Colheita tardia

Lucas Denir Espindola

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 30, 2018. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Aos poucos o sol entre os prédios nesse céu alaranjado vai sumindo, e eu continuo aqui sozinho… Sozinho como nesses anos todos que se passaram desde que ele se foi sem ao menos me dizer adeus, sem ao menos dizer o porquê  ou para onde. Foram 40 anos que se passaram lentamente, doídos como facas que me atravessaram, como feridas jamais cicatrizadas no fundo do meu peito. Hoje cansei, cansei de me alimentar das lembranças de um futuro que nunca chegou, dos sonhos nunca realizados. Cansei de sorrir, de ler e escrever sobre os lixos que me chegam, cansei dos dias e cumprimentos vazios, das secas páginas da minha insuportável vida. Nesse final de tarde de outono, entrego-me à última fagulha de vida que me restou nesse corpo envelhecido pelo tempo, sirvo a última taça de vinho, visto a última roupa, escrevo as últimas linhas escritas pelos meus punhos, este é último por do sol sem Roberto. Nessas almofadas em que tanto chorei, nessa sala com que tanto sonhamos eu me entrego ao eterno, me entrego à última cerimônia de honra. Provavelmente irão repetir aquele velho discurso sobre os feitos vazios que realizei, sobre as palavras de magoas que escrevi durante todos esses anos, inventarão que amei e que fui muito feliz. Eu fui de fato muito feliz junto a ele, dividindo descoberta e anseios com ele, mas então um belo dia encontro todos meus sonhos sepultados em uma cova bem funda, apertada e úmida. Naquele tempo meu choro calado falava de como eu lhe amava, de como amava aquele seu olhar dengoso e seus lábios rosados, de seus desastres gastronômicos na cozinha lá de casa.

As noites de desejo, os lençóis duplos haviam chegados ao fim, em seus braços e abraços eu não voltaria a estar. Não queria olhar ele daquela forma fúnebre, ignorado como sempre pelos assassinos de nossos sonhos. Ele,como bom sagitariano,partiu sozinho, me deixando aqui solitário a clamar por minha cama de noivo. Filho de oxalá, maldito nem para se recordar que eu ficaria abandonado lutando com os homens e mulheres de negro que velaram nosso amor, rogo que partam com sua arrogância para o inferno. Nunca quiseram ouvir nossa bela história de amor, nunca nos quiseram além do Cérbero[1], mas agora o mundo há de saber da nossa eterna felicidade momentânea, do brilho dos seus olhos, das palavras reveladas, dos mistérios de nossas almas.

Acendo um cigarro, este que tem sido meu fiel companheiro nas angustiadas horas da minha vida e com quem compro prazeres do corpo. Acendo-o para finalizar o que começamos há 42 anos, para escrever o único registro. Escrevo sobre a primeira noite de outono de 1972 quando olhava as estrelas por entre as folhas, elas que sempre me trouxeram o infinito e uma sensação de invencível, que eu poderia fazer e ser o que eu quisesse, tendo infinito como limite. E de fato eu assim o era, estava no auge dos meus 15 anos, as linhas do destino me reservavam feitos e honrarias que qualquer escritor sangraria por ter. Enquanto meus amigos fumavam e bebiam eu pensava… Pensava em toda a sorte que me era reservada, em todos os mistérios escondidos entre os universos. Eis que ao meu lado alguém intrometido tira-me do silêncio de meus pensamentos, dizendo ‘oi’ enquanto sentava. Quando olhei, aborrecido para ver quem era, meus olhos encontraram um menino de cachos dourados, lábios carnudos, magricelo, era um anjinho de pouco mais de 16 anos, uma rosa a desabrochar. Incomodado com a invasão ao meu silêncio, respondo: — oi, quem és tu?— E uma voz doce, leve e serena me responde;— sou o que você quiser, mas me diga quem é você?

No momento só queria o silêncio, mas ele não faria. Ele não me deixaria em paz enquanto eu não o deixasse incomodado, logo pensei: devo mostrar minha real loucura ao louco que me atravessa os sentidos e o tempo? Respondo que sou um louco, um viajante a sonhar com as mágicas que poderia fazer com um punhado de areia  naquela água salgada que refletia o luar. Ele me diz que não há luar, a lua está escondida. De fato a lua se escondia na arrogância dos homens, como eu gostaria de me esconder daquele olhar cinza que me fitava. No tom seco e ríspido respondo:—Eles festejam. O que fazes aqui? — Ele, sedutoramente responde: — Estou o  olhar os olhos e o corpo mais incrível que já pude ver sob o brilho das estrelas. —Em toda minha ignorância o alerto que em breve o sol há de se mostrar, com ele as ilusões da noite hão de se ir, bem como o tempo irá passar e o corpo escondido nessa noite se tornará velho e enrugado como maracujá. — Não gosto de maracujá, mas gosto de você, gosto dos seus olhos futuristas e dos segredos que ele me esconde.

O menino estava de fato me conquistando, mas continuo me mostrando instável e falo: —Cala-te! Não ouves o que o mar está a te dizer? — Sim, ouço— E o que ele te diz? — Que devo tocar teus lábios e provar do doce que me negas. — Devo te alertar que aqui só existe o veneno. — Então que eu morra com veneno de seus lábios, mas não posso seguir me arrependendo de não ter morrido por você. — Morrerias pelo desconhecido? — Morreria por ter um segundo com você, por esse segundo que posso te desejar, que posso te fitar. — Se te beijar, tu me deixas? — Provavelmente continuarei a me apaixonar e sem você não partirei a lugar algum, mas isso não muda nada, pois jamais me beijarás.— De fato jamais o beijarei, mas poderei deixar-me beijar, se me prometeres paz. — Prometo-te felicidade, prometo-te minha vida. — Sua vida de pouco me vale. — Olhe para cima. Vês? — O que deveria ver além do firmamento.— Posso te dar todas elas, posso de mim fazer uma delas. — Posso ter todas sem você, eu as tinha até agora. — Tinhas todas lá, eu estou aqui. — Não és uma estrela, na verdade se assemelhas a um narniano[2].

Com olhar inocente, mas determinado ele me responde —Narniano? Não importa, de fato não sou uma delas, sou diferente, pois sou a sua estrela.— A minha estrela sou eu, nem seu nome sei. — Não precisas saber, me chame como quiser. — Te escondes, este é o motivo de aquendar[3] seu nome e demais informações. — Deixo-te me chamar como quiseres porque só viverei ao seu lado, meu nome ou de onde sou pouco importa, agora meu lugar é ao seu lado. — Sentas ao me lado, fazes juras de amor sem nunca ter me visto, pouca valia me tem palavras ao vento. — Meu nome é Roberto e um sobrenome ei de lhe dar. Te olho há muito tempo. — Já tenho um sobrenome, já tenho um deus para não venerar. Mas dizes que me olhas já há algum tempo, onde? Em sua imaginação? Me persegues? Assassino? Sequestrador? Manipulador? Amador! — Assassino da minha sanidade, entre os corredores pastel daquela escola te olho há muito tempo e em minha imaginação fiz e refiz situações impossíveis para te ver, manipulei amigos e inimigos para hoje poder contigo estar. — Amador. — Sou amador, mas fostes vós que seduzistes e sequestrastes meu coração. — Pois te devolvo teu coração e dou-te o meu.

Beijei-o como nunca havia beijado alguém, com a sede  de um leão e a inocência de uma lebre desavisada. Seus lábios eram leves, sua língua eloquente, suas mãos firmes que corriam o meu corpo com um cuidado sagrado. Perguntei-o:— Satisfeito?— Não, provei de uma droga desconhecida, provei do lábio de meu amado e de minha própria felicidade. — Não temes? — Temo machucar-te. — Pois não temas me machucar, deverias temer sua insanidade, zelar por sua integridade.— Não, não tenho medo de você. Você é o único caminho para minha plenitude. — Tirou  sua camisa rosada, uma pólo bem hetero[4] só para constar, aos poucos vejo sua pele branca, trêmula sendo cortada pelo vento, pergunto se ele está nervoso. — Há muito sonhei com isso. — Respondi: —Então se permita, sinta-me, deixa-se levar pelo desejo de uma noite. — Deixo-me levar pelo desejo de uma vida, por um sonho, por você. –

A minha frente um corpo que lutava para se definir, com poucos pelos. O deitei naquela areia fina, enquanto corria minhas mãos em seus cabelos claros, pelo seu peito, seu coração estava acelerado. — Calma! – Repeti — Nunca fiz com meninos – Nada muda, é só uma dança onde o parceiro mudou. Corri minha mão pela sua barriga lisa, sem dobras ou rugas. Ali não havia sinal de uma velhice prometida, premeditada, esperada.  Seu pau pulsava preso em sua calça jeans:—Posso? — Sempre pudeste – Ainda trêmulo me ele respondeu. Tirei o primeiro botão, puxei levemente seu zipper, como que cortando o véu da racionalidade, éramos dois loucos a nos perdermos, a nos perdermos naquele desejo, as estrelas já não me fascinavam como outrora. Aquele corpo era incrível, tão jovem e tão maduro. Ele fechou os olhos e disse: — Isso foi o que eu sempre quis! – Descobri cada centímetro daquele corpo com minha boca, ele tinha gosto de suor, gosto de virilidade, gosto de terra, gosto de prazer. Sua mão envolve com força meus cabelos, ele alimentou meu desejo, me puxou, me sagrou com seus lábios e em meus olhos depositou seus segredos. —Não me solte! – Sussurrou. Passei os dedos entre seus lábios, e minha viagem seguiu pelos seus pelos até que cheguei ao seu falo, símbolo de tamanha virilidade a fomentar, ao centro, ao incontestável do prazer. Tão blasé aquela cena, tão clássica, tão intensa. Devorei-o, envenenei-me, seus pelos recém cortados cerravam meu rosto e boca, naquele ritmo vicioso.

Éramos dois loucos, dois corpos, um desejo, uma loucura. Bruscamente o leão se mostrou, me virou bruscamente na área da praia, e correu seus lábios pela minha coluna, me arrepiei, não esperava por aquilo. Confesso, nunca pensei que o narniano fosse ser homem na primeira vez. Deleitei-me com cada gota de suor, de prazer que me foi dada. Era de meu total conhecimento que jamais teria a chance de provar de novo desse corpo intocável. Ele me atravessou como quem atravessa uma porca com sua faca,puxou meu cabelo, me curvei ao senhor do meu prazer. Nós dois, a areia e o suor a gemer a beira-mar em um ritmo incessante. Gemia como um cão bruto lambendo meu ouvido, era um sultão em seu harém e eu uma de suas mulheres, uma das que por ele se tornaria a mulher de todas as suas noites. É claro que com a chegada do sol aquela ilusão chegaria ao fim, e na manhã seguinte valor algum seria me dado. É com o uivo calado que ele goza, me goza, gozamos. Deitamos sobre a praia, minha cabeça acomodada em seu peito suado onde escutava seu coração e o disse: — Seu coração bate calmamente?— Desde que te vi ele nunca mais esteve assim, reconhece seu dono. — Você não precisa mais me conquistar,  já te dei o que queria. — Achas que tudo que te disse não passou de mentiras, inocente és. Minha vida entrelaçada a tua eu quero, ainda não sei como, mas quero! – O querer é tão fácil em uma noite, o difícil é o querer constante que o leva a conquistar.  – Pois tentarei nem que isso simbolize o final de tudo que conheço. Mal sabia ele que simbolizaria o final de suas amizades, círculo familiar, de sua fé. Passamos o resto da noite juntos, mesmo quanto em grupo onde só era possível trocar olhares, estávamos juntos em pensamentos com nossos corpos gozados.

O fogo da fogueira tão quente quanto aquele que agora arde dentro do meu corpo por aquele corpo que há pouco me tinha. Brilham em seus olhos cinzas as fagulhas soltas no ar, que flutuam como meu pensamento solto, quente e leve. As perguntas são muitas, quem é esse que me tira agora o sossego?  Quem me incomoda a mente que se tornou a estrela mais brilhante em um universo gigante? Quem é essa viúva negra que essa noite com sua gozada devorou meu ser? Escutei seus batimentos e sussurros ecoando entre meus pensamentos pelos longos dias que se sucederam, não desejava outro, não desejava outra coisa a não ser estar com ele, rever seus olhos, sentir seus lábios em minha pele ríspida, andar de mãos dadas, sair junto com ele. Os sonhos que com ele tenho, quero com ele vivê-los, quero que me devore a alma e o senso como naquela noite de outono.

Mas as aulas voltam e nem mais seu olhar recebo. Por hora, senti como se tudo não passasse de uma viagem, de um sonho jamais vivido, senti como se houvesse sentido essa ilusão enquanto olhava as estrelas do universo. Por que me ignoras quando sonho contigo todas as noites? Quando como Adriano sofro por ti meu Antínoo[5]? Por que me juravas amor e agora me rogas a solidão? Por que me roubaste a solidão? Dias e dias se passaram e nem um palavra pude ter, o som de sua voz não ouvia em outro que não em meus devaneios. Os dias se tornaram mais longos esperando por ele e as noites mais frias pensando nele, e naquelas belas palavras que me tiraram da amada inércia. O vento, o sol, a lua e as estrelas falam do meu amado. Mil planos fiz para com ele falar, mil planos desfiz com minha covardia, até que tive coragem de escrever, e em uma das aulas declamar minhas angústias. Contei-o do vento que me queima a pele, das noites de insônia, e como o horizonte não me fala de outro a não ser do meu futuro com ele.

“Por mais alto que eu fale parece que não me ouves, grito e me irrito e tu nada dizes, nada olhas, és vazio com as paredes cristianizadas desse lugar. A um último sopro  de vida em mim, o último sopro de mim. Planejei que minha morte fosse suficientemente traumática a ti que me levaste a ela. São sete pílulas com suas letras, devo terminar de me envenenar contigo nessa noite, a sós… Pensei em tudo, e uma carta escrevi, as linhas falam de você.”  E chego ao fim de minha leitura, jurando o fim de minha existência.

Mas como que por milagre, por uma força desconhecida, após a aula enquanto me arrumava para a velha amante encontrar, aflito e chorando me despedia daquele presídio escolar, até que alguém fecha a porta e seu cheiro pude sentir. Sua mão em meu ombro tocou, estava quente como a velha chama que agora me faltava, sua voz ecoou na sala vazia me perguntando:  — Estás louco? Me juras amor em meio a todos.— De nada te importa às palavras ditas, mas os pensamentos produzidos com ela. Não te preocupe que ligação alguma fiz ao teu nome. —E que história de se matar é essa? Chantagem a essa altura? Sem olhar, fingindo desprezo na felicidade contida respondo: Porque perguntas quando não te importa o destino de meus caminhos? —Tudo que a você está ligado me importa?— Assim não parece ser, já que três semanas me jurastes e hoje me ignoras.— Não ignoro a ti, mas a mim mesmo. —Ao virar falo com uma voz doce que nunca me foi. — Sinto sua falta.  Enquanto passava os dedos em minhas lágrimas ele me conta de seus temores e planos. — Continuas mentindo.  Falas que não te aceitam, mas ninguém é de fato aceito. — Prometo-te amor eterno, irrevogável se minha mão segurares e aguentares o que vir ao meu lado – Só pude responder: — Juro minha vida entrelaçada a tua, juro estar com você nas lágrimas de alegria e de dor, juro te fazer tão feliz, pois és minha felicidade.

Tudo de fato mudou ele honrou suas palavras e me fez homem, me assumiu ao vento. Enfrentamos todos, mas como previsto nada seria tão fácil e alegre. Expulso de casa ele foi, escorraçado como cão sarnento. Seus olhos perderam o brilho, mas ele lutou sem parar e me fez feliz. Fugimos daquele mundo que não nos aceitava, fizemos o nosso mundo a dois. A vida de fato foi difícil, mas nos amamos, ai como nos amamos. Recordo-me como se fosse hoje daquela despedida, ainda me recordo daquelas últimas palavras convencionais, daquele último beijo doce de até logo. Mas não demorou muito para a notícia correr até meus ouvidos, meu amor havia sido encontrado morto, espancado, sem os olhos, sem seu esplendor, com os membros quebrados… Eles me tiraram tudo, eles me tiraram a vida na flor da idade, os sonhos, as promessas, as lágrimas e me deram a dor.

Então fui, fui dizer adeus a você. Como sempre estávamos a sós em meio a muitos, desci do carro entrei em uma capela branca, então eu vi seu caixão magno, eu não podia acreditar que meu amor ali estava deitado, entregue à morte em sua cama de noivo. Entre olhares repressores cheguei mais perto, e mais perto até que pude ver que aquele era meu amor. Estava pálido,com feridas não cicatrizadas no rosto,coberto por crisântemos brancos e bregas, aquilo tudo era tão clichê quando ele foi tão surpreendente, tão corajoso.  Pouco adeus eu pude dar-lhe, alguém chegou ao meu lado, ao pé de meu ouvido e disse sussurrando — Você não é bem vindo aqui. — Nunca fomos bem vindos o que esperava eu, ganhar condolências? Nada havia mudado, a arrogância continuava pedindo tapete vermelho e nós continuávamos cedendo a vontade deles. Saí em silêncio, com meu choro calado e a mágoa guardada, mágoa esta que guardo até hoje. O vinho acabou, o cigarro também, chegou a hora de dizer adeus a essas traças que me cercam, ao gato preto que me faz companhia. Chegou a hora de me juntar ao meu doce amor. 1… 2…3…4…5…6…7 Agora é só esperar que ela venha me tomar, agora que todos sabem de tudo, de toda a angústia e dor que me moldaram nessa amargura que venho vivendo, agora finalizo minha vida, minha mais repleta infeliz história.

 

[1] Na mitologia grega, Cérbero (demônio do poço) era um monstruoso cão de múltiplas cabeças e pescoço que guardava a entrada do mundo inferior.

[2] Metáfora refere-se aos Homossexuais não assumimos.

[3] Terminologia do Bajubá(Vocábulo usado por alguns LGBT’s) referente a esconder.

[4] Denominação informal abreviada de heterossexuais masculinos.

[5] Membro do circulo próximo do Imperador Adriano, com quem mantinha relações sexuais. Antínoo morreu afogado no Rio Nilo aproximadamente séc. XI. Referenciado também na obra de Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar.