O índio como aliado circunstancial em A retirada da Laguna

Jildonei Lazzaretti

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 25, 2016. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Jildonei Lazzaretti
jildoneilazzaretti@hotmail.com
http://lattes.cnpq.br/8405287734772244
Universidade do Estado de Mato Grosso
Campus Universitário Jane Vanini
Faculdade de Educação e Linguagem
Departamento de Letras
Cáceres – Mato Grosso, Brasil

RESUMO: Este artigo pretende analisar a imagem do indígena presente em A Retirada da Laguna, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, demonstrando que nessa obra o índio é apresentado como um “aliado circunstancial” do exército brasileiro. Tal aliança é circunstancial no que se refere ao contexto bélico, tendo em vista a sobrevivência em campo de batalha; mas também em relação ao contexto ideológico da época, visto que esse estereótipo do índio como o “bárbaro” que se torna aliado do “civilizado” proporcionaria um novo paradigma aos ideais nacionalistas, que passavam por um processo de transição. Essa abordagem utilizar-se-á de diferentes visões da crítica literária: tanto os críticos vinculados à perspectiva social, como Alfredo Bosi e Antônio Candido, como também aqueles que desenvolvem uma crítica historiográfica, como José Veríssimo e Wilson Martins. Também serão analisados os pressupostos filosóficos que permeiam essa imagem do índio, a partir das concepções de ser humano, e de suas relações sociais, desenvolvidas por Jean-Jacques Rousseau e Thomas Hobbes. Deste modo, pretende-se demonstrar que tal retrato do índio não resulta da simples descrição dos acontecimentos históricos da guerra, mas consiste em uma hábil reinvenção desses fatos, constituindo uma “alegoria” da nação brasileira e da formação de sua identidade.

PALAVRAS-CHAVE: Narrativa de viagem; Índio; Romantismo brasileiro; Visconde de Taunay. 

ABSTRACT: This article analyzes the image of the Indian in A Retirada da Laguna, by Alfredo d’Escragnolle Taunay, demonstrating that in this work the Indian is presented as a “circumstantial ally” of the Brazilian army. Such an alliance is circumstantial with respect to the military context, in order to survive in the battlefield; but also in relation to the ideological context of the time, since this stereotype of the Indian as the “barbarian” who becomes an ally of the “civilized” provide a new paradigm to nationalist ideals which had gone through a transition process. This approach will be used for different views of literary criticism: both critics linked to the social perspective, as Alfredo Bosi and Antonio Candido, as well as those who develop a critical historiography, as Jose Verissimo and Wilson Martins. It this  work also will consider the philosophical assumptions that underlie this image of the Indian, from the conceptions of the human being, and their social relations, developed by Jean-Jacques Rousseau and Thomas Hobbes. Thus, we intend to show that this picture of the Indian does not result from simple description of the historical events of the war, but consists of a clever reinvention of these facts, forming an “allegory” of the Brazilian nation and the formation of their identity.

KEYWORDS: Travel narrative; Indian; Brazilian romanticism; Visconde de Taunay.

 

A relação conflituosa entre os povos indígenas e os colonizadores europeus é um fato conhecido historicamente em toda América Latina. Tal relação estendeu-se aos descendentes desses povos de tal maneira que, ao longo da história, constituiu-se uma profunda segregação étnico-racial.

No entanto, essa situação conflituosa nem sempre foi apresentada de forma absoluta e imutável. Na literatura, por exemplo, ao desenvolver-se a constituição imagética de “nação brasileira”, a relação entre os indígenas e os descendentes de europeus foi sendo exposta de maneira distinta, omitindo estrategicamente a condição conflituosa e demonstrando a possibilidade de ambos conviverem juntos, em determinados momentos até mesmo como aliados.

Um exemplo de visão diferenciada dessa relação pode ser encontrado na obra A Retirada da Laguna, de Alfredo d’Escragnolle Taunay. Ao longo desse relato sobre a Guerra do Paraguai, escrito por um franco-brasileiro, pode-se constatar uma constituição imagética do índio enquanto aliado. Porém, tal aliança entre o exército brasileiro (com suas origens europeias) e as tribos indígenas (Guaicuru e Terena) é circunstancial e estratégica. Circunstancial porque se refere a um período determinado e provisório, o contexto bélico. E estratégica porque tal união visa tanto à sobrevivência de ambos na guerra, como sustenta ideologicamente a ideia de nação, em torno da qual se constitui uma suposta identidade cultural, por meio da qual as diferenças são postas de lado.

Para compreender essa concepção de “aliados circunstanciais”, é possível recorrer à clássica e antiga obra de estratégia militar de Sun Tzu, intitulada A arte da guerra. No capítulo XI dessa obra, o autor cita um acontecimento histórico no qual povos inimigos ajudaram-se mutuamente, pois estavam em uma circunstância extrema de luta pela sobrevivência:

Alguns soldados do reino de Wu faziam a travessia de um rio ao mesmo tempo que soldados do reino de Yue. Um vento impetuoso soprou e virou os barcos. Todos teriam perecido, se não tivessem se ajudado mutuamente. Eles esqueceram que eram inimigos; ao contrário, agiram como se fossem amigos ternos e sinceros. Eles se ajudaram, como a mão direita coopera com a esquerda (TZU, 2006, p. 67).

Essa descrição de Sun Tzu pode ser relacionada com a circunstância vivenciada pelo exército brasileiro na Guerra do Paraguai, que estabeleceu uma “aliança” com os povos indígenas, a fim de que ambos sobrevivessem ao conflito contra os paraguaios, bem como aos perigos dos campos de batalha e às ameaças da natureza desconhecida do interior do território brasileiro.

Nesse sentido, partindo da obra A retirada da Laguna, enquanto corpus literário, pode-se observar que o índio é apresentado como aliado circunstancial, sob duas perspectivas: in litera (no texto em si) e ex litera (para além do texto, isto é, no contexto no qual ele é constituído). Em outras palavras, o índio descrito por Taunay é um aliado tanto na circunstância bélica narrada na obra (in litera), como na circunstância ideológica em que a obra foi escrita (ex litera).

Perspectiva textual (in litera): circunstância bélica

Em relação àquilo que é narrado no texto, surge um inevitável questionamento: quais seriam as motivações que fomentaram uma “aliança militar” entre o civilizado e o selvagem? Inicialmente, a obra de Taunay apresenta o índio como um conhecedor das terras e, portanto, um hábil guia para os soldados brasileiros. Tal reconhecimento das habilidades indígenas é feito justamente por José Francisco Lopes, que era admirado como o grande guia da expedição brasileira. Assim, Lopes iguala seu conhecimento das terras ao dos índios da tribo cadiueu (descendentes dos povos guaicuru): “‘Desafio os engenheiros com suas agulhas (bússolas) e seus mapas’, exclamava. ‘Nos campos de Pedra de Cal e Margarida, sou eu o rei. Só eu e os índios cadiueus conhecemos aquilo tudo’.” (TAUNAY, 1997, p. 56).

Nesse sentido, além de possuir o conhecimento e o contato com a natureza, os índios normalmente não se admiram com suas surpresas, nem mesmo com sua beleza. Ao contrário, o indígena é apresentado como um ser primitivo e rude: “O sentimento de admiração parece ser privilégio dos povos civilizados; o homem primitivo raras vezes o manifesta, ao menos exteriormente.” (TAUNAY, 1997, p. 48).

Com essas características já se percebe uma prévia constituição da imagem dos povos indígenas. E são esses povos que, conforme Taunay, “apresentaram-se” ao exército brasileiro durante a Guerra do Paraguai:

O 17º batalhão recebeu então ordem para marchar além do ponto onde já se encontrava o 21º batalhão e fazer um reconhecimento sob o comando do guia Francisco Lopes. Um grupo de índios terenas e guaicurus que se apresentara ao comandante havia algum tempo acompanhou o batalhão (TAUNAY, 1997, p. 69).

Essa “apresentação” dos índios terena e guaicuru como se fossem soldados ou recrutas brasileiros fomenta a ideia de “nação” e de “unidade nacional”, que permeiam a obra de Taunay. Mas, além disso, essa “aliança” dos índios com o exército brasileiro indica o posicionamento desses povos com relação aos paraguaios, conforme o próprio Visconde de Taunay destaca em suas Memórias:

Quando ecoou o primeiro tiro do invasor naquela vasta zona, cada tribo manifestou tendências particulares. Nenhuma delas, porém, congraçou com o inimigo. O castelhano era por todas considerado, de séculos passados, credor de ódio figadal e irreconciliável (TAUNAY, 1948, p. 190).

Assim, para resistir aos paraguaios e sobreviver diante dos perigos de territórios desconhecidos, o exército do Império do Brasil e os índios das tribos terena e guaicuru tornam-se aliados circunstanciais. Em vários momentos A Retirada da Laguna apresenta a atuação militar dos povos indígenas, combatendo os inimigos paraguaios e as estruturas de guerra dos mesmos: “Nossos índios guaicurus já haviam visitado o lugar […]. Desta vez, nossos aliados indígenas queimaram com prazer o mastro e a cabana.” (TAUNAY, 1997, p. 81-82).

Eles auxiliavam até mesmo nos saques contra os paraguaios, de modo que sua indolência converteu-se em ardor pelos objetivos dessa aliança militar:

Os auxiliares guaicurus e terenas não foram os últimos a se apresentar para o saque: na luta, ao contrário, haviam demonstrado pouco entusiasmo, a tal ponto que, em nossa corrida, gritamos ao ultrapassá-los: “Avante, bravos camaradas!”. Agora sua indolência fora substituída por um ardor sem limites pela pilhagem. Tinham se espalhado até nas roças de mandioca e cana, trazendo de lá, sem demora, cargas sob as quais vergavam, mas sem retardar o passo (TAUNAY, 1997, p. 94).

A adesão indígena se deu de tal forma que eles passaram a constituir parte do cenário da guerra, como heroicos auxiliares do exército brasileiro, servindo tanto como guerreiros como quanto mão-de-obra num contexto em que muitos soldados estavam enfraquecidos e adoentados:

[…] víamos lá embaixo nossos soldados correndo na planície para o local do combate, e, mais além, os índios terenas e guaicurus que, tendo-se comportado como bravos auxiliares na luta, carregavam agora nos ombros os despojos dos cavalos que haviam conseguido tomar aos paraguaios (TAUNAY, 1997, p. 116).

O envolvimento indígena na guerra ocorreu de tal forma que gradualmente eles foram mudando. De meros recrutas utilizados para pilhagem, eles se tornaram perversos guerreiros, agindo de forma atroz e sanguinária, como, por exemplo, ao mutilar os cadáveres dos inimigos: “Os cadáveres paraguaios […] foram encontrados, todos eles, horrivelmente mutilados. O coronel censurou com violência os índios que haviam cometido esta profanação […]” (TAUNAY, 1997, p. 125).

Após essa advertência superior, os índios demonstraram-se temerosos e obedientes, de modo que em oportunidades posteriores de carnificina eles se contiveram: “os índios ainda estavam sob efeito das ameaças do coronel a propósito das mutilações que haviam provocado em cadáveres: abstiveram-se de tocar em qualquer forma humana, animada ou inanimada.” (TAUNAY, 1997, p. 145).

Além da obediência, os índios passaram a auxiliar no respeito pela dignidade dos corpos, abrindo covas para sepultar os mortos, principalmente os do exército do Império do Brasil: “os cadáveres dos brasileiros foram todos enterrados em covas abertas pelos índios” (TAUNAY, 1997, p. 150).

A Retirada da Laguna também apresenta o pavor dos povos indígenas após a confluência de tantos fatores negativos: a carnificina da guerra, as mortes por cólera, os perigos da mata, a fome, etc. No entanto, mesmo com o pavor de tais ameaças, ainda era conveniente para os índios permanecer junto ao exército brasileiro do Brasil, para não ser morto cruelmente pelo inimigo:

Neste dia a cólera fez nove vítimas; registraram-se vinte novos casos. Francisco das Chagas, chefe dos terrenas, chegou moribundo numa rede, carregado por seus homens. Estavam estes desgraçados selvagens completamente aterrorizados, mas já não podiam separar-se da coluna, pois toda a planície fora ocupada por um inimigo que, se os capturasse, sem dúvida os mataria com os mais horríveis suplícios (TAUNAY, 1997, p. 191).

Além de todas as ameaças existentes durante a guerra, surgiu ainda a deserção, que, além dos soldados, atingiu também aos índios. Nesse contexto, a mata virou o refúgio dos desertores: “A partir desse dia, não houve capão ou matagal que não abrigasse um fugitivo. Os índios guaicurus nos deixaram: não os reteve nem a sorte que os aguardava, caso fossem apanhados pelos paraguaios” (TAUNAY, 1997, p. 198). Assim, encerrou-se a aliança circunstancial entre os povos indígenas e o exército do Império do Brasil.

Diante dessa composição imagética dos povos indígenas em A Retirada da Laguna, percebe-se uma relação estratégica, conveniente e circunstancial entre aliados. Nesse sentido, o índio constitui-se como aliado para os brasileiros, pelos potenciais benefícios que pode oferecer como guia nas terras de Mato Grosso e como mão-de-obra num contexto militar. E o brasileiro (mesmo sendo descendente de europeu) é para o índio um aliado enquanto “mal menor”, que pode auxiliar na proteção e na sobrevivência contra um “mal maior”, os perversos invasores paraguaios.

No entanto, é necessário também considerar os fatos narrados no texto a partir de elementos contextuais, que demonstram novamente o índio como aliado. Porém, não apenas como aliado de guerra, mas um aliado numa circunstância ideológica de constituição de uma identidade nacional.

Perspectiva contextual (ex litera): circunstância ideológica

Conforme já mencionado na análise anterior, quando os índios terena e guaicuru apresentam-se como se fossem recrutas que desejam juntar-se ao exército brasileiro (Cf. TAUNAY, 1997, p. 69), percebe-se a superação das diferenças e o estabelecimento de uma espécie de “contrato social” em torno de uma causa comum, que produz as ideias de “comunidade”, de “nação” e de “unidade nacional”, que permeiam a obra de Taunay.

No entanto, esse elemento textual, do modo como se apresenta, é condicionado por determinado contexto histórico, cultural e literário, que deve ser considerado como elemento constituinte da circunstância ideológica em que se desenvolveu a obra.

Olhando para a crítica literária acerca de Taunay, observam-se posicionamentos muito distintos. Nesse sentido, tem-se, por exemplo, o paradoxo entre a abordagem de Alfredo Bosi e a de Wilson Martins. O primeiro destaca apenas Inocência como a única obra válida de Taunay, em termos de realização literária (Cf. BOSI, 1994, p. 145). Já o segundo chega a relacionar A Retirada da Laguna com a tragédia grega, a priori, “por se inspirar num malogro previsível”, e posteriormente, por considerar que seus heróis, “nem completamente inocentes, nem completamente culpados, estão por antecipação condenados ao aniquilamento, em consequência de qualquer obscura vingança divina.” (MARTINS, 1977, p. 352).

Além disso, a crítica também difere nas tentativas de associação de Taunay a determinadas correntes literárias, oscilando entre o romantismo e o realismo. Em História concisa da literatura brasileira, Alfredo Bosi considera o sucesso da obra de Taunay pelo emprego de um “realismo mitigado”, desvinculando-o da idealização romântica: “Há algo de diplomático, de mediador, na sua atitude em relação à matéria da própria obra. Taunay idealiza, mas parcialmente, porque seu interesse real é de ordem pictórica.” (BOSI, 1994, p. 145).  Wilson Martins, ao contrário, não pretende ignorar a presença de Taunay no romantismo, mas também considera sua vinculação ao realismo: “Romântico ele o foi, sem dúvida, pelo temperamento e até pelo estilo; mas a substância mesma de toda a sua obra é eminentemente realista.” (MARTINS, 1977, p. 405). E reitera sua dubiedade literária: “realista pela inspiração, mas romântico pelo estilo e pelos sentimentos” (MARTINS, 1977, p. 408). É nessa perspectiva que a crítica literária brasileira situa Visconde de Taunay entre os escritores brasileiros do período de transição do Romantismo para o Realismo.

Mesmo sob essa perspectiva de transição, a obra de Taunay possui características significativas do romantismo, como destaca Antônio Candido (2000): “a maneira de apreender a realidade e interpretar os atos e sentimentos – esta permanece no universo do Romantismo” (p. 282). Nesse sentido, sua obra concretiza uma das aspirações literárias fundamentais do Romantismo, “o nacionalismo estético” (CANDIDO, 2000, p. 277), e contribuiu significativamente “no programa de disseminação das ideias nacionalistas” (CASTRILLON-MENDES, 2013, p. 63).

Essa vinculação ao romantismo e aos seus ideais nacionalistas proporciona a circunstância ideológica a partir da qual se desenvolve, na obra de Taunay, a constituição da imagem do índio como “aliado”.

O nacionalismo e a temática indianista

Conforme já mencionado, apesar de Taunay ser situado na transição entre o estilo romântico e o realista, “sua concepção de mundo tem muito de romântico, tanto pelo idealismo sentimental como pela observação e análise, sendo que estas duas últimas aparecem como predominantes” (CASTRILLON-MENDES, 2013, p. 63).

No entanto, enquanto romântico ele se distancia dos modelos até então consagrados, e vai além daquilo que se tinha estabelecido como característica desse movimento literário. Ele dá continuidade a temáticas recorrentes, como o indianismo, porém sob um novo prisma.

Nesse sentido, além de destoar dos românticos consagrados, Taunay também assume um posicionamento crítico diante das pretensões desses autores. Tal postura fica evidente em seus comentários sobre José de Alencar, um dos maiores expoentes do romantismo brasileiro:

Possuía Alencar, não há contestar, enorme talento e grande força de trabalho; tinha pena dúctil e elegante; mas não conhecia absolutamente a natureza brasileira que tanto pretendia reproduzir nem dela estava imbuído.
Não lhe sentia a possança e verdade. Descrevia-a do fundo do seu gabinete, lembrando-se muito mais do que lera do que daquilo que vira com os próprios olhos.
Parecendo muito nacional obedecia mais do que ninguém à influência dos romances franceses. Nos seus índios deixou Alencar a trilha aberta por Fenimore Cooper para de perto seguir Chateaubriand e reeditar as pieguices de que se constituiu porta-voz este escritor, tornando-as toleráveis a poder da pompa e do brilhantismo da frase.
Tudo, porém, artificial e cansativo. Dos índios fez Alencar heróis de verdadeiras fábulas, oriundas dos Natchez, Atala e Réné, a falar com linguagem poética e figurada de exuberância e feição oriental (TAUNAY, 1948, p. 166).

Ao destacar que Alencar não conhecia empiricamente a natureza que pretendia representar e que tal representação conciliou estrategicamente pieguices ideológicas com pompa literária, Visconde de Taunay iniciou e desenvolveu uma reação ao indianismo consagrado e ao seu ideal nacionalista.

Se a sociedade urbana não lhe oferece um quadro positivo de nacionalidade, também a via indianista, conforme a sua própria descrição, não parece convencê-lo. Como argumenta Taunay, a convivência direta com os indígenas impedia-o de retratá-los de acordo com a idealização alcançada por José de Alencar. Além desse argumento, convém lembrar também que a guerra favoreceu uma transformação na visão do país, daí que o modelo alencariano parecesse ultrapassado a Taunay (NASCIMENTO, 2002, p. 125).

Assim, o contexto histórico da Guerra do Paraguai, evoca necessariamente uma nova perspectiva de nação, e consequentemente uma nova abordagem indianista. Afinal, como ainda poderia se sustentar o utópico modelo de nacionalismo de José de Alencar perante, e após, as atrocidades da guerra? Ou seja, os fatos históricos não proporcionavam mais um “ambiente ideológico” para tal concepção de nação.

Nessa linha de raciocínio, é pertinente mencionar a obra de Maria Lídia Lichtscheidl Maretti, O Visconde de Taunay e os fios da memória, em que a autora caracteriza os textos de Taunay como discursos de transição. No entanto, ela não se refere apenas a uma transição do romantismo para o realismo, “mas de uma certa imagem de nação criada pelo romantismo para outra fundada a partir da guerra contra o Paraguai, e que não deixa de ser romântica” (MARETTI, 2006, p. 78-79). E a autora explica seu objetivo:

[…] analisar os textos escritos pelo Visconde de Taunay, de modo a tentar caracterizá-los como um discurso de transição entre as imagens da nacionalidade já então criadas e em exploração pelo romantismo brasileiro – imagens que, de certo modo, foram questionadas e alteradas pelo fato histórico da guerra […] e aquelas que o conflito levou a criar, quase como uma Imposição histórica (MARETTI, 2006, p. 77).

Seguindo a ideia de uma mudança no modo de se pensar a nação e o nacionalismo, o historiador da literatura brasileira José Veríssimo inclui Taunay entre os “últimos românticos”, no sentido daqueles que sofreram influência dos “românticos de primeira hora”, mas que iniciaram uma reação a eles. Com base no texto de Machado de Assis, O instinto de nacionalidade (1873) (que pressupõe o desabrochar desse instinto desde o início da formação do povo brasileiro), Veríssimo questiona a “legitimidade do propósito nacionalista” entre os românticos: “A espontaneidade do fenômeno não prova, entretanto, que não assentasse em um errado conceito de nacionalismo na literatura” (VERÍSSIMO, 1954, p. 263). No entanto, ao falar das primeiras manifestações de reação ao romantismo, o historiador reabilita o sentimento nacionalista, qualificando-o de “legítimo e necessário”, opondo-se apenas ao “conceito abusivo de sua aplicação” pelos românticos (Cf. VERÍSSIMO, 1954, p. 264). Para Veríssimo, a mudança de perspectiva sobre esse sentimento é uma consequência do momento histórico:

Iniciava-se, porém, a reação contrária ao Romantismo, sob o seu aspecto de nacionalismo exclusivista. Após largos anos de paz, de tranquilidade interna, de remansosa vida pacata sob um regime liberal e bonachão, apenas abalada por mesquinhas brigas partidárias que não lograram perturbá-la, rebentou a guerra do Paraguai, que durante os últimos cinco anos do decênio de 60 devia alvoroçar o país. Pela primeira vez depois da Independência […] sentiu o povo brasileiro praticamente a responsabilidade que aos seus membros impõem estas coletividades chamadas nações. Ele, que então vivia segregado nas suas províncias, ignorando-se mutuamente, encontra-se agora fora das estreitas preocupações bairristas do campanário, num campo propício para estreitar a confraternidade de um povo, o campo de batalha. De província a província trocam-se ideias e sentimentos, prolongam-se após a guerra as relações de acampamento. Houve enfim uma vasta comunicação interprovincial do Norte para o Sul, um intercâmbio nacional de emoções, cujos efeitos se fariam sentir na mentalidade nacional (VERÍSSIMO, 1954, p. 263-264).

Fica evidente a ideia de que a guerra é responsável por um movimento de coesão e ressignificação, em que as noções de coletividade e mentalidade nacional passam a ter um sentido histórico, assemelhando-se ao conceito de nação de Benedict Anderson (1989, p. 14): “é uma comunidade política imaginada – e imaginada como implicitamente limitada e soberana”. O campo de batalha fornece empírica e paradoxalmente a constatação tanto das limitações quanto da soberania de um povo, que se imagina enquanto uma comum unidade política, ou seja, como uma nação. Portanto, o campo de batalha é a condição sine qua non para o desenvolvimento de um novo sentimento nacionalista. É a partir desse espaço bélico, que tal sentimento é disseminado para outros campos e espaços, determinando na literatura o surgimento de novas temáticas:

A mocidade das escolas, cujos catedráticos se faziam soldados e marchavam para a guerra, alvoroçou-se com o entusiasmo próprio da idade. Os que não deixavam o livro pela espada, bombardeavam o inimigo longínquo com estrofes inflamadas e discursos tonitruantes, excitando o férvido entusiasmo das massas. O amor, a morte, o desgosto da vida, os queixumes melancólicos, remanescentes do Romantismo, cederam lugar a novos motivos de inspiração (ANDERSON, 1989, p. 263-264).

José Veríssimo expôs de forma exemplar a compreensão desse período, com “a percepção de que o nacionalismo romântico – baseado sobretudo numa certa visão construída da natureza e do índio brasileiros, visão que imperou naqueles ‘largos anos de paz’ – teve o início de sua ruína a partir da guerra” (MARETTI, 2006, p. 81). Tem-se, então, modificações significativas na concepção de nação e nas ideias que lhe são próprias. Modificações essas que, devido à influência histórica, ocorreram de forma gradativa, extraindo o que depois da guerra passou a ser visto como excessivo no ideal nacionalista romântico.

[…] funda-se com a guerra um nacionalismo “responsável”, comungado por todos, a partir do campo de batalha, espaço em que o sentimento se desenvolve e a partir do qual se estabelece uma “vasta comunicação interprovincial”.  As tarefas de enfrentamento do inimigo se resumem a duas possibilidades essenciais: o livro ou a espada. E Taunay desempenhou as duas! (MARETTI, 2006, p. 81-82).

Deste modo, Taunay consta entre os românticos que se opuseram a uma visão construída da natureza e do índio brasileiros, e buscaram uma perspectiva histórica (que teve como acontecimento fundante a guerra contra o Paraguai), a partir da qual se desenvolveu uma nova representação dos recursos naturais e dos povos indígenas. Assim, partindo do contexto histórico e das circunstâncias ideológicas que dele emanaram, Taunay explora estrategicamente os mecanismos da descrição que proporcionam uma ideia de verossimilhança. No entanto, isso não significa que ele tenha relatado os acontecimentos factualmente, pois, mesmo com o embasamento histórico, sua narrativa não deixa de ser ficcional.

Esse caráter ficcional (constituído paradoxalmente por representações e omissões, posicionamentos e silenciamentos) pode ser percebido na abordagem do índio desenvolvida por Taunay em A Retirada da Laguna (que é o objeto deste estudo). É bastante intrigante como, ao longo da referida obra que trata da guerra contra o Paraguai, um país de formação essencialmente indígena, em nenhum momento a nação guarani é mencionada. Obviamente que Taunay escreve a partir da visão de alguém que fazia parte do exército brasileiro, sem ter como preocupação principal de seu relato os paraguaios. No entanto, tal omissão demonstra como é bastante questionável e pueril atribuir as características de historicidade e objetividade à obra e às imagens que nela são veiculadas, principalmente a imagem dos indígenas. Nesse sentido, é pertinente aplicar a esse contexto as palavras de Olga Maria Casrtillon-Mendes sobre a representação da índia guaná, tanto no conto Irecê a guaná como nas Memórias de Taunay: “Construiu-se uma história que se fez sobre o índio, mas em que ele não tem voz, perpetuando o discurso da dominação cultural, cujo único sentido é aquele dado pelo narrador da ficção e da memória” (CASTRILLON-MENDES, 2013, p. 166).

Portanto, mesmo que a imagem do índio veiculada por Taunay em A Retirada da Laguna esteja fundada em um novo nacionalismo, que se opõem aos românticos consagrados, e que busca sua significação no contexto histórico da guerra, é necessário observar como tal imagem também consiste em uma construção a partir de determinados pressupostos filosóficos e ideológicos.

O índio: “bom selvagem” ou “lobo”?

Até aqui já se falou do paradoxo entre o nacionalismo dos “românticos da primeira hora” e o dos “últimos românticos”, para usar a terminologia de José Veríssimo. Entre os primeiros e mais consagrados, destacou-se José de Alencar, com seu ideal indianista. Já entre os últimos, mencionou-se o posicionamento de Taunay, bem como a imagem que ele desenvolve dos índios, a partir do campo de batalha. Porém, é preciso destacar como se compõem filosoficamente o sentido dessa oposição.

Alencar apresentou o índio de forma idealizada, imbuído de virtudes heroicas, como a coragem e a nobreza de caráter, sendo assim o estereótipo da nação brasileira. Já Taunay apresenta o índio como o bárbaro que reconhece sua impotência perante a adversidade (a guerra) e que recorre ao branco (exército brasileiro e os sertanejos que o acompanhavam) para garantir sua sobrevivência e para servi-lo.

Estes dois posicionamentos distintos podem ser relacionados com o consagrado embate filosófico que se conjecturou entre Jean Jacques Rousseau e Thomas Hobbes, acerca da origem da natureza humana, da sociedade e do Estado.

Segundo Rousseau estabeleceu em sua obra O contrato social: princípios do direito político (1762), o ser humano é naturalmente íntegro, porém à medida que passa a conviver em sociedade, acaba se corrompendo. Daí deriva a expressão “bom selvagem” (difundida na literatura francesa a partir do século XVI, quando, após as grandes descobertas geográficas, começa a idealização dos povos primitivos e a apologia da vida “selvagem”). Tal expressão é comumente associada ao pensamento de Rousseau para designar a situação inicial da humanidade, em seu “estado de natureza”, enquanto ainda não foi corrompida pelos costumes da vida social.

Já Thomas Hobbes, em O Leviatã (1651), ao tratar da origem do Estado civil, destaca sua necessidade devido ao fato de que os homens naturalmente vivem em uma situação de guerra de todos contra todos: cada qual tende a se apropriar de tudo aquilo de que necessita para sua própria conservação e sobrevivência, nem que para isso tenha que colocar em risco a sobrevivência dos demais. É nesse contexto que Hobbes usa a frase de Plauto: “homo homini lúpus” (o homem é um lobo para o homem). E é justamente para sair desta situação de ameaça constante, que os homens resolvem estabelecer um acordo para viver em sociedade, privando suas liberdades individuais, mas garantindo a sobrevivência.

Assim, é evidente a associação que pode se estabelecer da visão do indígena na obra de Alencar com a concepção de natureza humana de Rousseau; bem como a aproximação entre a imagem do índio para Taunay e o pensamento de Hobbes acerca do ser humano. As atitudes atrozes que Taunay atribui aos índios em A Retirada da Laguna, já foram mencionadas anteriormente: “Os cadáveres paraguaios […] foram encontrados, todos eles, horrivelmente mutilados. O coronel censurou com violência os índios que haviam cometido esta profanação” (TAUNAY, 1997, p. 125). Mas é possível encontrá-las também em suas Memórias:

No cadáver do paraguaio exercitou-se, à farta, a selvática alegria dos índios. Cada qual à porfía vinha embeber, nas carnes pisadas pelo arrastamento [do corpo pelos cavalos], facões e espadas. E o corpo mutilado, espicaçado e já sem forma, foi por fim atirado aos urubus (TAUNAY, 1948, p. 193).

Nessa relação entre Taunay e Hobbes, é reiterada a imagem do índio enquanto ser primitivo e bárbaro, que precisa ser subjugado pelo civilizado. Tem-se aí uma constatação bastante sutil, mas significativa: assim como em Hobbes, os seres humanos “bárbaros” não suportam permanecer na “barbárie” e, a fim de sobreviver, estabelecem um acordo para viver em sociedade; também em Taunay o índio “bárbaro” teme a “barbárie” da guerra e, para sua sobrevivência, decide se unir ao exército brasileiro.

Considerações finais

Para ir além do fato em si, é pertinente relacionar essa constatação com o que Olga Maria Castrillon-Mendes afirma sobre Taunay (2013, p. 189): “o conjunto de sua obra é a tentativa de construir, sobre um mundo bárbaro, arruinado (ou prestes a ser) pela guerra, a verdadeira nação brasileira, apesar das perdas e mutilações étnicas e culturais”. Deste modo, na circunstância de barbárie da guerra, inclusive aquele que é apresentado como “bárbaro” se une ao “civilizado”, a fim de, a partir das ruínas (seja materiais ou culturais), reconstruir a nação brasileira.

Assim, Alfredo Taunay apresenta o índio como um “aliado circunstancial” do exército brasileiro. Aliado tanto na circunstância bélica do campo de batalha (com suas ameaças, conhecidas e desconhecidas), como na circunstância ideológica resultante da guerra (em que já havia caído por terra o ideal nacionalista romântico, e urgia a necessidade de uma nova perspectiva de nação). Tal imagem do índio como aliado não é apenas um retrato dos acontecimentos históricos do campo de batalha, mas uma “alegoria” da nação brasileira e da constituição de sua identidade. Visconde de Taunay “reinventa o acontecimento histórico pelo viés da arte literária e da ciência, colocando-o no centro das discussões políticas e culturais do período, imprimindo um novo olhar sobre os embates dialéticos do ser índio ou ser branco, brasileiro ou europeu […]” (TAUNAY, 2013, p. 187).

Referências

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