eram obscuros. Segundo, Bittencourt (2004, p. 5), as figuras femininas de Tutikian

procuram recuperar um passado, através de fragmentos da memória, na tentativa de dar sentido ou justificar determinadas experiências infantis marcantes, avaliando, com um olhar já distanciado no tempo, as repercussões que viriam posteriormente em termos de sentimentos ou vivências […].

A personagem sente-se só e deslocada, figuras do passado perderam-se em meio à confusão do dia a dia e o único elo com aquele tempo é dona Glória.

Sentados, no cordão da calçada, encostávamos uns nos outros nossa coragem. Até que.
Não havia mais em quem encostar, todos tinham ido embora, chegaram os edifícios e eu perdi todos, havia outra gente que nem sabia o que eu sabia do perigo de dona Glória. (p. 215)

Em meio ao sentimento de solidão e perda, dona Glória, a bruxa, e sua velha casa em meio a edifícios, são como vestígios esquecidos de um passado que a narradora pretende recuperar.

O medo que a sensação de insignificância diante da grandeza do universo causa na protagonista, acompanha-a desde criança, e ela relembra essa angústia ao sentir-se, novamente, perdida e só:

Foi assim, uma vez, no meio do pátio, a menina olhando para o céu: uma sensação de imensidão
intocável,
uma falta de ar pela possibilidade de infinito e um medo, um medo absurdo de ser tão pouco. É assim: tão só girando em torno da gente mesmo e de todas as coisas em que se teima, por pura birra da vida, se teima em acreditar. (p. 216)

Quando criança, a personagem central acreditava que poderia realizar grandes projetos ao chegar à idade adulta, todavia, agora o sentimento é de perda e de descrença em si mesma e em sua identidade como mulher. O trecho “menina achava que, mulher, faria, modificaria, criaria e porque é tão difícil e tudo depende tanto de tudo e não sei onde começa a corrente ou pelo menos qual dos elos sou eu” (p. 216), evidencia essa descrença. A personagem não tem mais a sensação de que possui o poder de criação e mudança e, acha que não conseguiu atingir as expectativas que tinha sobre si mesma quando criança.

Por meio da palavra, a narradora-personagem tenta exteriorizar seus anseios, mas não encontra respostas satisfatórias. Então, resolve recorrer à personagem mítica, mágica, do conto que detém o poder de “fazer e desfazer vidas”. A narradora, então, procura a bruxa e questiona-a: “a senhora sabe o viver? – Sabia que esta pergunta não tinha resposta, sabia que não havia fórmula que me pudesse ser dada, tentara antes com outras pessoas, mas precisava perguntar, ainda que fosse só mais uma vez” (p. 216). Assim, ela busca as respostas para seus questionamentos em outra figura feminina, mas não uma figura qualquer, uma figura que representa todo o mito da mulher que domina a magia e por isso é perseguida ou temida.

Dona Glória, essa outra figura feminina de destaque no conto, é a personagem representativa do mito da bruxa. Ela é descrita com dualidades, como podemos perceber em passagens como: “Bati de novo e bateria infinitamente se preciso quando, de trás do som de uns passos arrastados, ela surgiu. Meu medo dava lugar à emoção, ela estava ali, eu vi, e tão frágil, tão pequena e tão forte!” (p. 216).

A bruxa, ao perceber a aflição da protagonista, retoma outro mito, desta vez o mito bíblico da criação, mas narra a história de seu ponto de vista. Pelas palavras dela, Deus torna-se um artista que “modela” a humanidade, utilizando, para tanto, o barro. Segundo os textos bíblicos: “Então o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis, capítulo 2, versículo 7); “Com a costela que havia tirado do homem, o SENHOR Deus fez uma mulher e a levou até ele” (Gênesis, capítulo 2, versículo 22) e, após nomear os animais da criação, o homem nomeia a mulher: “Disse então o homem: Esta, sim, é o osso dos meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada” (Gênesis, capítulo 2, versículo 23).

A bruxa subverte a narrativa bíblica ao dizer “Deixa que eu te conte uma estória” (p. 217), e, sob seu prisma, o ser humano, como um todo e não separado por gênero, advém de um artista perigoso, “o perigo do artista é a ausência de limites” (p. 217). A humanidade, nas palavras de Glória, foi dividida em três grandes grupos: os primeiros sentem-se prontos, acabados, o que Hall (2004, p. 10) chamou de “sujeito do Iluminismo” que “estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação”; o segundo grupo de pessoas “não secariam jamais, enraizaram” (p. 217), ou seja, acomodavam-se diante das situações e “viveriam as amarras do desânimo da infelicidade” (p. 217). Já o terceiro grupo era formado por pessoas que teriam uma parte “eternamente úmida” (p. 217), inacabada. Na visão de Hall (2004, p. 10), poderíamos considerar esse último grupo como uma representação do “sujeito pós-moderno” que se caracteriza pela fragmentação e por ser “composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas” e é “conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente” (HALL, 2004, p. 12). As características desses sujeitos inquietos, questionadores, híbridos são expostas pela bruxa:

elas se reconheceriam à distância e lutariam em qualquer paraíso ou purgatório ou inferno da saliência de uma pedra pelo que para as outras, acabadas ou inacabadas, era só utopia, ainda que à distância, o que, por si só, seria um gesto de felicidade que só elas conheceriam, de tão grandioso e silencioso. (p. 217)

A partir da “estória” contada pela bruxa, a personagem central tem a percepção de que se enquadra no último grupo da criação, caracterizado pelo sentimento constante de inquietação.

A EPIFANIA EM “PURIFICAÇÃO”

Por meio da epifania, a personagem central consegue purificar-se e atinge um patamar de emancipação e de aceitação de sua identidade feminina fragmentada. De acordo com Moisés (2004, p. 156), epifania, do grego epipháneia, pode ser entendida como “manifestação, revelação” ou do latim epiphania: “aparição”. Para Sant’Anna (1973, p. 187), a epifania

pode ser compreendida num sentido místico-religioso e num sentido literário. No sentido místico-religioso, a epifania é o aparecimento de uma divindade e uma manifestação espiritual […]. Aplicado à literatura o termo significa o relato de uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas que acaba por mostrar toda a força de uma inusitada revelação. É a percepção de uma realidade atordoante quando os objetos mais simples, os gestos mais banais e as situações mais cotidianas comportam iluminação súbita na consciência dos figurantes […].

Moisés (2004, p. 156) afirma, ainda, que o autor James Joyce é o responsável por trazer o conceito de epifania para a literatura com o sentido de “iluminação”, “revelação”.

Para Sá (1979, p. 106), a epifania “é expressão de um momento excepcional, em que se rasga para alguém a casca do cotidiano, que é a rotina, mecanismo e vazio”. A personagem central de “Purificação” chega a um ponto em que não pode mais seguir com sua rotina por sentir-se vazia e incompleta. A epifania acontece para purificar e desautomatizar seu dia a dia, revelando facetas antes desconhecidas pela personagem. Ainda na voz de Sá (1979, p. 106), “a casca desses atos rotineiros está sempre por um fio e seu rompimento se dá num momento epifânico.” Contudo, a autora afirma que esse “momento privilegiado”, não necessariamente, tem a obrigação de ser “excepcional” ou “chocante”, mas que deve ser “revelador, definitivo, determinante”.

Gotlib (2006, p. 51), parafraseando Joyce, afirma que a “epifania é ‘uma manifestação espiritual súbita’, em que um objeto se desvenda ao sujeito”. No caso de “Purificação”, o que emerge, através da epifania, é o próprio sujeito feminino.  A autora fala ainda sobre a temática epifânica em narrativas “cujo núcleo é justamente esta percepção reveladora de uma dada realidade”, no conto em análise, como dito anteriormente, a temática de procura do “eu” e de sua identidade, passa pelo prisma da epifania, da revelação, da desnudação da realidade.

De acordo com Bittencourt (2004, p. 5), os momentos epifânicos são experiências “de revelação, capazes de colorir com matizes diferenciados uma realidade até então nebulosa, obscura ou incompreensível”; essas experiências são constantes na obra de Tutikian. No conto “Purificação”, o “momento privilegiado” se passa na casa de dona Glória, após esta retomar o mito da criação humana para representar a situação da protagonista:

respirei fundo, meu nariz ardia e meus olhos choravam, agradecida, embora não quisesse lhe dar o direito de mudar minha estória assim, respirei fumaça, poeira, mistério e ela de olhos fechados e eu vendo, na cadeira de balanço, mais depressa, mais depressa, cada ida era única, cada volta era única, não, nada se repete, é assim: nada do que se repete é exatamente como antes, pensei, é outra vez uma primeira vez. Agora: eu sou antes mais agora. (p. 217)

Entre as questões existenciais “a senhora sabe o viver?” (p. 216) e “meu eu de antes […] era um imenso acreditar” (p. 215), interpõe-se o momento de revelação, de epifania em que a bruxa finaliza sua fala advertindo: “Sobre viver, para uns, é sempre acreditar de novo” (p. 217). Ao final da narrativa as questões são retomadas e, a personagem agora, sente-se purificada, “dentro de mim, a certeza plena de que teria sido assim. Acreditar de novo” (p. 218).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em “Purificação”, a voz narrativa representa o sujeito feminino moderno em meio a uma crise identitária e existencial. Os processos de crise de identidade e de busca de si, contudo, não ocorrem somente com os sujeitos femininos, uma vez que esses processos são inerentes ao ser humano. Dessa forma, a voz narrativa é uma representação não só da condição feminina, mas também da condição humana.

A opção da personagem central, voltar para o passado e buscar no distanciamento de tempo e espaço as explicações para questões ainda não purgadas, levam-na a procurar outra figura feminina, mítica e, também, mística, a bruxa que se torna o elo do passado e do presente.

A inquietação com as questões explicitadas acima e com a passagem do tempo pode ser percebida em “Quero pegar o tempo andando. Não quero sentir tanto, quero viver tanto e não sei por que diabos preciso sentir tudo para sentir que estou viva! – É tarde – olho o relógio” (p. 216). Porém, após a intervenção da bruxa e do processo que leva a personagem central a passar por um momento de epifania, os questionamentos encontram não uma resposta, mas uma explicação. O ser humano recriado pela palavra da bruxa, não precisa estar pronto, “seco”, sua essência é a constante mudança, a inquietação diante de si e de tudo, o que o faz permanecer eternamente em estado “úmido”.

Para Campello (1998, p. 224), “quando abre a porta, para sair, a narradora ouve as últimas palavras de dona Glória. No último bloco do texto, fecha a porta da memória e retorna ao plano da realidade, já modificada, purificada, isto é, cônscia de sua identidade como mulher […].”

A narradora, então, compreende que sua identidade mutável, flexível e incompleta não é condenável e atinge um nível de emancipação que permite a retomada de sua vida.

REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: nova versão internacional. Trad. comissão de tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BITTENCOURT, Gilda Neves da Silva. A escritura feminina no conto sul-rio-grandense. Organon: Estudos de literatura e de cultura: tendências contemporâneas. v. 18, n. 37, 2004. Disponível em: <http://seer.ufrgs.br/organon/article/view/31177>. Acesso em: 23 de abr. de 2014.

CAMPELLO, Eliane. Re/conhecendo heranças, em “Purificação”, de Jane Tutikian. In.: SANTOS, Volnyr; Santos, Walmor (Orgs.). Antologia crítica do conto gaúcho. Porto Alegre: Sagra Luzzatto/WS Editor, 1998.

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do conto. 11. ed. São Paulo: Ática, 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad.: Tomaz Tadeu da Silva; Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2004.

HOLANDA, Aurélio Buarque de Ferreira. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. São Paulo: Nova Fronteira, 1997.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.

SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes; Lorena: Faculdades Integradas Teresa D’Avila, 1979.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Análise estrutural de romances brasileiros. Petrópolis: Vozes, 1973.

TUTIKIAN, Jane. Purificação. In.: SANTOS, Volnyr; Santos, Walmor (Orgs.). Antologia crítica do conto gaúcho. Porto Alegre: Sagra Luzzatto/WS Editor, 1998.

 

[1] TUTIKIAN, Jane. Purificação. In.: SANTOS, Volnyr; Santos, Walmor (Orgs.). Antologia crítica do conto gaúcho. Porto Alegre: Sagra Luzzatto/WS Editor, 1998, p. 214. Todas as citações são retiradas dessa edição e aparecem indicadas entre parênteses pelo número da página.