À margem da margem

Ornella Erdós Dapuzzo

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 25, 2016. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Ornella Erdós Dapuzzo
ndapuzzo@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/32536005200599
Universidade Federal do Rio Grande
Instituto de Letras e Artes
Rio Grande – RS, Brasil

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo levantar uma problematização acerca das maneiras como as personagens femininas são apresentadas na obra Capão Pecado (Ferréz). Uma vez configurada naquilo que entendemos por Literatura Marginal de Periferia, busca-se compreender como e porquê as mulheres se mantém e são postas à margem da própria margem nesta produção.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Marginal de Periferia. Marginalização. Mulher.

ABSTRACT: This paper aims to present a brief reflection about the ways in which female characters are presented in CapãoPecado, written by Ferréz. Once settled in what we assume as Literatura Marginal de Periferia (Literature from Slums), the paper seeks to reach an understanding about the reason the author led women remain aside in terms of social hierarchical organization.

KEY-WORDS: Literatura Marginal de Periferia. Marginalisation. Woman.

 

Apropriando-se da sua dor, o poder fundamenta sobre ela a sua própria autoridade: e deixa literalmente incompleto o prazer dos homens.
(Giorgio Agamben)

A Literatura Marginal,[1] mais especificamente os escritos de autores advindos das pequenas e grandes periferias brasileiras, procura reforçar e defender a expressão cultural periférica – e a identidade daquelas pessoas que são moradoras de tais espaços – além de retomar os espaços, de forma ativa, como sujeitos da realidade (e ficção) e não apenas objetos referenciados por autores e intelectuais do centro. Não só a Literatura, mas todo o tipo de expressão artística (cultura hip hop e samba, por exemplo) possui uma carga significativa bastante combativa no que concerne à desigualdade social, o silenciamento do povo, o processo de estigmatização e subalternização da cultura e identidade periférica, enfim, a busca por equidade e cobrança de uma dívida social histórica.

Considerando tal caráter combativo, é possível apontar a obra Capão Pecado (2000), de autoria de Ferréz, como uma ferramenta de estudo e reflexão sobre as realidades emanadas fora dos centros. Através de uma construção literária híbrida – ora com personagens ficcionais, ora explorando as vozes de sujeitos não fictícios – que dá espaço para a prosa mesclada de relatos de sujeitos da periferia e artistas consagrados na cultura hip hop, deparamo-nos com a história de um morador do Capão Redondo – Zona Sul de São Paulo – e sua rotina diante das dificuldades presentes na favela e em sua vida privada. São lançadas reflexões sobre família, relacionamento, trabalho e salário, distribuição de drogas, intrigas, etc., que culminarãono limite oferecido a tal personagem: encarceramento e morte. Rael, protagonista da narrativa, é o elemento central da reflexão sobre a tentativa de inclusão social e a impossibilidade de concretização de tal inserção diante dos obstáculos do Estado e suas armadilhas institucionais. Em Capão Pecado, Ferréz se utiliza de uma narrativa de “lições”, apontando para o/a interlocutor/a o binarismo “certo x errado” cujo objetivo é traçar normas e condutas que viriam/virão a auxiliar os/as moradores/as da periferia a conquistar um espaço mais digno socialmente, como bem aponta Patrocínio:

Tais sujeitos (os personagens) são expostos no texto segundo um rígido maniqueísmo, no qual não faltam críticas pontuais acerca das posturas concebidas como errôneas – como o consumo de drogas, a prática de assaltos, o alcoolismo e a alienação política – e, na mesma lógica, os personagens que trilham caminhos que são facilmente lidos como exemplares são emoldurados a partir de um tom exultante de suas ações – a assiduidade ao trabalho, o envolvimento em ações de cunho sociocomunitário e a presença na rotina escolar. (PATROCÍNIO, 2013, p. 158)

Diante das temáticas abordadas no presente romance, fica claro que o espaço cedido aos/às personagens da narrativa faz da Literatura Marginal contemporânea uma ferramenta coerente para se abordar as realidades vividas por uma parcela de sujeitos marginalizados em nossa sociedade. Ademais, as vozes que são evocadas podem ser entendidas como representações daquelas que foram e são silenciadas diariamente na vida não ficcional, o que estabelece uma narrativa de propriedade, de conhecimento e reconhecimento de fala.

O que se pretende, a partir dessa reflexão, é problematizar e levantar a questão do modo como as personagens mulheres são retratadas dentro da obra (submissas, promíscuas, silenciadas, à margem). Uma vez que há a disposição para rejeitar parte das opressões sofridas por uma parcela social, buscamos questionaro porquêde ainda haver a conivência com a hierarquia de gênero que mantém a mulher à sombra do homem e que legitima uma construção social vertical, onde sempre haverá uma identidade opressora e outra oprimida, que neste caso, faz da mulher duplamente excluída, como argumentado por Tennina:

[…] elas não apenas sofrem a exclusão de classe mas também de gênero; e esse sofrimento é provocado tanto pelos grupos hegemônicos como pelos mesmos homens periféricos. Seriam algo subalternas dos subalternos e dominadas dos dominados, ou seja, duas vezes subalternas e dominadas. É a partir desta dupla exclusão que as mulheres escritoras da LMP (literatura marginal periférica) articulam seus discursos. (TENNINA, 2015, p. 57)

Vale salientar que o viés do presente artigo é apresentar e problematizar uma questão, e não deslegitimar os aspectos eficientes que a obra Capão Pecado oferece aos/às seus/suas leitores/as. É uma tentativa de compreender de que modo é possível – se for possível – romper e denunciar um sistema social ao passo que se oprime parte da classe popular: as mulheres; as mulheres da periferia.

A tríplice identidade da mulher em Capão Pecado: maternidade, submissão e promiscuidade

Recuso-me a permitir que você, por mais bedel que seja, me mande sair do gramado. Tranque suas bibliotecas, se quiser, mas não há portão, nem fechadura, nem trinco que você consiga colocar na liberdade de minha mente.
(Virgínia Woolf)

Pensar identidade requer uma compreensão dos fatores que exercem forças externas a nós. Nossas identidades não são singulares e, ademais, não são estáticas. Nosso entendimento de nós mesmas não se dá através de uma construção pessoal e privada, pois estamos diretamente ligadas à imagem pública feita de nós e, a partir disto, respondemos através de nossos corpos e acúmulos experienciais. De acordo com Bauman:

A ideia de “identidade” nasceu da crise do pertencimento e do esforço que esta desencadeou no sentido de transpor a brecha entre o “deve” e o “é” e erguer a realidade ao nível dos padrões estabelecidos pela ideia – recriar a realidade à semelhança da ideia. (BAUMAN, 2005, p. 26)

Frente a essa noção, é possível que reflitamos de que maneira as mulheres são apresentadas, tanto na ficção quanto na vida real. Qual a distância entre o que somos subjetivamente e o que se constrói como um dever e uma regra a ser seguida?

O que nos separa do entendimento do que somos e de como devemos ser é uma construção singular do entendimento de “mulher”. Somos categorizadas em pequenos nichos que visam nos diferenciar a partir de subsídios rasos, que pouco acrescentam em nosso desenvolvimento social e individual, resultando em apontamentos e estereótipos lançados publicamente que tendem a menosprezar a pluralidade da classe mulher, como bem aponta Perrot:

Em suma, a observação das mulheres de outrora obedece critérios de ordem e de papel. Ela concerne os discursos mais do que as práticas. Interessa-se pouco pelas mulheres singulares, desprovidas de existência e mais à “mulher”, entidade coletiva e abstrata à qual atribuem-se caracteres de convenção. (PERROT, 2005, p.23)

Capão Pecado pode ser um eficiente objeto de estudo no que concerne à qualificação das mulheres naquilo que chamo “a tríplice identidade feminina”: a mãe, a submissa e a promíscua. É importante compreender ainda, que uma característica não excluirá, necessariamente, a outra. O caráter materno não apagará a possível imagem submissa da mulher, ao passo que o sujeito promíscuo pode ter a maternidade em sua vida. Em outras palavras, independentemente de qual recorte for feito às mulheres da obra, todas estarão configuradas em uma posição à sombra das personagens masculinas.

Em se tratando da presente obra, haverá a divisão das características de acordo com três personagens distintas: Dona Maria, Paula e Fátima.

A maternidade é uma característica atemporal projetada às mulheres. Tanto na vida pública quanto na vida privada,é estimulada anecessidade ou obrigação de gerar uma vida. A mulher é tida como um dos objetos funcionais da continuidade da família nuclear, mesmo que após o parto ela perca, objetivamente e/ou simbolicamente essa força representativa. O estado maternal é um tema de profundas reflexões presente em diversos textos literários universais. A mulher é posta ora como apenas uma “nutriz do germe semeado” (ÉSQUILO), ora como a verdadeira geradora do nascituro – ainda que essa concepção venha, muitas vezes, carregada de ideologias religiosas.

Dona Maria, mãe do protagonista de “Capão Pecado” – Rael –é apresentada ao longo da narrativa de maneira bastante próxima à concepção materna cristã. Em outras palavras, a personagem vive sacrificando-se em prol da família a fim de manter certa estabilidade e organização familiar. Tal atitude demonstra o sacramento da identidade materna além de umaultraromantização da figura da mulher mãe: amorosa, dedicada, preocupada, etc. Estamos diante de uma personagem que cumpre com os ideais maternos focados não só no cuidado para com o filho e marido, mas também, e principalmente, norteados a partir da ideia de sacrifício pessoal para contemplar o conforto do outro:

Um novo dia começara e Rael não conseguiu levantar quando percebeu que estava com duas cobertas, incluindo aquela que ele havia dado à sua mãe na noite anterior. Ele não conseguiu levantar imediatamente, pois teve novamente vontade de chorar. Virou de bruços e chorou como uma criança. Mais uma prova de amor de sua mãe, mais uma vez ela levantara de madrugada, o embrulhara com seu cobertor e ficara dormindo no frio. (FERRÉZ, 2000, p.101)

O sacramento da maternidade é o principal aspecto a ser levantado com relação a esta personagem. Dona Maria, além de trabalhadora doméstica, cultiva todas as ações e adjetivações lançadas às mães, desde o cuidado familiar, até o sacrifício físico e emocional. A “mulher-mãe” é tida como um receptáculo dos problemas familiares, bem como um objeto de acúmulos de responsabilidades diárias, levando-a a um cansaço que extrapola o corpo e finda no emocional.

Meia hora depois voltou a despertar assustado (Rael), dessa vez escutava gemidos, correu para a cozinha e não avistou ninguém, correu para o quartinho de sua mãe e não gostou do que viu: dona Maria estava no chão com as mãos postas sobre o estômago. Ele já sabia o que era e pediu para ela aguardar um pouco; foi para a cozinha e rapidamente preparou um chá. Colocou suavemente em sua boca e a pôs cuidadosamente na cama. Dona Maria aquietou-se, mas ele sabia que a dor ainda não tinha acabado. (FERRÉZ, 2000, p.95)

Portanto, é de possível reflexão que compreendamos a maternidade – a maternidade compulsória, melhor delineando – como sendo um mecanismo de controle do patriarcado para que haja a garantia de que o caráter antropocêntrico se mantenha em ordem. A mulher, quando desestimulada à geração de filhos e à importância da maternidade, pode explorar novos territórios e desencadear uma configuração social em outros moldes organizacionais:

Mas, ao se outorgar à mãe e à maternidade um lugar considerável, proporciona-se meios de controlar aquilo que, no imaginário da sociedade, corre o risco de desembocar uma perigosa irrupção do feminino, isto é, na força de uma sexualidade julgada tanto mais selvagem ou devastadora na medida em que não estaria mais colada à função materna. A mulher deve acima de tudo ser mãe, a fim de que o corpo social esteja em condições de resistir à tirania de um gozo feminino capaz, pensa-se, de eliminar a diferença dos sexos. (ROUDINESCO, 2003, p.38)

Outra visão de mulher presente na obra de Ferréz é a da mulher submissa. É interessante refletir, entretanto, que o “ser submissa” é uma adjetivação difícil de ser singularizada a um único tipo de mulher. Esta, na natureza social construída historicamente, é forçada e naturalizada à submissão pelo simples fato de ser mulher. Somos postas a uma subordinação que engloba aspectos políticos em seus diversos níveis (pessoal, sexual, profissional, ideológico, etc). O ser mulher se torna um estado diretamente ligado à opressão, em diversos níveis, dependendo das singularidades de cada uma. Portanto, volto a reiterar que a apresentação das personagens mulheres da obra Capão Pecado, ainda que seja feita de forma separada, é coexistente em suas características. A submissão é uma das questões inerentes às personagens, uma vez que a hierarquia de gêneronão oferece outra condição a elas.

Represento Paula como a personagem submissa devido aos abusos e silenciamentos que a personagem sofre ao longo da narrativa. Paula é mais uma mulher cuja sexualidade e corpo são os objetos alvos dos outros personagens masculinos da obra. Ainda que muitas vezes ela se apresente de forma ativa no que concerne os seus desejos pessoais, a concretização das vontades acaba sendo cedida de acordo com as aspirações masculinas:

Ela tentou erguer sua cabeça (de Rael), mas não conseguiu, ele lhe propôs um prazer indescritível, ela estava suando e pedia uma penetração rápida e desenfreada, mas ele se levantou e pôs a mão em seus ombros ordenando que ela se abaixasse. Ela não concordou de imediato, mas ele insistiu a forçando para baixo; (FERRÉZ, 2000, p.103)

É possível perceber no recorte acima que, além da submissão sexual, a personagem é coagida a condescender com os desejos de Rael. Os verbos “ordenar” e “insistir” leva o/a leitor/a a compreender que a personagem é vítima de um “estupro consentido”, ou seja, de ações sexuais que não gozam da aceitação de uma das partes, até que essa seja influenciada e levada a conceder.

Ademais, em outro momento, nos deparamos com mais uma cena de violação do corpo da mulher. Paula é objetificada de forma brutal, sem ter espaço de fala enquanto uma mulher sexualmente ativa. Ainda que a personagem venha a sentir o prazer ao fim do ato, a violência e invasão do seu corpo por parte de Rael enfatizam que houve, mais uma vez, o estupro:

Foi quando Rael viu que a amante estava gostando muito e que merecia um castigo, retirou seu pênis e colocou-o violentamente no ânus de Paula, que soltou um grito ainda maior que o primeiro, e tentou empurrar o parceiro para trás; mas ele se recusou e disse baixinho com os lábios encostados em sua nuca.
– Fica quieta, você merece isso, a dor é só agora. (FERRÉZ, 2000, p.144)

É interessante refletir também a respeito da posição de Rael em querer castigar Paula. A atitude do protagonista demonstra de forma prática e objetiva uma caracterização da sociedade patriarcal em que a classe das mulheres está a serviço dos homens. O indivíduo masculino é configurado como o agressor, resultado de uma cultura em que há dominantes e dominados/as e que rege uma ação disciplinadora: a mulher é a subalterna e cabe a ela ser corrigida e/ou disciplinada.

Além dessa subordinação sexual a que a Paula é posta, é possível perceber, ainda através dessa personagem, outro tema a respeito do modo como as mulheres são figuradas: produtos à disposição das necessidades e desejos masculinos.Em uma passagem da narrativa, deparamo-nos com um diálogo entre Matcherros (primeiro namorado de Paula) e Rael (segundo namorado de Paula) em que essa ideia de mercantilização do corpo feminino se torna bastante explícita:

-Sabe o que é,Rael, eu nuntô mais afim dela (Paula), tô com outra mina da hora e queria saber se ela gosta mesmo de mim, ou se aceitaria fácil eu largar ela assim, tá ligado?
-É cara, eu num sei não. Pelo que ela me fala, deve gostar muito de você.
-Droga, é foda mesmo… a mina tá engordando, não se cuida mais e eu tenho que ficar com ela, dá licença! (FERRÉZ, 2000, p.74)

A mulher é conceituada como um sujeito destinado à satisfação masculina. O corpo, a aparência, a atitude, etc. devem seguir o padrão de interesses e escolhas do homem. A mulher é uma mercadoria constantemente analisada e avaliada e, a partir dessa realidade, perde o controle e a noção de seus próprios desejos e instintos pessoais.  “Ninguém tem o direito de ser feia. A estética é uma ética”. (PERROT, 2013, p.50)

Por fim, destaco a presença de Fátima, personagem representada, em primeiro plano, através da sua promiscuidade[2].Tal personagem nos apresenta a possibilidade de reflexão de uma dupla caracterização: ora disposta e ativamente respeitosa para com as suas vontades próprias, ora amedrontada pela postura superior dos homens que a corrompem.

Primeiramente, Fátima se posta de forma a respeitar suas escolhas e desejos pessoais, diferentemente do que se torna comum, à nível social, em que muitas mulheres visam seguir índices comportamentais que as aproximem de uma identidade “delicada”, “inferior”, “fraca”, etc – características estimuladas e vendidas diariamente, através das mídias e outras ferramentas de forte influência. Fátima se mostra o oposto quando, através de suas ações, reafirma seu corpo de forma mais liberta.

Em um segundo momento, podemos ponderar até que ponto vai essa caracterização livre, uma vez que é apresentado um sentimento de “medo” e de subalternização da mulher que está servindo aos desejos e gozos masculinos:

– Mano! Cê precisa vê, catamos a Fátima ontem e levamos lá pro Doce Mel.
Rael não estava afim de ouvir aquela conversa, mas sabia que não tinha como fugir do amigo de trabalho e resolveu perguntar:
– Catamos? Com quantos ela foi ontem?
– Vixe, ladrão! Ela foi comigo, com o Pássaro e com o Amarelos.
– Nossa, que piranha , mano! E ela rendeu pra todo mundo assim na maior?
– Que nada, mano. Eu catei primeiro e ela deixou eu dar uma colocada, mas não deu nem chance de eu tentar gozar, tá ligado? Ela tem mó medo, eu até tentei chavecar, mas ela teve que batê uma pra mim, pra completar o serviço.
– E os outros manos, o Pássaro e o Amarelos, ficaram na seca?
– Que nada truta! Ela fez um boquete pros dois, e o Amarelos até gozou na cara da vadia. (FERRÉZ, 2000, p. 91-92)

É interessante reparar que a imagem de Fátima, até o presente momento da obra, é descrita a partir do olhar do outro. Não há a presença de diálogos e pensamentos advindos da personagem. Por conta disto, grande parte da percepção obtida de tal personagem se faz a partir de uma análise dos diálogos recorrentes entre os personagens masculinos. Os verbos e adjetivações utilizados são uma parcela de ferramentas de análise e reflexão para compreender, então, parte da essência de Fátima.

Percebemos, a partir do trecho citado, dois elementos passíveis de análise: a falsa simetria entre os gêneros quando a temática é o ato sexual e a utilização da mulher como artifício de “aquisição territorial” do homem.O espanto apresentado por Rael ao ser informado sobre os atos sexuais envolvendoFátima (com três parceiros diferentes) demonstra o que compreendo como a falsa simetria dos gêneros. Não existe no vernáculo brasileiro um vocábulo que funcione de forma antagônica ao termo “piranha” (adjetivação pejorativa lançada à personagem Fátima). Logo, entende-se que a liberdade sexual garantida – e incentivada – aos homens, não é uma realidade afirmada na vida das mulheres. Fátima é estigmatizada enquanto uma mulher que se rende facilmente ao sexo. Não é considerado que, talvez, a personagem goze das mesmas sensações que um homem, tendo os mesmos desejos e, portanto, sinta-se no mesmo direito de deleitar-se ao prazer.

Dentro de uma leitura crítica, fica bastante nítido que mesmo considerando uma possível caracterização de emancipação pessoal, Fátima ainda sofre com os mecanismos naturalizados de repressão patriarcal. Os personagens com quem teve relação sexual, como descrito no trecho, não permitirão que Fátima encerre a ação enquanto não houver a concretização dos entusiasmos corporais. Ou seja, a personagem feminina se mantém em uma posição servil frente os homens. Seu corpo permanece como uma ferramenta de deleite masculino, pouco importando a real satisfação da mulher.

Com relação à consideração da mulher como uma “aquisição territorial” do homem, desenvolvo uma argumentação que se dá, principalmente, pela maneira como o personagem (amigo de Rael) relata o ocorrido. Seria intolerável e impertinente para a identidade masculina dos personagens não concretizar o ato sexual com a personagem em questão. A partir da imagem pública construída a respeito deFátima com relação a sua sexualidade, ser homem e não ter relações com ela seria umsinal de perda da masculinidade, uma vez que “a honra do homem é lei e com base nela o crime contra a mulher é parte dessa tradição. ” (GOMES, 2014, p.384)

Vale salientar, ainda, que, mesmo não existindo comprovações literais sobre a etnia de Fátima, é possível que ponderemos sobre as diferenciações existentes nas formas como lidamos com a sexualidade das mulheres. Não há a possibilidade de compreensão de forma simétrica a maneira distinta que as mulheres brancas e negras são simbolizadas, tanto na ficção quanto na vida real. É importante analisar que, se considerada uma mulher negra, Fátima, além da dupla opressão que sofre por ser mulher e moradora de periferia, passa a sofrer um terceiro estigma: ser negra[3]. Pensando a respeito do modo como a mulher negra é apresentada à sociedade com relação a sua sexualidade, pode-se notar que há um abismo de diferenciações significativas se comparada com as representações feitas das mulheres brancas.

Desde a colonização o povo depara-se com o processo de miscigenação social. Os europeus ancorados em nosso território utilizaram-se das mulheres indígenas e africanas para satisfazerem seus desejos carnais. Estas mulheres, desde então, passaram a ser vistas como meras agentes do júbilo sexual masculino. Por outro lado, as mulheres brancas (europeias), eram mantidas com o arquétipo religioso: submissas, passivas, treinadas para o casamento e para a aceitação das ordens dadas pelos seus maridos.

O tema principal das relações de gênero durante a colonização é a miscigenação. A grande maioria dos colonizadores portugueses que se estabeleceram no Brasil foi de homens que tomaram a terra e as mulheres pela força. Eles mantiveram relações sexuais, primeiro com mulheres indígenas e, depois, com escravas africanas, produzindo uma elevada miscigenação. (DESOUZA, BALDWIN, ROSA, 2000, p.486)

A mulher negra, portanto, passou a ser referenciada como um mero objeto sexual e mercantilizada de maneira ainda mais violenta do que a mulher branca. Há uma hipersexualização da “carne negra” e o mercado – mídias e discursos, em geral – legitima essa ordem e condena a classe das mulheres (negras) a se manterem numa posição subordinada à disposição social “ideal”-vigente: heteronormativa, branca e de classe média (alta).

Conclusão

 Fica perceptível, ao longo da obra de Ferréz, que o autor utiliza eficientes dispositivos discursivos para apresentar um dos objetivos em dar voz a personagens moradores/as do bairro Capão Redondo (Capão Pecado, como apresentado na obra). Relatar e condenar os mecanismos violentos instituídos pelo Estado nas periferias do Brasil, além de proporcionar um entendimento da realidade vivenciada pelas pessoas que existem nesses territórios, é uma maneira de reparar o silenciamento – real e simbólico – a que as classes subalternas foram antepostas.

Não obstante, é difícil não constatar que, se tratando da representação das mulheres, Ferrézfaz, nada mais, nada menos, que mantê-las silenciadas e secundarizadas na obra. O autor, ao construir a gama de personagens presentes no romance, valida a noção comum de que as mulheres possuem identidades pré-estabelecidas. Ferréz corrobora com a perspectiva de que a classe mulher é – e se mantem – inferior e à sombra da presença da classe de homens e, logo, valida as violências ocorrentes cotidianamente.

Por conta disso, ao se construir essa identificação rasa com relação às mulheres, essa classe “minoritária” e já marginalizada no próprio centro passa a ser silenciada dentro da periferia, desencadeando uma opressão ainda mais profunda que a sofrida nos centros. A respeito distoSpivak (2010) constata que “Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade” (p.15).

Pensando as questões da literatura brasileira no que concerne à presença e à voz das personagens mulheres, é importante reafirmar que não basta haver espaços cedidos para as representações unas que nos figuram como mulheres. É necessário que haja um deslocamento da ideia singular e pública construída sobre o “ser mulher” para uma noção mais abrangente da diversidade de identidades e especificidades que cada classe de mulheres possui. Torna-se incoerente, por assim dizer, buscar o rompimento com uma linha social historicamente excludente, inviabilizando a reflexão sobre os espaços e construções feitas pelas mulheres, além de reconhecer a fala e pluralidade de personalidades que compõem nossos corpos e vidas.

O fundamental é perceber que não se trata apenas da possibilidade de falar – que é contemplada pelo preceito da liberdade de expressão, incorporado no ordenamento legal de todos os países ocidentais -, mas da possibilidade de “falar com autoridade”, isto é, o reconhecimento social de que o discurso tem valor e, portanto, merece ser ouvido. (DALCASTAGNÈ, 2010, p. 43)

Por fim, fica elucidado que o poder corrompe, não importando de onde ele venha. Não há meios de atingirmos uma reformulação do universo social se mantivermos como base, em pequenos ou grandes grupos, uma noção vertical dos poderes. Reescrever as histórias utilizando-se das mesmas ferramentas dos despóticos do agora, culminará em novas caricaturas e divisões entre opressores/as e oprimidos/as.

Referências

BAUMAN,Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

DALCASTAGNÈ, Regina. Representações restritas: a mulher no romance brasileiro contemporâneo. In: DALCASTAGNÈ, Regina, LEAL Virgínia Maria

Vasconcelos (Org.). Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea. São Paulo: Editora Horizonte, 2010.

ÉSQUILO. Oréstia; tradução Mário da Gama Kury. – Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

FERRÉZ: Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.

GOMES, Carlos Magno. A violência contra a mulher na literatura brasileira. In: ABREU, Laile Ribeiro de, BARROCA, Iara Christina Silva, DUARTE, Constância Lima, MAIA, Claudia, PERES, Maria de Fátima Moreira. Arquivos Femininos: Literatura, valores, sentidos. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2014.

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005.

______. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013.

ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

SPIVAK, GayatriChakravorty. Pode o subalterno falar?. Belo Horizonte: editoraUFMG, 2010.

DESOUZA, Eros, BALDWIN, John R., ROSA, Francisco Heitor da.A construção social dos papéis sexuais femininos. Psicol. Reflex. Crit.[online]. 2000, vol.13, n.3, pp. 485-496. ISSN 1678-7153.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000300016.

TENNINA, Lucia. A voz e a letra da mulher na literatura marginal periférica: figurações e reconfigurações do eu. In: DALCASTAGNÈ, Regina, LEAL, Virgínia (org.). Espaço e gênero na Literatura Brasileira Contemporânea. Porto Alegre: Zoula, 2015.

Data de envio: 25 de outubro de 2015.

 

[1]Utilizo-me do termo “marginal” respeitando o modo como o próprio escritor Ferréz designou a nova produção que é feita contemporaneamente no Brasil “à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, do grande poder aquisitivo.” (“Terrorismo literário”, in Literatura marginal: talentos da escrita periférica, 2005, p.12). O termo “de periferia” acompanha a denominação utilizada para diferenciar o conjunto de textos “marginais” da atualidade da assim chamada “literatura marginal” da década de 70, “a geração mimeógrafo”, na qual o estatuto marginal se dava predominantemente pela via da editoração, e não pela via do pertencimento de seus autores às margens das grandes cidades brasileiras. A designação “literatura marginal de periferia” vem sendo utilizada por parte significativa da crítica que se dedica ao estudo dessas manifestações literárias.

[2]A fim de manter o caráter e caracterização apresentado na obra, através dos personagens masculinos, não utilizo aspas nem outro mecanismo de destaque para o vocábulo.

[3]Refiro-me aqui à personagem Fátima, mas tal análise pode servir como referência para todas as personagens mulheres presentes na obra em questão.